melhor não tê-los

24/07/2015

não que eu não quisesse, não que eu quisesse. foi a vida. eu queria ser cantora. e ser cantora era uma estrada florida, que me levava ao infinito sem dia pra voltar, pra desbravar mundos desconhecidos, a bordo de estranhas naves. e pra isso eu tinha que estar sem bagagem. eu queria ser cantora.

muito nova, fui ao médico e comecei a tomar pílula. anos e anos, sem ninguém saber. me apaixonei, muito. namorei namoros longos e apaixonados. mas na hora de escolher ficar ou ir, escolhi ir. pra cantar, desbravar algum lugar. tinha sempre um barzinho e um violão. sempre uma roda de música, um festival, pessoas e mais pessoas. uma aula de canto, uma apresentação, um palco, uma gig, mil coisas que eu nem sabia que existiam, tudo por fazer, sempre quis tudo.

e, também, fui infeliz no amor, histórias desacertadas. e eu, perdida nos tantos quereres de coisas e gentes e lugares e liberdade. de forma que, quando me pediram em casamento pela primeira vez, me vi presa do lado de dentro duma porta de cofre de banco, blindada, protegida por um segredo inviolável, e assustada eu disse não.

o tempo passando, eu cantando, a ideia sempre lá, na cadeirinha de pensar do porvir. por dentro, fiz lista de nomes, idealizei maneiras de educar, conviver, brincar. mas toda vez em que eu pensava nas mochilas de marca, nos tênis importados, nos gadgets, eu desistia. cantando não vai dar pra comprar o tênis da moda. pra mim, filho sempre é filho da mãe. pai é uma hipótese que, em 70% dos casos, se apaixona por outra logo que a criança nasce, e fica apaixonado até a criança começar a falar. numa dessas,  vai morar em botucatu com a namorada nova e manda 100 pratas por mês, quando lembra. os que ficam são raros. e tem aquilo, né? a cena em que jamais me vi: eu botando criança pra dormir e o cara tomando cerveja na Lapa. não dá pra mim. eu também quero tomar cerveja na Lapa.

aí pensei que qdo eu tivesse dinheiro, ia ter sozinha, com um amigo gay, um vizinho, inseminação. mas cada vez que pensava que eu nunca mais ia poder virar uma noite sem hora pra voltar, e que nunca mais ia poder dormir o dia todo ou viajar e me apaixonar por um nativo e ficar mais uns dias, eu postergava. imaginava a vida efervescendo e eu bloqueada pela maternidade, desmulherizada, santificada e chata. not yet.

o ponteiro do tempo, essa verdade irrefutável, apontava pro vermelho. a luz piscava. mas já? qdo juntei os trapinhos, usei o que me restou de sanidade e autorizei meu melhor amigo a me impedir de ter filhos com aquele marido. filhos, com ele, não. e, quando vi que tinha ficado com ele muito mais tempo do que imaginaria ficar, e quis ter filho com ele, a vida deu aquele olé e ele teve filho com outra. ah, os deuses e suas ironias. destino de filha de nanã, disse a mãe de santo.

sofrendo horrores, me permiti fazer as perguntas mais cruéis: ter filho por quê? tem que ter filho? todo mundo tem que ter filho? adotar é uma opção? uma mulher só é completa se tiver filho? como vai ser ter 50 anos um dia e se ver sem filhos? ter 70 e não ter netos? ficar velha sem filhos pra cuidar de mim?

o alarme disparou, me olhei no espelho: escolhe agora, quer ou não quer? sem fazer drama, sem adiar o drama: quer ou não quer? quem me conhece sabe que faço o que quero, sem precisar de ninguém, vou lá, faço. mas não sou irresponsável. e cada vez que eu olhava minha conta bancária e, mesmo assim, reafirmava os laços com a realidade que eu escolhi viver, eu dizia: cabe um filho nessa escolha? eu sabia que se fosse pra bancar férias na disney, escola, skate e bicicleta, eu ia ter que inverter as prioridades e cantar nas horas vagas. pra ter, queria au grand complet, com tudo que tinha direito. então você não quer ter filho, diziam as mater dolorosas, quem quer ter filho, tem. eu nunca consegui me ver dizendo “depois que a gente tem filho a gente não escolhe mais…”

cheia de amor no coração, ah, um bebezinho, um filhote, um ser pra acompanhar de perto e ver crescer, pra melhorar quem sou, pra povoar o mundo de gente legal, pra me humanizar… muitas vezes chorei sozinha agarrada à dureza da passagem do tempo, vendo o meu juízo final se aproximando e pensando que não, essa eu não seguro sem grana, essa não seguro sozinha e nem vou voltar pra casa da mamãe, com um filho debaixo do braço. e, sobretudo, não vou abrir mão de cantar. xeque-mate.

