hoje encontrei com três pessoas amigas que falavam ao mesmo tempo, o tempo todo. nenhuma ouvia a outra, mesmo, aparentemente, estando interessadas e adorando umas às outras.

na sala de espera do dentista, um rapaz comentava sobre uma linda praia deserta em Pernambuco e uma louca interrompeu a conversa, dizendo que conhecia a Bahia (?!) e que lá, sim, tem as melhores praias desertas do mundo. nem deixou o cara acabar de falar, contou a viagem dela toda, as praias que conhece, onde passou as férias na infância e foi embora, deixando aquele silêncio retumbante no ar.

eu estava mancando. uma pessoa reparou e me perguntou o porquê. mal comecei a explicar, na minha terceira palavra, fui atropelada pela descrição dos diagnósticos de todos os problemas de joelho, quadril, bico de papagaio, tornozelo, e um pouco da menopausa que a está deixando louca. saiu sem saber o que tenho.

estou me sentindo acuada e oprimida pela falta de educação, de alteridade e de gentileza dos cariocas. esta cidade é um amontoado de narcisos metidos a simpáticos. não é à tôa que adoram o profeta gentileza, um cara mega grosseiro e antipático, que nunca praticou o que pregou. IMG_4048

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minha rainha

01/06/2014

eu tenho um amigo. ele me ensinou tantas coisas tão importantes pra mim. fomos juntos à faculdade. descobrimos que, mesmo com diferenças etárias e geográficas radicais, nascemos falando o mesmo idioma.

com muito orgulho vi aquele garoto da calça verde virar gente, dono de uma inteligência rara, que o levou a todos os lugares do mundo onde ele esteve estudando, trabalhando, sendo genial, divertido, engraçado, competente, maravilhoso. a carreira deslanchou e ele desabrochou pra vida, aprendeu de tudo, falou línguas. mas tinha dificuldade em encontrar aquele lugar interior onde a gente tira o sapato e se sente acolhido. o mundo pode ser um lugar difícil.

esse meu amigo é gay. faz diferença? faz. e vou explicar porque. ele não foi meu primeiro amigo gay, mas foi o primeiro que me contou que apanhou na rua por ser gay, que mostrou que o mundo podia ser hostil, mas que ele não ia se dar por vencido. ele foi abrindo caminho no grito, na competência: olhem pra mim, eu sou assim! um dia, ele descobriu que ele era o dono do lugar que quisesse, que podia plantar sua bandeira em qq lugar e simplesmente ser.  então ele floresceu, se apoderou de si mesmo, ocupando sua plena potência. e me ensinou a me olhar, a me ser, a exigir respeito como mulher, hetero, cantora, gordinha e carioca. eu.

com ele aprendi a ter intimidade que eu nunca tinha praticado com ninguém. aprendi a falar o indizível e a ouvir o inaudível, humanos, simplesmente humanos sobre a terra. por ele, com ele, trabalhei um monte de preconceitos, um monte de olhares viciados, aprendi montes de coisas e me transformei numa pessoa menos careta.

lindo, gato, bem sucedido profissionalmente, altos e baixos no amor, diversão em alta, produtividade bombando. ele agora resolveu se divertir um pouco mais e virar drag queen. falamos de maquiagem, de perucas, de truques femininos. eu e meu amigo. e lá vou eu, majestade, aprender a domar outros preconceitos, a fazer o dolorido exercício de aceitar o desconhecido sem julgar, lá vou eu detonar outros vícios do olhar e ver outras novidades nunca dantes navegadas. e assim, o mundo se esclarece, pela via do amor. tive sorte de te encontrar, my queen, minha rainha louca!

olha vem comigo aonde eu for, seja minha amada e meu amor, vem segui comigo meu caminho e viver a vida só de amor

