hoje encontrei com três pessoas amigas que falavam ao mesmo tempo, o tempo todo. nenhuma ouvia a outra, mesmo, aparentemente, estando interessadas e adorando umas às outras.

na sala de espera do dentista, um rapaz comentava sobre uma linda praia deserta em Pernambuco e uma louca interrompeu a conversa, dizendo que conhecia a Bahia (?!) e que lá, sim, tem as melhores praias desertas do mundo. nem deixou o cara acabar de falar, contou a viagem dela toda, as praias que conhece, onde passou as férias na infância e foi embora, deixando aquele silêncio retumbante no ar.

eu estava mancando. uma pessoa reparou e me perguntou o porquê. mal comecei a explicar, na minha terceira palavra, fui atropelada pela descrição dos diagnósticos de todos os problemas de joelho, quadril, bico de papagaio, tornozelo, e um pouco da menopausa que a está deixando louca. saiu sem saber o que tenho.

estou me sentindo acuada e oprimida pela falta de educação, de alteridade e de gentileza dos cariocas. esta cidade é um amontoado de narcisos metidos a simpáticos. não é à tôa que adoram o profeta gentileza, um cara mega grosseiro e antipático, que nunca praticou o que pregou. IMG_4048

a luta

26/01/2016

a primeira vez em que meu nome saiu no jornal, como cantora, foi em 1983, mais de 30 anos atrás. mas considero o começo oficial da minha carreira, dedicida, escolhida, no ano de 1987. Foi lá que decidi que aquela apresentação que eu já fazia havia anos, a partir daquele momento, passaria a ser um show. mudou a perspectiva, tamos aí. não é fácil, em verdade vos digo, não é fácil. aqui comigo mesma tenho mil contas pra fechar, todas bem pessoais e que, certamente, não se resumem a aparecer na TV ou tocar na novela. muito, muito além…

não gosto de reclamar,  mas tenho reclamado, nao sei se é da idade ou se as coisas estão péssimas, mesmo. mas me esforço pra não reclamar, nem pra fora, nem pra dentro. tento, como me sugeriu minha irmã, focar no que tenho e não no que não tenho. e quando vejo um artista se referindo ao seu trabalho como uma  luta, me pergunto se essa não é a deixa pro cara mudar de ramo. se aquilo que se faz por dom, necessidade e prazer vira uma luta, um drama, um sofrimento com o qual se precisa conviver, sentindo dor, nao seria a hora de parar? quanta tristeza e desilusão são necessárias pra um artista decidir parar? por que é tão difícil desistir do que está ruim? o artista é quase sempre como o amante que vive na esperança de seu amor, enfim, dar-lhe o devido valor.

balanço

31/12/2015

a coisa que uma cantora mais deseja é conseguir continuar cantando, apesar do mundo. não canto pra agradar ninguém, não canto pra ficar rica ou famosa, não canto pra causar, não canto pra ser diva ou pra ser idolatrada. eu canto pra cantar. porque sinto que dentro de mim tem uma fonte de onde brota uma energia ininterrupta, e cantar é como um chafariz, que projeta pra fora de mim o que nasce lá dentro, numa lógica caótica, que mistura sons e palavras e sensações. o negócio jorra, e aí é preciso cantar. só a música pode carregar essa corrente pra fora de mim. é simbiose, eu vivo dentro dela e ela vive dentro de mim. terror e êxtase. 
 
tenho uma lista interminável de desejos e projetos profissionais, tenho muitas lindas ideias, tenho discos pra gravar, shows pra fazer, lugares pra visitar cantando e velhos sonhos amarrotados no fundo da memória. sempre será necessário um convite, parcerias, dinheiro, patrocínio, ajuda, reconhecimento e oportunidades. ninguém faz nada sozinho e sem grana. não tenho padrinhos, não tenho parentes famosos, não tenho dinheiro. nunca, em 29 anos de carreira, um jornalista de música foi me ver cantar. e eu cantei sem parar nesse tempo, sem descanso. gravei cinco discos solo e cinco discos e um DVD com o Arranco. gravei e fiz shows com um monte de gente famosa, cantei acompanhada dos melhores músicos deste país, nas melhores casas dentro e até fora do país. mas em 2015, todas as portas se fecharam pra mim e nao consegui realizar quase nada. eu resisti, porque eu sempre resisto, porque sem cantar eu nao sou. estou previamente combinada comigo mesma que fazer música não pode estar vinculado à sordidez desse mercado excludente e dessa cena musical pífia.
 
por mais bobo que seja, a gente não escapa! fim de ano chega e a gente bota as coisas na balança pra fazer os ajustes da caminhada. das poucas coisas que 2015 me deu, a melhor foi continuar trabalhando na casa de música mais profissional desta cidade, acompanhada pelos meus fieis escudeiros de ouro, cantando para minha plateia atenta, sensível, apaixonada por música. quando a gente perde quase tudo, a gente aprende a valorizar o que tem. e por isso contei essa história toda, pra dizer que os elos dessa corrente se fortalecem com vocês, com seu aplauso e sua presença. por isso sempre serei grata por vocês me darem a honra de cantar para vocês. obrigada. 
que seu novo ano seja leve, de alegrias e paz e cheio de saúde, prosperidade e amor!
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a cantora mascarada

27/11/2015

minha identidade secreta

só falta vc me curtir!

a vida eterna*

19/11/2015

não tenho religião. não creio em deus-pai. mas sei que somos corpos energéticos, geradores de energia. acredito na dispersão das partículas e que a energia sempre se transforma, sem se extinguir. ondas sonoras, pensamentos, movimentos, efeito borboleta. é tudo tiro no éter que, uma vez disparado, não para nunca mais, infinito afora. isso pra mim é a vida eterna de verdade. quando morre alguém querido, gosto de pensar que a pessoa virou uma poeira cósmica, cuja energia ainda circula por onde circulo, enquanto ainda estou neste corpo. quando não estiver mais, também quero rodar por aí, salpicando o universo com o pó da minha estrela. somos todos carbono, como o diamante.

se tudo correr bem, pessoas vão lembrar da gente, para o bem e para o mal. engraçado pensar em que momento alguém dirá: “ah, isso é a cara dela!” ou “ela adorava isso”, ou quem dirá “ai, que saudade que me deu do jeito dela rir”, enquanto viaja numa velha imagem guardada, numa lembrança boa, num cheiro. todas as pessoas morrem, mas a gente vive enquanto for lembrada com carinho. e é a isso que eu chamo de eternidade, fazer parte da história das nossas pessoas, estar no coração delas, como uma luzinha daquelas de não deixar o corredor escuro, à noite. sem ninguém saber, a gente lembra da pessoa, do jeitinho dela, de uma coisa que ela teria dito e, assim, ela continua viva dentro de nós. um dia tudo isso reverterá ao pó. e, quem sabe, o amor que sentimos e vivemos, quando for a hora da nossa transmutação, possa também se reciclar e fertilizar a terra?

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*pro tio Marun. agora, poeira de estrelas .

parece que os dias de ventanias quentes revolvem velhos sentimentos. Já escrevi isso, há muitos anos. E como é verdade pra mim, estou aqui, toda mexida, ouvindo Nancy Wilson cantar The very thought of you, num link que a grande cantora Aurea Martins, minha amiga, que admiro demais, dedicou a mim e à Ana Costa, outra cantora que admiro e curto muito. Somos três cantoras brasileiras.

Áurea nos chamou de guerreiras, e eu, nesta noite de vento quente, com o lodo do fundo revolvido, estufei o peito achando bom, muito bom. Ser uma guerreira nesta guerra santa, brigando exclusivamente para continuar cantando neste país de surdos, sem padrinhos, sem dinheiro, só com o amor no coração, é a luta da minha vida, my quest, diria Dom Quixote, minha lei, minha questão. E da Áurea. E da Ana.

Então, deixo pra vocês o video Áurea, guerreira mór, conselheira perspicaz, que no dia do lançamento desse micro-documentário, ensinou: “Eu sou de fazer. Sem fazer, a gente não consegue nada, nem fracassar”. Me vejo aí, rio e choro, e peço aos deuses que me dêem a sorte de uma carreira longa e linda como a dela.

queria que fosse de novo carnaval e a gente estivesse tomando porradinha de Fanta laranja com Velho Barreiro, no Varandão, fazendo um vira-vira que a gente nem sabia que era tão perigoso e tão sexy. e que a gente estivesse escolhendo que roupa vestir no baile de carnaval e, depois, dia amanhecendo na Serra, a felicidade de listar os beijos em bocas cujos nomes nunca soubemos: surfista, lourinho, moreninho, mineiro…

e queria de novo sentir o jato gelado do éter entrando pelas narinas e batendo no teto do crânio, em cima daquela moto na madrugada fria, zzzzziiiiiimmm, zumbido e gargalhada, “‘caraaaalho, vou decolaaar!’. ou então voltar àquele dia em que o cheirinho da loló foi calibrado pelo amigo químico e a gente ficou na lua, projeção astral e o escambau, pelados na cama, rindo de nós mesmos e do susto que levamos. ou então entrar naquele avião rumo ao Recife, pra reconhecer meu amor galego dos óio azul e casar com ele no hotel muquifo do centro velho da cidade.

queria estar ensaiando a música pra entrar no meu primeiro festival. tocando um violãozinho tosco, toda compenetrada, subindo no palco da escola de macação branco, que recém cabia em mim, e levando meu primeiro prêmio de cantora pra casa, e acordando a minha mãe: “tá vendo? ganhei!” queria de novo estar atravessando a Ponte, indo gravar meu primeiro disco, toda a estrada do sucesso à minha frente

queria estar passando sombra preta com glitter, pra ir dançar numa discoteca, de salto 12, ou então estar calçando os patins pra ir ao Roxy Roller rodar rodar rodar naquela gira. ou ir ao Disco Voador fazer playback pra 10 mil pessoas ou cantar mais uma vez pro mar de gente no Reveiilon de Copacabana.

queria estar recebendo aquele ursinho com a carta de amor no bolsinho do macação. Ou um milhão de eu te amos escritos num micro rolinho de papel, que ele cuidadosamente enrolou e guardou dentro de uma sapatilha rosa de biscuit. queria ser bailarina de novo, um milhão de pliés todos os dias e depois a rotina do tap, passo a passo, time steps. então, eu escreveria em tinta branca, novamente, um Eu te amo gigante, no meio da rua Estelita Lins, de madrugada, de forma que ele acordasse e quando abrisse a janela, visse o meu amor escancarado no asfalto. queria chegar na aula de canto e encontrar toda a fachada do prédio do professor coberto por uma tira de eu te amos e “boa aula, meu amor”. queria o fim de semana na Serra, ouvindo Pat Metheny e vendo Jacques Cousteau sem som. e comendo pipoca e tomando vinho de garrafão e fumando maconha e fazendo amor, over and over and over.

queria tudo de novo. não por nostalgia, mas porque eu gostaria de zerar essa desilusão, construir os sonhos e confiar no porvir, na potência, no destino, na sorte, no amor. aquela alegria que não cabe no peito nem no sorriso, só porque sim. e ter mil planos de viajar, de fazer turnês internacionais, de morar fora, fazer sucesso no Brasil, ter filhos, ficar rica, comprar uma casa cercada de jardins de inverno, fazer minha viagem dos sonhos, num 4X4, de mapa na mão, pelo interior do Brasil, e encontrar um grande amor cúmplice parceiro, em quem se pode confiar de olhos fechados. tudo isso, só porque a gente acredita que nasceu com uma estrela brilhando na cabeça e tudo, tudo vai dar certo.

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nós, os exilados

25/09/2015

tempos pesados. apartheid social no Rio, a verdadeira face do carioca aparecendo, o mito do brasileiro gente boa, cabeça aberta, por terra.  somos caretas, ignorantes, tementes a autoridades religiosas e ao bicho papão. o fundamentalismo desponta impedernido e bravo, prometendo mais alguns anos de escuridão pela frente. mal colocamos a cara pra fora, depois de anos de chumbo, e lá vêm eles, os neonazistas, os milicianos “do bem”, com seus assassinatos de meninos, sua chacina de índios, sua defesa da falida família tradicional, sua exploração predatória da natureza, seus lucros exorbitantes e seus celulares que valem mais que mil vidas de pretos pobres.

hoje as trevas deitaram sobre o país, com o Estatuto da família. se eu fosse homossexual, pensei, pedia exílio agora, e sumia de um país que não me enxerga, não me quer, não me respeita. não ficava pra perder essa guerra e ia existir em outro terreiro. raiva.

da mesma forma, me sinto rejeitada, mal amada e desprezada pelo meu país. infeliz e cansada com as portas que nunca se abriram pra mim, desprofissionalizada em dose dupla, envergonhada. ando visitando meus porões escuros, pisando no lodo do fundo do meu poço, refletindo e chorando muito por mim, pelo Rio, pelo Brasil. ando tomada dessa tristeza universal, querendo dar as costas pra terra que amo e que não me quer, sem ter como.  

Ai lembrei da Síria, e dos refugiados que preferem arriscar a vida a continuar na sua pátria amada. doeu aqui.

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o piano

21/09/2015

Tinha piano na casa dos meus dois avós. desde pequena eu me trancava na sala onde ficava o piano e mandava ver. tocava aleatoriamente, em momentos de fantasia e entrega, como se soubesse tocar. tentei estudar sozinha por um método, e poderia ter começado ali, mas nao tive incentivo. pedi pra estudar piano mas, a minha mãe, traumatizada por ter sido obrigada a se formar no conservatório, não deixou. então, dei meu jeito. peguei um violão que tinha sido da minha irmã, e venci o coitado pelo cansaço. tinha eu 14 anos de idade…

insisti, aprendi umas músicas da moda, fiquei feliz, fiz umas canções, mostrei pros amigos, entrei em festivais, ganhei e perdi e, quando vi, aquilo tinha virado a minha vida. quando fiz 16 anos, minha mãe me deu um violão de verdade. mas nunca soube tocar direito, embora tenha começado assim, tocando violão e cantando em bares, nos intervalos de outros artistas, até achar meu próprio lugar.

anos depois, já cantora e adulta, fui estudar piano e me dediquei totalmente a recuperar o tempo perdido. estudei muuuito, muito, mesmo. anos e anos praticando loucamente. hoje, o piano que tenho em casa é o que meu avô mandou vir pra minha mãe estudar nele. e, assim, fizemos as pazes com o destino do piano, com a música na família e com meu sonho. nunca toquei como gostaria de ter tocado, mas isso não importa. ser cantora é um encanto que nunca se esgota.

o primeiro trabalho que fiz, como cantora, foi de vocalista de um cantor, já falecido, chamado Robson Teixeira. Ele fazia um trabalho autoral que seria incrível até hoje. Pop rock anos 80 com influencias de bandas bacanas europeias. A primeira vez que meu nome apareceu no jornal, como cantora, foi em 1983, justamente num show dele, num local chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza.
Esse cara foi um guru pra mim. Mais velho, gay, casado, viajado, culto, me apresentou um mundo sem mimimi, sem frescura, sem preconceitinhos, cheio de novidades incríveis, de zen budismo, de pão feito em casa, de miles davis e amigos. Éramos vizinhos, em Ipanema, e eu e os músicos vivíamos na casa dele, dia e noite, usufruindo da liberdade toda que não tínhamos nas casas dos nossos pais. A gente tinha menos de 20 anos de idade…
A banda que tocava com ele era de músicos que hoje são profissionais top de linha, todos muito jovens, Glauton Campello, Alexandre Carvalho, Kadu Menezes, Felipe Reis. E foi com eles que comecei na profissão, ensaiando no “Tijucão”, casa alugada pela galera pra usos musicais e sócio-recreativos de todos os tipos.
Tenho as melhores lembranças desse momento da minha vida, e só me lembro do meu guru dizendo: “bonita, vc precisa enlouquecer, enlouquecer muito!” Tinha toda razão! E mesmo depois de todos esses anos, querido Robson, ainda não enlouqueci o suficiente.

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saudades

14/09/2015

quando eu comecei a cantar, havia a tal da “fita demo”, de demonstração. Era com essa fita que a gente vendia shows e divulgava o trabalho. Rolava até arte pras capinhas das fitas k7, pra dar um jeito de sobressair naquela pilha de fitas que os programadores de casas de shows e rádio e TV recebiam.

gravar um disco era uma coisa dificílima, pois não havia soluções caseiras tão acessíveis e eficientes antes dos PCs. Logo depois, vieram as soluções digitais como o dat, adat, md até chegarem os computadores. e o resto da história vcs sabem onde deu.

na minha primeira fita demo, gravei Serrado, do Djavan. Cismei que tinha que pedir licença pra ele, pq eu nao entendia bem como funcionava a coisa de liberação de direitos e, um pouco pela ansiedade juvenil e um pouco pela paixão, liguei pro escritório dele e deixei recado.

numa manhã, minha mãe vem me acordar: “Andréa, acorda, é o Djavan no telefone!” E eu: ãhn? Djavan? Tá louca?” Acontece que eu tinha um amigo, o Rostand, que sabia do meu amor pelo Djavan e adorava brincar com isso. Numa viagem de fim de semana, quando fui lavar o rosto ao acordar, dei de cara com uma fotona do Djavan, pregada no espelho com um mega “Bom dia, Déia!”, cheio de coraçõezinhos…

Atendi o telefone rindo: “Fala, Rost! kkkk” E ouço de lá:
“Oi, Andrea, aqui é o Djavan, vc me ligou?” A voz de meu-bem-querer não deixou dúvidas. Era ele! Gravei a demo, encantada e feliz.

Ontem fui cantar num show com músicas do Djavan, e passei o dia chorosa, com saudades do Rost, que nos deixou cedo demais. E aí, também lembrei que o a única música do Djavan que gravei, em disco, foi A ilha, por sugestão de outro amigo, o Sylvio de Oliveira, que também nos deixou há um ano, exatamente. Estou morta de saudades dos dois nessa segunda chuvosa.

Aqui vai então uma homenagem a esses três homens que amo demais, Djavan, Rostand e Sylvio. Com mil obrigadas por todo amor e música que me provocaram.

 

insulto ao comum

04/08/2015

desde muito nova, quando comecei a me deparar com as dificuldades da carreira (e o que sabia eu sobre dificuldades?), eu já achava a coisa mais feia do mundo ser músico ressentido, reclamão, gênio incompreendido. sempre achei que quem escolhe não pode reclamar do que escolheu.

tem muito músico que confunde arte com milagre e se acha melhor que os outros porque tem o dom da música. sempre fiz questão de deixar claro que não acho isso, que acho que todos temos um dom e que o mundo precisa de todos. o que seria do mundo sem pontes, sem dentistas, sem pintores de parede, sem cozinheiros? a diversidade colore o mundo, tem gosto pra tudo.

o outro lado desse engano comum vem justamente do olhar do leigo que acha o músico um deus afortunado, um ser especial a quem foi dado o direito de viver “se divertindo”, de “não trabalhar”, como se trabalho fosse, necessariamente, uma obrigação abominável, destinada somente aos reles plebeus.

a batalha na música é muito diferente do romantismo e da poesia que os leigos vêem, embora inclua romantismo e poesia. mas também inclui abandono, desespero, falta de perspectiva, falta de estímulo, solidão, falta de grana e medo. para cada estrela pop que anda de carrão e ganha milhões, existem centenas de músicos como eu, mortais, que não ganham dinheiro, nem fama, nem reconhecimento público, nunca ou quase nunca.

esperar que o mundo tenha um atenção especial para dar aos artistas me parece um engano. eu acho que a arte tem que pertencer à vida, ao cotidiano, à formação do ser humano, assim como a matemática e a geografia de cada dia. a arte deveria ter esse mesmo privilégio, mas não tem. ninguém ensina música na escola como uma possibilidade de profissão. é sempre um hobby, uma diversão. é assim, nesse viés, que começam as distorções que culminam na crença comum de que todos os músicos são vagabundos e maconheiros e que música não é trabalho. porque ela diverte quem escuta e quem faz.

talvez, nesse padrão capitalista infernal, onde as relações de trabalho servem para tornar o patrão feliz e rico e todos os outros, escravos, escolher e ter prazer no trabalho seja um insulto ao comum. mas não é possível ignorar toda a cadeia produtiva envolvida na música que o mundo inteiro consome o tempo todo. milhares de rádios, de playlists, de canais de música, de CDs, DVDs, shows, festas, bares. tem música até no elevador. e por trás disso tem gente. muita gente.

tá tudo errado nesta sociedade, isso é óbvio. quem nasceu pronto pra se adaptar ao moedor de gente que é esse modelo de relação de trabalho e consumo capitalistas? jogo a toalha, será que é porque sou artista?

tenho quase 30 anos de carreira, cinco discos lançados, e canto nos melhores lugares, com as melhores pessoas. 90% das vezes, trabalho de graça ou quase. se isso não está errado, me corrija. ou será que vou passar o resto da vida pagando pelo pecado de fazer aquilo que nasci pra fazer, que me dá prazer, sim, que me faz feliz, sim e que faz muita gente feliz, sim?

hoje, aos quase 30 anos de carreira estou, enfim, reclamando. me sinto incompreendida, abandonada, estou ressentida e com muita raiva. hoje, pela primeira vez, um post vai ao ar sem imagem. hoje não quero beleza nenhuma.

melhor não tê-los

24/07/2015

Não que eu não quisesse, não que eu quisesse. Foi a vida. Eu queria ser cantora. E ser cantora era uma estrada florida, que me levava ao infinito sem dia pra voltar, pra desbravar mundos desconhecidos, a bordo de estranhas naves. E pra isso eu tinha que estar sem bagagem. Eu queria ser cantora.

Muito nova, fui ao médico e comecei a tomar pílula. Anos e anos, sem ninguém saber. Me apaixonei, muito. Namorei namoros longos e apaixonados. Mas na hora de escolher ficar ou ir, escolhi ir. Pra cantar, desbravar algum lugar. No meu campo de visão tinha sempre um barzinho e um violão. Sempre uma roda de música, um festival, pessoas e mais pessoas. Uma aula de canto, uma apresentação, um palco, uma gig, mil coisas que eu nem sabia que existiam, tudo por fazer, sempre quis tudo.

E, também, fui quase sempre infeliz no amor: grandes encontros e histórias desacertadas. Jamais tive um homem com quem eu quisesse ter um filho. Eu, aturdida com tantos quereres de coisas e gentes e lugares e liberdade. De forma que, quando me pediram em casamento pela primeira vez, com esse sonho de família, me imaginei presa do lado de dentro duma porta de cofre de banco, blindada, protegida por um segredo inviolável, vendo o saboroso mundo passar lá longe, pelas grades da janelinha da minha cela. E assustada eu disse não.

O tempo passando, eu cantando, a ideia sempre lá, na cadeirinha de pensar do porvir. Por dentro, fiz lista de nomes, idealizei maneiras de educar, conviver, brincar. Mas toda vez em que eu pensava nas mochilas de marca, nos tênis, nos gadgets, eu desistia. Cantando não vai dar pra comprar o videogame da moda. E, pra mim, filho sempre é filho da mãe. Pai é uma hipótese que, em 70% dos casos, se apaixona por outra, quando fica meio sem espaço na casa, logo que a criança nasce, e só se interessa de novo, quando a criança começa a falar. Numa dessas, vai morar em Botucatu com a namorada nova e manda 100 pratas por mês, quando lembra. Os que ficam são raros. E tem aquilo, né? A cena em que jamais me vi: eu botando criança pra dormir e o cara tomando cerveja na Lapa. Não dá pra mim. Eu também quero tomar cerveja na Lapa.

Aí pensei que qdo eu tivesse dinheiro, ia ter filho sozinha, com um amigo gay, um vizinho, inseminação. Mas cada vez que pensava que eu nunca mais ia poder virar uma noite sem hora pra voltar, e que nunca mais ia poder dormir o dia todo ou viajar e me apaixonar por um nativo e ficar mais uns dias, eu postergava. Imaginava a vida efervescendo e eu bloqueada pela maternidade, desmulherizada, santificada e chata. Not yet.

O ponteiro do tempo, essa verdade irrefutável, apontava pro vermelho. A luz piscava. Mas já? Quando fui morar com meu namorado, autorizei meu melhor amigo a me impedir de ter filhos com ele. Quando vi que tinha ficado casada muito mais tempo do que imaginaria ficar, aos 45 do segundo tempo, pensei em ter um filho com ele. Mas a vida deu aquele olé e ele teve filho com outra. Ah, os deuses e suas ironias… Destino de filha de Nanã, disse a mãe de santo.

Sofrendo horrores, me permiti fazer as perguntas mais cruéis: ter filho por quê? Tem que ter filho? Todo mundo tem que ter filho? Adotar é uma opção? Uma mulher só é completa se tiver filho? Como vai ser ter 50 anos e me ver sem filhos? Ter 70 e não ter netos? Ficar velha sem filhos pra cuidar de mim?

O alarme disparou, me olhei no espelho: escolhe agora! Quer ou não quer? Sem fazer drama e sem adiar o drama: quer ou não quer? Quem me conhece sabe que faço o que quero, sem precisar de ninguém. Vou lá e faço. Mas não sou irresponsável. E cada vez que eu olhava minha conta bancária e, mesmo assim, reafirmava os laços com a realidade que eu escolhi viver, eu perguntava: cabe um filho nessa escolha? Eu sabia que se fosse pra bancar escola, skate e bicicleta, eu ia ter que inverter as prioridades e cantar nas horas vagas. Pra ter um filho, queria au grand complet, com tudo que tinha direito. “Então você não quer ter filho”, diziam as mães extremosas, “quem quer ter filho não pensa em nada disso e tem”. Eu pensei. E nunca consegui me ver dizendo coisas tipo “depois que a gente tem filho, a gente não escolhe mais, “nunca mais dormi, nunca mais comi”. Nunca achei a menor graça nisso.

Cheia de amor no coração, ah, um bebezinho, um filhote, um ser pra acompanhar de perto e ver crescer, pra melhorar quem sou, pra povoar o mundo de gente legal, pra me humanizar… muitas vezes chorei sozinha agarrada à dureza da passagem do tempo, vendo o meu juízo final se aproximando e pensando que não, essa eu não seguro sem grana, essa não seguro sozinha e nem vou voltar pra casa da mamãe, com um filho debaixo do braço. E, sobretudo, não vou abrir mão da minha carreira da forma que eu quero que ela seja. Não cantar nas horas vagas, mas ser realmente, integralmente, fulltime, cantora. Xeque-mate.

Você não está sendo egoísta?, me perguntaram mil vezes. Ora, egoísta é quem tem filho pra dizer que tem, pra atender à expectativa da sociedade, pra posar no porta retrato, pra ter companhia, pra ter alguém pra chamar de seu. Egoísta é quem tem filho sem ter maturidade, sem poder, à tôa, com qualquer um. Vejo um bando de pais oprimidos pelos filhos, pais surdos, autocentrados, impacientes, desinteressados. Filhos solitários, perdidos, sem afeto e escuta, sem intimidade com os pais. O mundo estaria muito melhor sem eles. “Ah, mas você fica presa e feliz!” Eu poderia realmente amar ser mãe e ter filhos, mas presa e feliz, não. Nunca ficarei presa e feliz. Eu sou cantora. Todos os sonhos do mundo eu troquei por esse. Chorei muito, mas fui corajosa e sincera nas perguntas que fiz a mim mesma, e dizia, no espelho: se você quer ter filho, tenha! Simples assim, ainda dá tempo! Pra não passar a eternidade arrependida, lamentando não ter feito a escolha quando era possível escolher. Qual o quê…

Cada vez que eu pensava em ter que acordar a criatura sonolenta, às 6h, pra botar pra escola, durante anos intermináveis, ou num adolescente deprimido intransponível ou naquele filho adulto frustrado, infeliz como a maioria, se matando pra pagar aluguel, sem orgulho da própria vida, sem eu ter nada além de amor e música pra dar, eu tinha certeza de que não, não queria ter filhos. Sacanagem jogar alguém no mundo pra viver nesta selva.

Até arrisquei, sem empenho, engravidar de um namoradinho que também queria, sem muita convicção. Não rolou. Investiguei sobre adoção e inseminação e cheguei a falar sobre isso com um amigo, um peguete e tal. Mas na hora H, não fui em frente. Até que, dores vividas e curadas, aceitei a realidade. É, não deu pra ter filho. Não que eu não quisesse. Não que eu quisesse.

Eu escolhi. E não, não vou gerar filhos. Vou amar minhas afilhadas e seus filhos, minha sobrinha e seus filhos, se tiverem. Vou amar os filhos do caminho, dos amigos, amar meus amigos e família, vou cuidar de quem a vida me pedir pra cuidar, vou ser maternal na hora que precisar. Meu coração está aberto. De vez em quando sinto uma tristezinha por não saber como é ter esse laço de amor com alguém. Mas tem muitas coisas que a gente nunca vai experimentar, mesmo. Me emociono, amo bebês, amo crianças e elas me amam. E que bom que o mundo está cheio delas! A emoção é o movimento da vida.

Tem uma coisa que eu não sabia: com o tempo, as perguntas silenciam e a gente fica em paz. A vida segue em frente. Escolher é o nosso maior poder. Mesmo cheia de conflitos humanos, eu fiz uma escolha e assino embaixo. E aquela velha estrada continua florescendo, cheia de múltiplos infinitos…

2015-07-06 04.29.28

Era um belo dia de sol no bairro carioca do Leblon, que fica na beira da praia mais calma da cidade, menos badalada, mais vazia. Fui encontrar um amigo. Fazia sol de verão em pleno inverno, temperatura alta, mar perfeito. Levei duas tangerinas numa sacolinha, uma para cada um de nós. Conversamos, mergulhamos, o mar subiu molhando nossas coisas, a canga ficou cheia de areia. Peguei na sacolinha, lembrei da tangerina, peguei uma pra mim: um estouro. Meu amigo não quis a dele. Coloquei as cascas e bagaços na sacola e joguei no lixo. Sobrou uma tangerina.

Eu havia estacionado a minha bicicleta ali perto e pretendia dar a minha pedalada habitual até o Arpoador, onde paro a bike e parto para minha caminhada pela areia, de frente para o sol e para a paisagem mais linda do mundo: o Morro Dois Irmãos ao entardecer. A sacola foi pro lixo, eu estava sem bolsa. Só carregava a pochete daquelas de montanhismo, onde cabe a garrafa de água, um documento, um chapstick e o dinheiro da água de coco da volta. O que fazer com a segunda tangerina, que eu não queria comer e não tinha onde colocar?

Agosto é um belo mês para as tangerinas: mexeriquinhas pequenas, pokans enormes de polpa meio ressecada e casca solta, mil tipos… Minha favorita é a murkot, aquela de casca agarrada na polpa, hiper suculenta, doce e carnuda. Na hora em que mordo um gomo de tangerina, quase acredito na existência de deus. Comprei muitas, minha casa está um showroom de tangerinas. Nesta época do ano, há cascas de tangerina espalhadas para secar, ao sol, nas janelas. Seco as cascas para fazer mil coisas. Uso para aromatizar a água básica do chá, uso ralada no tempero de peixe e frango, uso no purê de abóbora. As folhas, eu seco, guardo e uso muito, muito mesmo, durante todo o ano, em receitas que vou inventando na hora. Bolo de tangerina com casca e tudo é delicioso. Sopa de shiitake com folhas de tangerina. Frango assado no suco de tangerina é demais, casca de tangerina glaçada é o que há, filé de peixe assado com folhas de tangerina é “exquisite’. Isso tudo para explicar o quanto eu amo tangerina e o quanto acho que ela é a vedete da estação.

Mas o que fazer com a tangerina que sobrava? Olhei em volta e pensei: é fácil! Vou oferecer praquela ali, qualquer um vai querer. “Moça, vc quer uma tangerina?” Ela secava o corpo com a toalha, olhou, sorriu: “Não, obrigada”. Ao lado dela, um trabalhador, de macacão, descansava à sombra do quiosque. Quando cheguei perto dele para oferecer a fruta, ele nem me olhou. Foi logo balançando a cabeça em negativa e acenando com o dedo do não. Tangerina nem pensar. O rapaz que trabalhava no quiosque também não quis. A moça que passava nem me deixou explicar, passou direto, me evitando. Me senti a bruxa da Branca de Neve oferecendo uma maçã envenenada aos transeuntes. Por diversão e teimosia, decidi tentar até que alguém aceitasse minha doce e deliciosa tangerina. Nada. Todo mundo com medo, passando direto por mim, me olhando como se eu fosse dar a tangerina e pedir alguma coisa em troca. Eu só queria dar uma tangerina doce deliciosa e perfeita para alguém e ninguém queria. Eu ria. Dois surfistas riram, achando tudo estranho: não, obrigada. Um guardador de carros declinou: acabei de comer um doce. Um senhor que caminhava rapidamente entendeu meu drama, mas também não quis. Dois pescadores não quiseram, mas um deles disse: “obrigado pelo seu bom coração”. Por fim encontrei um homem sentado numa cadeira, ali ao lado do quiosque. Moço, vc quer essa tangerina? “Ô, meu deus, que sorte, que maravilha, não poderia ter aparecido em hora melhor, sou louco por isso!” Pegou a tangerina, levantou e começou a descascar a bela fruta, feliz da vida. Um outro, vendo a cena, disse: “Da próxima vez traga duas, eu também adoro, vou ficar na vontade”…

Moral da história: a sua tangerina pode ser a mais doce, mais perfeita, a mais deliciosa do planeta. Você pode estar oferecendo a sua linda tangerina de graça, com um sorriso nos lábios. Mas nem por isso você vai encontrar alguém que a queira. Isso também acontece com a gente, com nossos sentimentos, com as coisas que temos para oferecer para os outros e para o mundo. Nem sempre somos compreendidas, aceitas, queridas e desejadas. O que não significa que o que temos para dar não é bom. Às vezes, demora para encontrar quem queira nossa tangerina, mas isso não quer dizer que seja melhor a gente tentar oferecer maçãs, quando maçãs não estão no cardápio. Demora, mas quando a gente acha quem realmente aprecie nossa doce tangerina, a gente entende o sentido da vida. A gente entende o porquê da nossa barraca nessa feira moderna…
SAM_0571

 

*post publicado originalmente no primeiro endereço deste blog, não sei exatamente quando. escrevi quando a minha afilhada mais velha, a Ju, terminou um namoro e ficou arrasada pq o menino não queria mais ela. Lembrei do texto agora pq minha afilhada 2, a Mari, também terminou um namoro e tá arrasada. As minhas meninas, não! Se soubessem como são lindas!

turistas

08/07/2015

“Se cada pessoa plantasse uma frutífera na frente de casa, crianças poderiam comer frutas todos os dias, sem precisar comprar. E assim cresceriam saudáveis”, diz o ministro da igreja em que entrei pela primeira vez por curiosidade. Fui entrando, senta aí, ele disse, rabiscando uma fileira de casas e árvores em perspectiva infinita, ponto de fuga no horizonte. Filósofo, teólogo, culto e apaixonado pela lógica. Duas horas de conversa sobre os mistérios do mundo, eu e o ministro da igreja que atravessou meu caminho. “adoro que me perguntem, ninguém nunca me pergunta nada”, diz ele desenhando, num papel, estranhos gráficos para ilustrar respostas.

O ministro me disse que são necessários um bilhão de antepassados para eu ser eu, e por isso, de certa forma, carrego todos eles nas costas. Uns me empurram pra frente, outros me puxam pra trás. Uns inspiram, outros sufocam. Uns sopram divinos dons, outros pedem por um bom cigarrinho e marafo. Acho graça, não tenho religião nenhuma. Sempre tem os que ascendem e os que preferem ficar por aqui mesmo. Quero uma religião sem deus. Deus é a maior invasão de privacidade que há. O olho que tudo vê. Não. Não quero religião nenhuma.

Música já faz as vezes disso tudo na minha vida. No palco, rezo. Lugar comum, dirão. Mas todo mundo repete isso porque é isso mesmo. Cantar de verdade, sem fazer pose, se entregar a uma música, junto com músicos que estão no mesmo transe, pra uma plateia que está na mesma faixa de frequência é uma sessão de descarrego acompanhada de um passe e uma bênção. Até o sangue afina, a linfa flui, o hipotálamo se equilibra e o timo cresce. Equivale a rezar, se iluminar e encontrar deus. Tudo a mesma coisa.

Em Copacabana, isso de plantar frutíferas pra cada casa seria o caos. Já imaginou a Av. Nossa senhora de Copacabana ladeada por mangueiras carregadas? As mangas caindo nos capôs dos carros e dos ônibus, poft, no parabrisa, e abacaxis crescendo nos canteiros, onde cachorros de lacinho e sapato fazem xixi. Ou então bananeiras deitando seus cachos baixos, ao alcance da mão do transeunte. Pegar, descascar, comer. Não suja nem os dedos, se for esperto. “Ah, que lindo seria. Se numa rua de mil casas” delira ele, apontando pra sua rua infinita no papel, cheia de crianças e casas e árvores,“cada uma tivesse uma frutífera. Uma só! As crianças pobres teriam mil fontes de alimentação e poderiam crescer e estudar. Não comi fruta, por isso fiquei assim, baixinho”, diz ele, do alto de um metro e meio de filosofia e amor à arte e à lógica.  “Veja: Esse pensamento é revolucionário! O êxtase da arte é o que procuramos. Vcs, músicos, encontram”.

Mais cedo, meu analista me fala de Machado de Assis, que preciso reler, entre tantas coisas. Admitimos nossas humanices. O ministro da igreja fala em Jung e assim, no flow, o dia se encarrega de encerrar o tema com um capuccino quente e um vento frio. “A verdade, o bom e o belo: a vida deveria se resumir a isso”, diz o filósofo. “Todo o resto é erro”.

As coisas estão todas bem misturadas e alinhadas e eu acho que a vida só é boa quando é assim. Uma hora ela tira pra dançar, outra ela dá chá de cadeira ou uma bela rasteira. Mas aí ela mesma vem e estende a mão. Se você topar, ela te levanta, e eventualmente te dá uma piscadela. E outra rasteira e outra piscada e outra dança. Não há vencedores, só aspirantes. Gosto de olhar assim pras coisas. Ancestrais, Jung, sopa de legumes, pesadelos da infância e imposição de mãos. Turismo, puro turismo.

2015-05-04 19.21.25

eu amo camisa branca. sempre amei. cintadinha, bem decotada, pra usar de jeans e saltão. ou soltinha pra fora da calça, mais discreta, pra trabalhar ou tirar aquela onda BC BG, de moça de “família bem” que almoça durante a semana, com amigas, no  Leblon. adoro também no palco. brancas, bem brancas. sempre fui boa dona de casa, das que compram anil, alvejante e sabão especial pra deixar o branco mega branco, sem aquela cara off-white, de branco gasto, que lava na máquina e perde aquela alvura virgem, pra nunca mais.

um dia comentei com a minha mãe: camisa branca , mermo, deve ter a Antônia, a filha da Carmen Mayrink Veiga (baluarte do velho high society carioca), que deve ter uma mucama pra lavar as camisas à mão, pra ficar segurando enquanto quaram ao sol, pra enxaguar delicadamente nas lágrimas de virgens louras e secar à sombra, na brisa filtrada das montanhas da Gávea. as nossas, continuei, nunca ficam aquele super mega branco.

no dia seguinte, chego em casa e encontro, em cima da minha cama, uma linda caixa dourada com um laçarote. Dentro da caixa, lá está ela, reluzente e imaculada, uma linda camisa branca, branquíssima, alva, alvíssima, corte perfeito!  e um bilhete:

“Não é só a Antônia que tem camisa branca perfeita, tá? com amor, Mum”

E de lá pra cá, as camisas brancas nunca mais foram as mesmas. pra mim, elas sempre sussurram, no meu ouvido: “com amor, Mum”

2014-08-31 16.21.49

dia dos namorados

12/06/2015

 

Em que país distante andará,

dentre tantos homens brancos pretos amarelos e vermelhos

aquele um que, sob sol e chuva, traz na bagagem a tampa

que fecha a panela vazia que pesa na minha mochila?

 

em que barcos cruza oceanos bravios

carregando perto do peito, em devoção,

o breve que envolve meu nome

bordado em pétala de rosa

e, incansável, me busca

 

onde o dono da única alma

que encontrando a minha alma

num átimo,

se reconhecerá como se espelhado estivesse?

ele aposentará as botas gastas de caminho

ele andará descalço, ao meu lado

e eu descansarei meus olhos secos da procura

quando seu olhar molhar o meu

figura e fundo

 

quem será o andarilho obstinado

que anda pelo mundo com um chinelo velho no bolso

em busca pelo meu pé cansado

de tanto escorregar na pista?

 

quem é o homem

que tem deitado em camas e mais camas

sem se queimar nas brasas do amor verdadeiro

e, como eu, tem beijado um mundo de bocas

sem encontrar, em nenhuma delas, o sabor

de laranja pela metade descobrindo a contraparte

 

onde está o homem exclusivo?

para quem fui talhada a cinzel

fortuna cravada em meu destino?

E se desencontrarmos na hora do encontro?

E se eu pegar o ônibus errado?

e se ele se atrasar na hora certa?

E se eu me distrair com a paisagem?

 

E se ele já tiver passado por mim

e eu, cega, de tanto procurar

Tenha deixado ele passar?

Ou terei eu sido a escolhida

para vir a esta vida

sem ser amada e sem amar?

 

2015-06-07 21.38.20

Havia, na Gonçalves Dias, uma pequena loja de ouro baixo, onde vendiam cordões de todas as espessuras, e medalhas de santos, de todas as Nossas Senhoras, de anjos protetores, crucifixos e, claro, imagens de São Jorge em medalhinhas, medalhonas, chaveiros, isqueiros de prata e anéis.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil e almoçava por ali. Toda vez que eu passava pela vitrine da loja, eu paquerava um anel de prata simples, com um ônix oval, onde um São Jorge bem singelo pousava delicado, apontando sua lança ao alto e avante. Quando a grana saiu, comprei o anel. Cabia certinho em meu dedo fino, aro 18.

Eu não tirava o anel nem pra dormir. Minha sobrinha tinha lá uns três aninhos, hiper falante e articulada. Ela sempre pedia pra brincar com meus anéis e perguntava: “que isso?”, apontando pro São Jorge do anel. Eu dizia que ele era chamado de santo porque tinha lutado contra um dragão e tinha vencido a luta e por isso ele era tão admirado, porque, como ela bem sabia, derrotar um dragão é uma coisa muito difícil. Argumento totalmente convincente para ela, familiarizada com criaturas fantásticas misturadas nos dias comuns.

Um dia, lavando a mão, percebo horrorizada que o São Jorge não estava mais lá, restando a pedra lisa, lisinha. A silhueta de prata do santo guerreiro tinha sido apenas colada na pedra, e não engastada, como imaginei. Caiu, prendeu em alguma coisa, descolou e eu nem vi. Triste, tristíssima, continuei usando o anel, a pedra lisa, lisinha.

Minha sobrinha, batendo aquele papinho antes de dormir, brincando com os meus anéis, como de costume, se assustou: “Cadê o São Jorge!?” E eu, como ela, sempre muito mais à vontade no mundo da fantasia que no real, respondi, de improviso: “São Jorge soube que tinha um dragão à solta, e falou pro cavalo dele: ‘ah, eu é que não vou ficar preso em anel com esse dragão solto por aí. Vou me mandar daqui!’ E pulou da pedra do anel com seu cavalo branco, caiu no mundo, atrás do dragão e nunca mais voltou!”

A menina ouviu tudo de olhos sorridentes e arregalados. Provavelmente achando aquilo tudo magicamente plausível. Eu também acho, ainda hoje, quando sinto, na lida das horas, uma força, uma espécie de São Jorge vencendo dragões dentro de mim.

 

Jorge sentou praça na cavalaria e eu estou feliz porque eu tb sou da sua cia

 

não-verbal

21/04/2015

canto mil músicas pra ele, sobre ele, sobre mim, sobre o amor, sobre a paixão, em inglês. as palavras escorrem de mim, na direção dele, liquefeitas e cremosas.

ele não entende inglês. então, de vez em quando, canto olhando nos olhos dele. ele sorri. sempre sorri e me olha lá dentro. no final de tudo, me beija.

acho que ele entendeu.

 

 

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The unspeakable

14/04/2015

Ligo pro mercadinho da esquina pra pedir coisinhas urgentes pro dia. A mulher atende com simpatia, até eu perguntar: “e camisinha? Tem camisinha?”

Ela engole  seco antes de soltar um breve e assustado “ãn”?, como se eu tivesse perguntado: “Vcs vendem cocaína bem purinha aí?”

“Sim”, respondo, “camisinha”. 

‘”Não, não tem, não…” Negativissima.

Ok e prossigo com o pedido. Quando estou quase pedindo pra fechar, ouço um tímido “tem”. “Tem sim.”

“Tem sim, o quê?”, pergunto, já com a cabeça na lista.

“Aquele negócio que você pediu”

“Ahhh, a camisinha?”, reforço, didática.

“É. Isso aí mesmo.” Sem sequer balbuciar a maldita palavra, sem dizer o indizível! 

Que tipo de mulher pede camisinha, numa segunda à tarde, assim, sem disfarçar a voz, entre tomates e filtro de café? 

Divertida, me sinto  transgressora como uma adolescente falando um palavrão cabeludo na frente da família. E mando fechar a conta, camisinha incluída.

Recebo as compras em casa e lá vêm elas: camisinhas sabor melancia. 

Me zuou.  

fumo de rolo arreio e cangalha eubtenho pra vender quem quer comprar?  

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