Num domingo em Paris, há muitos e muitos anos, vi um homem negro subir num caixote e fazer um discurso em frente ao Beaubourg, coisa comum. Ele contava que seu pai fora nascido e criado num país africano colonizado pela França. Contou que, na Segunda guerra, receberam visita de um general do exército convidando os adultos da família a lutarem “como irmãos” em defesa da França. E assim partiu seu pai para a morte na guerra.
Muitos anos depois, esse homem, morador de Paris havia mais de 30 anos, com filhos nascidos na França e família e carreira assentados por lá, estava sendo ameaçado de ter que voltar pra África, país que nunca fora seu, pra uma casa que nem tinha mais, pra um berço familiar esvaziado e mutilado pela guerra, por medidas políticas da direita que empunhava a bandeira da “França para os franceses”. Me falta cultura política e memória, mas nunca me esqueci do sentimento de revolta que cresceu em mim, através da dor do homem que gritava: “Quando foi pra lutarmos e morrermos na guerra, éramos franceses. Achei que a França fosse meu país, que fôssemos irmãos. Agora estou incomodando, minha família está ocupando espaço dos franceses e não sirvo mais pra nada. Querem me despejar como a um invasor”.
Jamais me esqueci dessa cena. A essa altura o racismo me doía na carne branca e privilegiada de Ipanema. Nasci com um senso de justiça muito grave, veio comigo. Amei as pretas que cuidaram de mim e da minha família, e percebi logo que nunca sentei ao lado de um negro na escola. Fui socialmente excluída da convivência com o mundo real, meu mundo era branco, de classe média ipanemense, com pretos subalternos. Quando criança, morando em Londres, senti o mesmo desconforto vendo as meninas indianas e paquistanesas da escola, as “quase-inglesas”, sendo discriminadas pelas “verdadeiras inglesas” louras, de olhos azuis. Mas, depois de ver certas coisas, se demos a sorte de crescer com senso e  tento, temos a obrigação de reeducar nosso olhar, desconstruir velhas crenças e dar um passo adiante. E de novo e de novo pra sempre. Muito novinha, amei e namorei um cara negro, e assisti de perto essa dor doer. Senti, na pele do meu amor, o que era não ser bem vindo, ser olhado de cima em baixo, ser rejeitado pela família branca da namorada. Éramos alvo de olhares na rua, nos lugares onde íamos. Aquilo doeu bem fundo em mim, fortaleceu o meu amor, me amadureceu.
Morando em Paris, no fim dos anos 80, encontrei uma cidade miscigenada, com negros em lugares sociais diferentes do que eu via no Rio. Motivada pelo calor do movimento SOS Racisme, carreguei por muitos anos o broche com a mãozinha do movimento Touche pas à mon pote, (mais ou menos “Não toque no meu broder”), como uma bandeirinha pessoal antiracista, meu distintivo. “Pote” era como chamavam os amigos africanos, especialmente aqueles do chamado Magreb, norte da África: Argélia, Marrocos, Tunísia, Líbia… Inesquecível o show na Praça da Bastilha, reunindo estrelas do mundo árabe, de países da África e nosso Gilberto Gil, que tem até canção sobre o movimento. De certa forma, norteei minha vida musical por esses acontecimentos e quis gritar do meu jeito contra o racismo, exaltando a cultura e a música negra.
Hoje, fim da Copa do mundo de 2018, as redes sociais estão cheias de comentários sobre a seleção francesa que venceu a Copa, com jogadores negros de origem não-francesa. Ou seriam franceses, lutando pelo direito de serem reconhecidos como franceses, como nosso amigo do caixote? Essa história toda veio à tona, misturando tudo. Me vi em Paris, com 21 anos, caminhando pelo Quartier Latin de camisa do Brasil, de pileque, depois de sermos defenestrados da Copa de 86, pela França. Lugar errado na hora errada. Me lembrei do meu amado Jardins de Luxembourg, onde escrevi um poema sobre as lindas crianças multicor de Paris, fenômeno novo pros meus olhos cariocas.
Espero que hoje estejamos vivendo um momento crítico, daqueles necessários e radicais, que anunciam uma guinada, uma volta no parafuso. I have a dream, que uma vitória como a de hoje, na Copa de 2018, conquistada para a França por jogadores negros, franceses, refugiados ou despatriados, sirva pra despertar o debate que vai amaciar os corações duros de um mundo que não quer mais se misturar.
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26/06/2018

Hoje faz 3 meses que parei com laticínios, glúten, álcool, açúcar, ovo e industrializados. E também com o antidepressivo, o analgésico, a cortisona e o antiinflamatório. Difícil? Dificílimo!
Mas há 3 meses eu não conseguia mais andar até a esquina. Vivi os últimos 3 anos, silenciosamente, suportando o insuportável. Dor constante, 24h/dia, por causa de uma lesão de quadril que foi piorando até quase me tirar a mobilidade e a alegria

 de existir. Achei que não tinha mais jeito, que ia ser daquele jeito dali em diante. A saída era colocação de prótese total de bacia.

Eu que amo sambar no pé, que fui bailarina, que amo dançar e ir à praia. Acostumei a ficar na sombra, envergonhada por achar que, sempre, tudo era minha culpa. Me autoflagelei em vão.
No momento em que decidi pedir ajuda, o universo me levou ao @kurotel_ e ao seu staff 

hiper competente e amoroso. Comecei a reaprender tudo com eles e voltei pra casa com o desafio da continuidade. Até este momento, estou honrando o compromisso, e estou cada vez melhor. Exercícios todo dia (ou quase), alimentação incrível e uma mudança que as pessoas reparam e falam: “caramba, sua energia mudou!”

