Hipódromo

21/07/2020

Eu tenho o estranho hábito de achar que, mesmo quando um lugar é derrubado, mesmo quando constróem uma cidade em cima de outra cidade, a história permanece ali, empilhada em dimensões várias. E assim, quando passo por um lugar que foi outro, quase vejo o empilhamento das imagens, como se fantasmas dançassem pra sempre, continuando a história que não podemos mais viver, em outras giras.

É assim que passo pela casa do meu avó, que agora é um prédio de esquadrias de alumínio e vidro fumê, e ainda vejo a gente lavando o quintal com tamancos de madeira, ao som da ladainha das sete-chagas-do-nosso-senhor-jesus-cristo ou coisa que o valha, cantada pela Noêmia, de pano na cabeça.

É assim que vou passar pelo Hipódromo, que fechou as portas esta semana, e onde vivi intensamente, tantas histórias, que nem consigo medir. Primeiro, com o namorado no fim dos anos 80. Depois com os amigos nos anos 90, toda noite, toda santa noite, antes ou depois do Baixo Leblon, antes ou depois de qualquer programa, durante cinco, dez anos? A vida se desenrolava alí, de pé, na esquina onde tudo acontecia. Quantas amizades fiz e cultivei ali, ainda nas mesas da calçada, amores achados e perdidos ali, namoros começados e terminados ali. A gente ria, falava, desabafava e bebia, como a gente bebia!

Quando o Hipódromo Up abriu, fiz um sem número de shows por lá, casa sempre cheia, temporadas inteiras. Assisti ao Arranco de Varsóvia, cantando todas as músicas de cor, sem imaginar que eu passaria esses felizes 19 anos como cantora do Arranco. Em meados dos 90, meu ex foi trabalhar na casa, transformando aquilo tudo no nosso quintal diário até a alvorada dos anos 2000, quando a casa de shows fechou e o casamento acabou. Ali começou a dispersão, nossa geração não mais tão noturna, novas gerações se empilhando e vivendo ali o que a gente viveu. A felicidade em pé na esquina, de copo na mão. Já não era mais um lugar pra ir sozinha e encontrar todo mundo. O bar virou um velho amigo, que a gente volta pra visitar e se reconhecer, de vez em quando.

Quando eu passar por lá, verei ainda a dança dos garcons no salão, suas bandejas repletas de chope e pizza. E sempre vou sorrir lembrando da amizade que só quem é boêmio conhece, dos meus companheiros de tantas milhares de noites boas e ruins: Boi (que eu chamo de João), Sorriso, Sassá, Lacerda, Edenilson. A intimidade na medida certa, que saca o dia em que a gente quer só beber sossegada e quando a gente quer papo. E o Zé, gerente sócio da casa, que me recebia sempre como uma rainha. Em 2007, ele até abriu o já fechado Hipódromo Up pra eu lançar meu álbum O amor de uns tempos pra cá. Meu canto do cisne naquele palco. Depois, vieram outros bares, outros bairros, outros palcos, outros amigos, outros amores. Nunca mais tive um bar pra chamar de meu daquele jeito. Não há mais bares daquele jeito.

Naquela esquina do BG, no empilhamento espectral dos dias vividos, vou ter eternamente 30 anos de idade, cabelos vermelhos, olhos muito pintados, usando perfume Minotaure, de saltos enormes, copo na mão, toda vestida de preto.

(foto tirada no banheiro do Hipódromo, durante uma temporada de sucesso do meu show Black Museu Brasileiro)

Aracelli, Meu Amor*

23/03/2020

Lá pelos meus 17 anos, eu andava pelo mundo com o violão debaixo do braço. Não tinha ainda essa autocrítica corrosiva e paralisante, que tantas vezes me impediu de terminar uma canção, de publicar um texto, de me atirar num improviso de voz. A única coisa que importava era a felicidade, e o orgulho, de portar minha arma musical debaixo do braço, meu salvo-conduto pra alegria, meu abre-alas-que-eu-quero-passar. E passava.

Em qualquer canto eu tocava meu violão chinfrim, forjado na escola da minha curta, e intensa, vida. Eu era mestrada e doutorada em VIGU, Violão e Guitarra, a famosa “revistinha” onde a gente aprendia a tocar tudo que é tipo de música. Bastava copiar os gráficos dos bracinhos, com os dedos, nos braços do violão, e fazer as “posições”, que outros poetas chamam de acordes. Eu não sabia de nada, mas conseguia tocar pra me acompanhar. Cantar, e fazer cantar, era a melhor coisa da vida.

Naquele tempo, bastava um maço de Marbolo vermelho e duas porradinhas** de Fanta laranja com Velho Barreiro pra uma cornucópia de canções se derramar sobre a mesa. O violão rodava nas mãos dos amigos e era música da moda, MPB clássica, samba, sucessos radiofônicos e composições próprias. Aos 16 eu já fazia umas canções e tinha inventado meu próprio sistema de cifragem, por pura vitória da inteligência sobre a ignorância. Eu não sabia de nada. Mas queria cantar e tocar.

Num feriado, lá vou eu pra Teresópolis, de ônibus, com uma amiga. Eu e meu violão. Todos os assentos ocupados, turistas e teresopolitanos. Na subida da Serra verde, silenciosa e fresca irrompe, lá dos bancos de trás, uma voz gutural, um trovão dos recônditos do inferno, que faz tremer toda a carroceria: “Eu matei Aracelli! Eu matei Aracelli!” . Era a voz de um demônio de filme subindo das profundezas, aquele subgrave reverberando dentro da caixa torácica da gente. E ele berrava, rouco e furioso: “Fui eeeeeeeu, eu matei Aracelli! Fui eeeeeeuuuu!”.

Eu e minha amiga nos entreolhamos, chacoalhando, arrepiadas de medo. Algumas pessoas começaram a rezar, outras a chorar baixinho, a suar, a se abanar, a passar mal. O motorista não ouvia nada lá da frente e subia a serra, calmamente. O terror domina o interior do ônibus e a voz aumenta de volume, vociferando coisas cada vez mais aterrorizantes. Poucos têm coragem de olhar pra trás, com o medo terrível de não saber o que temer.

Aí eu vejo o meu violão, deitado no bagageiro superior, bem acima da minha cabeça. Num impulso de coragem, levanto, pego o estojo, sento de volta, desembainho o violão e começo a tocar. E decido cantar bem alto, pra cobrir a voz do terror, pra tentar quebrar a atmosfera de pânico com música. Minha amiga entende a ideia e canta junto, “… me leva amor, lá lá lá láiá lá, me leva amor, amooooor, amoooooooor, me leva amor, por onde for quero ser seu par…”, encobrindo a voz do mal com a canção “… olha a lua branca a se derramar, ao luar descansa meu caminhar…”. Uma voz aqui e outra ali chegando junto. E passam Caetano, Djavan, Gonzagão, Gilberto Gil. Vem Paulinho da Viola, Angela Rorô, Peninha, Chico Buarque. Baixa Beth Carvalho, Joyce, Marina Lima, Rita Lee, Kid Abelha. Os passageiros cantam junto com mais coragem, a voz do mal ficando abafada, o mal calado, o mal mudo. O mal levantando e pedindo pra saltar antes de chegar na cidade, cuspindo escorpiões e marimbondos, e o rastro de enxofre se dissipando no ar puro e verde da mata.

Nesse dia, meu violão chinfrim, meu destemor juvenil, minha garganta (meu Marte em gêmeos) e a música popular brasileira calaram o mal. Chegamos sãos, salvos, mortos de medo, armados e perigosos de tanta música. Assim seja.

*Aracelli, meu amor é o título de um livro, de José Louzeiro,  sobre o assassinato e estupro da menina Aracelli, crime terrível e famoso dos anos 70, que até hoje não teve solução.

**Porradinha era bebida de adolescente dos anos 80. Uma dose de cachaça, Fanta laranja até completar o copo, a mão segurando um guardanapo na boca do copo, e uma porrada com o copo na mesa. Aquilo espumava e subia e a gente, pimba, botava pra dentro.

Quando minha mãe era criança, ela tinha um livro com esse nome. Um dia, ela levou o livro pra mostrar pra freira da escola onde ela estudava. A freira ficou encantada e pediu o livro emprestado. Nunca devolveu, alegando que o livro tinha sumido. Minha mãe, criança, ficou p da vida sem seu livro. Até que, um dia, na escola, entra numa sala e dá de cara com o livro numa estante. Sem pestanejar, rouba de volta seu livro e ganha 100 anos de perdão.

Esse livro ficou na família e foi parar na minha infância, também. Era um tempo em que crianças brincavam com outras crianças, ao ar livre. Na calçada em frente de casa, na garagem do prédio, onde houvesse espaço. Saíamos em bando, de bicicleta, pra dar voltas no quarteirão. Era proibido atravessar a rua. Mas podia, às vezes, parar na carrocinha da esquina da Montenegro com a Sadock de Sá, e tomar um sorvete.

Quando chovia, a gente usava esse livro e inventava um monte de coisas pra fazer dentro de casa. Eu tinha miçanga pra fazer bijuteria, linha pra bordar, cavalete pra pintar quadros, mala de tinta à óleo, lápis aquarelável, muitos brinquedos e recursos. E mãe em casa. Era bom. Até hoje tenho carinho por ficar em casa em dias chuvosos. De quarentena, tento agora descobrir que brinquedos vão me entreter enquanto durar essa quase chuva. Trabalhar online, fazer um canal de receitas, botar a leitura em dia, arrumar a casa, estudar, compor.

Aqui encastelada, presa na gaiola surrealista dessa distopia sem fim, vivendo o caos da incerteza, sem saber se vamos todos adoecer e morrer, se vamos ficar sem água potável, se o país vai explodir sob as patas desse cavaleiro apocalíptico e destruidor de tudo, lembro do livro. Começo a procurar e lembro que ele está em Teresópolis, naquele cantinho subjetivo que guarda os últimos raios da minha infância.

Estou bem guardada onde estou. Penso em quem só come se defender a grana do dia, e vai passar fome de verdade. Biscateiros, camelôs, entregadores de tudo. E músicos, artistas, todos os autônomos. E aqueles que simplesmente não têm o que comer, nem sabonete pra lavar as mãos, nem água. Morro de pena das crianças que moram em micro espaços, de onde não poderão sair pra brincar, das pessoas que moram em um cômodo pra oito, dez pessoas, todos juntos, velhos, novos, doentes, sãos. Como conter um vírus no epicentro da desumanidade, onde pessoas nasceram com a marca da invisibilidade ancestral? Gerações e gerações de gente que o mundo não vê, não leva em conta, não gosta.

Penso em casais que vão adorar a re-lua-de-mel, em pais que vão ter que inventar uma rotina com os filhos, que só encontravam nos fins de semana. Vai ter gente que vai aprender a cozinhar, outros vão aprender a brincar com uma criança, outros vão ler livros e outros vão descansar do vai e vem da vida. Logo depois, lembro das famílias que moram juntas porque não têm como se separar. Sem grana pra mudar de casa, mulheres apanham de marido, crianças sofrem abuso, casais que se odeiam e compartilham o mesmo espaço por falta de opção. Todos trancafiados nesse reality show de mau gosto, que vai testar a humanidade e os limites de sanidade e civilidade. Não vai ser fácil.

Mas por que é tão desesperadora essa quarentena? Só porque é ruim ficar em casa? Não. Porque a gente vive pra trabalhar, pra pagar boleto. E isso, a gente não tá podendo fazer agora. Não do jeito que era. O que está em casa, o que está do lado de dentro, nossa intimidade e nosso lar, a gente deixou em segundo plano há muito tempo. Quem sabe a gente, por falta de opção, lembra de respirar melhor, junto com o planeta, sem tanto CO2? Quem sabe a gente surfa nessa onda, como os golfinhos e cisnes que voltaram aos canais de Veneza, e se refresca por dentro, como os patos que agora param pra beber água numa Fontana di Trevi vazia? E o Rio de Janeiro, o que vai acontecer quando estivermos todos em casa?

PS: Encontrei meu brinquedo para dias de chuva, to aqui escrevendo, como nos velhos tempos.

a infância da minha mãe

domínio público

07/11/2019

Sábado à noite. Festa. Pessoas vão chegando, se falando, pegando suas bebidas, encontrando suas cias e seus lugares pra ficar. A noite está começando, é fim de semana. A moça encosta ao meu lado, em frente ao balcão das bebidas e suspira: “Aff, vou ter que beber esse carboidrato”. Pega uma cerveja e sai, me deixando atônita e quase culpada por não estar reduzindo o ato de tomar uma cerveja, com amigos, numa festa, a “beber carboidrato”.

Pouco tempo depois escuto outra moça comentando sobre a empadinha: “ai, que delícia, amanhã vou ter que ficar o dobro de tempo na esteira”, ao que a mulher ao lado morre de rir e concorda, balançando a cabeça: “ah, a gente tem que correr atrás, é isso aí, amiga”. A moça do carboidrato líquido, encosta ao lado de alguém e justifica mais uma vez a sua transgressão, ouço ao longe: “eu nem ia beber hoje, esse carboidrato todo é foda, pão líquido, né?” Seu interlocutor faz cara de “foda-se” e manda pra dentro o resto da long neck, de uma vez, dando meia-volta e deixando a moça falando sozinha.

Há momentos de dieta, de doença, de detox, e de tratamentos na vida. Eu sei. Eu já fiz milhares disso tudo. Já fiquei sem beber e sem comer nada por milhares de dias da minha vida. Já optei por não sair de casa, qdo a restrição me pareceu impossível de lidar e já fui pra festa beber água sem comer nada. Já odiei ter saído e voltei correndo pra casa, no humor mais suíno da terra, e já fiquei de boas, fumando um e bebendo água, sem me sentir mal por não estar compartilhando dos comes e bebes. Cada um sabe de si, do seu momento, da sua dieta. Não estou falando disso.

Estou falando de um comportamento especialmente comum às mulheres, que estão sempre se desculpando, publicamente, por não estarem no peso que deveriam, por estarem comendo em vez de estarem passando fome pra chegar no tal “peso ideal”. Elas têm tanta certeza de que a aparência é a coisa que mais importa, de domínio público, que entendem que o mundo está esperando uma satisfação sobre a sua conduta alimentar. E se desculpam, e explicam. E aceitam um pedaço de pizza e confessam a culpa. E acham que esse assunto interessa às pessoas que estão na mesa do bar com elas, na festa com elas, tentando ter um minuto de descompressão da vida bandida.

O corpo feminino é historicamente tratado como posse alheia e as mulheres são as primeiras a permitirem que assim seja. Estão sempre comentando a aparência umas das outras, como se isso fosse a coisa mais importante. Toda gorda escuta: “vc emagreceu?”, mesmo sem ter emagrecido, numa mistura de sugestão e de esperança da outra, que quer testemunhar o emagrecimento obrigatório. Toda gorda deve querer emagrecer. Não tem escolha. Se não ficar magra não casa, se não emagrecer não pode entrar na igreja de noiva, se não perder peso perde o marido, se engordar é safada, gulosa, sapatão, suvaco cabeludo, mulher macho. “estamos preocupados com a sua saúde”, diz a hipócrita bebendo coca zero e comendo salsicha.

Os movimentos anti-gordofobia, as tentativas de normalizar o plus size, emplacam a passos de cágado, mesmo nesta sociedade globalmente acima do peso. As mulheres gordas estão tentando existir fora do holofote do ridículo, querem pleitear o direito à beleza. Mas a sociedade continua dizendo que “ela tem um rosto lindo, que pena” e fingindo que aceita suas barrigas expostas pelas blusinhas cropped. Pegue os últimos 20 trabalhos de um fotógrafo de casamento e veja se tem alguma noiva gorda. Depois me conta.

Enquanto as próprias mulheres se desculparem por não estarem com o corpo ideal, enquanto julgarem outras mulheres pela aparência, enquanto comentarem a aparência de outras mulheres como avaliação, como uma banca de exame, nada disso vai mudar. Como o machismo, que precisa mudar na estrutura, entre os homens, a descoisificação da mulher precisa começar pelo olhar de mulher pra mulher. Até lá, seremos uma sociedade de mulheres acima do peso se sentindo sempre em dívida, erradas, pecadoras, safadas e doentes.

E se sua amiga estiver gorda e bebendo e comendo na festa, apenas brinde a vida com ela, resista à tentação de ser educativa e julgadora. Vamos combinar que caloria se conta em casa e cada uma conta as suas.

A vida anda falando de morte. A todo momento a morte e seus parentes batem na minha porta, me acordam de madrugada, tiram o sossego das pessoas que amo e me colocam aquela velha pergunta na boca: fico saudável pra morrer tarde ou chuto o balde pra acabar logo com isso?

Eu não sou uma otimista. Nunca fui. Quando eu era mais nova eu tinha muita raiva de ter que me virar pra viver, pq eu nunca tinha pedido pra nascer e, qdo dei por mim, tinha mil boletos pra pagar e zero interesse em cumprir o script da vida. Ainda não tenho, preciso confessar, mas tenho sorte e pessoas que amo e me amam. Não tenho um deus pra me consolar, tenho afilhadas e sobrinha, mas não tenho filhos, não deixo descendência. Não tenho moral que me faça achar que a vida é uma dádiva. A vida se perpetua, banal como planta que nasce na pedra, sem chance, sem solo, sem luz. Eu vivo, e o demônio insano do Bolsonaro e sua corja miliciana dos infernos vivem, não há qualidade moral na vida, não há virtude.

A arte é um lenitivo, mas não cura. Pq dentro de mim, num dia de destruição como o de hoje, em que a fumaça das queimadas do “dia do fogo” dos ruralistas entrou por dentro de mim e a bala do governador assassino atingiu o meu peito, minhas forças são todas pra chorar a onça pintada carbonizada na beira da estrada, os índios chacinados, os jovens pretos assassinados a granel, a constituição violentada, a justiça mais injusta e um país em ruínas, pautado pela exploração da ignorância e pelas falcatruas.

Na história eu acredito. E é a minha mais secreta vingança pensar que, se sobrar Brasil, em algum momento do futuro, essa gente vai ser reconhecida pelo que é: exterminadores violentos, psicopatas, desumanos, carniceiros com problemas sexuais e fome de poder. Posso não estar mais aqui pra ver, mas carrego a esperança comigo. Nada dura pra sempre, até Hitler caiu. Assim como Auschwitz está lá, pra todo mundo ver o que fizeram no passado, o rastro de destruição dessa gente vai contar o que elas fizeram e o juízo final, não o remoto, mas o dos homens, o da história, há de nos vingar e fazer justiça.

Sepultemos os mortos. Mas cuidemos dos vivos.

Aiaábô

22/07/2019

Minha tia, deitada na cama, geme. Não quer mais saber de nada.

Quer comer alguma coisa bem gostosa, tia?

Não.

Quer um suquinho?

Não (com o dedo indicador esticado, infantil, um nãozinho lateral, olhos fechados).

Laranja. Lembrei da laranja Seleta enorme que você comprava na feira e sempre tinha na sua casa. Tem laranja, tia?

Não.

Geme. As dores de esquecer, as dores de morrer daqui a pouco, as dores de ter tido tudo e tudo não ser mais nada nessa hora. Dores. Deito com ela na cama, colo meu corpo no dela, seguro sua mão e morro de chorar, sem ela ver. De repente, ela aperta minha mão, me acaricia e ri, aninha a cabeça no travesseiro, sabe que eu to chorando. Mas ficamos ali, eu entrelaçada nas mãos dela, testa com testa, pensando no porquê de ninguém nunca me mandar cultuar Nanã, minha mãe, essa morte à espreita, esse lamaçal original, esse encontro, esse retorno.

Minha tia geme aiaiaiaiaia e eu me lembro de como meu avô, pai dela, gemia, deitado na sua cama com mosquiteiro de voal, na Rua Montenegro, em Ipanema, e eu nem era mais criança. Quando sofria, meu avô deitava com as mãos entrelaçadas do mortos e gemia, em árabe: “Aiáboô, aiádeê”.

Minha tia geme, sussurra “não tenho nada pra fazer”, e suspira. Rindo, gemo pra ela, citando o vovô: “Aiábô, aiádê”. Ela ri, repete, ri, adora a lembrança e fala: “árabe!”, e continua rindo devagar consigo mesma e gemendo “aiábô”. Esquece. Pára. Some. Volta.

Vamo levantar, tia?

Não.

Cansada, se vira na cama. Geme. Deitada, de mãos dadas com ela, brinco no seu ouvido: “aiábô”.

Ela, séria, declara: “Aiábô… Meu pai, meu avô, meu bisavô”.

Aiábô, minha tia, meu avô, meu bisavô, meu triavô.

Desejo que seja leve, que seja boa, que seja suave essa viagem que a leva.

Aiábô, minha mãe, meu pai, minha irmã, minha sobrinha, meu cunhado.

Aiábô, como dói essa porra de vida.

Esse negócio de ser cantora é muito louco, mesmo. Ontem passei a noite embargada com o show da Leny AndradeAurea Martins e Alaide Costacom o grande Gilson Peranzzetta. Inteiras, entregues, presentes, donas das canções que cantam, de cada nota. Uma vida inteira, 50, 60 anos cantando, que coisa mais rica, que fortuna!

E me emociono também porque desse lado da realidade, as artistas não têm figurinista, não têm cenógrafo, não têm as regalias que a grande fama dá. Abrem seus armários, escolhem suas roupas e seus acessórios de brilhos e se maquiam. E estão novamente prontas, sem afetação nenhuma, sem frescura, sem estrelismo, brilhando com a chama natural que carregam, e por terem vivido e visto o que viram. A simplicidade de quem chegou ao cerne da questão com tanta propriedade e escolha.

Esperançosa, me vi ali, daqui a alguns anos, herdeira que sou dessa linhagem de cantoras que escolhem palavras e melodias pra cantar, com minhas próprias roupas brilhosas, com minha vidaloka, com minhas escolhas dolorosas, com minhas renúncias e esse caminhão de sorte que ganhei da vida. Este fim de semana não saio de casa, dedicada ao estudo do repertório da Fátima Guedes, pro meu show do sábado que vem, dia 15, no Beco das Garrafas. E lá vou eu, e lá vou eu. ♫

a semana começou com a notícia do suicídio do filho de uma amiga. 20 anos recém feitos. A depressão insuspeita reinava a apenas dois dedos abaixo da superfície, que mostrava um lindo menino calmo e silencioso. Na carta de despedida, revela que já tinha tentado se matar, sem sucesso, que era tão solitário e triste que não queria mais viver. Desta vez conseguiu. A mãe trabalhava incansavelmente para melhorar a vida dele.

Dois dias depois, recebo a notícia de que o filho de outra amiga, 18 anos, entrou em surto e ameaçou matar a mãe e depois se matar. Foi internado e medicado, lobotomizado pela medicação que vai calar seu desespero. Sabemos que está desmotivado para a vida, porque um rapaz pobre não tem sonho, nem querer, neste país de dinossauros brancos, ricos e famintos. Não consegue estudar por falta de recursos. Não consegue trabalhar porque não estudou. Quer trabalhar, comprar roupa, ir ao baile, ter uma bicicleta, namorar. Mas não consegue nem existir. A mãe trabalha desde os 12 anos, e encara quatro horas de transporte para ir trabalhar, todos os dias. O pai nunca está em casa, trabalha o tempo todo.

Meus amigos, mesmo com um filho só, vivem exaustos, mortos de cansaço e pingando de sono, porque acordam de madrugada para levar filhos na escola, e depois correm pro trabalho, pra tantos trampos quantos consigam administrar, para conseguir pagar boletos e mais boletos e não frustrar as demandas dos filhos: academia, patins, terapia, violão. Tablet, Disney, tênis de marca, celular. Nunca batem a meta. Trabalham demais e dormem de menos e raramente se divertem ou fazem o que gostam, porque ter um filho se assemelha a ter que alimentar um exército. Filhos querem muito, têm muito, querem mais. E preciso pagar escolas caríssimas, dar o melhor, fazer o máximo. E a vida vai passando ligeira, lá longe. Tempus fugit.

Todos estão insatisfeitos, infelizes e frustrados, pais e filhos. Mal se comunicam. Os filhos que não têm nada, se matam ou querem morrer, com raiva dos pais. Os que têm tudo, acham natural o esforço alheio para lhes dar conforto. Querem outro celular o mais rápido possível. Mal conhecem a cidade onde moram, porque nunca levantam os olhos das telas. Estão hipnotizados e abduzidos pela vitrine de consumo que lhes apresenta o mundo. Completamente despreparados para a vida real, para a “pelada de calçada”. Os pais correm, é preciso correr. “Ai, ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde, é tarde, é tarde”, disse o coelho da Alice, indo para lugar nenhum.

A primeira vez em que pisei no IACS (Instituto de Artes e Comunicação Social – UFF) era o segundo semestre de 1982. Eu era aspirante a cantora, quase bailarina, entrando na faculdade de Comunicação porque gostava de escrever.

O IACS parecia um velho colégio, a quadra de esportes na frente do casarão descascado, gente jogando bola. O revestimento do teto da casa estava meio vazado, aqui e ali, com a fiação cansada semi-exposta. Quando chovia muito, a luz faltava e íamos pra casa. Se chovia à tarde, nem íamos. Inútil atravessar a baía pra bater o pique na Lara Vilella e voltar. As tábuas do piso rangiam, cedendo com o peso dos passos. Uma aventura quase arqueológica. A cantina ficava na casinha da frente, e a gente esperava a fornada sair pra comer sorrisos. O professor Serra, e seu cachimbo, já reinavam no departamento de Comunicação.

Eu gostava de escrever, mas atravessar a Baía todos os dias me enfraqueceu o propósito e me afrouxou o desejo. Eu dançava de dia e cantava na noite, e a faculdade foi perdendo o charme. Fui parando, parei. Sem trancar. Certa de que jamais voltaria ao assunto, com tanta estrada musical ainda a percorrer.