 

tudo de bom

16/05/2013

Eu quero que você, que nunca foi a Paris, ganhe uma viagem de presente, e tenha dias de filme. Que você conclua seu projeto. Que você sinta amor, paixão e tesão e seja correspondido. Espero que aquele seu plano secreto se concretize. Que tudo funcione da melhor forma possível pra você. Tomara que você seja o melhor filho para os seus pais, e o melhor pai para seus filhos. Que os vizinhos lhe queiram bem, que a vida lhe trate com elegância e que você tenha um bom amigo, ou mais que um. E que vc seja bem surpreendido alguma vez. Torço pra que o trabalho que vc faz seja apreciado à altura da sua dedicação e do seu merecimento. Torço pra que seu companheiro realmente te acompanhe, te respeite e te ame. Desejo que todos os dias da sua vida sejam de paz. E que a alegria seja a sua visita mais frequente. Se a tristeza pensar em chegar, que seja leve. Sombra, água fresca, música, dias ensolarados, chuva prazenteira, longas noites de amor e riso. Te desejo vida com uma pitada de sal, um pouco de açúcar, e uma pimentinha. Boa comida, bebida e juízo, só o quanto baste. Que a temperatura seja amena e a maré, mansa. Que as tempestades lhe sejam suaves, mas se forem fortes, que sejam breves. Desejo tudo de bom pra você.

dia de luz festa de sol e o barquinho a navegar no macio azul do mar. tudo é verão, o amor se faz, num barquinho coração que desliza na canção

: – “as pessoas estão cada vez mais individualistas’. “as pessoas não sabem mais dar limites aos seus filhos”. “as pessoas jogam lixo no chão”. “as pessoas deixam a água do banho correr, enqto vão atender o telefone”. “as pessoas não conseguem mais se comprometer com nada”. “as pessoas são assim, ignorantes”. “as pessoas só pensam nelas”. “as pessoas só querem ganhar, o tempo todo”. “as pessoas não ajudam”. “as pessoas não querem saber dos direitos dos animais”. “as pessoas constroem em encostas”. “as pessoas lavam as calçadas com mangueira”. “as pessoas não querem saber dos idosos”. “as pessoas estão loucas”. “as pessoas se alimentam muito mal”. “as pessoas não sabem votar.”

 

sempre atrasada, paro na esquina pra pegar um taxi até o metrô mais próximo. um cara me para e pergunta: “onde pego o ônibus pro metrô de Ipanema?” Indiquei o ponto, enquanto entrava no taxi, e pensei e falei ao mesmo tempo: “to indo pra lá, quer carona?”. O cara, entre atônito e divertido, topou na hora, educadamente. completamente estranhos um pro outro, entramos naquele taxi maravilhosamente refrigerado, numa tarde de 35º no Leblon. Convidei primeiro, pensei depois! confiei, pronto. ele disse: “obrigado! agora to indo pra faixa de Gaza. Meu trabalho fica entre duas facções, entre duas favelas não pacificadas. E a gente lá… no meio do tiroteio…”

meu telefone toca sem parar e eu mal consigo continuar nosso papo, até quase Ipanema, qdo trocamos impressões sobre o emprego dele, como controlador de perdas numa grande cadeia de varejo popular, e dos preços absurdos praticados no Rio.  Eu estava a caminho da primeira audição do meu CD solo, e de uma longa sessão de edição de voz. Concentração e expectativa em alta. a conversa me atravessava. nos despedimos na porta do metrô, ele saiu correndo, não sem antes me oferecer seu telefone, pra qq coisa. Recusei, desejei sorte. Ele me deu um quase-abraço fraterno, apertou minha mão: “Agora é vida que segue, obrigado!”. Retribui o quase-abraço.

Qdo entro no vagão lotado, lá está ele, sentado. Ele acena e levanta, imediatamente, cedendo seu lugar. Aceito a gentileza, sorrindo. Me ofereço pra segurar sua mochila e engato, sem perceber, uma conversa com a moça sentada ao meu lado.

Ela me conta, quase do nada, que está perdida no metrô. Mas que está feliz, pq foi seu primeiro dia de trabalho, como diarista, na casa de uma pessoa que lhe deu a chave da porta e saiu. Sem desconfiança, sem medo. Está grata e satisfeita por ser alvo de confiança. Está em paz, sem pressa de chegar em casa, embora prefira andar de ônibus: “A melhor coisa que tem é a confiança”.

