pileque

10/10/2016

Sentada na cadeira do dentista, procuro por um pensamento que me tire dali, um tapete mágico que isole o barulho do motor, o desconforto da anestesia, a aflição da invasão. Não encontro. Lembro da última vez em que fiquei apaixonada e de como eu adorava ter oportunidades, como essa, pra desligar do mundo e ficar só assistindo àquele filme. Primeiro beijo, desejos multiplicados e compartilhados, compacto das melhores cenas, renovando o encantamento. Como uma semideusa, as humanidades baratas não me atingiam. Debaixo dos pés eu trazia nuvens, e quem traz nuvens nos pés não pisa no chão dos mortais. Vai longe a última paixão. Não guardo em mim nenhum rastro dessa dulcissima ilusão à tôa. A paixão é, de longe, o melhor pileque que já tomei.

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quiet storm*

03/04/2016

vc era estranho. formal. sério. daquele tipo que aperta a mão e tem um jeito desajeitado de dar dois beijinhos e de abraçar sem encostar. olha nos olhos de leve, ri de lado, e nunca manda beijo na assinatura do email. um abraço, no máximo. mas naquela primeira reunião presencial, numa camada acima daquela onde estavam nossos computadores com mil abas abertas, onde a produção bombava, onde eu aprendia com vc, senti um calor borbulhar bem no centro da mesa. me ajeitei na cadeira um pouco desconsertada, dei um gole na limonada aguada, pedi um café.

quiet storm. lembrei do baile charme, da música pra sensualizar. quiet fire. tive vergonha de te desejar, porque vc não é meu tipo, aquela nao era a ocasião, nem o lugar. mas passei a semana pensando naquela centelha que pingou ali, entre tablets e notebooks e fez um buraco no epicentro da mesa de reunião. não sei se vc reparou. mas eu vi.

quando nos reencontramos, raramente e exclusivamente a trabalho, sinto um pequeno desconforto por não saber o que fazer com esse tesão infundado. depois a vida passa seu arrastão e leva tudo.

hoje eu te vi com uma mulher. numa mesa de bar, bebendo e beijando o beijo mais lascivo, lambendo pescoço, cheirando, idolatrando, endeusando, querendo aquela mulher, como se ninguém estivesse em volta. pura luxúria. assisti de longe seu desejo derrubando paredes, atravessando avenidas, escalando penhascos, invadindo quartos pela vidraça, descabelando e entortando a linha do horizonte.

eu sabia.

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*para ouvir Quiet Storm: https://www.youtube.com/watch?v=ETGXvWFoEi0&list=PLZLxC6rAOhrjdK3Tnm6Onti5OQziuFu-E

juízo final

16/12/2014

Eu poderia brigar com os deuses do amor, por me botarem o doce na boca e tirarem, tão rápido. Depois de anos adormecida, acordei, subitamente, com a quentura de um sol escancarado dentro do meu peito. Cheia de encantos mil caminhei uns dias, pelo mundo, em contato direto com a massa de que é feito o melhor tipo de vida: amor. Mas, protegida pelos estranhos desígnios dos descupidos, vi o sol se apagar sem aviso, deixando, no epicentro do peito, o buraco negro que sorve a esperança, a raridade e a alegria dos que amam.

Do meio do meu deserto avistei, na rua, um casal comum de meia idade sorrindo de cumplicidade pura, uma demonstração secreta, porém explícita, de amor e parceria. E sorri. O sol há de brilhar mais uma vez.

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afluentes

09/12/2014

a tua correnteza flui na direção do meu mar. seu braço de mar, a foz do teu rio, eu. encontro das águas salgadas e doces, e as nuvens boiando no céu. a tarde, a noite, o tempo, tudo parou, esperando por nós. o fumo levanta a onda que nos carrega pro doce leito de estrelas. correntes de cá e de lá se misturam. somos dois afluentes, flow, fluxo. vc, meu bote, meu barco, meu rio. eu, seu leme, seu remo, seu mar .

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casa na areia branca de praia deserta

a 10 passos do mar transparente e calmo e tépido

violão

ganja

rede de casal

ar condicionado

água de coco gelada

vinho branco

peixe

frutas

salada

sorvete

ele

e

eu

arpoador maio 2009 009

com a perspectiva da primeira cirurgia da minha vida, tenho pesadelos de morte e acordo com o coração na boca. embora eu tenha apenas uma condição mecânica adversa que pode (e deve) ser corrigida, sinto como se estivesse me oferecendo em sacrifício. morro de medo e vertigem e quase todo dia tenho um episódio de pânico e desisto: foda-se, vou sentir dor pra sempre, já acostumei, mesmo. a dor é minha, ninguém tasca. Mas, depois, quando a dor me tira o rebolado, o sono, o suingue e a simpatia, eu cedo. E rezo por um milagre enquanto, a contragosto, me preparo.

distraída nas minhas mil dores, esbarro num rapaz sorridente, que cruza, pé ante pé, o meu caminho, cada dia um passo.  moribunda  que estou, descreio que eu possa ser o alvo de tamanho sorriso, graça e desejo. mas, surpresa, aceito esse convite pra mais uma contradança. e logo percebo um sol sentado em meu sofá, irradiando luz, sorrisos, música e carinho.

estamos envoltos nessa conexão surpreendente –  mudamos o eixo da terra em uma noite -,  e um vórtice de energia passa por dentro da minha casa a cada vez que a gente se toca e sorri. a paz reina, soberana. eu sorrio.

experimento a polaridade absoluta deste momento, ora no claro, ora no escuro, ora no yin, ora no yang. passo do frio ao calor, do macio ao áspero, do medo ao conforto.

tenho apenas uma certeza: estou viva. bem viva.

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beijo

10/08/2013

a gente ainda não se beijou porque, no dia em que a gente se beijar, a catedral do Rio de Janeiro vai decolar feito uma nave, e as pedras portuguesas vão descolar das calçadas, e a escadaria do Selarón vai virar um tapete pra gente passar e a Lapa vai parar.

só por isso que a gente ainda não se beijou,

só por isso.

todo azul do mar

11/08/2012

no meu sonho, vc voltava me pedindo pra esquecer toda maledicência, toda mágoa, todo nosso triste desfecho, e pra mergulharmos no mar, à noite. entramos num mar azul profundo, eu e vc, subindo e descendo em ondas que nunca quebravam. ao longe, as luzes das cidades, o continente lá pra trás, a orla perolada e silenciosa aparecendo e desaparecendo atrás das ondas. e eu e vc, lavando a alma num mar-sem-fim de sentimentos indizíveis, grandes demais para terem nome. vc carinhosamente ao meu lado, sorriso calmo nos lábios, abraço quente e olhar cúmplice. no meu sonho, vc vinha me dizer, de cara limpa: eu sou, vc é, somos muito mais além.

e eu acordei sentindo um estranho amor multidimensional, que atravessa, triunfal, os portais da existência, os umbrais do tempo e os pequenos sentimentos e atos humanos que reduzem tudo a quase nada.

dia dos namorados

11/06/2012

Naquele tempo, tinha gente que começava a namorar na semana anterior e terminava logo depois, pra não pagar o mico social de não ter com quem passar o tal dia. Outras vezes, a pessoa esperava passar o dia dos namorados pra terminar um longo namoro: “Po, não vou fazer essa sacanagem, né? Deixar o cara sozinho no dia dos namorados”.  Ou então, no meio de uma crise daquelas, todo mundo ficava de altos por um dia, só pra não perder a data. As coisas tinham lá suas bobas importâncias, e a gente ainda nem tinha se ligado que a data é comercial, feita pra vender presente, que papai noel não existe e que nem deus existe. naquele tempo, ainda havia deus. e aqueles sonhos.

compra roupa nova, faz unha, depilação, cabelo. será que seremos felizes como deveríamos, hoje, já que todos os casais brasileiros deveriam comemoram o amor? Será que conseguiremos ser assim tão felizes com data marcada, com fila no restaurante, aquele que tem fondue e luz de velas, ou aquele japonês que tem salinha reservada, para podermos, enfim, entrar na fotografia ou no filme em que se espera estar nesse dia? Amando, sendo amados, lindos, felizes, sorridentes. E depois desse momento romântico em que a gente troca presentes, em que ele terá adorado o que eu dei e eu terei adorado o que ele deu, nos  beijamos longamente e fazemos um brinde, olho no olho. Pode ser que a gente peça uma garrafa de espumante, ou de sakê, coisas que a gente não faz normalmente. Mas hj a gente tem que ser feliz a qq custo, então, brindemos.

Esquece tudo, amor, hj é o nosso dia, dia de comemorar a felicidade de não fazermos parte do bloco do eu sozinho. Depois,  ainda temos que ir pro motel e tem que ser uma noite inesquecível. mesmo que vc esteja cansado, q eu tenha que acordar cedo amanhã, mesmo que eu e vc nem estejamos assim, nesse momento exatamente sexy. Mas vamos fazer parte desse filme logo e encarar a fila do motel mais barato, pq esse super caro nao dá pra gente. Ficamos no carro, esperando vagar uma garagem e lá vamos nós pro test drive do amor. a felicidade nunca foi tão estressante.

 

alma feminina

26/05/2012

adoro quando dizem que eu canto bem. sinto que estou sendo reconhecida por aquilo a que dediquei a minha vida, aquilo que me faz mais feliz e plena como pessoa. também fico super prosa quando dizem que escrevo bem, que meu texto é bom, inteligente etc; li ávidamente, amo as palavras, sou a única pessoa, que eu conheço, que tirou 10 na prova de português do vestibular. nasci com isso. também sempre tive muito prazer em ser elogiada por dançar bem, qdo dançava, e por cozinhar bem, qdo cozinho. todo elogio é um quentinho por dentro. mas eu gosto mesmo é quando um homem me chama de gostosa. isso sim é que é elogio pra mulher: gostosa.

susan sarandon

17/01/2012

estou, tipo assim, a susan sarandon: ruiva (once ruiva, sempre), maravilhosa, independente, gostosa, complexa, divertida, inteligente e coroa.

estava preparada pra tudo. menos pra ser coroa:

ai, ai.

quase milonga

02/10/2011

todas as vezes em que eu usar esse perfume hei de lembrar daquele vestido preto, e de você, numa ladeira da Lapa, me puxando pra vc, dizendo: “esse cheiro, esse cheiro, que cheiro é esse, menina?” (fazia tempo que eu não era mais menina). e depois um beijo, outro beijo, um cheiro.

Por dentro de mim, uma lembrança de buenos aires, de onde eu acabara de chegar, cheia de tango. Vc dançou comigo, sem saber, quase milonga: “me tira daqui, me leva, eu não sei dançar…”

E sabia. Sabia, sim.

Dancei

Doceria

20/05/2011

um dia a gente comprou um quindim, e a gente entrou no carro, sempre rindo, sempre felizes, e vc segurou o doce, me oferecendo, e eu meti a boca na superfície translúcida, solar, cremosa. E depois foi a sua boca junto comigo no quindim, interceptando a tensão superficial, oportuna derrapagem, cremosidade perfeita.

Afinal, de quem era a boca, de quem era o quindim? Sabe essas coisas?

Pois.

ebony and ivory

06/04/2011

A minha mão parecia a mais branca das brancas quando nossos dedos se entrelaçavam ou quando ele enfiava o rosto na palma da minha mão, que abria cuidadosamente e beijava, demoradamente e com devoção, olhos fechados, como quem beija o centro de tudo. A pele dele era preta, sem metáforas. No dedo anelar direito, ele tinha uma aliança fina, lisa, e uma larga, desenhada. Prata. A minha tinha sóis e luas, no dedão da mão direita. O braço era magro e rijo, glabro, suave ao toque, pétala de flor. A luz artificial fazia o negro do rosto brilhar em tom de cobre escuro, de cobre no tempo. De que reino distante terá vindo essa turmalina? (Nasci na Rocinha, moro no Estácio)  Se alguém quer matar-me de amor que me mate na Lapa. O nariz de aba larga, olhos amendoados, firmes e pequenos. Lábios cor de açaí, fartos, contornados a mão, irrigados, viçosos, dizendo: beijo. Sabia que a correnteza daquele rio ia envolver o que encontrasse pela frente. Línguas, lábios carnudos, lábios molhados, lábios quentes, dentes. A cabeça a zonzear: socorro, vou mergulhar. “Adoro seus olhos, sua luz de dentro, deixa eu te beijar”, vc pediu, me olhando nos olhos e segurando minha mão. “Me beija, me beija por favor”, vc pediu. E aí vc deu um gole no gengibre e aí a sua boca minha boca sua língua minha língua. Tudo. Seguiram-se explosões subatômicas, fumo, vinho, ópio, flautas de pã, fogueiras para o Gamo-Rei, cantos de sereia. Miscigenação. Sua boca feita pra minha feita pra sua. Tenho medo de deixar vc me tocar mais longe e mais fundo. Posso desfalecer com a pressão exata dos dedos, com os segredos ditos no ouvido e, acima de tudo, com o carinho extremo no trato, afeto tesão quentura e ritmo. “Seu beijo é aurora boreal”, vc sussurra num rap que improvisa pra mim. Por um instante, ocupamos o mesmo lugar no espaço. Nos beijamos de mãos dadas, solenes e castos, olhamos dentro dos olhos, calamos. “A luz da sua retina me ilumina”, você versa. O beijo esquenta, a pulsação muda, o gemido escapa: vc pra mim. A manhã grita, ruidosa, os ônibus cheios guinchando os freios na Lapa. Nós orbitando, distantes dali, as estrelas de primeira grandeza daquela constelação, café sem açúcar, pão na chapa. Brilhávamos, incandescidos pela química das misturas. Aqui agora tudo. Agora que nos tocamos, estamos condenados. Trocamos as alianças. Na secretária eletrônica: “Seu beijo é aurora boreal. Volta, mulher, volta pra mim”.

depois daquele nascer do sol

o mirante do Leblon

debruça-se sobre o leito seco

onde houve o mar

sobre as pedras

onde houve areia dourada

e o sol

nunca mais nasceu

nem lá

nem cá

vc mostrando as coisas que eu nunca vi, eu mostrando as coisas que vc nunca viu. risadas. encontro mais que perfeito. na cozinha, mesa sempre posta, vinho, cerveja, queijo azul, pão sueco, tomatinho, azeite. a gente mudava de lugar e falava, falava, falava, falava. troca a música, ah, troca você.  e de repente era perfeito não falar mais nada e eu cair dentro de vc, vc de mim. e depois a gente tomava sorvete de chocolate ou eu fazia ganache. e a gente fumava e bebia litros e mais litros de água, fosse naquele verão árido da despedida ou naquele inverno doce em que vc gostou de mim e disse: “Assim, me apaixono e fico”. “Fica, fica!”, eu desejava, fervorosa e muda, enqto a gente se abraçava e se beijava fundo e eu fechava os olhos com força, emanando: “Fica, fica”, e aí, antes que eu pudesse dizer qq coisa,  vc me sedava, me enredava, me ganhava, me levava. Nada daquilo era meu, nem seu.  Acho que foi por isso mesmo que eu nunca disse, em voz alta: “Fica!”.

E se tivesse dito? E se tivesse dito?

fever

13/11/2010

o sangue dispara em alta velocidade, como um tiro quente de éter por dentro das veias, percorrendo o corpo todo e bombando feito um surdo de marcação no centro de tudo. o corpo meio tremulo, a boca entreaberta e demi sec, a pele macia, tudo em pleno fervo. Rápido, é urgente.

paixão

09/11/2010

Tem gente que fala que a paixão é um inferno, mas eu discordo. Pra mim, a melhor coisa da vida é ficar apaixonada. Depois que passa a paixão a pessoa vira gente e é aquilo, né? Todo mundo tem pentelho, só a bailarina que não tem.

Eu fico maravilhosa apaixonada. Emagreço, componho, escrevo sem parar e me sinto linda, pronta, quente, animada, energizada, no topo da cadeia alimentar. Até o cabelo brilha, os olhos irradiam luz e do centro do peito sai uma rosa vermelha e perfumada. Cafona e superior, é assim que me sinto apaixonada. E livre.

Da ultima vez em que me apaixonei mesmo, bom, deixa pra lá, até hoje nao anotei a placa do veículo que me abalroou.

Sinto no ar um cheirinho de paixão. Como uma adolescente fico pensando que magias eu poderia fazer para trazer a pessoa amada em três dias. Ou menos. Não tenho cara de pedir uma coisa dessas pros deuses, pq depois que a gente lê umas coisas aí, a gente aprende que nem sempre o que a gente quer é que é o bom. Ai, que saco.

Entao  mudo a reza: Atenção, deuses do amor, afrodite, vênus, cupido, lembrem-se de mim e joguem uma flor com meu cheiro no colo daquele moreno. Se ele gostar, ele é meu!

vi, sim

Rio-Santos

06/12/2008

fluxo borbulhante que não pára de correr nem pra descansar, nem pra dormir. calor que sai da pele pelos poros. vapor dentro de mim, maresias. da janela da van vejo pessoas a cavalo, carros velhos, casas feias, bicicletas levando crianças na escola, cachorros de rua, cidades pequenas, uma após a outra, passando pela estrada ao longo de nós, pessoas comuns. passam montanhas verdes, praias douradas, mares azuis, estradas de asfalto, rodas de samba, baixo Leblon. passa tudo e não passa vc. 

Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone

Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone

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