Virei cantora profissional, aposentei a sapatilha e continuei escrevendo. Textos de divulgação pra mim e pros amigos, revisão, tradução. Por isso, 13 anos depois de ter largado a faculdade pra lá, dura feito um coco, temendo não ter como sustentar a carreira de cantora, decidi voltar pra faculdade pra cursar Jornalismo e ativar um plano B, no qual Clark Kent sustentaria a carreira caríssima do Super Homem.

Entrei em contato com a faculdade:

– Quero voltar pro curso que abandonei.

– Você pode prestar vestibular e aproveitar as matérias cursadas

– Sem vestibular, eu disse, eu já passei no vestibular, não preciso passar de novo.

– Ué, mas isso não existe, o prazo expirou. Só se você entrar com recurso.

– Então quero entrar com recurso.

– Escreve uma carta pro Reitor.

Escrevi. Na data prevista recebo a resposta:

– O reitor liberou. Agora você tem que ver lá na Comunicação. Se toparem, você volta.

Quem era o diretor do departamento de Comunicação? O bom e velho professor Serra, de quem me lembrava, daquela breve passagem pelo IACS, nos anos 80.

– Quero voltar, Serra, me deixa voltar! Agora eu quero de verdade, vou até o fim, vou ser uma ótima aluna!

Quando pisei pela segunda vez no IACS, em 1996, a quadra tinha sumido e o casarão estava reformado, mas não perdera seu charme arqueológico. Eu delatava minha antiguidade pelo número de matrícula, que começava com o ano de ingresso. Minha primeira temporada ali começou em 82-2.

Em dia de votação pro DA, na fila com um colega, chego na boca da urna e digo, em voz alta, meu número de matrícula: 82-2XXXX. Meu colega dá aquele pulo: Caraaaaca, eu nasci em 82!

Me formei na turma de jornalismo de 2000, aos 36 anos. Trabalhei 12 anos na imprensa. Gravei mais de 10 CDs e um DVD. Continuo escrevendo e estou comemorando 35 anos de carreira de cantora.

Quando fui ao IACS, pela última vez, ele tinha virado praia.

*o IACS é o Instituto de Artes e Comunicação Social, da UFF – Universidade Federal Fluminense. Este texto foi uma encomenda para o aniversário do IACS. Como não tocaram mais no assunto, decidi postar aqui pra ele nao se perder. Tenho as lembranças mais queridas daquele lugar e daquelas pessoas.

menino descalço

07/12/2018

No meio da rua, um menino grande pede que lhe compre um chinelo. Está vendendo chicletes, descalço, pois seu chinelo arrebentou. Compro o tamanho que mal lhe serve, porque ali na hora não tinha o tamanho dele e ele preferiu sair mal calçado que descalço. Saio chorando pela rua, pensando na tristeza que é um menino descalço em Copacabana, implorando por um chinelo, enquanto pessoas “de bem” se protegem dele e comentam que ele talvez queira apenas vender o chinelo novo. Ao contrário, imagino que aquele chinelo branquinho vai ficar imundo em poucos dias, se alguém não lhe roubar, ainda hoje, o chinelinho branquinho, novinho em folha, um pouco pequeno, reluzindo naquele pé preto empoeirado e magro, que esta noite vai pisar num barraco muito pobre ou num canto mijado de rua, num meio fio grudado com óleo de ônibus, sob marquise, ponte, viaduto, num canto qualquer, onde as sombras da noite o cubram e protejam. 


Não suporto a realidade desses dias.  Vejo militares e igrejas avançando a passos largos com seus coturnos, a bíblia em punho, salivando com suas bocas escancaradas, famintas de poder, e vejo o menino preto descalço sendo atropelado pelo tanque do fundamentalismo que reina e impera, que promete matar pobres de drone, desertar florestas, queimar índios, matar solos e mares, esterilizar e pulverizar o meu país, que ia ser o do futuro, que era um gigante prestes a se levantar, verdejante, festeiro, misturando tudo que é fé, hospitaleiro, simpático, miscigenado, bonito por natureza. O país que eu perdi em minutos, quando descobri quem me cerca, o que querem, com o que(m) se importam.  

Nasci no ano em que o Brasil acabou pela primeira vez, 1964, pelas mãos dos demônios de caqui. Os efeitos sentimos agora, em mais uma das mortes do Brasil, condenados que estamos a mais uma longa temporada de silêncios e de medos, de patrulhas, de ignorantes no poder, de meninos pretos descalços atropelados e cantoras tristes. 

vida, minha vida

12/09/2018

Quantos rostos sorridentes, desconhecidos sorrindo pra mim? quilômetros de milhares de bocas sorrindo, de olhos abertos pra mim, de silêncios. Anos e anos pessoas fazendo silêncio pra mim. Olhando pro som que vem de mim, ouvindo o que trago, boas novas e boas velhas, sempre boas, as canções. Quantos camarins, bons e ruins, luz funcionando, luz quebrada. Cadeira boa, cadeira dura, cadeira bamba. Ar condicionado frio demais, calor demais. E quantos espelhos, quantos banheiros pra maquiar de qualquer jeito, pra molhar a barra da calça ao trocar figurinos. Quantos figurinos? Quantos batons? Quantas vans? ônibus e carros e taxis. Palcos então… todos os tipos. Altos, baixos, praticáveis, impraticáveis, carros de som. Palco de andaime, medo de despencar lá de cima, no meio da praça do coreto da cidade pequena. Cidades pequenas, cidades grandes, hotéis. Micro palcos, com o arco do contrabaixo levantando a barra da saia, ou um canto de sala, um cantinho qualquer. Microfones, quantas vezes disse testetesteteste. Retorno, agudo, médio, grave, reverb. Quantos sons passei, quanta luz? Forte demais, escuro demais, verde demais. Médios, então, quantas médias altas pra tirar. E boas noites, sejam bem vindos, espero que gostem, essa música foi, a próxima vai ser, queria agradecer. No palco comigo esta noite, fulanos sicranos beltranos; Quantos músicos e instrumentos e solos e intros e finais. Muitas palmas e uhús. Milhares de palmas e uhus. Milhões de palmas e uhús. Muito obrigada, voltem sempre, tragam os amigos.
Palco do Chiswick town Hall, em Londres, onde dancei balé clássico quando tinha 12 anos. 
Num domingo em Paris, há muitos e muitos anos, vi um homem negro subir num caixote e fazer um discurso em frente ao Beaubourg, coisa comum. Ele contava que seu pai fora nascido e criado num país africano colonizado pela França. Contou que, na Segunda guerra, receberam visita de um general do exército convidando os adultos da família a lutarem “como irmãos” em defesa da França. E assim partiu seu pai para a morte na guerra.
Muitos anos depois, esse homem, morador de Paris havia mais de 30 anos, com filhos nascidos na França e família e carreira assentados por lá, estava sendo ameaçado de ter que voltar pra África, país que nunca fora seu, pra uma casa que nem tinha mais, pra um berço familiar esvaziado e mutilado pela guerra, por medidas políticas da direita que empunhava a bandeira da “França para os franceses”. Me falta cultura política e memória, mas nunca me esqueci do sentimento de revolta que cresceu em mim, através da dor do homem que gritava: “Quando foi pra lutarmos e morrermos na guerra, éramos franceses. Achei que a França fosse meu país, que fôssemos irmãos. Agora estou incomodando, minha família está ocupando espaço dos franceses e não sirvo mais pra nada. Querem me despejar como a um invasor”.
Jamais me esqueci dessa cena. A essa altura o racismo me doía na carne branca e privilegiada de Ipanema. Nasci com um senso de justiça muito grave, veio comigo. Amei as pretas que cuidaram de mim e da minha família, e percebi logo que nunca sentei ao lado de um negro na escola. Fui socialmente excluída da convivência com o mundo real, meu mundo era branco, de classe média ipanemense, com pretos subalternos. Quando criança, morando em Londres, senti o mesmo desconforto vendo as meninas indianas e paquistanesas da escola, as “quase-inglesas”, sendo discriminadas pelas “verdadeiras inglesas” louras, de olhos azuis. Mas, depois de ver certas coisas, se demos a sorte de crescer com senso e  tento, temos a obrigação de reeducar nosso olhar, desconstruir velhas crenças e dar um passo adiante. E de novo e de novo pra sempre. Muito novinha, amei e namorei um cara negro, e assisti de perto essa dor doer. Senti, na pele do meu amor, o que era não ser bem vindo, ser olhado de cima em baixo, ser rejeitado pela família branca da namorada. Éramos alvo de olhares na rua, nos lugares onde íamos. Aquilo doeu bem fundo em mim, fortaleceu o meu amor, me amadureceu.
Morando em Paris, no fim dos anos 80, encontrei uma cidade miscigenada, com negros em lugares sociais diferentes do que eu via no Rio. Motivada pelo calor do movimento SOS Racisme, carreguei por muitos anos o broche com a mãozinha do movimento Touche pas à mon pote, (mais ou menos “Não toque no meu broder”), como uma bandeirinha pessoal antiracista, meu distintivo. “Pote” era como chamavam os amigos africanos, especialmente aqueles do chamado Magreb, norte da África: Argélia, Marrocos, Tunísia, Líbia… Inesquecível o show na Praça da Bastilha, reunindo estrelas do mundo árabe, de países da África e nosso Gilberto Gil, que tem até canção sobre o movimento. De certa forma, norteei minha vida musical por esses acontecimentos e quis gritar do meu jeito contra o racismo, exaltando a cultura e a música negra.
Hoje, fim da Copa do mundo de 2018, as redes sociais estão cheias de comentários sobre a seleção francesa que venceu a Copa, com jogadores negros de origem não-francesa. Ou seriam franceses, lutando pelo direito de serem reconhecidos como franceses, como nosso amigo do caixote? Essa história toda veio à tona, misturando tudo. Me vi em Paris, com 21 anos, caminhando pelo Quartier Latin de camisa do Brasil, de pileque, depois de sermos defenestrados da Copa de 86, pela França. Lugar errado na hora errada. Me lembrei do meu amado Jardins de Luxembourg, onde escrevi um poema sobre as lindas crianças multicor de Paris, fenômeno novo pros meus olhos cariocas.
Espero que hoje estejamos vivendo um momento crítico, daqueles necessários e radicais, que anunciam uma guinada, uma volta no parafuso. I have a dream, que uma vitória como a de hoje, na Copa de 2018, conquistada para a França por jogadores negros, franceses, refugiados ou despatriados, sirva pra despertar o debate que vai amaciar os corações duros de um mundo que não quer mais se misturar.

54

26/06/2018

Hoje faz 3 meses que parei com laticínios, glúten, álcool, açúcar, ovo e industrializados. E também com o antidepressivo, o analgésico, a cortisona e o antiinflamatório. Difícil? Dificílimo!
Mas há 3 meses eu não conseguia mais andar até a esquina. Vivi os últimos 3 anos, silenciosamente, suportando o insuportável. Dor constante, 24h/dia, por causa de uma lesão de quadril que foi piorando até quase me tirar a mobilidade e a alegria

 de existir. Achei que não tinha mais jeito, que ia ser daquele jeito dali em diante. A saída era colocação de prótese total de bacia.

Eu que amo sambar no pé, que fui bailarina, que amo dançar e ir à praia. Acostumei a ficar na sombra, envergonhada por achar que, sempre, tudo era minha culpa. Me autoflagelei em vão.
No momento em que decidi pedir ajuda, o universo me levou ao @kurotel_ e ao seu staff 

hiper competente e amoroso. Comecei a reaprender tudo com eles e voltei pra casa com o desafio da continuidade. Até este momento, estou honrando o compromisso, e estou cada vez melhor. Exercícios todo dia (ou quase), alimentação incrível e uma mudança que as pessoas reparam e falam: “caramba, sua energia mudou!”

Sim, energia, corpo, medidas, tudo mudou. E continua mudando pra melhor, todo dia.
Mas o mais importante de tudo, e o motivo pelo qual vim aqui contar essa intimidade, é que recuperei a esperança. Nada neste mundo é mais triste que o vazio estéril da desesperança.
Semana que vem faço 54 anos. Me sinto viva, inteira, saudável, dona da minha vida, pronta 

pra sambar no pé, mesmo meio capenga, por muitos anos, cheia de alegria e de esperança, novamente. Renasci. Ainda sinto alguma dor, nada é fácil, não existe mágica, mas tem momentos em que nem lembro do desespero em que vivi nos últimos anos. Qto mais me exercito, menos dor tenho, qto mais cuido da alimentação, melhor fico.

Se vc está ai, ferrado, triste, morrendo de dor, ouça um bom conselho: Seu estilo de vida pode mudar a seu favor. E sim, uma mudança na alimentação pode SALVAR A SUA VIDA! Não
 é impossível!
Tem um monte de gente neste mundo preparada pra te ajudar. Se vc não pedir ajuda, nem a sorte pode te ajudar! Peça ajuda! Boa sorte! Obrigadas mil.

