aceitação

29/05/2014

nada existe, só o momento que invento, este momento, que passa por dentro de cada letra de cada uma dessas palavras e já não é mais o mesmo na próxima. e assim, o tempo escorrega, aquoso, volátil, esquivo.

tenho pavor do futuro. que bom, o futuro a deus pertence.

a mim só pertence o presente.

2014-04-23 00.01.54d

 

 

 

father and son

11/11/2012

hj vi uma linda mulher comum, de quase 80 anos, cantando: “olhos nos olhos, quero ver o que vc diz ao sentir que sem vc eu passo bem feliz…” na hora, pensei em como eu gostaria de fazer um filme em que todos os tipos de mulheres, de todas as idades, tamanhos e lugares, cantassem isso. sem importar aparência, posição, geografia ou cultura. é fácil uma mulher linda  e jovem cantar isso. mas é lindo quando uma mulher madura, já desprovida dos encantos da juventude diz isso. ela afirma sua mulheridade, sua história, e diz: “eu sou”.

minha sobrinha de 11 anos viu tudo isso e adorou, lá do jeito dela. me conta, com o fervor da idade, transbordando de doçura, as suas novidades, que misturam a revista de tendências que ela leu, o harry potter que ela ama, a boy band daóra, as descobertas que fez na terapia, enquanto carrega, na mesma bolsinha fofa, maquiagens incríveis e uma boneca, que ela já leva  sem muita convicção. trocamos dicas de beleza, massagens, segredos, colinho, tudo.

enquanto isso, o psicanalista amigo falava coisas espetaculares, entre fotos de viagens, vinho, black label e o indefectível queijo brie com damascos. morremos de rir com as confissões de uma aqui e de outra ali. a graça da vida comum. Finalmente, a casa da minha mãe foi a casa de mãe que eu fantasiara. Borbulhante como ela, como eu.

chego em casa acesa, plena dessa condição feminina pensante, dessa corrente que nunca vai se partir, e encontro um lindo comentário, masculino, sobre o meu próprio passado, de quando a gente tocava violão, e eu copiava o (bom) gosto da minha irmã, cantando: “it’s not time to make a change, just relax, take it easy, you’re still young, that’s your fault, there’s so much you have to learn”.

na mesma hora lembro do meu primo que se achava o próprio Cat Stevens, quando cantava Father and son, e morreu jovem, e nos seus filhos, agora adultos, com seus próprios filhos. e um pouco pelo vinho, um pouco pela vertigem da própria vida,  sinto a gente rodando na roda-gigante da natureza. somos todos um.

tanto pra viver, pra aprender. eu, minha irmã, minha mãe, minha sobrinha, as mulheres e os homens do mundo, todas as idades, todos alinhados na mesma, indizível, busca.

Outro dia eu falei pra uma amiga beeem mais nova, que reclamava do tempo:  a gente passa a vida achando que está envelhecendo. e qdo realmente começa a envelhecer, a gente fala: ah, então era isso! eu era jovem, e não sabia.

aceito a generosa oferta de um amigo para fazer, na base da amizade,  um video release sobre minha carreira, peça publicitária fundamental e cara nos dias de hoje, uma espécie de cartão de visita virtual, chamado por alguns de EPK, electronic press kit.

– Reúne tudo seu, de todos os tempos, videos, fotos, recortes de jornais, o que vc tiver documentado.

Apreensiva, fico parada em frente ao armário onde guardo 20 anos de fitas velhas de video, recortes de jornais elogiando, metendo o malho, documentando a vida toda. As fotos estão numa mala imitação de Louis Vuitton, que ganhei e nunca usei pq acho uó de cafona.

Tenho medo de abrir a porta e ser soterrada por uma avalanche de lembranças, de saudades, de frustrações, de esquecimentos confortáveis. Detesto rever o passado. Sou contra filmar festas de aniversário. Não gosto de rever nada. O tempo grita comigo e eu abaixo a cabeça, vencida. Meu tempo é right here right now.

Decido que hoje não tenho condições emocionais de rever minha carreira, muito menos de ser simplesmente técnica e mandar ver na arqueologia pessoal sem me envolver. Eu sou do tipo que chora quando arruma estante de livro, pq vou lembrando de situações, de pessoas, de coisas que enriqueceram a minha bi(bli)ografia.

Continuo, como diz o joão, making memories, mas quase não guardo recortes de jornal, pq aquela papelada amarela vai me dando uma sensação de antiguidade que me lembra a casa do Serguei, em Saquarema, onde todas as paredes eram revestidas por recortes de jornal sobre ele, bandeiras com a língua dos Stones, autógrafos da Janis… coisas antiquíssimas, testemunhas da passagem inexorável do tempo, o pior inimigo da minha atualidade. Embora eu esteja num momento feliz da minha carreira, não estou pronta para rever o grande amor. Hoje, só amanhã…

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