Sim, energia, corpo, medidas, tudo mudou. E continua mudando pra melhor, todo dia.
Mas o mais importante de tudo, e o motivo pelo qual vim aqui contar essa intimidade, é que recuperei a esperança. Nada neste mundo é mais triste que o vazio estéril da desesperança.
Semana que vem faço 54 anos. Me sinto viva, inteira, saudável, dona da minha vida, pronta 

pra sambar no pé, mesmo meio capenga, por muitos anos, cheia de alegria e de esperança, novamente. Renasci. Ainda sinto alguma dor, nada é fácil, não existe mágica, mas tem momentos em que nem lembro do desespero em que vivi nos últimos anos. Qto mais me exercito, menos dor tenho, qto mais cuido da alimentação, melhor fico.

Se vc está ai, ferrado, triste, morrendo de dor, ouça um bom conselho: Seu estilo de vida pode mudar a seu favor. E sim, uma mudança na alimentação pode SALVAR A SUA VIDA! Não
 é impossível!
Tem um monte de gente neste mundo preparada pra te ajudar. Se vc não pedir ajuda, nem a sorte pode te ajudar! Peça ajuda! Boa sorte! Obrigadas mil.

 

Rua Montenegro, 276

08/06/2018

Elas moíam a carne na máquina manual, à manivela, que elas prendiam no canto do mármore da bancada da cozinha. Entravam grandes cubos de carne vermelha, toda limpa, sem nervos, e saía aquela massa uniforme, moldada pelos furos do moedor. Depois de catadas as fibras restantes, a carne voltava pra máquina, muitas vezes, com cebolas em cubos, que iam ficando quase líquidas quando moídas. E depois vinha a pimenta síria, a canela, o coentro em grão moído, o pimentão vermelho, a água gelada, o burgol* que não se deve deixar de molho pra não amolecer demais. E as mãos para misturar tudo. Para servir, a cebola em gomos, as folhas graúdas de hortelã e o azeite para bem regar o quibe cru.

A salada, fatuche, salpicada com o pão árabe torrado na medida pra desmanchar em contato com o suco de limão, o azeite, os tomates frescos, o cheiro verde e o pepino crocante. O segredo era cortar as pontas do pepino e esfregá-las no corte, para tirar o amargo, o leite ruim. A casca ficava, para fazer a digestão.

Couve-flor com taratô, kbebat, ataife, esfihas abertas e queijo com misky. Babahanush, houmus, azeite, azeite, azeite. Azeitonas pretas, carnudas, gordas. Coalhada seca, zahtar, pão papel em dias de festa, chancliche. E mais azeite.

As folhas de uva envolvendo arroz e carne moída com pimenta síria, a capa de filé no fundo da panela, um pouco de massa de tomate, tempo, paciência. Cheiro doce de família e canela, e o Arak do vovô, que enchia a sala com o anis volátil, prontamente turvo ao contato com a água, mágica para as crianças. Pistache, amendoim, terços de âmbar na mesa, bandejas enormes de latão dourado, café no bule árabe, que se deixava pousar antes de servir, sem coar. Tapetes, tapetes e mais tapetes. Unhas vermelhas, música e coisas douradas.

A mesa posta na sala de jantar para os adultos e na sala de almoço para as crianças, com toalhas de plástico.

No quintal de cimento, os tamancos de madeira, o tanque cantando, o varal cheio, as empregadas e o fumo de rolo no cachimbo na hora do descanso, no quarto ao fundo do quintal, em cima da escada torta e caiada. O pente de ferro para esticar os cabelos com henê, as imagens do sagrado coração de Jesus, a nossa senhora aparecida na micro-televisão com luz negra, a foto retocada, muito azul-turquesa, do longínquo casamento na Paraíba. Os uniformes xadrezinhos, o rádio sempre ligado, o pano na cabeça, ave-maria às seis da tarde, a missa de domingo.

No terraço, fiel testemunha da minha história, o piano que mora aqui comigo e me acompanha nesta saga saborosa, perfumada e cheia de amor que é a minha vida. Música, a única síntese possível.

Eu e vovô Jacob na casa da Rua Montenegro,

Feliz Natal!

24/12/2017

Amigo, aí vai uma pequena playlist de Christmas jazz, cantada por mim, para vc ouvir com a sua família e ter uma noite feliz! Tudo de bom pra vc!

Na minha vida sempre houve uma amendoeira. Foi com elas que aprendi a gira dos ciclos naturais de todas as coisas vivas, foi com elas que aprendi sobre o tempo. Na frente do apartamento onde cresci eram tantas, e tão grandes, que, se a gente esticasse o braço, dava pra tocar os galhos que quase entravam pela janela. Elas filtravam a luz e perfumavam a casa em dias de chuva. Os passarinhos cantavam o dia todo, os morcegos morcegavam pela madrugada, jogando amêndoas ruidosas nos capôs dos carros, e a gente acompanhava ninhos sendo construídos, ocupados e desocupados, ano após ano. Quando mudei de casa, as amendoeiras passaram a servir de anteparo para que eu pudesse tomar banho de porta aberta, misturada no verde mais carioca depois do mar, da mata atlântica e do gramado do Maracanã. Dizem que elas vieram lá das Índias. Gostaram tanto daqui que cresceram e se multiplicaram, e foram chamadas de amendoeiras-da-praia.

