52

30/06/2016

não quero que o tempo seja um tornado que vem se aproximando, prometendo só arrancar as árvores e os telhados das casas, matar os animais e secar os rios. Não quero que o tempo seja um fardo, um estorvo. Quero viver esse tempo com amor, abraçar essa vida com gosto, suas teias, seus ninhos de passarinhos, seus musgos, suas florações e seus estios. ciclo que me inclui. nunca paro de renascer.

não quero que a realidade seja insuportável, que eu precise viver de olhos fechados pra suportar as coisas como são.  o ocaso de uns, a aurora de outros. quero olhar as coisas como são, de mulher pra mulher. e falar, sim, ok, vou encarar de coração aberto. e vou me esforçar pra achar o lado bom do inevitável. e vou comemorar por estar inteira, de pé e morrendo de rir e de cantar, cercada de tanto verdadeiro amor dos meus amigos e da família.

a idade não será um castigo. envelhecer não será um motivo pra me esconder. amadurecer será mais uma das coisas boas da vida. potência plena ocupada. espaço dinamizado. expansão e visão panorâmica. vejo mais, cobiço mais, quero mais.

vem 52. IMG_6226

insulto ao comum

04/08/2015

desde muito nova, quando comecei a me deparar com as dificuldades da carreira (e o que sabia eu sobre dificuldades?), eu já achava a coisa mais feia do mundo ser músico ressentido, reclamão, gênio incompreendido. sempre achei que quem escolhe não pode reclamar do que escolheu.

tem muito músico que confunde arte com milagre e se acha melhor que os outros porque tem o dom da música. sempre fiz questão de deixar claro que não acho isso, que acho que todos temos um dom e que o mundo precisa de todos. o que seria do mundo sem pontes, sem dentistas, sem pintores de parede, sem cozinheiros? a diversidade colore o mundo, tem gosto pra tudo.

o outro lado desse engano comum vem justamente do olhar do leigo que acha o músico um deus afortunado, um ser especial a quem foi dado o direito de viver “se divertindo”, de “não trabalhar”, como se trabalho fosse, necessariamente, uma obrigação abominável, destinada somente aos reles plebeus.

a batalha na música é muito diferente do romantismo e da poesia que os leigos vêem, embora inclua romantismo e poesia. mas também inclui abandono, desespero, falta de perspectiva, falta de estímulo, solidão, falta de grana e medo. para cada estrela pop que anda de carrão e ganha milhões, existem centenas de músicos como eu, mortais, que não ganham dinheiro, nem fama, nem reconhecimento público, nunca ou quase nunca.

esperar que o mundo tenha um atenção especial para dar aos artistas me parece um engano. eu acho que a arte tem que pertencer à vida, ao cotidiano, à formação do ser humano, assim como a matemática e a geografia de cada dia. a arte deveria ter esse mesmo privilégio, mas não tem. ninguém ensina música na escola como uma possibilidade de profissão. é sempre um hobby, uma diversão. é assim, nesse viés, que começam as distorções que culminam na crença comum de que todos os músicos são vagabundos e maconheiros e que música não é trabalho. porque ela diverte quem escuta e quem faz.

talvez, nesse padrão capitalista infernal, onde as relações de trabalho servem para tornar o patrão feliz e rico e todos os outros, escravos, escolher e ter prazer no trabalho seja um insulto ao comum. mas não é possível ignorar toda a cadeia produtiva envolvida na música que o mundo inteiro consome o tempo todo. milhares de rádios, de playlists, de canais de música, de CDs, DVDs, shows, festas, bares. tem música até no elevador. e por trás disso tem gente. muita gente.

tá tudo errado nesta sociedade, isso é óbvio. quem nasceu pronto pra se adaptar ao moedor de gente que é esse modelo de relação de trabalho e consumo capitalistas? jogo a toalha, será que é porque sou artista?

tenho quase 30 anos de carreira, cinco discos lançados, e canto nos melhores lugares, com as melhores pessoas. 90% das vezes, trabalho de graça ou quase. se isso não está errado, me corrija. ou será que vou passar o resto da vida pagando pelo pecado de fazer aquilo que nasci pra fazer, que me dá prazer, sim, que me faz feliz, sim e que faz muita gente feliz, sim?

hoje, aos quase 30 anos de carreira estou, enfim, reclamando. me sinto incompreendida, abandonada, estou ressentida e com muita raiva. hoje, pela primeira vez, um post vai ao ar sem imagem. hoje não quero beleza nenhuma.

tsunami

11/03/2015

abro o Face e vejo a foto de um baterista que, qdo tinha uns 20 anos, foi uma paixonite minha. paro, estatelada! socorro! ele virou um tiozão de camisa polo! na mesmo noite, vejo a foto do meu primeiro amor, um verdadeiro maracujá de gaveta, como dizia meu avô. tenho me assustado, sobretudo com os homens da minha geração que, por se cuidarem menos que as mulheres, estão uns cacos. horrível dizer isso, pq, a esta altura, eu já devia ter olhado pro espelho, encarado a realidade dos fatos e deixado pra trás essa bobagem toda, sublimando as marcas do tempo, encarando a chance de estar aqui, bem, inteira, como uma dádiva.

a velhice é como uma inundação que se anuncia. está chegando, o tsunami está vindo na minha direção. já consigo ver os sinais nos meus pais, no meu pescoço, na pele e, principalmente, no olhar dos outros. pra uns, já virei coroa. nem sabia que isso já ia acontecer agora, tão cedo. qdo a gente olha de dentro, a perspectiva é outra. por dentro, terei sempre a mesma idade-Andréa, que não é um número, mas uma fotografia de um pôr-do-sol no verão do Rio de Janeiro, pronto pra explodir em acontecimentos incríveis e momentos fulgurantes. assim seja!

oroboro

12/02/2015

mudei de casa. adoro a casa nova. mudei de bairro. estou conhecendo o bairro novo. ainda nem sei qual supermercado é mais perto, mais barato, ou qual boteco entrega até mais tarde, ou qual farmácia etc. sei de nada. não conheço a cara de nenhum porteiro, nenhum camelô, nenhum traficante e nenhum morador de rua. só conheço um fruteiro, que trato com o maior cuidado, já que ele é o único que me trata como se eu sempre tivesse estado aqui. And I belong again.

estou aturdida com cenário, figurino e elenco da minha nova vida: muitos turistas, muitas putas, muita gente, muito barulho e poeira preta. praia grande (linda), terceira idade. mudaram as cores e os cheiros da vida. mudou tudo. o paradoxo de Copacabana é que, no bairro mais veloz do Rio, vc tem que aprender a desacelerar. aqui, o limite de velocidade é outro. o povo de Copa é mais faceiro e fagueiro que lépido. eu sou forever young em minha aventura pela terra. reciclo, renasço. pra sempre oroboro

aqui acordei da paixão, voltei à velha forma, não sei para onde vou. sei que, numa vida passada, vim de Ipanema, mas isso já tem tempo. mudar o cenário mudou minha visão inteira, minha perspectiva. mesmo amando minha nova casa, ainda me sinto presa ao éter por um fio, como se ainda não tivesse assentado no meu terreiro. ainda não sou dona dessa nova vida.  de forever young me sinto forever velha, cheia de dores, ocupando um velho corpo, não habito o meu futuro. aí, lembro que não existe futuro, tudo o que há é uma experiência de presente e, portanto, estou onde devo estar. o cenário mudou, mas eu continuo a mesma. estou confusa. perdão.

no metrô, de repente era Paris, um cello tocava Bach. Ao contrário de Paris, os cariocas aplaudem. volto zonza de uma reunião do trabalho social que estou apenas começando a fazer, e que me enche de orgulho e medo. ali, as pessoas são como eu. jovens, alimentam uma estranha fé no trabalho comunitário e lento. me imagino tendo os dias mais felizes da minha vida, tentando levar alguma dignidade ao fim do mundo. depois lembro que vou ter que dormir 5 dias no alojamento improvisado na única escola da comunidade. tenho vergonha de não querer ir. sou jovem, mas sinto dores de velha. madame não gosta de samba. e quem não gosta de samba…

na volta da reunião, entro num supermercado onde nunca entrei, na esquina da minha nova casa. não sei onde fica nada, não conheço os produtos que vendem. uma ironia, uma metáfora da minha vida. compro o vinho da promoção e uma manteiga de Minas, que nunca provei. teve bom.

aquele canto verde de morro, que já sei que brilha quando chove, o céu estrelado visto da cama e as paredes azuis já são meus. até este ponto, cheguei.

 

araras doda 020

 

PS: Acabo de ler: “É preciso reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.” Malvine Zalcberg

Tá bem.

domingo

21/09/2014

Haverá um domingo chuvoso como hoje, em algum momento de um futuro remoto, sobre o qual nem consigo pensar (choro, mesmo suprimindo o pensamento à força), em que me faltará a mãe. E tb o pai. E alguns dos meus amigos mais queridos, que já começaram a partir, devagarzinho, cada um por seu motivo. Uns abandonaram o barco, outros desembarcaram voluntariamente, outros naufragaram. Nós outros continuamos remando, tentando emplacar a nossa grande viagem de circunavegação, nossa travessia da grande água, desbravando o desconhecido ultramar em busca da especiaria que nos falta, o sal da vida, aquilo que dá sentido ao insensato, que dá gosto ao insípido, que colore o incolor, que perfuma o inodoro. Quando a gente nasce, a gente ganha um pote vazio e sem fundo, onde se pode colocar qualquer coisa, de qualquer natureza e matiz. Neste momento, inventario o meu pote. Estará ele cheio do que me é mais caro? Perdi tempo colhendo o que não desejo, por descuido ou capricho, ou doença ou ignorância? Quando estarei, enfim, treinada para escolher a dedo aquilo que importa, nesse exercício permanente de aprender a filtrar e peneirar, selecionar e rejeitar, apontar e desapontar? para, então, desfrutar plenamente dessa dádiva em toda sua transitoriedade? Meus sentimentos confusos encobrem a razão e estou, agora, com seis anos de idade, perdida na praia cheia, sem saber pra que lado caminhar. 2014-08-22 17.26.27

aceitação

29/05/2014

nada existe, só o momento que invento, este momento, que passa por dentro de cada letra de cada uma dessas palavras e já não é mais o mesmo na próxima. e assim, o tempo escorrega, aquoso, volátil, esquivo.

tenho pavor do futuro. que bom, o futuro a deus pertence.

a mim só pertence o presente.

2014-04-23 00.01.54d

 

 

 

melancholia

22/06/2012

só consigo pensar naquele planeta do filme Melancholia. como se pensasse, obsessivamente, num homem que tive e que não me sai da cabeça. toda hora a lembrança dele vem me rondar, me seduzir de novo. E as pernas vão bambeando, o chão vai sumindo, a base da espinha fica amortecida, escurece tudo: desejo tão arduamente ver Melancholia azulando toda a minha janela… primeiro, remoto como uma lua, depois, cada vez mais perto, quase fechando o quadro da janela, até que blam! Melancholia, quero sentir sua invasão, quero ir à explosão com vc,  quero que vc detone tudo e não permita que pedra reste sobre pedra. quero acreditar na gente projetada, pulverizada no universo, poeira de estrelas, brilhando em um quaquilhão de partículas sem volta, sem acordar, sem nunca mais ter que ter futuro.

sinal fechado

30/05/2012

tem dias em que não vai ser possível olhar nos olhos, nem abraçar, nem falar da vida. apenas manter tudo bem na superfície, falar de amenidades, ver novela, falar mal de um novo cantor, ver um filme sem prestar atenção. se embriagar, embora perigoso, é excelente nesses dias, a gente bebe de se perder e depois dança, dança, dança como se não houvesse amanhã. e na verdade não há. nesses dias, não pergunte se tá td bem e nem qual é a boa, pq o que tem é uma vontade desesperada de chorar. e um medo de arrepiar.

relatividade

20/01/2011

quando a gira girar,  a serra fluminense será Pompeia

O técnico do meu computador, há anos, é uma pessoa muito especial. Todo mundo acaba fã. Ele é um cara de paz, de boa vibe, sorrisos e competência. Realmente um doce de criatura. Com o tempo, ficamos amigos. Ele e a mulher, igualmente fofa, vira e mexe vão aos meus shows. Muito queridos.

Hj ele esteve aqui e, enquanto trabalhava,  conversamos sobre a vida, como sempre fazemos. Eu contei que estou meio perdida, pq vou perder a fonte de renda fixa q tenho tido nos últimos 12 anos e de repente me deu um pânico de tudo, de nao saber como vou pagar o aluguel, ao mesmo tempo em que a minha carreira está indo especialmente bem, apesar de eu não ganhar (quase) dinheiro algum com ela.  Comento que faço de tudo pra manter a calma e não sofrer por antecipação, que estou investindo em outras frentes, que o tempo dirá, que tudo pode acontecer, que nem adianta querer fazer planos, que sei que planos não acontecem como planejamos…

Realmente, todos os dias faço um exercício zen de desprendimento, enqto me preparo para uma nova realidade desconhecida.  Dispenso a faxineira-amiga de 12 anos e choro no banheiro.  Mas o tempo não é meu. O rio nunca apressa suas águas.

Ao mesmo tempo em que ele achava a solução pro problema insolúvel do computador, o rapaz que consertava um problema de luz aqui, tb encontrou a saída. A luz foi feita, fiat lux! Brincamos que foi o mesmo anjo, que veio aqui dar jeito nas coisas. Na mesma hora agradeço intimamente e peço pro anjo stand by me, esse anjo da luz.

Quando ele saiu, computador ok, vejo que ele deixou uma página aberta, com uma frase que ele tinha citado no nosso papo:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

Corro pra varanda, pra agradecer, comovida. Ele sorri.

Senti uma piscada de anjo e renovei minha fé na vida e no porvir. Rezo de novo, pra nunca deixar de reconhecer os milagres cotidianos, que dão colorido à estrada.

on life

06/07/2010

Afinal, que diferença há entre ser jovem e não ser jovem? Quando a gente é jovem, todo mundo é jovem em volta da gente. Até nossos avós. E a esperança mora na juventude. A vida é o porvir, oportunidades que virão, um futuro mágico a descortinar. As pessoas quase não adoecem, ninguém morre durante anos. Mas aí a gente fica adulta e pronto. Cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai,  não fica nada. Ando na rua tentando não olhar em volta, porque o mundo agora me parece todo em despedida.  Não tenho um deus que me rege, não tenho fé religiosa, não acredito em milagres, não acredito em reencarnação, nem em céu, nem em inferno. A vida assim é muito árida, diz a minha mãe. Árida ela é. E olha que eu tenho um vidão…

Tá bem, to chata, falo nisso há mil posts, fiquei até sem escrever pra ver se o assunto mudava, mas não consigo mudar o disco aqui dentro, tb. Sorry, esse blog tb serve pra isso.

restam a música e a praia (e a guinguin)

menos encanada, menos dura, mais flexível. menos complicada, mais comum. mais crédula, menos pragmática, mais sonhadora, menos cansada. menos inteligente, mais feliz. mais “surpreensível”, mais ingênua. mais aberta, menos disponível, mais autoconfiante. mais focada, mais orgulhosa, mais marrenta. menos rebelde, mais disciplinada. mais convencional, mais mulherzinha. menos crítica, mais generosa. mais sociável, menos auto suficiente. mais esperta, mais rápida, mais ambiciosa, menos patinha feia.

menos patinha feia.

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