Vera Cruz*

25/03/2016

(primeiro de tudo, quero que todo mundo entenda que este post é sobre amor, sobre sincronicidade e sobre a música, não sobre personagens).

enquanto to ali fazendo ovos de páscoa recheados com ganache de uísque, pros meus entes queridos, estou pensando em Vera Cruz, música que finalmente vou cantar no meu show BrazJazz, depois de amanhã, depois de uma longa paquera, e de tê-la cantado, pela primeira vez, a convite de um amigo maestro e sua orquestra.

Lembro de ter lido ou visto ou ouvido o Milton “Bituca” Nascimento, em algum lugar, contando a história da importância dessa música na careira dele, um desbravamento, e fui procurar pra aprender e contar no show. Nessa, acabei encontrando um episódio desconhecido pra mim, em que o Márcio Borges, parceiro de Milton na música, fala da amizade de adolescência deles com a presidente Dilma. E que, 40 anos depois, antes de a Dilma ser presidente, mas já depois de todos aqueles anos de luta, eles se reencontraram, e ela pediu pra ele cantar *Vera Cruz, música que  ela ouviu em primeira mão, quando todos eram moleques em Minas. Uma música que fala de uma mulher, mas que também poderia ser sobre um país. Meus olhos encheram d’água de pronto! Eu nem sabia de tudo isso. E escolhi cantar essa música logo agora, o Brasil em chamas…

Senti meu sangue brasileiro me ocupando, um aterramento, uma propriedade. Me senti defendendo a minha casa com a minha voz. E isso não tem nada a ver com os personagens. Mas com a minha voz de mulher  brasileira, hoje e pra sempre livre pra cantar e contar todas as lindas histórias humanas que eu bem quiser. Sem ter que pedir licença ou perdão. Sem ter que me esconder de ninguém.

IMG_5634

balanço

31/12/2015

a coisa que uma cantora mais deseja é conseguir continuar cantando, apesar do mundo. não canto pra agradar ninguém, não canto pra ficar rica ou famosa, não canto pra causar, não canto pra ser diva ou pra ser idolatrada. eu canto pra cantar. porque sinto que dentro de mim tem uma fonte de onde brota uma energia ininterrupta, e cantar é como um chafariz, que projeta pra fora de mim o que nasce lá dentro, numa lógica caótica, que mistura sons e palavras e sensações. o negócio jorra, e aí é preciso cantar. só a música pode carregar essa corrente pra fora de mim. é simbiose, eu vivo dentro dela e ela vive dentro de mim. terror e êxtase. 
 
tenho uma lista interminável de desejos e projetos profissionais, tenho muitas lindas ideias, tenho discos pra gravar, shows pra fazer, lugares pra visitar cantando e velhos sonhos amarrotados no fundo da memória. sempre será necessário um convite, parcerias, dinheiro, patrocínio, ajuda, reconhecimento e oportunidades. ninguém faz nada sozinho e sem grana. não tenho padrinhos, não tenho parentes famosos, não tenho dinheiro. nunca, em 29 anos de carreira, um jornalista de música foi me ver cantar. e eu cantei sem parar nesse tempo, sem descanso. gravei cinco discos solo e cinco discos e um DVD com o Arranco. gravei e fiz shows com um monte de gente famosa, cantei acompanhada dos melhores músicos deste país, nas melhores casas dentro e até fora do país. mas em 2015, todas as portas se fecharam pra mim e nao consegui realizar quase nada. eu resisti, porque eu sempre resisto, porque sem cantar eu nao sou. estou previamente combinada comigo mesma que fazer música não pode estar vinculado à sordidez desse mercado excludente e dessa cena musical pífia.
 
por mais bobo que seja, a gente não escapa! fim de ano chega e a gente bota as coisas na balança pra fazer os ajustes da caminhada. das poucas coisas que 2015 me deu, a melhor foi continuar trabalhando na casa de música mais profissional desta cidade, acompanhada pelos meus fieis escudeiros de ouro, cantando para minha plateia atenta, sensível, apaixonada por música. quando a gente perde quase tudo, a gente aprende a valorizar o que tem. e por isso contei essa história toda, pra dizer que os elos dessa corrente se fortalecem com vocês, com seu aplauso e sua presença. por isso sempre serei grata por vocês me darem a honra de cantar para vocês. obrigada. 
que seu novo ano seja leve, de alegrias e paz e cheio de saúde, prosperidade e amor!
IMG_4241 (2)
 

 

parece que os dias de ventanias quentes revolvem velhos sentimentos. Já escrevi isso, há muitos anos. E como é verdade pra mim, estou aqui, toda mexida, ouvindo Nancy Wilson cantar The very thought of you, num link que a grande cantora Aurea Martins, minha amiga, que admiro demais, dedicou a mim e à Ana Costa, outra cantora que admiro e curto muito. Somos três cantoras brasileiras.

Áurea nos chamou de guerreiras, e eu, nesta noite de vento quente, com o lodo do fundo revolvido, estufei o peito achando bom, muito bom. Ser uma guerreira nesta guerra santa, brigando exclusivamente para continuar cantando neste país de surdos, sem padrinhos, sem dinheiro, só com o amor no coração, é a luta da minha vida, my quest, diria Dom Quixote, minha lei, minha questão. E da Áurea. E da Ana.