 

Rua Montenegro, 276

08/06/2018

Elas moíam a carne na máquina manual, à manivela, que elas prendiam no canto do mármore da bancada da cozinha. Entravam grandes cubos de carne vermelha, toda limpa, sem nervos, e saía aquela massa uniforme, moldada pelos furos do moedor. Depois de catadas as fibras restantes, a carne voltava pra máquina, muitas vezes, com cebolas em cubos, que iam ficando quase líquidas quando moídas. E depois vinha a pimenta síria, a canela, o coentro em grão moído, o pimentão vermelho, a água gelada, o burgol* que não se deve deixar de molho pra não amolecer demais. E as mãos para misturar tudo. Para servir, a cebola em gomos, as folhas graúdas de hortelã e o azeite para bem regar o quibe cru.

A salada, fatuche, salpicada com o pão árabe torrado na medida pra desmanchar em contato com o suco de limão, o azeite, os tomates frescos, o cheiro verde e o pepino crocante. O segredo era cortar as pontas do pepino e esfregá-las no corte, para tirar o amargo, o leite ruim. A casca ficava, para fazer a digestão.

Couve-flor com taratô, kbebat, ataife, esfihas abertas e queijo com misky. Babahanush, houmus, azeite, azeite, azeite. Azeitonas pretas, carnudas, gordas. Coalhada seca, zahtar, pão papel em dias de festa, chancliche. E mais azeite.

As folhas de uva envolvendo arroz e carne moída com pimenta síria, a capa de filé no fundo da panela, um pouco de massa de tomate, tempo, paciência. Cheiro doce de família e canela, e o Arak do vovô, que enchia a sala com o anis volátil, prontamente turvo ao contato com a água, mágica para as crianças. Pistache, amendoim, terços de âmbar na mesa, bandejas enormes de latão dourado, café no bule árabe, que se deixava pousar antes de servir, sem coar. Tapetes, tapetes e mais tapetes. Unhas vermelhas, música e coisas douradas.

A mesa posta na sala de jantar para os adultos e na sala de almoço para as crianças, com toalhas de plástico.

No quintal de cimento, os tamancos de madeira, o tanque cantando, o varal cheio, as empregadas e o fumo de rolo no cachimbo na hora do descanso, no quarto ao fundo do quintal, em cima da escada torta e caiada. O pente de ferro para esticar os cabelos com henê, as imagens do sagrado coração de Jesus, a nossa senhora aparecida na micro-televisão com luz negra, a foto retocada, muito azul-turquesa, do longínquo casamento na Paraíba. Os uniformes xadrezinhos, o rádio sempre ligado, o pano na cabeça, ave-maria às seis da tarde, a missa de domingo.

No terraço, fiel testemunha da minha história, o piano que mora aqui comigo e me acompanha nesta saga saborosa, perfumada e cheia de amor que é a minha vida. Música, a única síntese possível.

Eu e vovô Jacob na casa da Rua Montenegro,

Feliz Natal!

24/12/2017

Amigo, aí vai uma pequena playlist de Christmas jazz, cantada por mim, para vc ouvir com a sua família e ter uma noite feliz! Tudo de bom pra vc!

Na minha vida sempre houve uma amendoeira. Foi com elas que aprendi a gira dos ciclos naturais de todas as coisas vivas, foi com elas que aprendi sobre o tempo. Na frente do apartamento onde cresci eram tantas, e tão grandes, que, se a gente esticasse o braço, dava pra tocar os galhos que quase entravam pela janela. Elas filtravam a luz e perfumavam a casa em dias de chuva. Os passarinhos cantavam o dia todo, os morcegos morcegavam pela madrugada, jogando amêndoas ruidosas nos capôs dos carros, e a gente acompanhava ninhos sendo construídos, ocupados e desocupados, ano após ano. Quando mudei de casa, as amendoeiras passaram a servir de anteparo para que eu pudesse tomar banho de porta aberta, misturada no verde mais carioca depois do mar, da mata atlântica e do gramado do Maracanã. Dizem que elas vieram lá das Índias. Gostaram tanto daqui que cresceram e se multiplicaram, e foram chamadas de amendoeiras-da-praia.

Aprendi as estações do ano assim: a amendoeira e eu, espelhadas. Ela por fora, eu por dentro. Ela vermelha, amarela e laranja, eu desapegando e desacelerando em meu outono pessoal. Ela pelada e eu calada, hibernando enquanto a primavera não vinha. Aí, ela explodia em brotos e as folhas tenras começavam a desenrolar, e lá vinham as vespas beber o mel da floração, e o cheiro enjoativo do pólen entrava em casa e a esperança brotava no meu coração, ensaiando a plenitude frondosa do verão. Eu, imperdoavelmente jovem, acreditava na promessa das cigarras que cantavam na minha janela, convocando para a felicidade obrigatória e urgente da estação-definição desta cidade: no verão, todos os sonhos se realizarão, os amores virão, as festas serão incríveis, o carnaval será o melhor de todos, a felicidade encantada florescerá no pôr do sol vermelho. Com tudo isso, nada mais importa além de um mergulho no espelho dourado, um mate gelado com limão, uma partida de frescobol.

O Rio cutuca a juventude perene que se esconde em algum canto de nós, como aquele broto de folha que espera sua hora de eclodir. O Rio quer a gente forever young, arrastando chinelos, com o biquini debaixo da roupa, pro caso de dar tempo de dar aquele mergulho rapidinho. Todos os dias, o Rio escancara a sua beleza indecente perguntando: “E você? Vai ficar aí parado, enquanto eu estou aqui, resplandecente, translumbrante sob o ouro do sol?” E a gente ouve e quer obedecer, com eternas saudades das longas férias escolares de verão, das cigarras cantando, dolentes, nas amendoeiras, do corpo moído de sol e de sal.

O Rio deste dezembro de 2017 arde em chamas de diferentes fogos, calores, revoltas, medos, agitos, encantos e fervos mil. O Rio de Janeiro está pegando fogo, sob o sol abrasador do verão implacável que se anuncia, e pelo sangue quente correndo nas veias de quem quer viver esta cidade mais e melhor. São tempos para reerguer a monumental maravilha caída, para devolver o Rio para quem nasceu ou escolheu viver aqui. Espelho de seu povo, a beleza do Rio mora na praia, nas encostas cobertas de florestas, nas águas fartas, no morro e no subúrbio. Belezas diversas, pra todos os gostos. Mas que ninguém se engane: a beleza desta cidade depende, mesmo, é da mistura.

Que cantem as cigarras! É verão na Cidade Maravilhosa!

 Esse sol, porque tinha de tanto brilhar / Anunciar no meu peito o amanhã pra depois sumir / E deixar tão mais negro meu céu, minha noite

salto triplo*

22/11/2017

*escrevi este texto inspirada no show de mesmo nome, que faço com Elisa Queirós e Cacala Carvalho, só com nossas composições.

 

TENHO ASAS, POSSO MUITO BEM VOAR

CRUZAR MIL CORDILHEIRAS E DEIXAR

UMA CORRENTE QUENTE ME LEVAR,

PLANAR SOBRE AS CIDADES, FLUTUAR

DAQUI DE CIMA APRECIO A VISTA E PULO

BRAÇOS ABERTOS PARA A IMENSIDÃO DE TUDO

 

TENHO TERRAS A CONQUISTAR,

SOU UMA AMAZONA CAVALGANDO EM PELO,

DONA DE UM DESERTO DISTANTE E PERIGOSO,

CHEIO DE OÁSIS PARA DESBRAVAR.

PROVOCO TERREMOTOS E ABRO FENDAS

É DO MEU EPICENTRO QUE A VIDA BROTA

 

TENHO SETE MARES A SINGRAR

MERGULHO EM APNÉIA,

PESCANDO PÉROLAS EM CORAIS ABISSAIS,

RAINHA DAS ÁGUAS, SENHORA DAS MARÉS,

SEREIA QUE ENCANTA MARUJOS DO AMOR,

DESÁGUO EM SETE QUEDAS, SALTOS TRIPLOS

E SOU IARA, A DONA DA CACHOEIRA

 

EU TENHO A CENTELHA DO FOGO E ESPALHO A BRASA

TROVEJO, RELAMPEIO E CORTO O CÉU COM MEU FACHO DE LUZ

EU SOU AQUELA QUE CONDENSA E CHOVE,

NASCI EXUBERANTE DO LÓTUS, DA LAMA DOS LODAÇAIS

FEITO UM SOL, RAIO, ME PONHO, RECOMPONHO

E CHEIA DE ALVOROÇO, ALVOREÇO E SOLO

 

AGRADEÇO PELA GRAÇA ALCANÇADA

DAQUI DE ONDE VEJO É TUDO PLENITUDE

TODO PODER E GLÓRIA ME PERTENCEM

CAIO DENTRO DO MUNDO

COM UM SONHO NA CABEÇA, UM SORRISO NA BOCA

E ESSA CORAGEM NA MÃO

 

fim de uma era

22/08/2017

Tristezinha ao saber da morte do Seu Mário, o dono da Mariuzzin… Foi um dos lugares que mais frequentei na vida, quando ainda era na Raul Pompéia. Lembro das noitadas inesquecíveis dos anos 90, ao som do melhor de todos, o DJ Zezinho, e dos longos papos com Seu Mario, encostada no balcão, tomando aquela caipirinha batizada.
Dona Edna, mulher dele, era toda impávido colosso, uma esfinge sentada na porta da casa, com aquele ar de quem saiu de um cabaré hiper-realista, maquiada demais, de peruca, perfume doce e bois de plumas. 


Sempre admirei a forma como se respeitavam, viviam de braços dados, se tratavam com delicadeza, carinho e deferência. Quando ela morreu, chorei por ele.
Agora, os dois são poeira de estrelas e podem passar a eternidade iluminando a noite lá do éter. Assim no céu como na terra. 

 


 

 

Achei esse post no meu velho blog e resolvi rever minhas preferencias, 11 anos depois.

Aqui a lista nova:

20.05.17

What to Wear: vestidos coloridos
What NOT to Wear: poliéster pra sempre
What to Shoe: conforto
What to Bag: não ligo pra bolsa e uso as mesmas há anos. esqueço até as que eu tenho
What to Denim: o que vestir bem
What to Makeup: iluminador, contorno, máscara, batom cor de boca
What to Accessory: pulseiras
What to Jewelry: cristais
What to Fragrance: Chanel Chance
What to Hair: cobre claro
What to Eat: sempre veggies
What to Drink: vinho
What to Bargain: old truths
What to e-Bay: kitchen gadgets
What to Tee: v necks
What to See: documentários
What to TV: documentários ainda mais
What to Listen: inéditas
What to Read: the signs

 

Aqui a velha.

6.11.06
What to Wear: jeans ou preto
What NOT to Wear: poliéster
What to Shoe: sapatos e mais sapatos e mais sapatos lindos!
What to Bag: bolsas que cabem muito
What to Denim: uot? marca?
What to Makeup: delineador, batom e rimel
What to Accessory: anéis irados, de prata ou ouro branco
What to Jewelry: ouro amarelo jamais
What to Fragrance: Clinique Happy
What to Hair: vermelho super intenso
What to Eat: veggies
What to Drink: chá oolong ou caipirinha de absolut pepper com abacaxi e limão e hortelã
What to Bargain: férias
What to e-Bay: discos
What to Tee: daspu
What to See: documentários
What to TV: documentários
What to Listen: bill evans
What to Read: the spiritual tourist

 

 

machismo

07/06/2017

O cara namorava uma gordinha, como eu, que ele julgava “mais largada” do que eu. Como trabalhássemos juntos, de vez em quando, pra desestabilizar a namorada, sugeria que tinha rolado “um lance” entre mim e ele. Lance que nunca rolou. A mulher passou anos achando que eu tinha sido a safada que ficou com o namorado dela, nas barbas dela. E nunca fiquei. Soube disso porque ela me contou.

Esse cara é uó, sempre dois degraus afundado na lama, sempre parece sujo, virado, doidão, desagradável. Nenhuma mulher do mundo merece um homem como ele. Como vive no meio de músicos, tradicionalmente a classe mais machista que conheci na vida, ninguém se importa de ele ser um escroto, é um queridão da galera. Um escroto.

Teve filho com uma, e largou pra lá. Teve outro filho. Que ele vai largar assim que a criança começar a chorar na cabeça dele. Paquerar por hábito é a lei desse tipo de homem. Sempre uma palavrinha safadinha, uma insinuaçãozinha, como se ele estivesse sempre pronto para um sexo selvagem e inesquecível que vc nunca experimentou na vida.

Outro dia entrei sozinha num bar. Lá estava ele, o seboso. Sentei em outra mesa. Ele virou pra falar comigo, sorrindo, como se eu talvez não tivesse visto que ele estava lá. Mas eu tinha visto. E não falei com ele porque ele é um escroto.

A verdade é que tinha falado com ele outras vezes, mas me dei conta do meu machismo, da minha própria falta de decência e de senso de coletividade e respeito por mim mesma e pelas outras mulheres, e decidi parar de ser legal com ele e com todos os outros desse tipinho. O machismo que a gente engole, sublima, justifica, multiplica e apoia é o mais nocivo, porque credencia o cara a continuar, com aval de mulher. To de olho em mim mesma, a cada minuto, tentando aprender a ser uma mulher melhor.

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