Aprendi as estações do ano assim: a amendoeira e eu, espelhadas. Ela por fora, eu por dentro. Ela vermelha, amarela e laranja, eu desapegando e desacelerando em meu outono pessoal. Ela pelada e eu calada, hibernando enquanto a primavera não vinha. Aí, ela explodia em brotos e as folhas tenras começavam a desenrolar, e lá vinham as vespas beber o mel da floração, e o cheiro enjoativo do pólen entrava em casa e a esperança brotava no meu coração, ensaiando a plenitude frondosa do verão. Eu, imperdoavelmente jovem, acreditava na promessa das cigarras que cantavam na minha janela, convocando para a felicidade obrigatória e urgente da estação-definição desta cidade: no verão, todos os sonhos se realizarão, os amores virão, as festas serão incríveis, o carnaval será o melhor de todos, a felicidade encantada florescerá no pôr do sol vermelho. Com tudo isso, nada mais importa além de um mergulho no espelho dourado, um mate gelado com limão, uma partida de frescobol.

O Rio cutuca a juventude perene que se esconde em algum canto de nós, como aquele broto de folha que espera sua hora de eclodir. O Rio quer a gente forever young, arrastando chinelos, com o biquini debaixo da roupa, pro caso de dar tempo de dar aquele mergulho rapidinho. Todos os dias, o Rio escancara a sua beleza indecente perguntando: “E você? Vai ficar aí parado, enquanto eu estou aqui, resplandecente, translumbrante sob o ouro do sol?” E a gente ouve e quer obedecer, com eternas saudades das longas férias escolares de verão, das cigarras cantando, dolentes, nas amendoeiras, do corpo moído de sol e de sal.

O Rio deste dezembro de 2017 arde em chamas de diferentes fogos, calores, revoltas, medos, agitos, encantos e fervos mil. O Rio de Janeiro está pegando fogo, sob o sol abrasador do verão implacável que se anuncia, e pelo sangue quente correndo nas veias de quem quer viver esta cidade mais e melhor. São tempos para reerguer a monumental maravilha caída, para devolver o Rio para quem nasceu ou escolheu viver aqui. Espelho de seu povo, a beleza do Rio mora na praia, nas encostas cobertas de florestas, nas águas fartas, no morro e no subúrbio. Belezas diversas, pra todos os gostos. Mas que ninguém se engane: a beleza desta cidade depende, mesmo, é da mistura.

Que cantem as cigarras! É verão na Cidade Maravilhosa!

 Esse sol, porque tinha de tanto brilhar / Anunciar no meu peito o amanhã pra depois sumir / E deixar tão mais negro meu céu, minha noite

salto triplo*

22/11/2017

*escrevi este texto inspirada no show de mesmo nome, que faço com Elisa Queirós e Cacala Carvalho, só com nossas composições.

 

TENHO ASAS, POSSO MUITO BEM VOAR

CRUZAR MIL CORDILHEIRAS E DEIXAR

UMA CORRENTE QUENTE ME LEVAR,

PLANAR SOBRE AS CIDADES, FLUTUAR

DAQUI DE CIMA APRECIO A VISTA E PULO

BRAÇOS ABERTOS PARA A IMENSIDÃO DE TUDO

 

TENHO TERRAS A CONQUISTAR,

SOU UMA AMAZONA CAVALGANDO EM PELO,

DONA DE UM DESERTO DISTANTE E PERIGOSO,

CHEIO DE OÁSIS PARA DESBRAVAR.

PROVOCO TERREMOTOS E ABRO FENDAS

É DO MEU EPICENTRO QUE A VIDA BROTA

 

TENHO SETE MARES A SINGRAR

MERGULHO EM APNÉIA,

PESCANDO PÉROLAS EM CORAIS ABISSAIS,

RAINHA DAS ÁGUAS, SENHORA DAS MARÉS,

SEREIA QUE ENCANTA MARUJOS DO AMOR,

DESÁGUO EM SETE QUEDAS, SALTOS TRIPLOS

E SOU IARA, A DONA DA CACHOEIRA

 

EU TENHO A CENTELHA DO FOGO E ESPALHO A BRASA

TROVEJO, RELAMPEIO E CORTO O CÉU COM MEU FACHO DE LUZ

EU SOU AQUELA QUE CONDENSA E CHOVE,

NASCI EXUBERANTE DO LÓTUS, DA LAMA DOS LODAÇAIS

FEITO UM SOL, RAIO, ME PONHO, RECOMPONHO

E CHEIA DE ALVOROÇO, ALVOREÇO E SOLO

 

AGRADEÇO PELA GRAÇA ALCANÇADA

DAQUI DE ONDE VEJO É TUDO PLENITUDE

TODO PODER E GLÓRIA ME PERTENCEM

CAIO DENTRO DO MUNDO

COM UM SONHO NA CABEÇA, UM SORRISO NA BOCA

E ESSA CORAGEM NA MÃO

 

fim de uma era

22/08/2017

Tristezinha ao saber da morte do Seu Mário, o dono da Mariuzzin… Foi um dos lugares que mais frequentei na vida, quando ainda era na Raul Pompéia. Lembro das noitadas inesquecíveis dos anos 90, ao som do melhor de todos, o DJ Zezinho, e dos longos papos com Seu Mario, encostada no balcão, tomando aquela caipirinha batizada.
Dona Edna, mulher dele, era toda impávido colosso, uma esfinge sentada na porta da casa, com aquele ar de quem saiu de um cabaré hiper-realista, maquiada demais, de peruca, perfume doce e bois de plumas. 


Sempre admirei a forma como se respeitavam, viviam de braços dados, se tratavam com delicadeza, carinho e deferência. Quando ela morreu, chorei por ele.
Agora, os dois são poeira de estrelas e podem passar a eternidade iluminando a noite lá do éter. Assim no céu como na terra. 

 


 

 

Achei esse post no meu velho blog e resolvi rever minhas preferencias, 11 anos depois.

Aqui a lista nova:

20.05.17

What to Wear: vestidos coloridos
What NOT to Wear: poliéster pra sempre
What to Shoe: conforto
What to Bag: não ligo pra bolsa e uso as mesmas há anos. esqueço até as que eu tenho
What to Denim: o que vestir bem
What to Makeup: iluminador, contorno, máscara, batom cor de boca
What to Accessory: pulseiras
What to Jewelry: cristais
What to Fragrance: Chanel Chance
What to Hair: cobre claro
What to Eat: sempre veggies
What to Drink: vinho
What to Bargain: old truths
What to e-Bay: kitchen gadgets
What to Tee: v necks
What to See: documentários
What to TV: documentários ainda mais
What to Listen: inéditas
What to Read: the signs

 

Aqui a velha.

6.11.06
What to Wear: jeans ou preto
What NOT to Wear: poliéster
What to Shoe: sapatos e mais sapatos e mais sapatos lindos!
What to Bag: bolsas que cabem muito
What to Denim: uot? marca?
What to Makeup: delineador, batom e rimel
What to Accessory: anéis irados, de prata ou ouro branco
What to Jewelry: ouro amarelo jamais
What to Fragrance: Clinique Happy
What to Hair: vermelho super intenso
What to Eat: veggies
What to Drink: chá oolong ou caipirinha de absolut pepper com abacaxi e limão e hortelã
What to Bargain: férias
What to e-Bay: discos
What to Tee: daspu
What to See: documentários
What to TV: documentários
What to Listen: bill evans
What to Read: the spiritual tourist

 

 

machismo

07/06/2017

O cara namorava uma gordinha, como eu, que ele julgava “mais largada” do que eu. Como trabalhássemos juntos, de vez em quando, pra desestabilizar a namorada, sugeria que tinha rolado “um lance” entre mim e ele. Lance que nunca rolou. A mulher passou anos achando que eu tinha sido a safada que ficou com o namorado dela, nas barbas dela. E nunca fiquei. Soube disso porque ela me contou.

Esse cara é uó, sempre dois degraus afundado na lama, sempre parece sujo, virado, doidão, desagradável. Nenhuma mulher do mundo merece um homem como ele. Como vive no meio de músicos, tradicionalmente a classe mais machista que conheci na vida, ninguém se importa de ele ser um escroto, é um queridão da galera. Um escroto.

Teve filho com uma, e largou pra lá. Teve outro filho. Que ele vai largar assim que a criança começar a chorar na cabeça dele. Paquerar por hábito é a lei desse tipo de homem. Sempre uma palavrinha safadinha, uma insinuaçãozinha, como se ele estivesse sempre pronto para um sexo selvagem e inesquecível que vc nunca experimentou na vida.

Outro dia entrei sozinha num bar. Lá estava ele, o seboso. Sentei em outra mesa. Ele virou pra falar comigo, sorrindo, como se eu talvez não tivesse visto que ele estava lá. Mas eu tinha visto. E não falei com ele porque ele é um escroto.

A verdade é que tinha falado com ele outras vezes, mas me dei conta do meu machismo, da minha própria falta de decência e de senso de coletividade e respeito por mim mesma e pelas outras mulheres, e decidi parar de ser legal com ele e com todos os outros desse tipinho. O machismo que a gente engole, sublima, justifica, multiplica e apoia é o mais nocivo, porque credencia o cara a continuar, com aval de mulher. To de olho em mim mesma, a cada minuto, tentando aprender a ser uma mulher melhor.

complete makeover

09/05/2017

Adoro maquiagem, desde sempre e, como já fiz de tudo um pouco, andei por aí maquiando amigas sem o talento pro negócio, e algumas mulheres da família, em ocasiões especiais.

Comprei uma maleta de ferramentas, enchi de maquiagem e acessórios e lá ia eu, quando tinha 20 e poucos anos, maquiando amigas em camarins e festas. Nos anos 80, comprei um delineador no brechó pq, estranhamente, não havia delineadores à venda no Rio e fazia olhos muito pretos, com o delineador bem puxado, olhos de Marylin. Logo depois, a moda voltou. Aos 17 anos, eu usava sombra preta, degradée, esfumada, muito kajal e levava o lápis preto na bolsa, para retoques e o brilho roll-on Lip Potion, sabor chocolate com menta, pra dar aquela finalizada no look 80’s.

Quando eu maquiava minha mãe, lá pelos seus 40 e tal,  percebi que, com o tempo, foi se tornando necessário puxar o olho pra esticar a pele da pálpebra, que não tinha o tônus dos meus 20 aninhos. Discreta, pra não chatear a minha mãe, nunca fiz qq comentário sobre o assunto e fui o mais cuidadosa possível com as marcas do tempo na sua linda pele e seu lindo rosto. Minha mãe é linda ainda hoje, aos 80, provavelmente pq nunca fez um botox ou uma plástica na vida.