vc não está sendo egoísta, me perguntaram mil vezes? ora, egoísta é quem tem filho por ter, sem poder, à tôa, com qualquer um. pais oprimidos pelos filhos, pais surdos, autocentrados, filhos solitários, sem intimidade com os pais. o mundo estaria muito melhor sem eles. “ah, mas vc fica presa e feliz!” eu, não. nunca ficarei presa e feliz. eu sou cantora. todos os sonhos do mundo eu troquei por esse. chorei muito, mas fui corajosa e sincera nas perguntas que fiz a mim mesma, e dizia, no espelho: se você quer ter filho, tenha! simples assim. ainda dá tempo! pra não passar a eternidade arrependida, lamentando não ter feito a escolha quando era possível escolher. qual o quê…

cada vez que eu pensava em ter que acordar a criatura às 6h, pra botar pra escola, durante anos intermináveis, ou num adolescente deprimido intransponível ou naquele filho adulto frustrado, infeliz como a maioria, se matando pra pagar aluguel, sem orgulho da própria vida, sem eu ter nada além de amor e música pra dar, eu tinha certeza de que não, não queria ter filhos. sacanagem jogar alguém no mundo pra viver nesta selva.

até arrisquei, sem empenho, engravidar de um namoradinho que tb queria, sem muita convicção. não rolou. investiguei sobre adoção e inseminação e cheguei a falar sobre isso com um amigo, um peguete e tal. mas na hora h, não fui em frente. até que, dores vividas e curadas, aceitei a realidade. é, não deu pra ter filho. não que eu não quisesse. não que eu quisesse.

eu escolhi. e não, não vou gerar filhos. vou amar minhas afilhadas e seus filhos, minha sobrinha e seus filhos, vou amar os filhos do caminho, os amigos, a família, vou cuidar de quem a vida me pedir pra cuidar, vou ser maternal na hora que precisar. de vez em quando sinto uma tristezinha por nunca saber como é ter esse laço de amor com alguém. me emociono, amo bebês, amo crianças. e que bom que o mundo está cheio deles! a emoção é o movimento da vida.

tem uma coisa que eu não sabia: com o tempo, as perguntas silenciam e a gente fica em paz. a vida segue em frente. escolher é o nosso maior poder. mesmo cheia de conflitos humanos, eu fiz uma escolha e assino embaixo. e aquela estrada continua florescendo, cheia de  múltiplos infinitos…

2015-07-06 04.29.28

Era um belo dia de sol no bairro carioca do Leblon, que fica na beira da praia mais calma da cidade, menos badalada, mais vazia. Fui encontrar um amigo. Fazia sol de verão em pleno inverno, temperatura alta, mar perfeito. Levei duas tangerinas numa sacolinha, uma para cada um de nós. Conversamos, mergulhamos, o mar subiu molhando nossas coisas, a canga ficou cheia de areia. Peguei na sacolinha, lembrei da tangerina, peguei uma pra mim: um estouro. Meu amigo não quis a dele. Coloquei as cascas e bagaços na sacola e joguei no lixo. Sobrou uma tangerina.

Eu havia estacionado a minha bicicleta ali perto e pretendia dar a minha pedalada habitual até o Arpoador, onde paro a bike e parto para minha caminhada pela areia, de frente para o sol e para a paisagem mais linda do mundo: o Morro Dois Irmãos ao entardecer. A sacola foi pro lixo, eu estava sem bolsa. Só carregava a pochete daquelas de montanhismo, onde cabe a garrafa de água, um documento, um chapstick e o dinheiro da água de coco da volta. O que fazer com a segunda tangerina, que eu não queria comer e não tinha onde colocar?

Agosto é um belo mês para as tangerinas: mexeriquinhas pequenas, pokans enormes de polpa meio ressecada e casca solta, mil tipos… Minha favorita é a murkot, aquela de casca agarrada na polpa, hiper suculenta, doce e carnuda. Na hora em que mordo um gomo de tangerina, quase acredito na existência de deus. Comprei muitas, minha casa está um showroom de tangerinas. Nesta época do ano, há cascas de tangerina espalhadas para secar, ao sol, nas janelas. Seco as cascas para fazer mil coisas. Uso para aromatizar a água básica do chá, uso ralada no tempero de peixe e frango, uso no purê de abóbora. As folhas, eu seco, guardo e uso muito, muito mesmo, durante todo o ano, em receitas que vou inventando na hora. Bolo de tangerina com casca e tudo é delicioso. Sopa de shiitake com folhas de tangerina. Frango assado no suco de tangerina é demais, casca de tangerina glaçada é o que há, filé de peixe assado com folhas de tangerina é “exquisite’. Isso tudo para explicar o quanto eu amo tangerina e o quanto acho que ela é a vedete da estação.

Mas o que fazer com a tangerina que sobrava? Olhei em volta e pensei: é fácil! Vou oferecer praquela ali, qualquer um vai querer. “Moça, vc quer uma tangerina?” Ela secava o corpo com a toalha, olhou, sorriu: “Não, obrigada”. Ao lado dela, um trabalhador, de macacão, descansava à sombra do quiosque. Quando cheguei perto dele para oferecer a fruta, ele nem me olhou. Foi logo balançando a cabeça em negativa e acenando com o dedo do não. Tangerina nem pensar. O rapaz que trabalhava no quiosque também não quis. A moça que passava nem me deixou explicar, passou direto, me evitando. Me senti a bruxa da Branca de Neve oferecendo uma maçã envenenada aos transeuntes. Por diversão e teimosia, decidi tentar até que alguém aceitasse minha doce e deliciosa tangerina. Nada. Todo mundo com medo, passando direto por mim, me olhando como se eu fosse dar a tangerina e pedir alguma coisa em troca. Eu só queria dar uma tangerina doce deliciosa e perfeita para alguém e ninguém queria. Eu ria. Dois surfistas riram, achando tudo estranho: não, obrigada. Um guardador de carros declinou: acabei de comer um doce. Um senhor que caminhava rapidamente entendeu meu drama, mas também não quis. Dois pescadores não quiseram, mas um deles disse: “obrigado pelo seu bom coração”. Por fim encontrei um homem sentado numa cadeira, ali ao lado do quiosque. Moço, vc quer essa tangerina? “Ô, meu deus, que sorte, que maravilha, não poderia ter aparecido em hora melhor, sou louco por isso!” Pegou a tangerina, levantou e começou a descascar a bela fruta, feliz da vida. Um outro, vendo a cena, disse: “Da próxima vez traga duas, eu também adoro, vou ficar na vontade”…

Moral da história: a sua tangerina pode ser a mais doce, mais perfeita, a mais deliciosa do planeta. Você pode estar oferecendo a sua linda tangerina de graça, com um sorriso nos lábios. Mas nem por isso você vai encontrar alguém que a queira. Isso também acontece com a gente, com nossos sentimentos, com as coisas que temos para oferecer para os outros e para o mundo. Nem sempre somos compreendidas, aceitas, queridas e desejadas. O que não significa que o que temos para dar não é bom. Às vezes, demora para encontrar quem queira nossa tangerina, mas isso não quer dizer que seja melhor a gente tentar oferecer maçãs, quando maçãs não estão no cardápio. Demora, mas quando a gente acha quem realmente aprecie nossa doce tangerina, a gente entende o sentido da vida. A gente entende o porquê da nossa barraca nessa feira moderna…
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*post publicado originalmente no primeiro endereço deste blog, não sei exatamente quando. escrevi quando a minha afilhada mais velha, a Ju, terminou um namoro e ficou arrasada pq o menino não queria mais ela. Lembrei do texto agora pq minha afilhada 2, a Mari, também terminou um namoro e tá arrasada. As minhas meninas, não! Se soubessem como são lindas!

turistas

08/07/2015

“Se cada pessoa plantasse uma frutífera na frente de casa, crianças poderiam comer frutas todos os dias, sem precisar comprar. E assim cresceriam saudáveis”, diz o ministro da igreja em que entrei pela primeira vez por curiosidade. Fui entrando, senta aí, ele disse, rabiscando uma fileira de casas e árvores em perspectiva infinita, ponto de fuga no horizonte. Filósofo, teólogo, culto e apaixonado pela lógica. Duas horas de conversa sobre os mistérios do mundo, eu e o ministro da igreja que atravessou meu caminho. “adoro que me perguntem, ninguém nunca me pergunta nada”, diz ele desenhando, num papel, estranhos gráficos para ilustrar respostas.

O ministro me disse que são necessários um bilhão de antepassados para eu ser eu, e por isso, de certa forma, carrego todos eles nas costas. Uns me empurram pra frente, outros me puxam pra trás. Uns inspiram, outros sufocam. Uns sopram divinos dons, outros pedem por um bom cigarrinho e marafo. Acho graça, não tenho religião nenhuma. Sempre tem os que ascendem e os que preferem ficar por aqui mesmo. Quero uma religião sem deus. Deus é a maior invasão de privacidade que há. O olho que tudo vê. Não. Não quero religião nenhuma.

Música já faz as vezes disso tudo na minha vida. No palco, rezo. Lugar comum, dirão. Mas todo mundo repete isso porque é isso mesmo. Cantar de verdade, sem fazer pose, se entregar a uma música, junto com músicos que estão no mesmo transe, pra uma plateia que está na mesma faixa de frequência é uma sessão de descarrego acompanhada de um passe e uma bênção. Até o sangue afina, a linfa flui, o hipotálamo se equilibra e o timo cresce. Equivale a rezar, se iluminar e encontrar deus. Tudo a mesma coisa.

Em Copacabana, isso de plantar frutíferas pra cada casa seria o caos. Já imaginou a Av. Nossa senhora de Copacabana ladeada por mangueiras carregadas? As mangas caindo nos capôs dos carros e dos ônibus, poft, no parabrisa, e abacaxis crescendo nos canteiros, onde cachorros de lacinho e sapato fazem xixi. Ou então bananeiras deitando seus cachos baixos, ao alcance da mão do transeunte. Pegar, descascar, comer. Não suja nem os dedos, se for esperto. “Ah, que lindo seria. Se numa rua de mil casas” delira ele, apontando pra sua rua infinita no papel, cheia de crianças e casas e árvores,“cada uma tivesse uma frutífera. Uma só! As crianças pobres teriam mil fontes de alimentação e poderiam crescer e estudar. Não comi fruta, por isso fiquei assim, baixinho”, diz ele, do alto de um metro e meio de filosofia e amor à arte e à lógica.  “Veja: Esse pensamento é revolucionário! O êxtase da arte é o que procuramos. Vcs, músicos, encontram”.

Mais cedo, meu analista me fala de Machado de Assis, que preciso reler, entre tantas coisas. Admitimos nossas humanices. O ministro da igreja fala em Jung e assim, no flow, o dia se encarrega de encerrar o tema com um capuccino quente e um vento frio. “A verdade, o bom e o belo: a vida deveria se resumir a isso”, diz o filósofo. “Todo o resto é erro”.

As coisas estão todas bem misturadas e alinhadas e eu acho que a vida só é boa quando é assim. Uma hora ela tira pra dançar, outra ela dá chá de cadeira ou uma bela rasteira. Mas aí ela mesma vem e estende a mão. Se você topar, ela te levanta, e eventualmente te dá uma piscadela. E outra rasteira e outra piscada e outra dança. Não há vencedores, só aspirantes. Gosto de olhar assim pras coisas. Ancestrais, Jung, sopa de legumes, pesadelos da infância e imposição de mãos. Turismo, puro turismo.

2015-05-04 19.21.25

eu amo camisa branca. sempre amei. cintadinha, bem decotada, pra usar de jeans e saltão. ou soltinha pra fora da calça, mais discreta, pra trabalhar ou tirar aquela onda BC BG, de moça de “família bem” que almoça durante a semana, com amigas, no  Leblon. adoro também no palco. brancas, bem brancas. sempre fui boa dona de casa, das que compram anil, alvejante e sabão especial pra deixar o branco mega branco, sem aquela cara off-white, de branco gasto, que lava na máquina e perde aquela alvura virgem, pra nunca mais.

um dia comentei com a minha mãe: camisa branca , mermo, deve ter a Antônia, a filha da Carmen Mayrink Veiga, que deve ter uma mucama pra lavar as camisas à mão, pra ficar segurando enquanto quaram ao sol, pra enxaguar delicadamente nas lágrimas de virgens louras e secar à sombra, na brisa filtrada das montanhas da Gávea. as nossas, continuei, nunca ficam aquele super mega branco.

no dia seguinte, chego em casa e encontro, em cima da minha cama, uma linda caixa dourada com um laçarote. Dentro da caixa, lá está ela, reluzente e imaculada, uma linda camisa branca, branquíssima, alva, alvíssima, corte perfeito!  e um bilhete:

“Não é só a Antônia que tem camisa branca perfeita, tá? com amor, Mum”

E de lá pra cá, as camisas brancas nunca mais foram as mesmas. pra mim, elas sempre sussurram, no meu ouvido: “com amor, Mum”

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dia dos namorados

12/06/2015

 

Em que país distante andará,

dentre tantos homens brancos pretos amarelos e vermelhos

aquele um que, sob sol e chuva, traz na bagagem a tampa

que fecha a panela vazia que pesa na minha mochila?

 

em que barcos cruza oceanos bravios

carregando perto do peito, em devoção,

o breve que envolve meu nome

bordado em pétala de rosa

e, incansável, me busca

 

onde o dono da única alma

que encontrando a minha alma

num átimo,

se reconhecerá como se espelhado estivesse?

ele aposentará as botas gastas de caminho

ele andará descalço, ao meu lado

e eu descansarei meus olhos secos da procura

quando seu olhar molhar o meu

figura e fundo

 

quem será o andarilho obstinado

que anda pelo mundo com um chinelo velho no bolso

em busca pelo meu pé cansado

de tanto escorregar na pista?

 

quem é o homem

que tem deitado em camas e mais camas

sem se queimar nas brasas do amor verdadeiro

e, como eu, tem beijado um mundo de bocas

sem encontrar, em nenhuma delas, o sabor

de laranja pela metade descobrindo a contraparte

 

onde está o homem exclusivo?

para quem fui talhada a cinzel

fortuna cravada em meu destino?

E se desencontrarmos na hora do encontro?

E se eu pegar o ônibus errado?

e se ele se atrasar na hora certa?

E se eu me distrair com a paisagem?

 

E se ele já tiver passado por mim

e eu, cega, de tanto procurar

Tenha deixado ele passar?

Ou terei eu sido a escolhida

para vir a esta vida

sem ser amada e sem amar?

 

2015-06-07 21.38.20

Havia, na Gonçalves Dias, uma pequena loja de ouro baixo, onde vendiam cordões de todas as espessuras, e medalhas de santos, de todas as Nossas Senhoras, de anjos protetores, crucifixos e, claro, imagens de São Jorge em medalhinhas, medalhonas, chaveiros, isqueiros de prata e anéis.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil e almoçava por ali. Toda vez que eu passava pela vitrine da loja, eu paquerava um anel de prata simples, com um ônix oval, onde um São Jorge bem singelo pousava delicado, apontando sua lança ao alto e avante. Quando a grana saiu, comprei o anel. Cabia certinho em meu dedo fino, aro 18.

Eu não tirava o anel nem pra dormir. Minha sobrinha tinha lá uns três aninhos, hiper falante e articulada. Ela sempre pedia pra brincar com meus anéis e perguntava: “que isso?”, apontando pro São Jorge do anel. Eu dizia que ele era chamado de santo porque tinha lutado contra um dragão e tinha vencido a luta e por isso ele era tão admirado, porque, como ela bem sabia, derrotar um dragão é uma coisa muito difícil. Argumento totalmente convincente para ela, familiarizada com criaturas fantásticas misturadas nos dias comuns.

Um dia, lavando a mão, percebo horrorizada que o São Jorge não estava mais lá, restando a pedra lisa, lisinha. A silhueta de prata do santo guerreiro tinha sido apenas colada na pedra, e não engastada, como imaginei. Caiu, prendeu em alguma coisa, descolou e eu nem vi. Triste, tristíssima, continuei usando o anel, a pedra lisa, lisinha.

Minha sobrinha, batendo aquele papinho antes de dormir, brincando com os meus anéis, como de costume, se assustou: “Cadê o São Jorge!?” E eu, como ela, sempre muito mais à vontade no mundo da fantasia que no real, respondi, de improviso: “São Jorge soube que tinha um dragão à solta, e falou pro cavalo dele: ‘ah, eu é que não vou ficar preso em anel com esse dragão solto por aí. Vou me mandar daqui!’ E pulou da pedra do anel com seu cavalo branco, caiu no mundo, atrás do dragão e nunca mais voltou!”

A menina ouviu tudo de olhos sorridentes e arregalados. Provavelmente achando aquilo tudo magicamente plausível. Eu também acho, ainda hoje, quando sinto, na lida das horas, uma força, uma espécie de São Jorge vencendo dragões dentro de mim.

 

Jorge sentou praça na cavalaria e eu estou feliz porque eu tb sou da sua cia

 

não-verbal

21/04/2015

canto mil músicas pra ele, sobre ele, sobre mim, sobre o amor, sobre a paixão, em inglês. as palavras escorrem de mim, na direção dele, liquefeitas e cremosas.

ele não entende inglês. então, de vez em quando, canto olhando nos olhos dele. ele sorri. sempre sorri e me olha lá dentro. no final de tudo, me beija.

acho que ele entendeu.

 

 

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The unspeakable

14/04/2015

Ligo pro mercadinho da esquina pra pedir coisinhas urgentes pro dia. A mulher atende com simpatia, até eu perguntar: “e camisinha? Tem camisinha?”

Ela engole  seco antes de soltar um breve e assustado “ãn”?, como se eu tivesse perguntado: “Vcs vendem cocaína bem purinha aí?”

“Sim”, respondo, “camisinha”. 

‘”Não, não tem, não…” Negativissima.

Ok e prossigo com o pedido. Quando estou quase pedindo pra fechar, ouço um tímido “tem”. “Tem sim.”

“Tem sim, o quê?”, pergunto, já com a cabeça na lista.

“Aquele negócio que você pediu”

“Ahhh, a camisinha?”, reforço, didática.

“É. Isso aí mesmo.” Sem sequer balbuciar a maldita palavra, sem dizer o indizível! 

Que tipo de mulher pede camisinha, numa segunda à tarde, assim, sem disfarçar a voz, entre tomates e filtro de café? 

Divertida, me sinto  transgressora como uma adolescente falando um palavrão cabeludo na frente da família. E mando fechar a conta, camisinha incluída.

Recebo as compras em casa e lá vêm elas: camisinhas sabor melancia. 

Me zuou.  

fumo de rolo arreio e cangalha eubtenho pra vender quem quer comprar?  

x

11/04/2015

fla X flu

direita X esquerda

ditadura X democracia

católicos X evangélicos

judeus X árabes

armênios X turcos

cristãos X muçulmanos

meninos X meninas

homofóbicos X gays

argentinos X brasileiros

paulistas X cariocas

franceses X belgas

palestina X israel

klu klux klan X negros

irã X Iraque

trabalhador X patrão

pobres x ricos

 

as paixões nos tornam parciais, polarizados, defensores das nossas crenças e convicções mais queridas. tem jeito?

 

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tsunami

11/03/2015

abro o Face e vejo a foto de um baterista que, qdo tinha uns 20 anos, foi uma paixonite minha. paro, estatelada! socorro! ele virou um tiozão de camisa polo! na mesmo noite, vejo a foto do meu primeiro amor, um verdadeiro maracujá de gaveta, como dizia meu avô. tenho me assustado, sobretudo com os homens da minha geração que, por se cuidarem menos que as mulheres, estão uns cacos. horrível dizer isso, pq, a esta altura, eu já devia ter olhado pro espelho, encarado a realidade dos fatos e deixado pra trás essa bobagem toda, sublimando as marcas do tempo, encarando a chance de estar aqui, bem, inteira, como uma dádiva.

a velhice é como uma inundação que se anuncia. está chegando, o tsunami está vindo na minha direção. já consigo ver os sinais nos meus pais, no meu pescoço, na pele e, principalmente, no olhar dos outros. pra uns, já virei coroa. nem sabia que isso já ia acontecer agora, tão cedo. qdo a gente olha de dentro, a perspectiva é outra. por dentro, terei sempre a mesma idade-Andréa, que não é um número, mas uma fotografia de um pôr-do-sol no verão do Rio de Janeiro, pronto pra explodir em acontecimentos incríveis e momentos fulgurantes. assim seja!

to aqui pra isso, mesmo. pra me apropriar do que tá sobre a terra, minha casa. pra me apropriar da cultura de outros povos, meus irmãos. compartilhar, repartir, somar, dividir, imitar, ser imitada, copiar e ser copiada. se eu quiser usar turbante, eu uso. se eu quiser falar tupi-guarani, eu falo. se eu quiser cantar jazz, eu canto.

existe esse movimento que diz que um ocidental não deve aprender japonês, que mulheres brancas não devem usar turbantes, que gordos não podem falar de magros, que homens não podem falar de mulheres e assim por diante, na maior pregação popular de segregação e alijamento sócio-cultural.

todo o saber humano, toda catalogação da cultura, todo estudo, toda literatura, toda bibliografia pra nada. seculum seculorum de transmissão oral de cultura, de escribas, de monges, de iluminuras, de penas e nanquim, de escolas peripatéticas, de seminários, de  renascimento. aulas, sábios, mestres, mentores, doutores honoris causa, bibliotecas, universidades. nada. todo saber acumulado pela humanidade em sua aventura neste planeta, nesta forma de vida, sobre esta terra confinado, escondido, trancafiado no seu lugar de origem. depois reclamam de censura, de estado religioso, de ditadura, de fundamentalismo. um mundo que cerceia a apropriação cultural é um mundo que cultiva a ignorância, as fronteiras entre os povos, as guerras de poder.

dá licença, rezo pro deus que eu quiser, na língua que eu bem entender. é tudo meu. e nada me pertence.

tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior, com todo mundo podendo brilhar num cântico

oroboro

12/02/2015

mudei de casa. adoro a casa nova. mudei de bairro. estou conhecendo o bairro novo. ainda nem sei qual supermercado é mais perto, mais barato, ou qual boteco entrega até mais tarde, ou qual farmácia etc. sei de nada. não conheço a cara de nenhum porteiro, nenhum camelô, nenhum traficante e nenhum morador de rua. só conheço um fruteiro, que trato com o maior cuidado, já que ele é o único que me trata como se eu sempre tivesse estado aqui. And I belong again.

estou aturdida com cenário, figurino e elenco da minha nova vida: muitos turistas, muitas putas, muita gente, muito barulho e poeira preta. praia grande (linda), terceira idade. mudaram as cores e os cheiros da vida. mudou tudo. o paradoxo de Copacabana é que, no bairro mais veloz do Rio, vc tem que aprender a desacelerar. aqui, o limite de velocidade é outro. o povo de Copa é mais faceiro e fagueiro que lépido. eu sou forever young em minha aventura pela terra. reciclo, renasço. pra sempre oroboro

aqui acordei da paixão, voltei à velha forma, não sei para onde vou. sei que, numa vida passada, vim de Ipanema, mas isso já tem tempo. mudar o cenário mudou minha visão inteira, minha perspectiva. mesmo amando minha nova casa, ainda me sinto presa ao éter por um fio, como se ainda não tivesse assentado no meu terreiro. ainda não sou dona dessa nova vida.  de forever young me sinto forever velha, cheia de dores, ocupando um velho corpo, não habito o meu futuro. aí, lembro que não existe futuro, tudo o que há é uma experiência de presente e, portanto, estou onde devo estar. o cenário mudou, mas eu continuo a mesma. estou confusa. perdão.

no metrô, de repente era Paris, um cello tocava Bach. Ao contrário de Paris, os cariocas aplaudem. volto zonza de uma reunião do trabalho social que estou apenas começando a fazer, e que me enche de orgulho e medo. ali, as pessoas são como eu. jovens, alimentam uma estranha fé no trabalho comunitário e lento. me imagino tendo os dias mais felizes da minha vida, tentando levar alguma dignidade ao fim do mundo. depois lembro que vou ter que dormir 5 dias no alojamento improvisado na única escola da comunidade. tenho vergonha de não querer ir. sou jovem, mas sinto dores de velha. madame não gosta de samba. e quem não gosta de samba…

na volta da reunião, entro num supermercado onde nunca entrei, na esquina da minha nova casa. não sei onde fica nada, não conheço os produtos que vendem. uma ironia, uma metáfora da minha vida. compro o vinho da promoção e uma manteiga de Minas, que nunca provei. teve bom.

aquele canto verde de morro, que já sei que brilha quando chove, o céu estrelado visto da cama e as paredes azuis já são meus. até este ponto, cheguei.

 

araras doda 020

 

PS: Acabo de ler: “É preciso reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.” Malvine Zalcberg

Tá bem.

juízo final

16/12/2014

Eu poderia brigar com os deuses do amor, por me botarem o doce na boca e tirarem, tão rápido. Depois de anos adormecida, acordei, subitamente, com a quentura de um sol escancarado dentro do meu peito. Cheia de encantos mil caminhei uns dias, pelo mundo, em contato direto com a massa de que é feito o melhor tipo de vida: amor. Mas, protegida pelos estranhos desígnios dos descupidos, vi o sol se apagar sem aviso, deixando, no epicentro do peito, o buraco negro que sorve a esperança, a raridade e a alegria dos que amam.

Do meio do meu deserto avistei, na rua, um casal comum de meia idade sorrindo de cumplicidade pura, uma demonstração secreta, porém explícita, de amor e parceria. E sorri. O sol há de brilhar mais uma vez.

2014-08-22 17.35.07

afluentes

09/12/2014

a tua correnteza flui na direção do meu mar. seu braço de mar, a foz do teu rio, eu. encontro das águas salgadas e doces, e as nuvens boiando no céu. a tarde, a noite, o tempo, tudo parou, esperando por nós. o fumo levanta a onda que nos carrega pro doce leito de estrelas. correntes de cá e de lá se misturam. somos dois afluentes, flow, fluxo. vc, meu bote, meu barco, meu rio. eu, seu leme, seu remo, seu mar .

2014-08-24 17.57.08

to embalando a casa, pra mudar, depois de 17 anos no mesmo lugar. só por isso, ouso dar uma dica pro seu fim de semana.

pra vencer qualquer demanda e desfazer quebrantos, faça assim:

abra um armário qualquer da sua casa e, impiedosamente, jogue fora, ou passe adiante, tudo o que vc não usou no último ano. sem drama, sem mimimi. desapega, larga, solta e pronto!

imediatamente, experimente a sensação plena de se livrar do que não precisa e respire um ambiente cheio da leveza do vazio. cheio de espaços pra novidade ocupar.

bom fim de semana! boa novidade pra vc!
(como diz o Arranco de Varsóvia, ♪ eu vou mudar de vida ♫… Ah, o Arranco tá comigo hj, dando uma canja, no Triboz. vem! )

2014-08-22 17.34.33-1 (3)

recebi um telefonema:

oi, me perdoe, vou te dar uma notícia péssima:

queremos o apartamento.

queremos o apartamento.

queremos o apartamento.

17 anos minha casa.

poxa. minha casa. há 17 anos.

queremos o apartamento até fevereiro.

 

2014-07-17 13.59.38queremos o apartamento.

 

 

 

casa na areia branca de praia deserta

a 10 passos do mar transparente e calmo e tépido

violão

ganja

rede de casal

ar condicionado

água de coco gelada

vinho branco

peixe

frutas

salada

sorvete

ele

e

eu

arpoador maio 2009 009

melhor

30/10/2014

eu quero ser uma pessoa melhor. quero ser a mulher que eu sempre achei legal ser. eu quero me educar pra desfrutar da vida como acho que ela deve ser desfrutada. aproveitar os bons momentos, baixar a ansiedade, não acabar com a parte boa por causa de expectativas e carências outras. simplesmente estar presente e prestar bastante atenção no que está, realmente, ocorrendo. receber o que vem, deixar ir o que tem que ir. tá anotado. só me resta viver.

2014-10-06 17.14.09-1

com a perspectiva da primeira cirurgia da minha vida, tenho pesadelos de morte e acordo com o coração na boca. embora eu tenha apenas uma condição mecânica adversa que pode (e deve) ser corrigida, sinto como se estivesse me oferecendo em sacrifício. morro de medo e vertigem e quase todo dia tenho um episódio de pânico e desisto: foda-se, vou sentir dor pra sempre, já acostumei, mesmo. a dor é minha, ninguém tasca. Mas, depois, quando a dor me tira o rebolado, o sono, o suingue e a simpatia, eu cedo. E rezo por um milagre enquanto, a contragosto, me preparo.

distraída nas minhas mil dores, esbarro num rapaz sorridente, que cruza, pé ante pé, o meu caminho, cada dia um passo.  moribunda  que estou, descreio que eu possa ser o alvo de tamanho sorriso, graça e desejo. mas, surpresa, aceito esse convite pra mais uma contradança. e logo percebo um sol sentado em meu sofá, irradiando luz, sorrisos, música e carinho.

estamos envoltos nessa conexão surpreendente –  mudamos o eixo da terra em uma noite -,  e um vórtice de energia passa por dentro da minha casa a cada vez que a gente se toca e sorri. a paz reina, soberana. eu sorrio.

experimento a polaridade absoluta deste momento, ora no claro, ora no escuro, ora no yin, ora no yang. passo do frio ao calor, do macio ao áspero, do medo ao conforto.

tenho apenas uma certeza: estou viva. bem viva.

2014-07-20 17.46.58

a coragem

16/10/2014

quando comecei a pesquisar sobre as origens do meu nome, inconsistente, como disse meu amigo sumido, o desenhista Roberto Silva, li uma versão que dizia que Andrea se podia traduzir como Coragem. Aceitei, porque assim  eu quis. De lá pra cá, sempre vim associando coragem à mulher. me apropriando do meu nome e do tema: coragem. Andrea vem de Andros, a essência do homem, em grego, e na Europa, originalmente era nome de homem. Daí a inconsistência que incomodava o Roberto: como uma mulher pode carregar, no nome, a essência do homem?

n​o fim de semana passado fui ao teatro, ver o espetáculo GRITO, um solo de Mariana Guimarães Nicolas, adaptação poli-artística, misturando live painting, dança e teatro, sobre o clássico de Dario Fo e Franca Rame, O monólogo da puta no manicômio.

​o​ GRITO* de Mariana G. Nicolas é cuidadosamente tecido como seu figurino, assinado por Pâmela Côto, um belo corselet todo feito em gaze hospitalar. ​e​m volta dela, ainda toda “nude” em cena, o grito dos artistas plásticos Nando Pontes e Romulo Bandeira que, a cada sessão, alteram, acrescentam, misturam, fazem um cenário dinâmico, pintado durante o espetáculo e adornam o texto, o movimento, o silêncio.​
quando Mariana tira a roupa e fica nua, em pelo, penso: que coragem! ​n​ão é uma nua sensual gostosa loura alta e peituda. ​é​ uma mulher nua, sentada numa cadeira descascada, sem pose, sem Photoshop, sem pudor. a​cima da nudez, acima da beleza e da feiúra, uma mulher comum, seu tempo, seu corpo, seu destempero e seu desterro.
​v​endo a Mariana em cena, nua, com olhos que ora marejavam, ora sorriam, ora se perdiam, ora se achavam, relembrei que coragem, pra mim, desde pequena, quer dizer mulher. sa​í de lá emocionada, batendo no peito e dizendo: eu me chamo Andrea, eu sou mulher, eu sou coragem. somos campo!

grito_23ago_fredpicanco_-24

*SERVIÇO
Temporada TEATRO CÂNDIDO MENDES
Temporada de 10 a 26 de outubro de 2014
Sextas e sábados, às 21h
Domingo, às 20h
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel.: 2523-3663
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia entrada para estudantes e idosos)
Duração do espetáculo: 50 minutos
Indicação: 16 anos
Fanpage do projeto:
https://www.facebook.com/pages/GRITO/736608706381960?ref=hl

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