O golpe

16/04/2016

Esses dias assisti a uma série chamada Auschwitz, do Netflix, contando a história do maior campo de extermínio de toda a história da humanidade. Um milhão e cem pessoas foram mortas ali. A série fala sobre como a ideia de Auschwitz foi engendrada, seus idealizadores, seus funcionários, sua estrutura. São documentos, atas de reunião, deliberações e até depoimentos de quem sobreviveu, dos dois lados, prisioneiros e agentes da SS. Das 8 mil pessoas que trabalharam no campo de extermínio, menos de cem foram condenadas. Alguns tiveram penas bem brandas, como o homem que recolhia e contava e depois distribuia o dinheiro dos que chegavam ao campo. Ele só foi condenado, em 2015, a míseros quatro anos de prisão.

A série é para quem tem estômago forte, me despertou sentimentos cujo nome nem sei e estou há dias elaborando essa tristeza profunda. A coisa mais assustadora, entre tantas coisas aviltantes e aterrorizantes, é ver a tentativa de justificativa daqueles que pensaram na “solução final” e que elaboraram os planos de morte, os projetos dos fornos e dos crematórios. As crianças, as mulheres, os velhos e os doentes chegavam no campo direto pro forno. Pensa bem. Alguém teve essa ideia e escreveu o projeto que foi acolhido pelos seus comparsas: “puxa, que ótima ideia! queimar as crianças logo de uma vez…” E depois fumaram charutos e foram todos pra casa dormir em paz, no seio da família, enquanto fornos queimavam pessoas 24h por dia, 100 mil pessoas por dia.
Eles todos alegam ter motivos, uns falam da atmosfera do momento, outros que estavam trabalhando, cumprindo ordens e alguns até deixando escapar que ainda concordavam com a ideia da “solução final”. O mandante de Auschwitz, em suas memórias, explica tudo, e jamais se arrependeu ou pediu perdão ou achou que errou. Ele achava lindo o plano. Foi levado a Auschwitz para ser enforcado olhando para o monumento ao horror, que construiu.

Vendo essa loucura tomando conta do Brasil, os discursos que tentam justificar o injustificável, às vesperas de um golpe que vai tirar a democracia de cena e empossar, mais uma vez, os pulhas, os canalhas, os criminosos confessos e condenados, para que dancem na cara da gente, rindo com escárnio por não termos o direito de escolha, por sermos o gado enganado pela mídia criminosa, pelos ardis mais imundos, para que os que sempre mandaram e mamaram na miséria deste país continuem reinando, incólumes e com autorização legal.
Dentro de mim, é como se visse o 3º Reich subindo no pódio, vencendo, mais uma vez, pisando na cabeça dos mortos pela democracia e de nós todos, que um dia achamos que também tínhamos direito a viver em um país que olhasse para sua gente. Ledo engano. O Brasil não é para os brasileiros. É pra eles. E eles estão aqui agora, mas já estiveram em Auschwitz, no massacre dos armênios, no Boko Haram, no terrorismo religioso que mata inocentes e no governo que tira a merenda escolar das crianças. Se eles ganharem no domingo, voltamos pro campo de concentração.

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quiet storm*

03/04/2016

vc era estranho. formal. sério. daquele tipo que aperta a mão e tem um jeito desajeitado de dar dois beijinhos e de abraçar sem encostar. olha nos olhos de leve, ri de lado, e nunca manda beijo na assinatura do email. um abraço, no máximo. mas naquela primeira reunião presencial, numa camada acima daquela onde estavam nossos computadores com mil abas abertas, onde a produção bombava, onde eu aprendia com vc, senti um calor borbulhar bem no centro da mesa. me ajeitei na cadeira um pouco desconsertada, dei um gole na limonada aguada, pedi um café.

quiet storm. lembrei do baile charme, da música pra sensualizar. quiet fire. tive vergonha de te desejar, porque vc não é meu tipo, aquela nao era a ocasião, nem o lugar. mas passei a semana pensando naquela centelha que pingou ali, entre tablets e notebooks e fez um buraco no epicentro da mesa de reunião. não sei se vc reparou. mas eu vi.

quando nos reencontramos, raramente e exclusivamente a trabalho, sinto um pequeno desconforto por não saber o que fazer com esse tesão infundado. depois a vida passa seu arrastão e leva tudo.

hoje eu te vi com uma mulher. numa mesa de bar, bebendo e beijando o beijo mais lascivo, lambendo pescoço, cheirando, idolatrando, endeusando, querendo aquela mulher, como se ninguém estivesse em volta. pura luxúria. assisti de longe seu desejo derrubando paredes, atravessando avenidas, escalando penhascos, invadindo quartos pela vidraça, descabelando e entortando a linha do horizonte.

eu sabia.

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*para ouvir Quiet Storm: https://www.youtube.com/watch?v=ETGXvWFoEi0&list=PLZLxC6rAOhrjdK3Tnm6Onti5OQziuFu-E

empoderada

01/04/2016

vi um video, com bilhões de curtidas e compartilhamentos, estimulando mulheres a aprenderem a se divertir consigo mesmas. Sugerindo que uma mulher deve experimentar sentar sozinha em um restaurante e pedir um prato maneiro, ou ir ao cinema sozinha e chorar num filme emocionante, ou ver arte num museu, ou simplesmente passear num parque para aprender a apreciar a própria companhia. Como se elas nunca tivessem feito isso antes. Para meu espanto, lendo os comentários, vi que muitas realmente nunca se divertiram ou tiveram prazer sozinhas. Me parece que a mensagem subliminar é: tente! vc tb existe sem um homem à tiracolo pra te qualificar como mulher.

As novas mulheres falam tanto em empoderamento. Mas precisam começar pelo começo. Mulher é mulher do momento em que nasce até morrer. Mulher não é sinônimo de beleza, de juventude, de gostosura ou charme. A mulher não desaparece quando amadurece, nem precisa ficar se afirmando, aprendendo como amar depois dos 40, como se renovar depois dos 50, como começar uma nova atividade depois dos 60. A vida é uma linha continua que só para quando acaba. No meio pode ter família, filhos, namoros, casamentos, viagens, trabalhos diferentes, mudanças de casa, de direção, de crença, de preferência sexual, de hobby, de profissões ou atividades. esse papo é coisa de cartilha feminina americana dos anos 50, que rezava que mulher tem que ter um homem só na vida, mesmo que o homem tenha mil mulheres, viver para a família, se dedicar a uma única atividade e depois, quando as leis trabalhistas definirem, parar e começar a se perguntar como foi perder tanto tempo precioso, correndo pra ver o que ainda é possível fazer enquanto a morte não vem. A vida da gente acontece em camadas, em dimensões variadas, não tem monoplano nem pra quem gostaria que tivesse.

As mulheres, enquanto vivas estiverem, podem amar, mudar, recomeçar, renovar, sem se explicar, sem precisarem se sentir diferentonas porque estão vivendo a vida! Esse papo de que os 50 são os novos 40 só dizem respeito à aparência, fazendo, mais uma vez, o jogo do patriarcado. Ufa, em vez de perder o marido para duas de 20, aos 40, agora ganhamos 10 anos. Nada disso! Não vou admitir ser tratada como uma veterana, como coroa, como tia secundária, como velhinha, só porque não tenho mais 40 anos. eu sou mulher. e vou ser mulher até morrer. sem papo de idiotizar a “melhor idade” (expressão que todo velho detesta, claro), sem precisar saltar de paraquedas e falar a gíria da moda pra parecer jovem, sem fazer plástica e sem ter que ser a coroa excêntrica que se veste como uma árvore de natal, de cabelos brancos, pra dizer que assumiu a idade e não tá nem aí. vai ser do jeito que eu quiser. eu que decido. fim.

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Vera Cruz*

25/03/2016

(primeiro de tudo, quero que todo mundo entenda que este post é sobre amor, sobre sincronicidade e sobre a música, não sobre personagens).

enquanto to ali fazendo ovos de páscoa recheados com ganache de uísque, pros meus entes queridos, estou pensando em Vera Cruz, música que finalmente vou cantar no meu show BrazJazz, depois de amanhã, depois de uma longa paquera, e de tê-la cantado, pela primeira vez, a convite de um amigo maestro e sua orquestra.

Lembro de ter lido ou visto ou ouvido o Milton “Bituca” Nascimento, em algum lugar, contando a história da importância dessa música na careira dele, um desbravamento, e fui procurar pra aprender e contar no show. Nessa, acabei encontrando um episódio desconhecido pra mim, em que o Márcio Borges, parceiro de Milton na música, fala da amizade de adolescência deles com a presidente Dilma. E que, 40 anos depois, antes de a Dilma ser presidente, mas já depois de todos aqueles anos de luta, eles se reencontraram, e ela pediu pra ele cantar *Vera Cruz, música que  ela ouviu em primeira mão, quando todos eram moleques em Minas. Uma música que fala de uma mulher, mas que também poderia ser sobre um país. Meus olhos encheram d’água de pronto! Eu nem sabia de tudo isso. E escolhi cantar essa música logo agora, o Brasil em chamas…

Senti meu sangue brasileiro me ocupando, um aterramento, uma propriedade. Me senti defendendo a minha casa com a minha voz. E isso não tem nada a ver com os personagens. Mas com a minha voz de mulher  brasileira, hoje e pra sempre livre pra cantar e contar todas as lindas histórias humanas que eu bem quiser. Sem ter que pedir licença ou perdão. Sem ter que me esconder de ninguém.

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rainha da noite

11/03/2016

levantava, pegava a bolsa e ia. Jobi, Clipper, Guanabara, Real Astoria, Bar Lagoa, Sats, Bofetada, Cervantes, Bracarense, Hipódromo. Ipanemense que sou, meus bares sempre foram por perto. Canceriana que sou, sempre fiz da noite a minha casa, do bar, meu castelo, dos garçons, meus camaradas. em todos os lugares fiz amigos. só chegar, pedir um copo, emendar o papo, começar outro, rir das piadas, contar casos, ouvir confidências. ali e então, sem passado e sem futuro. fechando bares, abrindo madrugadas, inaugurando dias, raiando sóis, voltando pra casa de manhã, sozinha, com um novo amor ou com um velho amigo. um mundo-ilha onde eu e meus amigos morávamos. quantos milhões de pileques homéricos e noites memoráveis e papos incríveis. eu era a dama da noite, cujo perfume se espalhava ao anoitecer, atendia ao chamado da lua e ia.

os bares, uns não existem mais, outros mudaram pra pior ou melhor, outros continuam apenas de pé. assim como os amigos.

e eu sou uma mulher em permanente exercício de equilíbrio entre querer e poder, sempre tendendo a escolher o desejo à necessidade. como uma bailarina aposentada, de vez em quando visto as sapatilhas guardadas e danço, pro espelho, a minha dança-eu. lembro quem sou, que prazer realmente me diverte e rio sozinha, rebelde como no primeiro dia da minha adolescência. quem foi rainha, nunca perde a majestade. e ainda acho que o paraíso é uma mesa de bar, com amigos e uma noite interminável para gente desbravar.

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English Lavender

08/03/2016

vc era alto. e eu gostava de andar pelas ruas de Laranjeiras pendurada em vc, na ponta dos pés, escalando seu braço, até quase alcançar seu pescoço, onde morava aquele perfume, que um dia, bem depois da felicidade, procurei na prateleira da drogaria. era tanta saudade que entrei na farmácia, junkie em privação, peguei o frasco de colônia e cheirei. uma cafungada certeira que bateu no fundo. depois botei de volta o vidro fechadinho e fui embora com o os pulsos encharcados de perfume, e fui cheirando e chorando pela rua. roubei o cheiro da lavanda, mas seu cheiro, aquela nota de fundo que era só sua, não estava lá. eu tinha orgulho de exibir pro mundo que vc era meu, que éramos tão estupidamente felizes, e que nem adiantava comparar, porque nenhum humano jamais saberia o que era aquilo que a gente tinha. nosso amor, nossa cumplidade. Era English Lavender, o cheiro. 

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sétimo dia

19/02/2016

o filho, que nunca foi de sorrir muito, agora sorri amarelo para todos que chegam e oferecem os braços abertos para o acolhimento. a filha, que sempre sorri, chora toda vez que alguém chega perto. a viuva mantém um sorriso de monalisa, o olhar um pouco parado, enquanto os parentes chegam trazendo um bolo ou um docinho ou um biscoito ou algo pra comer no lanche. a atmosfera é de uma festa estranha, onde as pessoas queriam estar todas chorando, mas se alternam entre contar histórias sobre o morto e a rir muito alto, talvez pra espantar a dor, talvez pra que todos lembrem que a vida continua apesar da morte. não é ruim, é uma forma de todos saberem que sim, vai continuar tudo igual, mesmo quando for a nossa vez, nenhum sol vai deixar de brilhar. vamos nos misturar à paisagem e tudo, tudo vai continuar perfeitamente como é. aproveitemos, pois, enquanto o sol ainda está brilhando para nós, todos os dias, retumbantemente lindo. um brinde à vida!
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hoje encontrei com três pessoas amigas que falavam ao mesmo tempo, o tempo todo. nenhuma ouvia a outra, mesmo, aparentemente, estando interessadas e adorando umas às outras.

na sala de espera do dentista, um rapaz comentava sobre uma linda praia deserta em Pernambuco e uma louca interrompeu a conversa, dizendo que conhecia a Bahia (?!) e que lá, sim, tem as melhores praias desertas do mundo. nem deixou o cara acabar de falar, contou a viagem dela toda, as praias que conhece, onde passou as férias na infância e foi embora, deixando aquele silêncio retumbante no ar.

eu estava mancando. uma pessoa reparou e me perguntou o porquê. mal comecei a explicar, na minha terceira palavra, fui atropelada pela descrição dos diagnósticos de todos os problemas de joelho, quadril, bico de papagaio, tornozelo, e um pouco da menopausa que a está deixando louca. saiu sem saber o que tenho.

estou me sentindo acuada e oprimida pela falta de educação, de alteridade e de gentileza dos cariocas. esta cidade é um amontoado de narcisos metidos a simpáticos. não é à tôa que adoram o profeta gentileza, um cara mega grosseiro e antipático, que nunca praticou o que pregou. IMG_4048

a luta

26/01/2016

a primeira vez em que meu nome saiu no jornal, como cantora, foi em 1983, mais de 30 anos atrás. mas considero o começo oficial da minha carreira, dedicida, escolhida, no ano de 1987. Foi lá que decidi que aquela apresentação que eu já fazia havia anos, a partir daquele momento, passaria a ser um show. mudou a perspectiva, tamos aí. não é fácil, em verdade vos digo, não é fácil. aqui comigo mesma tenho mil contas pra fechar, todas bem pessoais e que, certamente, não se resumem a aparecer na TV ou tocar na novela. muito, muito além…

não gosto de reclamar,  mas tenho reclamado, nao sei se é da idade ou se as coisas estão péssimas, mesmo. mas me esforço pra não reclamar, nem pra fora, nem pra dentro. tento, como me sugeriu minha irmã, focar no que tenho e não no que não tenho. e quando vejo um artista se referindo ao seu trabalho como uma  luta, me pergunto se essa não é a deixa pro cara mudar de ramo. se aquilo que se faz por dom, necessidade e prazer vira uma luta, um drama, um sofrimento com o qual se precisa conviver, sentindo dor, nao seria a hora de parar? quanta tristeza e desilusão são necessárias pra um artista decidir parar? por que é tão difícil desistir do que está ruim? o artista é quase sempre como o amante que vive na esperança de seu amor, enfim, dar-lhe o devido valor.

balanço

31/12/2015

a coisa que uma cantora mais deseja é conseguir continuar cantando, apesar do mundo. não canto pra agradar ninguém, não canto pra ficar rica ou famosa, não canto pra causar, não canto pra ser diva ou pra ser idolatrada. eu canto pra cantar. porque sinto que dentro de mim tem uma fonte de onde brota uma energia ininterrupta, e cantar é como um chafariz, que projeta pra fora de mim o que nasce lá dentro, numa lógica caótica, que mistura sons e palavras e sensações. o negócio jorra, e aí é preciso cantar. só a música pode carregar essa corrente pra fora de mim. é simbiose, eu vivo dentro dela e ela vive dentro de mim. terror e êxtase. 
 
tenho uma lista interminável de desejos e projetos profissionais, tenho muitas lindas ideias, tenho discos pra gravar, shows pra fazer, lugares pra visitar cantando e velhos sonhos amarrotados no fundo da memória. sempre será necessário um convite, parcerias, dinheiro, patrocínio, ajuda, reconhecimento e oportunidades. ninguém faz nada sozinho e sem grana. não tenho padrinhos, não tenho parentes famosos, não tenho dinheiro. nunca, em 29 anos de carreira, um jornalista de música foi me ver cantar. e eu cantei sem parar nesse tempo, sem descanso. gravei cinco discos solo e cinco discos e um DVD com o Arranco. gravei e fiz shows com um monte de gente famosa, cantei acompanhada dos melhores músicos deste país, nas melhores casas dentro e até fora do país. mas em 2015, todas as portas se fecharam pra mim e nao consegui realizar quase nada. eu resisti, porque eu sempre resisto, porque sem cantar eu nao sou. estou previamente combinada comigo mesma que fazer música não pode estar vinculado à sordidez desse mercado excludente e dessa cena musical pífia.
 
por mais bobo que seja, a gente não escapa! fim de ano chega e a gente bota as coisas na balança pra fazer os ajustes da caminhada. das poucas coisas que 2015 me deu, a melhor foi continuar trabalhando na casa de música mais profissional desta cidade, acompanhada pelos meus fieis escudeiros de ouro, cantando para minha plateia atenta, sensível, apaixonada por música. quando a gente perde quase tudo, a gente aprende a valorizar o que tem. e por isso contei essa história toda, pra dizer que os elos dessa corrente se fortalecem com vocês, com seu aplauso e sua presença. por isso sempre serei grata por vocês me darem a honra de cantar para vocês. obrigada. 
que seu novo ano seja leve, de alegrias e paz e cheio de saúde, prosperidade e amor!
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a cantora mascarada

27/11/2015

minha identidade secreta

só falta vc me curtir!

a vida eterna*

19/11/2015

não tenho religião. não creio em deus-pai. mas sei que somos corpos energéticos, geradores de energia. acredito na dispersão das partículas e que a energia sempre se transforma, sem se extinguir. ondas sonoras, pensamentos, movimentos, efeito borboleta. é tudo tiro no éter que, uma vez disparado, não para nunca mais, infinito afora. isso pra mim é a vida eterna de verdade. quando morre alguém querido, gosto de pensar que a pessoa virou uma poeira cósmica, cuja energia ainda circula por onde circulo, enquanto ainda estou neste corpo. quando não estiver mais, também quero rodar por aí, salpicando o universo com o pó da minha estrela. somos todos carbono, como o diamante.

se tudo correr bem, pessoas vão lembrar da gente, para o bem e para o mal. engraçado pensar em que momento alguém dirá: “ah, isso é a cara dela!” ou “ela adorava isso”, ou quem dirá “ai, que saudade que me deu do jeito dela rir”, enquanto viaja numa velha imagem guardada, numa lembrança boa, num cheiro. todas as pessoas morrem, mas a gente vive enquanto for lembrada com carinho. e é a isso que eu chamo de eternidade, fazer parte da história das nossas pessoas, estar no coração delas, como uma luzinha daquelas de não deixar o corredor escuro, à noite. sem ninguém saber, a gente lembra da pessoa, do jeitinho dela, de uma coisa que ela teria dito e, assim, ela continua viva dentro de nós. um dia tudo isso reverterá ao pó. e, quem sabe, o amor que sentimos e vivemos, quando for a hora da nossa transmutação, possa também se reciclar e fertilizar a terra?

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*pro tio Marun. agora, poeira de estrelas .

parece que os dias de ventanias quentes revolvem velhos sentimentos. Já escrevi isso, há muitos anos. E como é verdade pra mim, estou aqui, toda mexida, ouvindo Nancy Wilson cantar The very thought of you, num link que a grande cantora Aurea Martins, minha amiga, que admiro demais, dedicou a mim e à Ana Costa, outra cantora que admiro e curto muito. Somos três cantoras brasileiras.

Áurea nos chamou de guerreiras, e eu, nesta noite de vento quente, com o lodo do fundo revolvido, estufei o peito achando bom, muito bom. Ser uma guerreira nesta guerra santa, brigando exclusivamente para continuar cantando neste país de surdos, sem padrinhos, sem dinheiro, só com o amor no coração, é a luta da minha vida, my quest, diria Dom Quixote, minha lei, minha questão. E da Áurea. E da Ana.

Então, deixo pra vocês o video Áurea, guerreira mór, conselheira perspicaz, que no dia do lançamento desse micro-documentário, ensinou: “Eu sou de fazer. Sem fazer, a gente não consegue nada, nem fracassar”. Me vejo aí, rio e choro, e peço aos deuses que me dêem a sorte de uma carreira longa e linda como a dela.

queria que fosse de novo carnaval e a gente estivesse tomando porradinha de Fanta laranja com Velho Barreiro, no Varandão, fazendo um vira-vira que a gente nem sabia que era tão perigoso e tão sexy. e que a gente estivesse escolhendo que roupa vestir no baile de carnaval e, depois, dia amanhecendo na Serra, a felicidade de listar os beijos em bocas cujos nomes nunca soubemos: surfista, lourinho, moreninho, mineiro…

e queria de novo sentir o jato gelado do éter entrando pelas narinas e batendo no teto do crânio, em cima daquela moto na madrugada fria, zzzzziiiiiimmm, zumbido e gargalhada, “‘caraaaalho, vou decolaaar!’. ou então voltar àquele dia em que o cheirinho da loló foi calibrado pelo amigo químico e a gente ficou na lua, projeção astral e o escambau, pelados na cama, rindo de nós mesmos e do susto que levamos. ou então entrar naquele avião rumo ao Recife, pra reconhecer meu amor galego dos óio azul e casar com ele no hotel muquifo do centro velho da cidade.

queria estar ensaiando a música pra entrar no meu primeiro festival. tocando um violãozinho tosco, toda compenetrada, subindo no palco da escola de macação branco, que recém cabia em mim, e levando meu primeiro prêmio de cantora pra casa, e acordando a minha mãe: “tá vendo? ganhei!” queria de novo estar atravessando a Ponte, indo gravar meu primeiro disco, toda a estrada do sucesso à minha frente

queria estar passando sombra preta com glitter, pra ir dançar numa discoteca, de salto 12, ou então estar calçando os patins pra ir ao Roxy Roller rodar rodar rodar naquela gira. ou ir ao Disco Voador fazer playback pra 10 mil pessoas ou cantar mais uma vez pro mar de gente no Reveiilon de Copacabana.

queria estar recebendo aquele ursinho com a carta de amor no bolsinho do macação. Ou um milhão de eu te amos escritos num micro rolinho de papel, que ele cuidadosamente enrolou e guardou dentro de uma sapatilha rosa de biscuit. queria ser bailarina de novo, um milhão de pliés todos os dias e depois a rotina do tap, passo a passo, time steps. então, eu escreveria em tinta branca, novamente, um Eu te amo gigante, no meio da rua Estelita Lins, de madrugada, de forma que ele acordasse e quando abrisse a janela, visse o meu amor escancarado no asfalto. queria chegar na aula de canto e encontrar toda a fachada do prédio do professor coberto por uma tira de eu te amos e “boa aula, meu amor”. queria o fim de semana na Serra, ouvindo Pat Metheny e vendo Jacques Cousteau sem som. e comendo pipoca e tomando vinho de garrafão e fumando maconha e fazendo amor, over and over and over.

queria tudo de novo. não por nostalgia, mas porque eu gostaria de zerar essa desilusão, construir os sonhos e confiar no porvir, na potência, no destino, na sorte, no amor. aquela alegria que não cabe no peito nem no sorriso, só porque sim. e ter mil planos de viajar, de fazer turnês internacionais, de morar fora, fazer sucesso no Brasil, ter filhos, ficar rica, comprar uma casa cercada de jardins de inverno, fazer minha viagem dos sonhos, num 4X4, de mapa na mão, pelo interior do Brasil, e encontrar um grande amor cúmplice parceiro, em quem se pode confiar de olhos fechados. tudo isso, só porque a gente acredita que nasceu com uma estrela brilhando na cabeça e tudo, tudo vai dar certo.

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nós, os exilados

25/09/2015

tempos pesados. apartheid social no Rio, a verdadeira face do carioca aparecendo, o mito do brasileiro gente boa, cabeça aberta, por terra.  somos caretas, ignorantes, tementes a autoridades religiosas e ao bicho papão. o fundamentalismo desponta impedernido e bravo, prometendo mais alguns anos de escuridão pela frente. mal colocamos a cara pra fora, depois de anos de chumbo, e lá vêm eles, os neonazistas, os milicianos “do bem”, com seus assassinatos de meninos, sua chacina de índios, sua defesa da falida família tradicional, sua exploração predatória da natureza, seus lucros exorbitantes e seus celulares que valem mais que mil vidas de pretos pobres.

hoje as trevas deitaram sobre o país, com o Estatuto da família. se eu fosse homossexual, pensei, pedia exílio agora, e sumia de um país que não me enxerga, não me quer, não me respeita. não ficava pra perder essa guerra e ia existir em outro terreiro. raiva.

da mesma forma, me sinto rejeitada, mal amada e desprezada pelo meu país. infeliz e cansada com as portas que nunca se abriram pra mim, desprofissionalizada em dose dupla, envergonhada. ando visitando meus porões escuros, pisando no lodo do fundo do meu poço, refletindo e chorando muito por mim, pelo Rio, pelo Brasil. ando tomada dessa tristeza universal, querendo dar as costas pra terra que amo e que não me quer, sem ter como.  

Ai lembrei da Síria, e dos refugiados que preferem arriscar a vida a continuar na sua pátria amada. doeu aqui.

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o piano

21/09/2015

Tinha piano na casa dos meus dois avós. desde pequena eu me trancava na sala onde ficava o piano e mandava ver. tocava aleatoriamente, em momentos de fantasia e entrega, como se soubesse tocar. tentei estudar sozinha por um método, e poderia ter começado ali, mas nao tive incentivo. pedi pra estudar piano mas, a minha mãe, traumatizada por ter sido obrigada a se formar no conservatório, não deixou. então, dei meu jeito. peguei um violão que tinha sido da minha irmã, e venci o coitado pelo cansaço. tinha eu 14 anos de idade…

insisti, aprendi umas músicas da moda, fiquei feliz, fiz umas canções, mostrei pros amigos, entrei em festivais, ganhei e perdi e, quando vi, aquilo tinha virado a minha vida. quando fiz 16 anos, minha mãe me deu um violão de verdade. mas nunca soube tocar direito, embora tenha começado assim, tocando violão e cantando em bares, nos intervalos de outros artistas, até achar meu próprio lugar.

anos depois, já cantora e adulta, fui estudar piano e me dediquei totalmente a recuperar o tempo perdido. estudei muuuito, muito, mesmo. anos e anos praticando loucamente. hoje, o piano que tenho em casa é o que meu avô mandou vir pra minha mãe estudar nele. e, assim, fizemos as pazes com o destino do piano, com a música na família e com meu sonho. nunca toquei como gostaria de ter tocado, mas isso não importa. ser cantora é um encanto que nunca se esgota.

o primeiro trabalho que fiz, como cantora, foi de vocalista de um cantor, já falecido, chamado Robson Teixeira. Ele fazia um trabalho autoral que seria incrível até hoje. Pop rock anos 80 com influencias de bandas bacanas europeias. A primeira vez que meu nome apareceu no jornal, como cantora, foi em 1983, justamente num show dele, num local chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza.
Esse cara foi um guru pra mim. Mais velho, gay, casado, viajado, culto, me apresentou um mundo sem mimimi, sem frescura, sem preconceitinhos, cheio de novidades incríveis, de zen budismo, de pão feito em casa, de miles davis e amigos. Éramos vizinhos, em Ipanema, e eu e os músicos vivíamos na casa dele, dia e noite, usufruindo da liberdade toda que não tínhamos nas casas dos nossos pais. A gente tinha menos de 20 anos de idade…
A banda que tocava com ele era de músicos que hoje são profissionais top de linha, todos muito jovens, Glauton Campello, Alexandre Carvalho, Kadu Menezes, Felipe Reis. E foi com eles que comecei na profissão, ensaiando no “Tijucão”, casa alugada pela galera pra usos musicais e sócio-recreativos de todos os tipos.
Tenho as melhores lembranças desse momento da minha vida, e só me lembro do meu guru dizendo: “bonita, vc precisa enlouquecer, enlouquecer muito!” Tinha toda razão! E mesmo depois de todos esses anos, querido Robson, ainda não enlouqueci o suficiente.

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saudades

14/09/2015

quando eu comecei a cantar, havia a tal da “fita demo”, de demonstração. Era com essa fita que a gente vendia shows e divulgava o trabalho. Rolava até arte pras capinhas das fitas k7, pra dar um jeito de sobressair naquela pilha de fitas que os programadores de casas de shows e rádio e TV recebiam.

gravar um disco era uma coisa dificílima, pois não havia soluções caseiras tão acessíveis e eficientes antes dos PCs. Logo depois, vieram as soluções digitais como o dat, adat, md até chegarem os computadores. e o resto da história vcs sabem onde deu.

na minha primeira fita demo, gravei Serrado, do Djavan. Cismei que tinha que pedir licença pra ele, pq eu nao entendia bem como funcionava a coisa de liberação de direitos e, um pouco pela ansiedade juvenil e um pouco pela paixão, liguei pro escritório dele e deixei recado.

numa manhã, minha mãe vem me acordar: “Andréa, acorda, é o Djavan no telefone!” E eu: ãhn? Djavan? Tá louca?” Acontece que eu tinha um amigo, o Rostand, que sabia do meu amor pelo Djavan e adorava brincar com isso. Numa viagem de fim de semana, quando fui lavar o rosto ao acordar, dei de cara com uma fotona do Djavan, pregada no espelho com um mega “Bom dia, Déia!”, cheio de coraçõezinhos…

Atendi o telefone rindo: “Fala, Rost! kkkk” E ouço de lá:
“Oi, Andrea, aqui é o Djavan, vc me ligou?” A voz de meu-bem-querer não deixou dúvidas. Era ele! Gravei a demo, encantada e feliz.

Ontem fui cantar num show com músicas do Djavan, e passei o dia chorosa, com saudades do Rost, que nos deixou cedo demais. E aí, também lembrei que o a única música do Djavan que gravei, em disco, foi A ilha, por sugestão de outro amigo, o Sylvio de Oliveira, que também nos deixou há um ano, exatamente. Estou morta de saudades dos dois nessa segunda chuvosa.

Aqui vai então uma homenagem a esses três homens que amo demais, Djavan, Rostand e Sylvio. Com mil obrigadas por todo amor e música que me provocaram.

 

insulto ao comum

04/08/2015

desde muito nova, quando comecei a me deparar com as dificuldades da carreira (e o que sabia eu sobre dificuldades?), eu já achava a coisa mais feia do mundo ser músico ressentido, reclamão, gênio incompreendido. sempre achei que quem escolhe não pode reclamar do que escolheu.

tem muito músico que confunde arte com milagre e se acha melhor que os outros porque tem o dom da música. sempre fiz questão de deixar claro que não acho isso, que acho que todos temos um dom e que o mundo precisa de todos. o que seria do mundo sem pontes, sem dentistas, sem pintores de parede, sem cozinheiros? a diversidade colore o mundo, tem gosto pra tudo.

o outro lado desse engano comum vem justamente do olhar do leigo que acha o músico um deus afortunado, um ser especial a quem foi dado o direito de viver “se divertindo”, de “não trabalhar”, como se trabalho fosse, necessariamente, uma obrigação abominável, destinada somente aos reles plebeus.

a batalha na música é muito diferente do romantismo e da poesia que os leigos vêem, embora inclua romantismo e poesia. mas também inclui abandono, desespero, falta de perspectiva, falta de estímulo, solidão, falta de grana e medo. para cada estrela pop que anda de carrão e ganha milhões, existem centenas de músicos como eu, mortais, que não ganham dinheiro, nem fama, nem reconhecimento público, nunca ou quase nunca.

esperar que o mundo tenha um atenção especial para dar aos artistas me parece um engano. eu acho que a arte tem que pertencer à vida, ao cotidiano, à formação do ser humano, assim como a matemática e a geografia de cada dia. a arte deveria ter esse mesmo privilégio, mas não tem. ninguém ensina música na escola como uma possibilidade de profissão. é sempre um hobby, uma diversão. é assim, nesse viés, que começam as distorções que culminam na crença comum de que todos os músicos são vagabundos e maconheiros e que música não é trabalho. porque ela diverte quem escuta e quem faz.

talvez, nesse padrão capitalista infernal, onde as relações de trabalho servem para tornar o patrão feliz e rico e todos os outros, escravos, escolher e ter prazer no trabalho seja um insulto ao comum. mas não é possível ignorar toda a cadeia produtiva envolvida na música que o mundo inteiro consome o tempo todo. milhares de rádios, de playlists, de canais de música, de CDs, DVDs, shows, festas, bares. tem música até no elevador. e por trás disso tem gente. muita gente.

tá tudo errado nesta sociedade, isso é óbvio. quem nasceu pronto pra se adaptar ao moedor de gente que é esse modelo de relação de trabalho e consumo capitalistas? jogo a toalha, será que é porque sou artista?

tenho quase 30 anos de carreira, cinco discos lançados, e canto nos melhores lugares, com as melhores pessoas. 90% das vezes, trabalho de graça ou quase. se isso não está errado, me corrija. ou será que vou passar o resto da vida pagando pelo pecado de fazer aquilo que nasci pra fazer, que me dá prazer, sim, que me faz feliz, sim e que faz muita gente feliz, sim?

hoje, aos quase 30 anos de carreira estou, enfim, reclamando. me sinto incompreendida, abandonada, estou ressentida e com muita raiva. hoje, pela primeira vez, um post vai ao ar sem imagem. hoje não quero beleza nenhuma.

melhor não tê-los

24/07/2015

Não que eu não quisesse, não que eu quisesse. Foi a vida. Eu queria ser cantora. E ser cantora era uma estrada florida, que me levava ao infinito sem dia pra voltar, pra desbravar mundos desconhecidos, a bordo de estranhas naves. E pra isso eu tinha que estar sem bagagem. Eu queria ser cantora.

Muito nova, fui ao médico e comecei a tomar pílula. Anos e anos, sem ninguém saber. Me apaixonei, muito. Namorei namoros longos e apaixonados. Mas na hora de escolher ficar ou ir, escolhi ir. Pra cantar, desbravar algum lugar. No meu campo de visão tinha sempre um barzinho e um violão. Sempre uma roda de música, um festival, pessoas e mais pessoas. Uma aula de canto, uma apresentação, um palco, uma gig, mil coisas que eu nem sabia que existiam, tudo por fazer, sempre quis tudo.

E, também, fui quase sempre infeliz no amor: grandes encontros e histórias desacertadas. Jamais tive um homem com quem eu quisesse ter um filho. Eu, aturdida com tantos quereres de coisas e gentes e lugares e liberdade. De forma que, quando me pediram em casamento pela primeira vez, com esse sonho de família, me imaginei presa do lado de dentro duma porta de cofre de banco, blindada, protegida por um segredo inviolável, vendo o saboroso mundo passar lá longe, pelas grades da janelinha da minha cela. E assustada eu disse não.

O tempo passando, eu cantando, a ideia sempre lá, na cadeirinha de pensar do porvir. Por dentro, fiz lista de nomes, idealizei maneiras de educar, conviver, brincar. Mas toda vez em que eu pensava nas mochilas de marca, nos tênis, nos gadgets, eu desistia. Cantando não vai dar pra comprar o videogame da moda. E, pra mim, filho sempre é filho da mãe. Pai é uma hipótese que, em 70% dos casos, se apaixona por outra, quando fica meio sem espaço na casa, logo que a criança nasce, e só se interessa de novo, quando a criança começa a falar. Numa dessas, vai morar em Botucatu com a namorada nova e manda 100 pratas por mês, quando lembra. Os que ficam são raros. E tem aquilo, né? A cena em que jamais me vi: eu botando criança pra dormir e o cara tomando cerveja na Lapa. Não dá pra mim. Eu também quero tomar cerveja na Lapa.

Aí pensei que qdo eu tivesse dinheiro, ia ter filho sozinha, com um amigo gay, um vizinho, inseminação. Mas cada vez que pensava que eu nunca mais ia poder virar uma noite sem hora pra voltar, e que nunca mais ia poder dormir o dia todo ou viajar e me apaixonar por um nativo e ficar mais uns dias, eu postergava. Imaginava a vida efervescendo e eu bloqueada pela maternidade, desmulherizada, santificada e chata. Not yet.

O ponteiro do tempo, essa verdade irrefutável, apontava pro vermelho. A luz piscava. Mas já? Quando fui morar com meu namorado, autorizei meu melhor amigo a me impedir de ter filhos com ele. Quando vi que tinha ficado casada muito mais tempo do que imaginaria ficar, aos 45 do segundo tempo, pensei em ter um filho com ele. Mas a vida deu aquele olé e ele teve filho com outra. Ah, os deuses e suas ironias… Destino de filha de Nanã, disse a mãe de santo.

Sofrendo horrores, me permiti fazer as perguntas mais cruéis: ter filho por quê? Tem que ter filho? Todo mundo tem que ter filho? Adotar é uma opção? Uma mulher só é completa se tiver filho? Como vai ser ter 50 anos e me ver sem filhos? Ter 70 e não ter netos? Ficar velha sem filhos pra cuidar de mim?

O alarme disparou, me olhei no espelho: escolhe agora! Quer ou não quer? Sem fazer drama e sem adiar o drama: quer ou não quer? Quem me conhece sabe que faço o que quero, sem precisar de ninguém. Vou lá e faço. Mas não sou irresponsável. E cada vez que eu olhava minha conta bancária e, mesmo assim, reafirmava os laços com a realidade que eu escolhi viver, eu perguntava: cabe um filho nessa escolha? Eu sabia que se fosse pra bancar escola, skate e bicicleta, eu ia ter que inverter as prioridades e cantar nas horas vagas. Pra ter um filho, queria au grand complet, com tudo que tinha direito. “Então você não quer ter filho”, diziam as mães extremosas, “quem quer ter filho não pensa em nada disso e tem”. Eu pensei. E nunca consegui me ver dizendo coisas tipo “depois que a gente tem filho, a gente não escolhe mais, “nunca mais dormi, nunca mais comi”. Nunca achei a menor graça nisso.

Cheia de amor no coração, ah, um bebezinho, um filhote, um ser pra acompanhar de perto e ver crescer, pra melhorar quem sou, pra povoar o mundo de gente legal, pra me humanizar… muitas vezes chorei sozinha agarrada à dureza da passagem do tempo, vendo o meu juízo final se aproximando e pensando que não, essa eu não seguro sem grana, essa não seguro sozinha e nem vou voltar pra casa da mamãe, com um filho debaixo do braço. E, sobretudo, não vou abrir mão da minha carreira da forma que eu quero que ela seja. Não cantar nas horas vagas, mas ser realmente, integralmente, fulltime, cantora. Xeque-mate.

Você não está sendo egoísta?, me perguntaram mil vezes. Ora, egoísta é quem tem filho pra dizer que tem, pra atender à expectativa da sociedade, pra posar no porta retrato, pra ter companhia, pra ter alguém pra chamar de seu. Egoísta é quem tem filho sem ter maturidade, sem poder, à tôa, com qualquer um. Vejo um bando de pais oprimidos pelos filhos, pais surdos, autocentrados, impacientes, desinteressados. Filhos solitários, perdidos, sem afeto e escuta, sem intimidade com os pais. O mundo estaria muito melhor sem eles. “Ah, mas você fica presa e feliz!” Eu poderia realmente amar ser mãe e ter filhos, mas presa e feliz, não. Nunca ficarei presa e feliz. Eu sou cantora. Todos os sonhos do mundo eu troquei por esse. Chorei muito, mas fui corajosa e sincera nas perguntas que fiz a mim mesma, e dizia, no espelho: se você quer ter filho, tenha! Simples assim, ainda dá tempo! Pra não passar a eternidade arrependida, lamentando não ter feito a escolha quando era possível escolher. Qual o quê…

Cada vez que eu pensava em ter que acordar a criatura sonolenta, às 6h, pra botar pra escola, durante anos intermináveis, ou num adolescente deprimido intransponível ou naquele filho adulto frustrado, infeliz como a maioria, se matando pra pagar aluguel, sem orgulho da própria vida, sem eu ter nada além de amor e música pra dar, eu tinha certeza de que não, não queria ter filhos. Sacanagem jogar alguém no mundo pra viver nesta selva.

Até arrisquei, sem empenho, engravidar de um namoradinho que também queria, sem muita convicção. Não rolou. Investiguei sobre adoção e inseminação e cheguei a falar sobre isso com um amigo, um peguete e tal. Mas na hora H, não fui em frente. Até que, dores vividas e curadas, aceitei a realidade. É, não deu pra ter filho. Não que eu não quisesse. Não que eu quisesse.

Eu escolhi. E não, não vou gerar filhos. Vou amar minhas afilhadas e seus filhos, minha sobrinha e seus filhos, se tiverem. Vou amar os filhos do caminho, dos amigos, amar meus amigos e família, vou cuidar de quem a vida me pedir pra cuidar, vou ser maternal na hora que precisar. Meu coração está aberto. De vez em quando sinto uma tristezinha por não saber como é ter esse laço de amor com alguém. Mas tem muitas coisas que a gente nunca vai experimentar, mesmo. Me emociono, amo bebês, amo crianças e elas me amam. E que bom que o mundo está cheio delas! A emoção é o movimento da vida.

Tem uma coisa que eu não sabia: com o tempo, as perguntas silenciam e a gente fica em paz. A vida segue em frente. Escolher é o nosso maior poder. Mesmo cheia de conflitos humanos, eu fiz uma escolha e assino embaixo. E aquela velha estrada continua florescendo, cheia de múltiplos infinitos…

2015-07-06 04.29.28

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