Dia desses, me maquiando para um show, percebi que uma pálpebra está mais caidinha que a outra, e que preciso dar aquela puxadinha pra esticar a pele e a maquiagem ficar perfeita. E nem fica muito, pq a gravidade é uma realidade inexorável que me faz entender porque existe cirurgia plástica e porque tantas pessoas recorrem a ela. Não é fácil ver o rosto mudar de forma, a pele mudar de textura, de cor, de tudo. Não é fácil fazer a passagem para a maturidade, ainda mais quando a gente se sente tão jovem, com a vida inteira pela frente. Meus olhos não correspondem ao meu fogo interior.

Por fora sou uma jovem-coroa gordinha de Copacabana, com cabelos cor de fogo. Desglamurizada do meu nome, da minha profissão, da minha distinção. Apenas mais uma coroa ruiva, gordinha e simpática de vestidinho florido e sandalinha, passeando pela rua de Copacabana, com meus brincos, minhas pulseiras, mais uma. O anonimato é uma bênção. Que conforto simplesmente ser uma qualquer. E ver que o tempo deixa a pele cansada, mas revigora a alma.

Sonho meu

04/04/2017

Minha breve carreira de cantora que andava com o violão debaixo do braço me botou nos primeiros palcos da noite carioca, fosse cobrindo o intervalo do músico titular, ou esperando um convite pra canja. Eu tinha uns 16/17 anos. As bancas vendiam uma revistinha semanal, Vigu, que vinha com as letras, as cifras e os desenhos do bracinho do violão, pra ensinar as “posições” (que outros poetas chamam de “acordes”). Foi assim que eu aprendi a me virar, tocando violão – perdoem os violonistas -, sem ter a menor ideia do que estava realmente fazendo. Ia copiando, tocando e cantando. Queria estar ali, queria cantar. Cá estou.Foi assim que reuni o repertório que gostava, que incluía, obrigatoriamente, As rosas não falam, Andança, Sonho meu, Pétala, Azul da cor do mar, Sampa, Vira Virou, Amigo é pra essas coisas…

Quis o meu violão torto, e a minha voz obstinada, que eu deixasse as cordas dedilhadas pra quem sabia, e ficasse tocando só as cordas vocais. De lá pra cá, pisquei o olho e, quando percebi, 29 anos se passaram. Rios, mares, tsunamis, tempestades, trombas d’água, degelo das geleiras, tudo que é tipo de água passou debaixo dessa ponte. Passei por tudo, hora impávido colosso, hora achando que a ponte ia cair, umas vezes segurando na mão de alguém que me socorreu na hora H e outras sendo, eu mesma, meu bote salva vidas. Bebo da fonte dessa vida, fartamente.

Entre sonhos mortos e feridos, realizei alguns. Mas o mais incrível foi realizar o que não ousava  sonhar quando tocava violão na hora do recreio, no pátio do Bahiense da Gávea: Tenho estado em mil palcos, ao lado de mil mestres. Cantei Sonho meu, com a Dona Ivone; Andança, com o Danilo Caymmi no Réveillon do Farol da Barra; As rosas não falam, com a Beth Carvalho; Não deixe o samba morrer, com a Alcione; Verdade Chinesa, com o Emilio Santiago; Canta canta, minha gente, com o Martinho da Vila; Azul da Cor do mar, com Tim Maia; Olhos coloridos, com a Sandra de Sá; Flor de ir embora, com a Fatima Guedes…

Esta semana, o meu Arranco de Varsóvia vai fazer um show com o MPB4, em homenagem aos nossos 20 anos de carreira. De grupo vocal pra grupo vocal. Meu coração pulou e meus olhos molharam no primeiro “iá iê, iáiê onionan, onaiê” de Porto, música do Dori que embalou tantos momentos secretos da minha vida, na voz desses caras que ouvi tanto em disco e em shows. E quando juntamos nossas vozes às deles, tive aquela sensação de borboletas em bando, de fogos de artifício, de festa!

Não tenho dinheiro, não tenho casa, não tenho nada. Mas se cair dura amanhã, valeu cada golinho desse aguaceiro!

Enquanto isso, lá vou eu realizando sonhos e inventando outros, porque, né? Tamos aí pra isso mesmo.

onze horas

01/04/2017

queria uma planta que desse flor e aguentasse a quantidade de sol que bate aqui em casa. Muuuuito sol. Minha mãe me deu um vaso de Onze horas, que amou o parapeito da janela e, nesse verão tórrido que passou, deu flores todos os dias debaixo do sol escorchante, sem nenhum sinal de cansaço. Ao contrário, ficou plena, linda, farta.

A Onze horas abre as flores no sol à pino e vai fechando as flores com o cair do sol. Mesmo em pleno verão, estão fechadinhas lá pelas três, quatro da tarde.

Acontece que eu sou um flor noturna. Durmo quando amanhece. De um tempo pra cá, to vendo as flores da Onze horas abertas até cada vez mais tarde. Hoje elas estavam abertas, ainda, às 19h30. E nem é mais verão…

Se não for nada disso, não me desiluda, já to tão desiludida.. Quero acreditar que as flores e eu sintonizamos nossos relógios. E que aqui em casa é possível florir a qualquer hora

Até hoje quebro ovos do jeito que vi num filme, na infância. Acho que era o Jack Lemon fazendo um omelete pra Marilyn, ou pelo menos é assim que lembro. Aquilo me pareceu tão genial e definitivo que, mesmo criança, gravei o movimento e repito até hoje. Continua sendo a melhor forma de quebrar um ovo.

Todas as vezes em que acendo um fósforo, lembro do Felipe dizendo: vai rodando devagarzinho, pra chama pegar direito. Rodo o palito de fósfoto, controlo a chama, e dá sempre certo! E assim aprendi um monte de coisas na vida, observando as pessoas e escutando os conselhos.

Depois minha irmã me falou sobre o inventário de referências de valores pessoais. Quem ensinou o quê, quem mostrou o quê. Achei genial de novo, pq é exatamente o que eu faço, desde o Jack Lemon. Internamente, sempre dou o crédito pra quem me ensinou um gesto, uma palavra, um atalho, uma solução. E esse é o meu inventário mais precioso, minha memorabilia, meu museu, minha enciclopédia de degraus, minha história.

 

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apocalipse now

09/11/2016

Qdo me perguntaram o que eu desejaria como última refeição, no corredor da morte, caso eu alguma vez o visitasse, pensei: peixe frito com cerveja. Robalinho, trilha, sardinha… Peixe frito, pra mim, tem que ser inteirinho e pequeno, passado no fubá, acompanhado de limão cortado na hora. Cerveja tem que estar glacial. Fritura mora na rua, ao lado da cerveja gelada. Delícias que visito e desfruto com respeito, na rua.

Comprei peixe fresco e temperei com limão, pimenta e alho. Era pra assar. Uma amiga veio trocar ideia, sobrou cerveja.

Golpes, Temer, Crivella, Cabral/Pezão. Trump. O mundo acabando, na minha frente.

Salguei o peixe, passei no fubá, e usei azeite, muito azeite de verdade. E fritei peixe em casa, pela primeira vez. E abri a cerveja. E cortei o limão.

Foda-se.

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sonho meu

17/10/2016

Senhores, me abracem.
Todo santo dia eu tomo um litro de chá. Uso o mesmo bule de vidro, todos os dias, há anos.
Esta noite sonhei que o bule quebrava e eu chorava muito, dizendo: puxa, esse é o utensílio de cozinha que mais uso e amo.
Acordei. Botei água pra ferver, como faço todo bloody santo fucking dia há pelo menos oito anos. Fiz tudo igual. Quando a água bateu no bule, ouvi aquele som de vidro trincando,

plic
e imediatamente toda a água fervendo escorreu pelo fundo solto do bule e caiu pela bancada e molhou o chão da cozinha.
nem chorei. já tinha chorado no sonho.

fim.


bule

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dei um depoimento sobre gordofobia e felicidade em tempos de fitness, para o jornal O Dia. As perguntas da jornalista Brunna Condini foram incríveis mas, na hora H, entraram anúncios e a matéria encolheu drasticamente. Pedi a ela para postar aqui as minhas respostas, na íntegra. Foi tão importante pensar em tudo isso, arrumar o pensamento, desvendar sentimentos. Tão empoderador e tão delicado, que senti a necessidade de compartilhar o texto e fazer mais gente pensar nisso.

Respira fundo e vem comigo:

– Conta um pouco da sua história de opressão com o peso;

Neste mundo que qualifica pessoas pela aparência e obedece a um padrão estético único, magro, estar acima do peso é tratado como defeito. Eu comecei a dançar quando era criança e dancei até um pouco depois dos 20 anos, entre idas e vindas por causa da oscilação do peso. Parei definitivamente quando fui demitida da academia onde dava aula de sapateado, por estar acima do peso. Não queriam que eu desse o “mau exemplo” pros alunos. Eu já cantava, então me dediquei só a cantar. E aí, também me mandaram emagrecer, porque “a imagem do artista é o que vende, e gordo não vende, só se for humor”. A opressão veio de todos os lados, inclusive pela via do carinho dos amigos e família.

A arte me ajudou a ver mundos mais livres, e a perceber que eu tinha o direito de existir com o meu corpo, sem precisar me desculpar pela “fraqueza”. Subir no palco é como estar nua, não tem como se esconder, então parti pro ataque: “Sim, sou gorda. Agora dá pra você parar de prestar atenção nisso e ouvir a minha música?” Com o tempo, e muita terapia, aprendi a respeitar quem sou, e entendi que todo mundo tem medos e fraquezas humanas. O que o outro acha de mim não é problema meu.

– Tem histórico de obesidade familiar? Como essa questão era tratada em casa?

   A família paterna era toda obesa. Desde os 10 anos que eu faço dieta e minha comida era igual à do meu pai, que também vivia de dieta, e era diferente do resto da casa.

– Com que idade se deu conta do preconceito? Algum caso que possa destacar?

Lá pelos 11 anos, passando férias no interior, de farra, entrei num concurso de miss infantil, e ganhei o prêmio de Miss Simpatia, o adjetivo favorito para se elogiar um gordo. Simpática, não bonita. Ali eu entendi.

– Alguma vez foi magra?

Comecei a engordar, progressivamente, aos 9 anos. De lá pra cá, já fiquei magra por alguns períodos e reengordei quatro vezes, sempre engordando um pouco mais do que antes da dieta.

– Tem ideia de quantos regimes fez na vida? Ainda faz?

Faço dieta há 40 anos. Perdi a conta de quantos médicos e nutricionistas e métodos e terapias fiz. Hipnose, bolinha, macrobiótica, reeducação, homeopatia, proteínas, South Beach, malhação, Dukan, acupuntura, ortomolecular, tudo! Estudo sobre alimentação há muitos anos. Me sinto em dieta permanente, sempre vigilante.

– Emagrecer é um objetivo ainda?

Emagrecer, sim. Ficar magra, não.

– Lista muitas perdas? Quais destacaria?

Todas as revistas, as lojas de roupa, a TV, o cinema, a família e os amigos sugerem que você emagreça para ficar “bem”. Logo, a gente se sente mal, portadora de uma deficiência contra a qual somos impotentes. Perdi tempo, perdi alegria, perdi programas legais, praias, piscinas, viagens, um monte de coisas. Mas a autoestima é a maior perda.

– O que já deixou de fazer na vida e o que ainda deixa, por conta do peso?

Já deixei de viajar, de ir à praia, de ir àquele churrasco na beira da piscina com a galera. Mesmo sendo louca por praia, passei anos sem pisar na areia, com vergonha e medo dos olhares. 

– Afetou/afeta a vida amorosa? Como lida com isso?

Em geral, uma mulher acima do peso não é alvo de paquera, é invisível, “desmulherizada”, ou vira fetiche exótico. É comum a gente aceitar ser tratada como “segundo time”, não se achar merecedora de pleno amor e respeito. Mas cresci e percebi que ser uma mulher interessante não é sinônimo de ser magra. Também é muito comum mulheres que estão acima do peso serem a amante secreta. Entre quatro paredes, longe dos olhares julgadores, tem muito mais homens curtindo gordinhas do que se imagina.

– O que mais te machucou no passado? O que ainda machuca?

Imagina a cena: eu andando de bicicleta em Ipanema, para um carro, abre a janela e o cara grita, a plenos pulmões, pra todo mundo ouvir, um comentário horrível sobre meu peso. Um desconhecido, no meio da rua, uma flechada de maldade. Já sofri muitas vezes essa rejeição pública e raivosa, por uma questão que só diz respeito a mim. Na rua, as pessoas te olham com raiva ou escárnio. Eu sou merecedora de respeito, magra ou gorda.

– Você acha que o preconceito contra a mulher gorda é maior? Por que?

Olhe em volta e veja: quantos homens magros estão de mãos dadas com mulheres gordas na rua? Quantos amigos seus te apresentaram para a sua namorada gordinha? Em quantos casamentos de magros com gordas você já foi? Agora pense em quantos homens gordos estão por aí ao lado de mulheres esculturais. Machismo puro, consentido pelas mulheres. Dois pesos e duas medidas, literalmente. A leitura que faço é que, pra essa gente rasa, os homens têm valor por serem homens, mulher só tem valor se for considerada bonita.

– Andrea, o preconceito vem de quem? E você acha que existe nesta sociedade, tão enraizado, por que? Para alguma classe social é maior?

O preconceito vem de todos os lados. Até eu me pego sendo gordofóbica. A gente passa a vida aprendendo que ser gordo é ruim, é duro desaprender esse olhar. Desde criança você percebe que tem algo errado, mesmo a sua família, que te ama, quer quer você emagreça porque percebe seu sofrimento, a discriminação e não quer que você sofra. Todo mundo tem problemas, manias, complexos, taras, vícios,  mas o problema do gordo chega com ele na festa, na sala, na praia, no colégio, não tem como esconder e por isso o gordo é um ser de “domínio público”. 

Acho que o ser humano virou uma máquina de trabalhar para consumir e ostentar resultados, o corpo é mais um deles. Falta complexidade, vida interior, cultura.

As classes mais altas têm privilégios que permitem que as pessoas se preocupem e invistam na magreza. Nas classes em que as pessoas têm mesmo é que batalhar pra botar comida na mesa, sinto uma flexibilidade maior nos padrões. A gordinha quer botar a barriga de fora, vai lá e bota, e se acha linda. É um jeito mais evoluído de ver a vida, de focar no que importa.

– Como ser feliz nessa sociedade sendo exatamente o que se é?

Ser feliz numa sociedade que classifica tudo pela superfície, só é possível quando a gente se liberta para fazer as próprias regras, nosso regimento interno, e encontra a nossa turma. É impossível e desumano viver em função do consumo e de resultados que agradem a todos. E isso vale pra gordos e magros.

- O que diria para quem está sofrendo muito com esse tipo de bullying?

Acho fundamental pedir ajuda profissional. Há serviços de atendimento psicológico gratuitos, é só procurar. Em geral, a vítima de bullying sofre calada, porque sente que merece aquele maltrato, se sente defeituosa, inferior, está com a autoestima destruída e isso pode e deve ser tratado. É humano se sentir faltoso, imperfeito. Mas a pessoa tem que saber que todos são igualmente merecedores de respeito e de uma vida plena.

 

PS.: Acrescento que não é pra ignorar o fato de o excesso de peso apresentar riscos para a saúde. Há riscos estatísticos, assim como em relação a fumar, tomar coca-cola, comer açúcar, ser sedentário, mesmo magro, e comer só industrializados. Senão, não haveria magros diabéticos, magros infartando ou magros com pressão alta. Ser gordo não é uma sentença de morte. Viver é uma sentença de morte. O resto deve ser livre, contanto que cada um saiba o que está escolhendo fazer!

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pileque

10/10/2016

Sentada na cadeira do dentista, procuro por um pensamento que me tire dali, um tapete mágico que isole o barulho do motor, o desconforto da anestesia, a aflição da invasão. Não encontro. Lembro da última vez em que fiquei apaixonada e de como eu adorava ter oportunidades, como essa, pra desligar do mundo e ficar só assistindo àquele filme. Primeiro beijo, desejos multiplicados e compartilhados, compacto das melhores cenas, renovando o encantamento. Como uma semideusa, as humanidades baratas não me atingiam. Debaixo dos pés eu trazia nuvens, e quem traz nuvens nos pés não pisa no chão dos mortais. Vai longe a última paixão. Não guardo em mim nenhum rastro dessa dulcissima ilusão à tôa. A paixão é, de longe, o melhor pileque que já tomei.

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morada eterna

16/08/2016

A única certeza da vida é a morte. Ao pó retornaremos. Ainda assim, todo mundo se espanta com ela. Já tenho idade pra ter entendido que a morte tem que acontecer de qq jeito. E acontece. Nem sempre limpinha e bonita, nem sempre à altura do merecimento do morto, para o bem e para o mal. As pessoas têm um sonho cristão, de uma morte que transpareça a qualidade de quem morre: “…era um santo! morreu dormindo…”. No fundo, sempre fica uma esperança de ascenção, quiçá ressurreição ou de um reconhecimento premiado, agora e na hora de nossa morte, amém.  Se bem que,  uma morte digna, a esta altura do mundo, está muito mais ligada a questões sociais que espirituais. Viver e morrer ainda é melhor para os ricos que para os pobres.

A real é que a morte tem que ocorrer, do jeito que for. Uns morrem como uma luz que se apaga, outros em metáforas menos poéticas. No final, morte é morte. Acabou, fim. A energia retorna à matriz e volta a circular por aí. Pra mim, isso é que é vida após a morte. Com o passar do tempo, vemos nossas pessoas desaparecendo em progressão geométrica, mas nem todas na razão da idade. Muitas, na razão da vida que levaram, ou das surpresas do inesperado. Não tem lógica morrer uma menina de 12, com tudo pela frente e um velhinho com alzheimer vegetar pra sempre. Esquece a lógica. Entendi que o negócio é escolher como a gente vai viver, morrer é o imponderável. E deve ser bom, pq ninguém nunca voltou pra reclamar, nem pra matar saudades.

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mundo invertido

25/07/2016

descobriram a cura não-cirúrgica pra articulações defeituosas e o fim da dor crônica. Inventaram o fim da menopausa e da devastação que ela provoca.

Hoje recebi um email me chamando pra um projeto maneiro, no Brasil, com cachê digno.

Encontrei uma boa parceria de trabalho que me apóia, investe no meu trabalho, me promove, marca shows pra mim, pensa em projetos, faz a produção e a divulgação.

Fui convidada pra fazer uns shows na Europa, com passagem e estadia e até cachê.

Os festivais internacionais pra onde mandei material responderam minhas mensagens e fui aprovada pra participar de uns.

Consegui entrar no edital pra gravar meu DVD e tenho trabalho no ano que vem, e meus parceiros vão ganhar pra trabalhar dignamente.

Este ano, vou gravar meus projetos e vou poder pagar um profissional para resolver pra mim o que não consigo resolver sozinha.

Ganho o suficiente para me manter e investir na minha carreira e na minha vida e pra fazer planos.

Tenho direito a férias.

Tenho direito a sonhos.

pink and blue

o bug do milênio

09/07/2016

… ninguém mais compra CD. CD serve só como cartão de visita. Tem que gravar e  disponibilizar tudo, afinal, pra que serve ter um trabalho trancado em casa? Mas sem fazer vídeo, nem adianta, pq video é fundamental hoje em dia. E tem que investir pra viralizar. Patrocinar os eventos, as postagens, os links, os videos. Pra bombar na rede. Bombar não quer dizer vender, é só ter uma chuva de likes, mesmo. Mas, ó, sem gravar CD, vc não vende show, não entra em festival, o trabalho não fica profissional. Tem que ter CD pra vender em show, praquelas pessoas que ainda compram, poucas, mas tem. Ah, tá. Não tem que ter, mas tem que ter. 

ué. Mas as pessoas pararam de ouvir música? Não. Ah, entendi. Pararam de comprar música. E, sem querer, eu passei a fazer um trabalho voluntário para encantar o mundo. 

Não acho justo. Estou há três anos tentando encontrar recursos pra gravar um novo trabalho sem precisar, pela terceira vez, passar o chapéu pelos amigos. Tenho, pelo menos, três projetos na prateleira, sem a menor perspectiva de sair de lá por falta de dinheiro. 

Mas digamos que eu consiga grana pro estúdio e tenha amigos maravilhoso que vão DOAR seu tempo e seu talento pra gravar, fazer arranjo, fazer coro, fazer capa, liberar a parte legal do trabalho, compor canções pra mim, pilotar o estúdio e depois editar, mixar, masterizar. E depois outros amigos incríveis vão emprestar seu equipamento, seu estúdio, sem tempo, suas câmeras, sua maquiagem, seu figurino, pra fazer o tal vídeo. Todo mundo fala: pô, esse é o momento do coletivo, do coworking… Aí, como ninguém compra música, eu pego o meu trabalho e o trabalho dessa gente toda, os dois anos que a gente investiu da vida da gente, e faço um link, em todas as plataformas, pra todo mundo baixar, ver e ouvir, sem pagar, pq ninguém compra música, né? mas tem que pagar pra viralizar, tá? Senão vc não existe como artista. 

Disse o Tremedão: estou sentada à beira de um caminho que não tem mais fim… 

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