Então, deixo pra vocês o video Áurea, guerreira mór, conselheira perspicaz, que no dia do lançamento desse micro-documentário, ensinou: “Eu sou de fazer. Sem fazer, a gente não consegue nada, nem fracassar”. Me vejo aí, rio e choro, e peço aos deuses que me dêem a sorte de uma carreira longa e linda como a dela.

o piano

21/09/2015

Tinha piano na casa dos meus dois avós. desde pequena eu me trancava na sala onde ficava o piano e mandava ver. tocava aleatoriamente, em momentos de fantasia e entrega, como se soubesse tocar. tentei estudar sozinha por um método, e poderia ter começado ali, mas nao tive incentivo. pedi pra estudar piano mas, a minha mãe, traumatizada por ter sido obrigada a se formar no conservatório, não deixou. então, dei meu jeito. peguei um violão que tinha sido da minha irmã, e venci o coitado pelo cansaço. tinha eu 14 anos de idade…

insisti, aprendi umas músicas da moda, fiquei feliz, fiz umas canções, mostrei pros amigos, entrei em festivais, ganhei e perdi e, quando vi, aquilo tinha virado a minha vida. quando fiz 16 anos, minha mãe me deu um violão de verdade. mas nunca soube tocar direito, embora tenha começado assim, tocando violão e cantando em bares, nos intervalos de outros artistas, até achar meu próprio lugar.

anos depois, já cantora e adulta, fui estudar piano e me dediquei totalmente a recuperar o tempo perdido. estudei muuuito, muito, mesmo. anos e anos praticando loucamente. hoje, o piano que tenho em casa é o que meu avô mandou vir pra minha mãe estudar nele. e, assim, fizemos as pazes com o destino do piano, com a música na família e com meu sonho. nunca toquei como gostaria de ter tocado, mas isso não importa. ser cantora é um encanto que nunca se esgota.

o primeiro trabalho que fiz, como cantora, foi de vocalista de um cantor, já falecido, chamado Robson Teixeira. Ele fazia um trabalho autoral que seria incrível até hoje. Pop rock anos 80 com influencias de bandas bacanas europeias. A primeira vez que meu nome apareceu no jornal, como cantora, foi em 1983, justamente num show dele, num local chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza.
Esse cara foi um guru pra mim. Mais velho, gay, casado, viajado, culto, me apresentou um mundo sem mimimi, sem frescura, sem preconceitinhos, cheio de novidades incríveis, de zen budismo, de pão feito em casa, de miles davis e amigos. Éramos vizinhos, em Ipanema, e eu e os músicos vivíamos na casa dele, dia e noite, usufruindo da liberdade toda que não tínhamos nas casas dos nossos pais. A gente tinha menos de 20 anos de idade…
A banda que tocava com ele era de músicos que hoje são profissionais top de linha, todos muito jovens, Glauton Campello, Alexandre Carvalho, Kadu Menezes, Felipe Reis. E foi com eles que comecei na profissão, ensaiando no “Tijucão”, casa alugada pela galera pra usos musicais e sócio-recreativos de todos os tipos.
Tenho as melhores lembranças desse momento da minha vida, e só me lembro do meu guru dizendo: “bonita, vc precisa enlouquecer, enlouquecer muito!” Tinha toda razão! E mesmo depois de todos esses anos, querido Robson, ainda não enlouqueci o suficiente.

IMG_1489

saudades

14/09/2015

quando eu comecei a cantar, havia a tal da “fita demo”, de demonstração. Era com essa fita que a gente vendia shows e divulgava o trabalho. Rolava até arte pras capinhas das fitas k7, pra dar um jeito de sobressair naquela pilha de fitas que os programadores de casas de shows e rádio e TV recebiam.

gravar um disco era uma coisa dificílima, pois não havia soluções caseiras tão acessíveis e eficientes antes dos PCs. Logo depois, vieram as soluções digitais como o dat, adat, md até chegarem os computadores. e o resto da história vcs sabem onde deu.

na minha primeira fita demo, gravei Serrado, do Djavan. Cismei que tinha que pedir licença pra ele, pq eu nao entendia bem como funcionava a coisa de liberação de direitos e, um pouco pela ansiedade juvenil e um pouco pela paixão, liguei pro escritório dele e deixei recado.

numa manhã, minha mãe vem me acordar: “Andréa, acorda, é o Djavan no telefone!” E eu: ãhn? Djavan? Tá louca?” Acontece que eu tinha um amigo, o Rostand, que sabia do meu amor pelo Djavan e adorava brincar com isso. Numa viagem de fim de semana, quando fui lavar o rosto ao acordar, dei de cara com uma fotona do Djavan, pregada no espelho com um mega “Bom dia, Déia!”, cheio de coraçõezinhos…

Atendi o telefone rindo: “Fala, Rost! kkkk” E ouço de lá:
“Oi, Andrea, aqui é o Djavan, vc me ligou?” A voz de meu-bem-querer não deixou dúvidas. Era ele! Gravei a demo, encantada e feliz.

Ontem fui cantar num show com músicas do Djavan, e passei o dia chorosa, com saudades do Rost, que nos deixou cedo demais. E aí, também lembrei que o a única música do Djavan que gravei, em disco, foi A ilha, por sugestão de outro amigo, o Sylvio de Oliveira, que também nos deixou há um ano, exatamente. Estou morta de saudades dos dois nessa segunda chuvosa.

Aqui vai então uma homenagem a esses três homens que amo demais, Djavan, Rostand e Sylvio. Com mil obrigadas por todo amor e música que me provocaram.

 

%d blogueiros gostam disto: