saudades

14/09/2015

quando eu comecei a cantar, havia a tal da “fita demo”, de demonstração. Era com essa fita que a gente vendia shows e divulgava o trabalho. Rolava até arte pras capinhas das fitas k7, pra dar um jeito de sobressair naquela pilha de fitas que os programadores de casas de shows e rádio e TV recebiam.

gravar um disco era uma coisa dificílima, pois não havia soluções caseiras tão acessíveis e eficientes antes dos PCs. Logo depois, vieram as soluções digitais como o dat, adat, md até chegarem os computadores. e o resto da história vcs sabem onde deu.

na minha primeira fita demo, gravei Serrado, do Djavan. Cismei que tinha que pedir licença pra ele, pq eu nao entendia bem como funcionava a coisa de liberação de direitos e, um pouco pela ansiedade juvenil e um pouco pela paixão, liguei pro escritório dele e deixei recado.

numa manhã, minha mãe vem me acordar: “Andréa, acorda, é o Djavan no telefone!” E eu: ãhn? Djavan? Tá louca?” Acontece que eu tinha um amigo, o Rostand, que sabia do meu amor pelo Djavan e adorava brincar com isso. Numa viagem de fim de semana, quando fui lavar o rosto ao acordar, dei de cara com uma fotona do Djavan, pregada no espelho com um mega “Bom dia, Déia!”, cheio de coraçõezinhos…

Atendi o telefone rindo: “Fala, Rost! kkkk” E ouço de lá:
“Oi, Andrea, aqui é o Djavan, vc me ligou?” A voz de meu-bem-querer não deixou dúvidas. Era ele! Gravei a demo, encantada e feliz.

Ontem fui cantar num show com músicas do Djavan, e passei o dia chorosa, com saudades do Rost, que nos deixou cedo demais. E aí, também lembrei que o a única música do Djavan que gravei, em disco, foi A ilha, por sugestão de outro amigo, o Sylvio de Oliveira, que também nos deixou há um ano, exatamente. Estou morta de saudades dos dois nessa segunda chuvosa.

Aqui vai então uma homenagem a esses três homens que amo demais, Djavan, Rostand e Sylvio. Com mil obrigadas por todo amor e música que me provocaram.

 

Anúncios

timaço

19/12/2013

amanha faço o ultimo show deste ano. fazendo as contas, vejo que fiz em torno de três shows por mês, se somar todos e dividir pelo ano todo. é muito menos do que eu gostaria, mas é o bastante pra me manter em atividade permanente. pra 2014 quero muito mais, sai da minha frente que eu quero passar, pq o samba está animado…

este ano eu fiz tudo o que quis fazer. planejei e fiz. mas não fiz nada sozinha. a lição mais importante de todas é: ninguém faz nada sozinho. a segunda é: planejamento e fidelidade ao plano até o fim, com jogo pra pequenas manobras de adaptação e atualização de cartografias. jogo limpo, peito aberto e decisão.

finalizei meu disco, lancei meu disco com louvor, emagreci pro lançamento, fiz um crowdfunding que deu certíssimo, tive o apoio de quase 300 pessoas, tive lindas críticas profissionais, fiz vários shows diferentes, com gente e repertório novos, gravei o disco do Arranco que sai em março, malhei diariamente em academia, fiz amigos novos, vi os antigos, me diverti a valer, ganhei muuuito mais prestígio e respeito e reconhecimento como cantora, fiz  incontáveis gravações, ensaios, coisas importantes e legais, sai da depressão abissal do ano passado, encontrei um médico maravilhoso, um produtor incrível, uma fisioterapeuta maravilhosa, uma empresária maravilhosa, uma produtora foférrima, uma equipe de deixar qq um de coração mole, músicos os melhores e mais queridos, uma gravadora dos sonhos. e fiz grandes, imprescindíveis, noitadas. mas nunca, em nenhum momento, fiz nada que não tivesse a colaboração de outra pessoa. meus parceiros, meus amigos, minha família, meus colegas de copo e de cruz. agora entendo bem o plural de modéstia. aquele em que o cara sempre fala “nós fizemos”, pra não dizer “eu fiz”.

e o resto? ah, pra mim não existe resto, não separo a minha vida pessoal da minha carreira, não separo a diversão e o amor do trabalho e nunca paro de trabalhar ou de pensar em trabalho. não que eu seja uma obstinada louca, que anda com um timer na bolsa, uma calculadora e um personal coach à tiracolo. mas por dentro nunca tiro férias, não descanso no fim de semana. faço tudo ao mesmo tempo, vou à praia enquanto componho, estudo enquanto cozinho, tudo misturado. estou perfeitamente alinhada com meu desejo, com meus novos sonhos e com o que virá, um universo desconhecido, onde mais uma vez vou trabalhar e viver, me divertir e sofrer, tudo junto, como sempre. essa é a vida que eu quis: amalgamada, misturada, apaixonada, grudenta e apegada com a música. a música é a minha família, minha prole, meu amor eterno e minha fonte de vida, de problemas, de trabalho, de lazer e de prazer. meu tudo há 25 anos, que nem senti passar. mas sem meus comparsas, meus pariceiros, meus cúmplices, meu time e minha torcida, eu não teria feito nada.

love songs

27/07/2013

amigos, café, chocolate, vinho do porto, fumo. a música é variada. coisas que a gente nunca mais cantou, e cujas letras emergem dos subterrâneos da memória, trazendo junto avalanches de lembranças e cheiros e cores de outras vidas. e os amores. penso nas paixões que vivi, no fracasso da minha vida amorosa, nas péssimas escolhas que fiz, nas incontáveis frustrações. volta a velha e permanente sensação de que o meu pacote de serviços não inclui amar e ser amada. embora esteja acostumada, tenho me sentido só. quem, nunca? deve ser o inverno. ou a idade. ou o vento. passa. canto canções de amor e, por dentro, me sinto uma impostora. as canções de amor quase perderam o sentido pra mim, é como se eu cantasse sobre um unicórnio, sobre uma fada, um dragão, ou atlântida. ausência ilustre, lâmpada queimada, terreno baldio, corda quebrada de violão. amor: meu continente perdido.

acordei travada. nunca na vida tive a sensação de que não conseguiria andar. status:

a p a v o r a n t e

tentei metaforizar: será um desejo inconsciente de não prosseguir, medo da pista ou uma evidência metafórica, física, dos percalços do caminho? logo agora, neste momento produtivo e crédulo, em que a reverberação dos meus movimentos se propaga em círculos cada vez mais amplos, como desejei? sos médico, injeção, bomba analgésica.  zonza, capenga, lá fui eu fazer meu show semanal, no Semente, Lapa. a casa começou a encher. muitos músicos chegando com seus instrumentos, todos da novíssima geração, gente que nem conheço, só conheço de nome ou de vista. Isso tudo junto deve ter algum significado, pensei, principalmente porque o hoax do momento, presente em todas as rodas de conversa on e offline, era o tal fim do mundo, a partir da 00h de hj.

começa o som, a perna reclamando, eu respirando: vamos, amiga, vamos lá. o oxigênio entrando lavando tudo, água, muita água, suor descendo pelas costas e pelas pernas, música entrando pelos ouvidos, a voz brotando de tudo, a vibração modificando o ambiente. mais músicos chegando. um desembainha seu sete cordas, outro sapeca o pandeiro, outro afina o bandolim, outro ataca de sax. qto tempo se passou, qtas músicas tocamos, qtos solos maravilhosos e qtos músicos talentosos tocaram com a gente? nem sei. o público chegando junto. inebriada pela música, pelo coro da plateia, pelos sorrisos em todos os rostos, pelo fim do mundo, me sinto carregada no colo pela vida. trégua. mais uma vez eu fui salva pela música. eu, meus companheiros de tantos anos de fé, meus novos amigos, meus futuros amigos, todo mundo ali pela música, sem nome, sem idade, sem pressa nem vontade de chegar no fim. se eu tivesse sucumbido à dor, teria vivido plenamente a dor e perdido a delícia. então é por isso que o show tem que continuar, é por isso!

nós iremos achar o tom, um acorde com lindo som, e fazer com que fique bom, outra vez!

 

father and son

11/11/2012

hj vi uma linda mulher comum, de quase 80 anos, cantando: “olhos nos olhos, quero ver o que vc diz ao sentir que sem vc eu passo bem feliz…” na hora, pensei em como eu gostaria de fazer um filme em que todos os tipos de mulheres, de todas as idades, tamanhos e lugares, cantassem isso. sem importar aparência, posição, geografia ou cultura. é fácil uma mulher linda  e jovem cantar isso. mas é lindo quando uma mulher madura, já desprovida dos encantos da juventude diz isso. ela afirma sua mulheridade, sua história, e diz: “eu sou”.

minha sobrinha de 11 anos viu tudo isso e adorou, lá do jeito dela. me conta, com o fervor da idade, transbordando de doçura, as suas novidades, que misturam a revista de tendências que ela leu, o harry potter que ela ama, a boy band daóra, as descobertas que fez na terapia, enquanto carrega, na mesma bolsinha fofa, maquiagens incríveis e uma boneca, que ela já leva  sem muita convicção. trocamos dicas de beleza, massagens, segredos, colinho, tudo.

enquanto isso, o psicanalista amigo falava coisas espetaculares, entre fotos de viagens, vinho, black label e o indefectível queijo brie com damascos. morremos de rir com as confissões de uma aqui e de outra ali. a graça da vida comum. Finalmente, a casa da minha mãe foi a casa de mãe que eu fantasiara. Borbulhante como ela, como eu.

chego em casa acesa, plena dessa condição feminina pensante, dessa corrente que nunca vai se partir, e encontro um lindo comentário, masculino, sobre o meu próprio passado, de quando a gente tocava violão, e eu copiava o (bom) gosto da minha irmã, cantando: “it’s not time to make a change, just relax, take it easy, you’re still young, that’s your fault, there’s so much you have to learn”.

na mesma hora lembro do meu primo que se achava o próprio Cat Stevens, quando cantava Father and son, e morreu jovem, e nos seus filhos, agora adultos, com seus próprios filhos. e um pouco pelo vinho, um pouco pela vertigem da própria vida,  sinto a gente rodando na roda-gigante da natureza. somos todos um.

tanto pra viver, pra aprender. eu, minha irmã, minha mãe, minha sobrinha, as mulheres e os homens do mundo, todas as idades, todos alinhados na mesma, indizível, busca.

ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. Mora na lapa, trabalha na lapa. Pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. Em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. Embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. É a excelência da raça, tentar outras saídas. Meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

revendo amigos*

22/03/2010

*este post tem trilha sonora. pra ouvir enqto lê, é só clicar na setinha de play. prepare o lencinho (como diria a sonia hirsch)

Saudades do Dé, do Pedro e do Romita, de quando nem éramos quase gente, mas estávamos ensaiando juntos. Meus primeiros amigos.

Do Rostand, cujos braços ocupavam mais espaço do que dois braços humanos conseguem ocupar. E cujo abraço abraçava tudo. Solar, como gostava de praia! Do Lobo, do Mauricio, do Renatinho, do Weberrr e do Gaúcho. Pro dia nascer feliz em São Vicente.

E do Josias, que recitava poemas densos, de dentro do mar de Rio das Ostras, à noite. Sobre nós, só o luar mais branco do planeta e as constelações, em ebulição, morrendo e nascendo. E nós, jovens de doer, cheios de tudo: poesia, precocidade, música e certezas. Certos e fartos de nós. Esses dias ele se foi, o coração o levou, de súbito.

E do Dudu, que aparecia com caixas de cerveja bock que a gente bebia no gargalo, sentada no capô do carro, naquele posto de gasolina da esquina da Maria Quitéria com a Lagoa. A gente ria, ria, ria, ia pra casa e continuava bebendo e rindo até o dia clarear e ainda um pouco mais: “você não está confundindo felicidade com pileque?” Quem é que pode explicar porque ele partiu? As tias que eram primas, Cezinha, Paulinho Bi, Sergio Serra, Rodrigo Campello. César Conti, implacável, malabarista: “retífica” verdadeira. Se foi, também. Onde andam Coruja, Xando, Zé Octávio, Toco e Paulo Thiago? O Jobi era nosso.

Saudades das quintas-sem-lei com o Carlucho, onde tudo que há se viveu, se falou, se comeu, se bebeu. Em todos os lugares, casados ou solteiros no Rio de Janeiro. Cabeludos, carecas, gordos ou magros. Nós. Pensantes. Amigos.

E do Robson, que me ensinou metade de quase tudo. Do Felipe, Brunim, Rodriguim, Bebetão e do Ronaldo, João, Paulinho, Pauleira, Alex, Marcelo e Giraia. E do Pedro e do Marquinho e do Esquilo e do Claudinho, Dema, Nabuco, Rodrigo e Edu. Moy, Diogo, Vi, Sylvio, João, Mattosão, Zé: eu amo vcs.

Como se vê, existe amizade entre mulher e homem.

retrato

26/01/2010

Na fotografia estou sorrindo um sorriso que nem me cabe na boca, os olhos acesos, ao lado dele. Ele passa o braço em volta do meu ombro, espaçoso e confiante, com os olhos mareados de tanta fumaça e noite. O sorriso é de plenitude e cerveja.

Em cima da mesa, erguemos uma estranha catedral de bolachas de chope. Em volta de nós, a Lapa e nossos amigos incríveis. Malandras e malandros no salto alto, colares de sementes, guias de todas as cores e todos os orixás. Figas de guiné e ouro no pescoço. Os instrumentos estão apoiados nas mesas e cadeiras. Nos divertimos na pupila do olho do vulcão onde tudo é puro fervo e adrenalina e altas gargalhadas.

Dentro de mim a fogueira arde, o fogo lambe, estalando as achas no meu epicentro. Estou em plena combustão, fulgurante e viva como uma brasa.  Unhas vermelhas, cabelos de cobre, pele dourada. Eleita e pertencente. Depois, amanhecemos em todos os pontos da cidade, Aterro, Diabo, Mirante do Leblon.

Já vejo o pessoal recolhendo as mesas, colocando as cadeiras de pernas pro ar, amontoadas.  A água, cheirando a Creolina, molha os pés do pessoal da saideira, lavando o chão, empurrando os restos da noite pros bueiros das ruas, onde os primeiros trabalhadores já estão indo trabalhar e onde os postes já se apagam. O sol varre, da rua, os boêmios que nunca querem ir pra casa dormir. Ligamos o ar bem gelado e nos enfiamos debaixo de um edredon branco e fofo, o blackout vedando as frestas das janelas. E a felicidade lá.

um amigo me liga: “déda, sonhei que vc tava no palco do Canecão, que tava lotado de gente te aplaudindo de pé, e de repente, o Gilberto Gil entrava no palco pra te abraçar, tipo te dando mó moral…”

outro me fala: “…durou só uns segundos, mas eu sei, tenho certeza de que sonhei com vc no palco de um teatro em Paris, cantando ao lado do Dizzy Gillespie. Na platéia, ao meu lado, Cole Porter dizia, em bom portuglês arrastado: “Essa mulherrr canta para carálio…”

Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…

eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar

Esse é o João Pinheiro. Ele também é cantor, mas sonha pra mim...

Deu no MarinaW!

26/12/2008

Marina W
“26.12.08
… pois adoro bacalhau.

23.12.08
Das coisas cafonas Strip-tease

22.12.08
A cantora, amiga do *gerente*, também se mudou.

A cantora amiga do gerente sou eu! Agora fala a verdade: Esse não é o sonho de todo blogueiro?

O blog MarinaW é o New York Times dos blogs, entendeu? To missi! Sorry, periferia!

%d blogueiros gostam disto: