volto de viagem desanimadérrima com o Brasil, em especial com o Rio de Janeiro, cidade da qual posso falar, pq é aqui que vivo. cansada de tanta caretice disfarçada, percebo que finalmente colhemos o que plantamos durante toda a nossa história recente: um povo sem educação, sem cultura, com valores tacanhos e preconceitos mil, ainda cheios daquela velha opinião formada sobre tudo. A ignorância, no sentido da palavra, é a maior escuridão, a maior cegueira. temperado por essa sensação de superioridade tropical, o narcisismo carioca virou uma bomba cujos efeitos estamos experimentando. estamos ainda no tempo da depuração, vivendo nossa idade média, nos digladiando e levantando a cabeça do opositor como troféu. torço pra, se voltar brasileira, que seja daqui a mil anos luz, qdo os dinossauros que habitam a mentalidade cristã-tropical, sejam apenas fósseis nas sombras do tempo.

Viajando sozinha, flanando pelas ruas de Londres, debaixo de chuva e sentindo muito frio,  me permiti um breve descanso de um ano intenso de batalhas e conquistas. acabei fazendo uma viagem onde o silêncio de estar sozinha se transformou num misto de reflexão e contemplação desse admirável mundo velho. Esse que o maravilhoso, feliz e colorido Brasil jamais experimentou ou experimentará.

Demorei a entender o que era que me deixava tão bem ali. lá, no meio da rua do cidadão comum, as aparências já foram, há muito, substituídas por outros valores e vc pode ser azul de bolinha branca, que ninguém vai te julgar por isso. vc entra na livraria mega cult e a mulher te atende com um aplique de cabelo tipo Maggie Simpson, com uma maquiagem anos 50, séria e feliz, sendo como quer ser. No restaurante comum, o garçom usa alargador de orelha, tattoo na mão, dreadlocks lilás, amarradas no alto da cabeça como um espalhafatoso espanador e pronto. e vc acostuma e para de olhar pra isso com espanto. assim como vc vê uma coroa com um garotão num pub, bem à vontade, e uma gorda namorando um magro e uma velhinha bebendo sozinha e um velhinho vestido como um personagem de cinema e casais multi-étnicos e multi-etários, multi-sexuais e suas crianças furtacor. vejam bem: pra mim, que ainda estou no mundo das aparências, essa foi a lente pela qual identifiquei a liberdade.

me pego levemente envergonhada pelo Rio, cidade onde a aparência é tudo, malhar é tudo, ser gostosa é tudo. a espécie ainda não evoluiu pra perceber as outras qualidades e faculdades humanas. aqui vc não precisa ser, mas precisa parecer ser.

em Londres, cansada e desprovida de td censura, vestindo a capa da invisibilidade, experimento momentos da grandeza humana, sua história, sua transcendência e suas conquistas. choro no museu, que abriga a sabedoria de toda a humanidade e é de graça e está lotado. choro com o primeiro portrait de um homem negro, ex-escravo, que ganhou sua liberdade na Inglaterra. choro com o concerto de graça, na linda igreja cheia de jovens. choro pq na minha terra, onde a alegria é linda imperatriz, ainda estamos achando o espelho a melhor paisagem, estamos nadando no aquário, tolos, como se conhecêssemos o mar.

Corro atrás do tempo Vim de não sei onde Devagar é que não se vai longe Eu semeio o vento Na minha cidade Vou pra rua e bebo a tempestade

saÍ de casa atrasada para o casamento. ainda tinha que passar no caixa, tirar dinheiro, passar no supermercado e comprar uns não-perecíveis que os noivos pediram como colaboração para a comunidade espiritual da qual fazem parte. botei vestido novo, pintei cabelo, fiz as unhas, me maquiei. merda, não tenho sapato! fui, afobada, meio capenga, me sentindo vazia, uma solteirona incorrigível, feia, velha, gorda, pobre. hopeless.

casamento lindo, velas, esteirinhas e almofadas de chitão espalhadas pelo gramado, a descontração da festa e das pessoas, a alegria genuína sem pose, sem boá de plumas e óculos ridículos e sandálias havainas de brinde. ninguém se fantasiou para ir a essa festa, ninguém fez um cenário de cindelera. era a vida simples, colorida e linda como ela é. depois da choradeira, a alegria foi coroada com uma linda roda de samba, da qual participei cantando coisas de amor. fui contagiada pela felicidade do casal, pelo vinho, pelos amigos. sosseguei.

de repente, numa roda de amigos, me chama a atenção uma mocinha morena, muito sorridente e magra, em cujo colo se podia ver, sob a finíssima pele, um marca passo. de algum lugar da memória, vem a lembrança de uma campanha para arrecadar fundos para uma moça que havia descoberto um câncer terrível, em estado bem avançado, com uma chance de tratamento na Alemanha. O rosto dela veio num flash. Era ela. lutando a favor da vida, há anos, incansável, determinada, sorrindo no samba.

o marca passo aparente evidenciava, como uma bomba relógio, os tiques e taques do tempo que se apressa, não só pra ela, para todos nós. uma ampulheta silenciosa correndo e avisando, como o coelho da Alice: é tarde.  é a morte que faz a felicidade urgente.  chorei, no banheiro da festa, pela moça do marca-passo ali sorrindo, conversando, como se nada estivesse acontecendo, com a vida por um fio, mas querendo, com todas as forças, continuar no samba. desejei ter super poderes pra mudar o rumo da história. lembrei, imediatamente, de abraçar meus amigos, de ser grata pela vida, de cuidar da saúde. e de parar de reclamar do sapato ou de ter que pintar os fios de cabelo branco, que me avisam duas coisas: o tempo passa. mas você está viva. vamos sambar.

arte*

16/08/2013

Há um lugar onde só a arte nos leva. No seu colo generoso, sem etnia, sem gênero, sem estratificação social, sem educação e sem pátria, só ela é capaz de convidar a mergulhos inomináveis, e provocar sentimentos sem precedência; em todo o léxico nenhuma palavra a descreve. E por isso a experiência da arte é peculiar, arrebatadora, orgânica e individual. Acorda o corpo, desperta os sentidos, sacode a poeira, instaura novidades. Desafia o entendimento e faz perguntas que não sabemos responder com a pequenez da nossa vivência adestrada para gostos, sabores, achismos e definições. Só arte é capaz de, sem compromissos, afirmar a essência da natureza humana. Só a arte nos compreende, só a arte nos traduz, só a arte nos redime.

A arte projeta luz na matéria anterior ao pensamento, incita sinapses, cutuca e conforta. Como uma reza, apazigua a alma dos incompreendidos e acorda os mortos do mais-ou-menos da existência cheia de limites do corpo, da forma, da medida, do saber, dos nomes, dos predicados, dos sujeitos. A arte é o homem em toda a grandeza das suas possibilidades.

A arte é a divindade a quem me rendo, na frente de quem me ajoelho e peço, em oração, para jamais cair na solução fácil do pequeno poder do saber pífio, das reduções. É na arte que me largo nos braços da dança cósmica, que me liberto para ser filha do universo, criatura criadeira, um ser uno em consonância com todos os tempos, irmã de todos os mistérios ainda por revelar, sem a pretensão de dominar segredos ou formular soluções. Ante sua arrebatadora majestade, choro de amor, humilde súdita. Só beleza, perplexidade, entrega, aprendizado, alegria e doação. A arte é deus.

*este post foi provocado pelo musical Gonzagão – A lenda. Uma das coisas mais lindas que eu vi na vida. se derem a sorte, vejam.

vida de bailarina

02/04/2013

diálogo entre dois gatinhos, entreouvido na academia:
“po, cara, tu tem que ver a comida que eu fiz hj (se olhando no espelho, levantando a camisa pra apalpar os gominhos do tanque): peito de frango grelhado, omelete de 6 claras, arroz integral e salada.”
o interlocutor, tb se olhando no espelho, responde: “po, e eu? peito de peru e um pratão de verdura sem azeite e sem sal. vou ficar sequinho, broder”
“podicrê, mermão”

quitandeiro, leva cheiro e tomate na casa do chocolate, que hoje vai ter macarrão

perdi dinheiro. não sei como. nunca perdi um celular, não perco chave, caneta, óculos, nada! mas perdi um cachê inteirinho, que nem era meu, ia direto pra pagar músicos. na hora em que me dei conta da perda, lembrei de um astrólogo que dizia que qdo a gente perde alguma coisa, ou é roubada, é que tá dando pouco…   entre vontade de chorar e ódio mortal de mim mesma, vou ao caixa eletrônico do supermercado sacar dinheiro.

nessa hora, vejo refletida a imagem de um homem com duas muletas, sozinho, andando muito mal, carregado de sacolas.  me ofereço, num impulso, para ajuda-lo a descer a rampa do mercado, carregando as sacolas pra ele. ele se espanta, me agradece  muito, dizendo que nem dirigir tá podendo com as pernas inchadas daquele jeito. sem entrar em detalhes, pergunto como ele vai sair dali, ele diz que vai de taxi, que logo chamo, enqto ele fala: “que vc tenha um lindo dia! muito, muito obrigado”. E vai.

entro num frescão, rumo ao Centro. qdo abro a bolsa, percebo que faltam 30 centavos pra completar a passagem, já que eles não trocam a nota de 50 que eu tinha. lá de dentro do ônibus, uma moça que eu nunca vi na vida, fala: “ei, pega aqui os 30 centavos”, enquanto estende a mão com as moedas para mim. sem graça, grata, pego o dinheiro, me justificando: “é que eles não têm troco…” e ela fala: “não se preocupe, eu tive um lindo dia, ganhei presentes, fui tão amada, é o mínimo que eu posso fazer para agradecer por tanta felicidade.”

liçãozinha prêt-à-porter: é dando que se recebe.

fim

no supermercado, no corredor de produtos de limpeza, vi uma velhinha negra, ressequida, magrinha, encurvada, caminhando arrastando os pés, em passinhos curtos e irregulares.

ela calçava um chinelo tipo pantufa, com meia surradinha branca, uma saia marrom, abaixo do joelho e uma camiseta, pra fora da saia, com uma nossa senhora flutuando em nuvens azuis. o cabelo branquinho estava mal amarrado num coque pequeno. parecia desprovida de vaidade, embora estivesse limpa. carregava uma sacola com uma outra santa estampada. fé, pensei, como pode ter fé? eu, que to aqui inteira (quase), bonitona (quase), nova (quase) não sei que deuses restituiriam a minha fé. adoraria encontra-la, para estampar no rosto aquele sorriso aparvalhado dos que crêem. ela, velha, de pantufas na rua, estampa a fé no peito.

acometida de uma compaixão humana que nem sei se ela merece ou deseja, pq a infelicidade dela é uma fantasia minha, me dou conta de que aquela velhinha já foi uma criança e, depois,  uma mocinha. saio do supermercado, mais uma vez, chorando pela rua, pensando nos vestidos que a mocinha queria ter,  mas não podia, nos sonhos que ela ousou sonhar, e não realizou, no futuro que ela desejava ter, mas não teve, nos anseios de amores não consumados. A certa altura vejo que meus sonhos frustrados se misturam com os que atribui a ela, e já nem sei mais por quem estou chorando, por que sonhos, por que fracassos.

branca

25/09/2012

no fim de semana participei de uma oficina de jongo, pra quem não sabe, manifestação cultural afro-brasileira, herança dos negros bantus, que mistura batuque, dança, música e magia. Aqui um video emocionante sobre o assunto. Esse vídeo é cheio de depoimentos de familiares de escravos, sobre a forma como os africanos foram tratados quando chegaram, adultos e crianças vendidos separadamente. Pais e filhos desesperados, separados para sempre, doentes ou sãos, jogados num fundo de senzala qualquer, trabalhando e apanhando sem saber pra quem, por que e pra quê. E mesmo assim, driblaram o senhorio, fizeram  música e magia, construíram tambores, inventaram batuques e dançaram. Há 120 anos, ainda havia escravos no Brasil. Apenas 120 anos. Ontem.

Não que eu não soubesse disso, mas aqueles depoimentos entraram pelos sete buracos da minha cabeça me deixando envergonhada, calada, bolada e me saíram pelos olhos. Embora eu aprenda qq dança com facilidade, na hora de aprender os passos do jongo me senti uma gringa inferior, uma nórdica desajeitada, tentando, ridiculamente, sambar.  Me senti branca, imperdoavelmente branca.

 

estou participando de uma espécie de congresso de música vocal, de 3 dias de duração. É um encontro internacional, com palestras e workshops o dia todo, tudo em torno dela: a voz. Dei de cara com meu passado de estudante, dos tempos da Pró-Arte. Meus colegas, que eram aspirantes, agora são eles os professores. Revi o filmezinho da minha história e me comovi. Não é que eu realmente fiz o que eu queria? não é que realmente vingou aquele desejo delirante? 25 anos depois, eu sou realmente cantora profissional, reconhecida e respeitada por isso, como um dia eu ousei querer ser. Ah, sou! e isso me enche de emoção e felicidade, pq eu fui lá e fiz, com todas as pedras do caminho, e isso é meu só meu.

coincidentemente, no mesmo CCBB tá rolando uma grande exposição sobre a vida da Elis. Hj sentei pra ouvir e ver Elis com olhos e ouvidos da cantora adulta que agora sou (onde coloquei esses 25 anos? que vertigem que me deu agora… como se eu tentasse subir uma escada rolante na contramão: esforço vão).

Ouvi Elis bem pouco na vida, nunca pra estudar. Na verdade, nunca ouvi cantoras pra estudar. Eu colocava os discos e cantava em cima, mas do meu jeito. Eu era a estrela. Nasci sem o dom de imitar e com excesso de personalidade. Hj, arrepiada dos pés à cabeça, surpreendida com lágrimas nos olhos, boquiaberta, vi uma Elis estupenda, num telão gigante, onde é possível ver toda a articulação do seu canto, a trajetória do ar, a embocadura, o corpo que se dá inteiro ao cantar, um bloco de emoção e técnica, tão perfeitamente natural e orgânico… E o amor profundo de todo o ser dela por cantar, o gozo, a completude. A gente adivinha a coluna de ar espiralada ascendente que atravessa a cantora (só as de verdade), e a eleva àquele lugar onde só a música coloca a gente, uma dimensão imaterial onde só existe respiração e som, e o vento bate por dentro, o sangue quente borbulha nas veias e a gente simplesmente se entrega à canção. Me peguei aos prantos, como se eu sentisse aqui a dor da Elis, a dor do silêncio da Elis.

Imagem

.*frase da Elis

devassidão

18/03/2012

ele cruzou comigo na escadaria, eu subindo, ele descendo, em busca dos nossos assentos. era uma grande noite, cheia de pessoas vendo e sendo vistas. eu vestia branco, lembro bem. ele, sempre encantador e de paletó. os cabelos desalinhados,  a barba crescida, suado, atarefado e gato, o costumeiro hálito alcoólico.

passou por mim, me abraçou pra me cumprimentar, e sussurou no meu ouvido: “só não te como, porque tenho namorada”. en garde, respondi: “não! vc só não me come porque eu não quero”. rimos muito da nossa rapidinha gostosa na escada do teatro, e seguimos.

Hoje, quando soube que ele morreu – poeta jovem, rebelde permanente,  artista e acadêmico supercarioca-  ele, arquetipicamente eterno, sempre mirando num alvo que ninguém via, eu só conseguia pensar: “por que não dei pra ele?”  (isso lá é coisa que se pense numa hora dessas? )

despudorada, acho que ele gostaria desse epitáfio, publicado no dia da sua própria morte. ele, dionisíaco, esfogueado e vivinho da silva, mesmo assim, morto, do jeito que está agora.

sempre atrasada, paro na esquina pra pegar um taxi até o metrô mais próximo. um cara me para e pergunta: “onde pego o ônibus pro metrô de Ipanema?” Indiquei o ponto, enquanto entrava no taxi, e pensei e falei ao mesmo tempo: “to indo pra lá, quer carona?”. O cara, entre atônito e divertido, topou na hora, educadamente. completamente estranhos um pro outro, entramos naquele taxi maravilhosamente refrigerado, numa tarde de 35º no Leblon. Convidei primeiro, pensei depois! confiei, pronto. ele disse: “obrigado! agora to indo pra faixa de Gaza. Meu trabalho fica entre duas facções, entre duas favelas não pacificadas. E a gente lá… no meio do tiroteio…”

meu telefone toca sem parar e eu mal consigo continuar nosso papo, até quase Ipanema, qdo trocamos impressões sobre o emprego dele, como controlador de perdas numa grande cadeia de varejo popular, e dos preços absurdos praticados no Rio.  Eu estava a caminho da primeira audição do meu CD solo, e de uma longa sessão de edição de voz. Concentração e expectativa em alta. a conversa me atravessava. nos despedimos na porta do metrô, ele saiu correndo, não sem antes me oferecer seu telefone, pra qq coisa. Recusei, desejei sorte. Ele me deu um quase-abraço fraterno, apertou minha mão: “Agora é vida que segue, obrigado!”. Retribui o quase-abraço.

Qdo entro no vagão lotado, lá está ele, sentado. Ele acena e levanta, imediatamente, cedendo seu lugar. Aceito a gentileza, sorrindo. Me ofereço pra segurar sua mochila e engato, sem perceber, uma conversa com a moça sentada ao meu lado.

Ela me conta, quase do nada, que está perdida no metrô. Mas que está feliz, pq foi seu primeiro dia de trabalho, como diarista, na casa de uma pessoa que lhe deu a chave da porta e saiu. Sem desconfiança, sem medo. Está grata e satisfeita por ser alvo de confiança. Está em paz, sem pressa de chegar em casa, embora prefira andar de ônibus: “A melhor coisa que tem é a confiança”.

Quando piso de novo na minha vida, no estúdio, ouvindo o disco pelo qual tenho esperado com tanto anseio, percebo que ali também estou cercada de gentileza, respeito e confiança. E reforço minha crença nesse grato caminho por onde pretendo sempre passear.

susan sarandon

17/01/2012

estou, tipo assim, a susan sarandon: ruiva (once ruiva, sempre), maravilhosa, independente, gostosa, complexa, divertida, inteligente e coroa.

estava preparada pra tudo. menos pra ser coroa:

ai, ai.

la luna

16/06/2011

o dia era da lua. eu sou canceriana, né? lunar, lunática. fui pedalar e ver o eclipse da lua. vi a lua branca, cheia perfeita, redonda, desaparecer às mordidas, enqto eu pedalava do leblon ao arpoador, ida e volta, ida e volta. o eclipse  enegrecendo tudo,  até que se cumpriu, cobriu, descobriu. o arpoador rugia. faz frio nesta cidade.

depois, noite alta, fui pra lapa, pra rua. A lua, a noite toda, novamente em plenilunio. até beijei uma boca, rapaz novo. pecado, pensei, tadinho, pensei, me fui. no caminho de volta pra casa, a danada da lua me olhava, pela janela do taxi, da lapa ao leblon. chegando em casa, quase de manhã, a lua ainda molhava a minha cama pela janela aberta, na hora de fechar a cortina.

amanheceu, fechei o blackout . ela está encoberta pela manhã. eu, também. nós, as selenitas.


0 X 0

07/06/2011

na corrida desta tarde, praia super vazia, areia gelada, cruzo com poucos grupos de meninas e de meninos. Corro devagarzinho, escuto as conversas, palavras-chave. As meninas falam de meninos, claramente, analisando comportamentos. Os meninos falam de futebol.

Entendeu, agora, o porquê do placar vigente?

felicidade

14/05/2011

todas as pessoas felizes, que eu conheci, são felizes apesar da vida. elas não precisam da vida para serem felizes. nem de dinheiro, nem de nada. elas são felizes. period.

pesos e medidas

01/03/2011

na academia grudada no meu prédio a música está aos gritos. e os professores vociferam palavras de estimulo: “vamos lá, pessoal, o carnaval taí”.

cruzo na rua com um casal sobre-humano, com roupa de malhação. Ela toda aplicada. Aplique no cabelo, no peito, na unha, na boca, cara pálida de peeling. Ele parecia o minotauro.

vou correr na praia desesperada por resultados, amaldiçoando toda a minha cadeia genética por passar a vida toda correndo atrás desse prejuízo que nasceu comigo, me atormenta e não me larga.  já tem aplique de dna no mercado? to dentro!

lembro de uma mulher que vi na TV e nunca mais esqueci. Carioca, casada com estrangeiro, morando no interior de outro país, longe desse insensato balneário, ela me parecia perfeitamente feliz com sua sandália feiosa e confortável, com seu vestido larguinho, unsexy e confortável, com seus cabelos curtos enbranquecendo confortavelmente. Bem à vontade com suas formas fartas e com as grandes bochechas rosadas, quase infantis. O marido, amarradão. Lá ela era uma mulher. Aqui seria apenas uma baranga.

Aturdida por tantos pesos e medidas, cruzo com um menino de uns 14 anos, todo arrumadinho, perfumadinho, bermuda impecavelmente branca, puxando de uma perna, como se tivesse tido pólio (inda existe?). Acompanho o esforço que ele faz pra atravessar a rua com dignidade, mesmo com aquele balanço claudicante semi-cômico. Sinto uma dor asfixiante como se, de uma vez só, eu sentisse toda a rejeição, toda a repulsa de que ele é alvo, toda revolta secreta que ele vai sentir na vida por não entender porque isso aconteceu justo com ele. Sinto um amor profundo cujo nome não sei. E lá vou eu, chorando pela rua, com meu passo firme, minhas pernas perfeitas e meus probleminhas.

sem palavras

15/02/2011

cores do Rio

24/01/2011

O Rio de Janeiro tem praia de branco e de preto. A praia no eixo Leblon-Arpoador me parece assim: branca em toda a extensão do Leblon, mas ali perto do posto 12 e, de novo, no finzinho do Leblon, há uma turma de pretos. No Jardim de Alah, dos dois lados, a praia é dos pretos. Pausa para a Anibal, a Garcia e o território dos gringos, que tem de tudo. O coqueirão, seguido pelo Posto 9,  mistura um pouco de tudo, peronomucho. Parece que mistura, mas não mistura, sabe como é?

Pausa para as tatuagens. Outro dia, juro que li nas costas de um cara, de ombro a ombro, a frase “há malas que vão para Belém”. Há tb o hábito de tatuar nomes de filhos nos antebraços, nome do amor no cóccix  e sobrenomes nas costas, além de carregar nos tribais proto-polinésios e nos  ideogramas japoneses e nos caracteres árabes, all over.  Moças tatuam a nuca. Rapazes, os braços.

Mais à frente vem a praia gay, mais ou menos até ali depois da Teixeira de Melo, bem parecida com a frequencia da praia dos gringos. Antes da ponta do Arpoador tem a praia da moda. Muita gente dia e noite na praia, tomando champagne, descontraidamente. Vai chegando o Arpoador, vai empretecendo. O Arpoador é a praia mais preta do Rio, parece até que eu estou na Bahia. Branco destoa.

Claro que tudo isso tem a ver com a geografia social desses bairros e blá blá, mas nao to fazendo analise sociológica, to fazendo análise cromática. Estamos em plenas férias escolares, verão escaldante, a praia no auge da ocupação e lotação. O Rio de Janeiro está em sua máxima potência.

Em toda a extensão da praia, pretos e pretas trabalham atendendo às múltiplas clientelas. Desde que o samba é samba é assim.

Cantei durante cinco anos na Modern Sound, todos os sábados, fiz exatamente 265 shows na casa. Em 2001 inaugurei o horário da tarde, de 16h às 20h,  com a Délia Fischer e o Zé Luiz Maia, ainda sem bateria, pra ver se funcionava.  Fui a primeira e única cantora fixa da casa, que só tinha instrumental nos outros dias. No começo não ia ninguém. Seis meses depois ganhamos o direito à bateria. Entrou o Kleberson Caetano.Vi o lugar pegar, devagar, e chegar a ter 200 pessoas, sábado após sábado, bombando! Dois anos depois, a Delia saiu, entrou o Paulo Malaguti Pauleira. O Kleberson saiu, entrou o Cacá Colon. O Zé ficou impedido de continuar, entrou o Mattosão. Hoje tenho dois baixistas, um luxo!

Eu que sempre ouvi de tudo, sempre me apaixonei por estilos e praias diversas, tive uma oportunidade que raramente é dada a uma cantora: residência, formação de público, teste de repertório, numa casa excelente. O que era pra ser música ambiente virou show. O repertório foi crescendo pra todos os lados: muitos standards de jazz, mpb, samba, Tom Jobim, Cole Porter, Cartola, Toninho Horta, Joyce, Thelonious Monk, Carole King, James Taylor, Stevie Wonder, Chico Buarque, tudo o que se pode imaginar. Tocamos a seleção de Bossa Nova do Ruy Castro, que disse que quando morresse, em vez de ir pro céu, queria ir pra M.S. Tomamos muitas caipirinhas, comemos muito salmão com alcaparras, muito carpaccio, muita cerveja gelada, até fumar podia.

Amadureci como artista, experimentei emissões, respirações, projeções, timbres, ganhei intimidade com o fazer música sob qq intempérie. Deprimida, feliz, doente, cansada, maravilhosa, de saco cheio, apaixonada, sempre lá. Fiquei 5 anos sem sair à noite na sexta, pra ficar pronta pro sabado. Recebemos canjas de tts músicos maravilhosos, que eu nem saberia mais enumerar, mas lembro do Mike Shapiro, do Idriss Boudrioua que ficava pra tocar You don’t  know what love is, do Carlos Balla, do Itamar Assiere, do Alex Rocha, do Bruno Migliari, do Marcelo Costa, da Leny Andrade, do Marcelo Mariano, do Henrique Band, do Glaucus Linx, e muitos mais que fariam essa lista ficar imensa e estrelada.

Tinha gente que ia toda semana, anos e anos a fio. Isso sem falar nos amigos que fizeram da Modern um ponto de encontro. Todo sábado eu recebia visitas deliciosas, que viravam noitadas intermináveis depois que a casa fechava. Vi minha sobrinha crescer ali, correndo entre as mesas e os discos. Fizemos casamentos, uma amiga saiu de lá pra maternidade, tivemos amores, desamores, amantes, desamantes, tudo aconteceu!

Serei eternamente grata à Modern Sound e a tudo o que vivi naqueles felizes 5 anos, que de certa forma perduram até hoje, no patrimônio profissional mais valioso que construí na minha vida, o agora Andrea Dutra Quarteto, que em 2011  faz 10 anos de atividades, com a bola lá no alto, agora residente mensal no especialissimo Triboz, onde continuamos a nossa saga de tocar música bonita, seja ela qual for. Eu, Pauleira, Mattoso e o Cassius Theperson, que assumiu a bateria no ano passado.. Todo primeiro sábado do mês.

Qual não foi a minha surpresa quando cheguei pra cantar no Triboz e vi aquelas carinhas do tempo da Modern, na platéia, ainda fiéis. Muita emoção, muita felicidade.

O show sempre vai continuar, mas agora, quando o fechamento da Modern Sound é fato a ser consumado no dia 31, não pude deixar de me emocionar com o filme da minha vida, que passou dentro de mim, com a melhor trilha sonora que alguém já concebeu. Music in me.

nós iremos até Paris, arrasar no Olympia, o show tem que continuar

Zé, eu, Kleberson e Pauleira, o Quarteto Moderno, nascido e criado na Modern Sound. Foto de Simone Portellada

infância

29/11/2010

essa calçada é  minha. Posso andar de skate, sozinha, mas só se eu jurar que não vou atravessar a rua. Tá, eu juro. A minha mãe fica no bar da esquina tomando cerveja com os amigos. Ela adora que eu fique muito tempo andando de skate e eu adoro que ela fique muito tempo tomando cerveja com os amigos. Quando já tá ficando tarde, ela fala: “vamos ficar mais um pouquinho?” êba

Eu posso andar sozinha de skate sem atravessar a rua, mas só nesse lado do quarteirão. É bom ir quase até a outra esquina, porque a rua é meio descidinha, e aí eu pego impulso, e quando chego na esquina do bar onde minha mãe tá tomando cerveja com os amigos, eu pulo do skate e ela berra: “cuidado, menina!” “Tá” eu respondo pegando o skate correndo e subindo a rua com ele debaixo do braço. É um pouco longe e às vezes dá medo de ir sozinha, mas nao faz mal, porque é irado quando eu pego impulso lá na esquina e venho zunindo até o bar com um frio na barriga.

Na frente do edifício azul tem uma parte da calçada que dá um salto, tipo um degrau redondo, e eu pego impulso e pulo antes do skate cair no buraco e já saio na frente da portaria de grade verde. Maneiro é quando eu to sozinha, porque senão eu  toda hora tenho que emprestar o skate e não to a fim.

to torcendo pra minha mae tomar mais uma cerveja, aí ela demora mais ainda, compra um sorvete, uma coca, uma  bala e eu vou ficando. Às vezes a gente fica até de noite, é irado. E aí quando eu ando de skate de noite é mais maneiro, porque a rua é só minha mesmo e eu saio voando pela pista, meu tênis de lantejoula rosa brilha e eu voando, voando, voando, voando, voando. Irado.

Fui interrompida por dois acidentes consecutivos nos ultimos 20 dias. Uma queimadura de 2º grau na mão, que me deixou parcialmente fora de combate (e daqui) e agora um acidente de carro, que deixou o saldo (barato) de uma costela quebrada e, pelo menos, mais duas semanas de repouso, desconforto e tal. Quando o carro veio na minha direção, achei que fosse morrer ali, na esquina de casa, voltando de um show. Mas cá estou, tinindo, a costela trincando.

O contato com a delicadeza da saúde, a fragilidade do meu corpo e as fatalidades, o acidente per se, me pareceram energéticamente pertinentes, pq estou toda interrompida, em todas as áreas da minha vida, desguarnecida, hopeless. Parece que a vida resolveu me botar de castigo e me deixar de fora. Se eu pudesse e se meu dinheiro desse, aceitaria o momento com passividade, e passaria tranquilamente 3 meses dada como desaparecida, fazendo uma expedição no Xingu, um voto de silencio no Tibete ou um curso maravilhoso de harmonia intensiva em Juilliard. Mas o mais longe que posso ir é mesmo à praia (se o sol, algum dia, voltar), o que já é uma grande maravilha, perto do que vi nesses dias. O lado mais feio, sujo e fedido da vida, o que ninguém quer ver. A pobreza é um deles, a doença é outro. Ver os dois ao mesmo tempo dá arrepios e reforça a certeza que eu sempre tive. Claro que não existe deus. Nem paraíso pra ir se refrescar  depois, nem inferno pra mandar quem deveria ir pra lá.

Atendida na emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, assisti a cenas de terror. De equipamentos e funcionários que não funcionavam, de filas de horas e horas e horas de espera, de um ambulatório fétido, lotado de gente sangrando, doentes, velhinhos sem atendimento, um médico aturdido, enfermeiras enfastiadas e muuuuita pobreza. Banheiro sem porta, papel higiênico, nem pensar. E esse, dizem, é o que tem de melhor no município, a melhor emergência possível, melhor até do que os hospitais particulares. Mentira. O técnico de raio -x que me atendeu nao sabia como me radiografar e nem sua colega. Tentaram adivinhar, enquanto eu segurava com o queixo uma parte do equipamento que despencava pela parede.

Se a vida andava me achando mimada demais, precisada de ver umas tais verdades, ok. Embora eu seja mimada, em geral, eu sou um tipo grato, que sabe quando é feliz e vc que é meu leitor, sabe o qto vejo de beleza na vida. Mas ando realmente paralisada e infeliz e se era pra eu me sentir feliz com o contraste, pra dar graças a deus pelo que tenho, nao deu certo. Se essa era a lição pra aprender, sorry, nao foi dessa vez. Fiquei ainda mais infeliz e revoltada do que já estava, com mais vontade de desaparecer.

Completamente descrente de tudo, não acredito em ninguém e acho que nada vai mudar ou melhorar. Ao contrário, acho que tudo fica sempre muito pior. Imagino o Rio de Janeiro, em dez anos, coberto de favelas, no sopé do Cristo Redentor, no morro Dois Irmãos, no Pão de Açúcar. Os cartões postais da cidade tomados de barracos e pobreza, de muito mais gente invisível na fila do Miguel Couto. E os políticos assistindo passivamente a tudo e dizendo: Não temos recursos.

E quando entro naquele hospital, com aquela gente desesperada, feia, pobre, suja, sem saída e sem recursos, num país que, dizem os números, é a última coca cola do deserto, tenho vontade de queimar uns ônibus, sequestrar uns embaixadores e deixar o prefeito, o governador e toda a sua linda família de mauricinhos e patricinhas, dormindo uma noite no Miguel Couto, para que esses filhos de puta tomem um sacode e façam alguma coisa pelos palhaços que os elegem. Meu voto não levam. Nem eles, nem ninguém, pois não pratico mais esse esporte.

Serginho Cabral e  Eduardo Paes, shame on you! Só lamento realmente que não haja um inferno, para vcs arderem lá para sempre!

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