Quando piso de novo na minha vida, no estúdio, ouvindo o disco pelo qual tenho esperado com tanto anseio, percebo que ali também estou cercada de gentileza, respeito e confiança. E reforço minha crença nesse grato caminho por onde pretendo sempre passear.

tatibitati

10/01/2011

As crianças são budistas de nascença. Quando estão ainda na época da inocência, elas não têm auto-imagem, nao têm um nome a zelar. Simplesmente são o que são. Elas não se olham no espelho, antes de sair e pensam: minha bochecha tá fofa? minhas dobrinhas estão mordíveis? essa fralda me deixa gorda? Simplesmente vivem, se relacionando com o que está em volta, exclusivamente no momento presente, sem nunca se preocupar com o futuro ou remoer o passado. O universo é novo, o tempo todo, para as crianças. Elas apreendem, experimentam, provam, cheiram, pegam, largam, escolhem e podem mudar de idéia à vontade.

Um bebê não pensa: ah, vou deixar isso pra amanhã; pra um bebê não existe amanhã. Só existe o aqui e o agora. Se ele quer alguma coisa, ele berra, se joga, pede, chora, esperneia.  Se não quer, nao tem santo que o convença. Se ele tem sono, dorme, se tem fome, come, se tem medo, chora. Gosta das pessoas pelo que elas são com ele, independente de cor, raça, credo, peso, formação ou classe social. Se não gosta de alguém, não vai no colo de jeito nenhum e nunca, nunca finge ou mente.

Depois, vão desiluminando com o tempo e um dia, pimba!, ficam assim, gente como a gente…

minha amiga mabel e eu, no tempo da delicadeza

 

Eles trocaram uns 4 segundos de olhar profundo. Viveram, no passado, uma intensa, conturbada e boa história de sexo e paixão. Em 4 segundos, o olhar que trocaram abriu a cortina e deixou passar o filme. Os olhares disseram, um para o outro: eu sei daquilo tudo. O olhar foi direto ao centro das emoções sem moral e sem racionalidades, onde tudo se justifica pelo que o corpo pede, pelo que o coração sente, pelo que é impossível julgar ou proibir. Mesmo que tudo indique que nada daquilo vai se repetir, mesmo assim. Provavelmente, nunca tocarão no assunto. Mas os olhos se tocarão. E tocarão, eles mesmos, no assunto e falarão a lingua do olhar.

A fala do olhar desconhece censuras e disfarces. O olhar não sabe mentir como as palavras sabem. Quantos segredos se manterão guardados à beira do olhar, compartilhados apenas por quem os viu? Trama de olhares. Olhares inconfessos. Olhares e segredos trocados em silêncio, consentidos.  Votos confirmados, amores confessados, saudades, desejos. Tudo lá.

Foram apenas uns 4 segundos. Talvez 3.

turista intencional

12/09/2010

estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!

turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde.  Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.

Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem  na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.

Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com  mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias.  Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.

E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?

Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.

Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias.

 *originalmente escrito por ocasião do aniversário de um amigo, mas que serve, tipo assim, de mensagem de fim de ano.

Faz tanto tempo que nos conhecemos, que nem sei mais se foi nas carruagens, quando éramos reis, ou nas caravanas quando, ciganos, paramos pra acender o fogo, tocar e dançar.

Será que foi nas galés, prisioneiros sem futuro, ou singrando mares, piratas em busca de ouro? Ou quando fomos portugueses no ultramar, índios flechando o invasor, cangaceiros saqueando tudo? Será que foi quando éramos flores?

Pode ter sido nos navios negreiros em que viemos da África ou nas colheitas dos campos de algodão. No Paleolítico inferior, na Lemúria, em Atlântida ou numa esquina dos Jardins do Éden. Ou teria sido nas longas cavalgadas, quando vivíamos nômades nos desertos de sal, nas arábias, nas ásias maiores e menores, nas terras dos pigmeus? Pode ter sido numa daquelas naves que a gente pegou pra mudar de planeta. Numa casa de ópio na Indochina. Ou numa noite dessas, a alma passeando, quem sabe seu cordão de prata enroscou no meu? Quem é que vai saber dizer o dia em que nos descobrimos?

Quantos pães multiplicamos, quantos copos dividimos, quantos cachimbos fumamos em nome da paz? O quanto aprendemos, o que perdemos, contra o que lutamos, o que almejamos nesse nosso longo caminho? Pouco choro, muita risada. E música.

À nossa frente, se oferecendo pra nós, temos tudo o que ainda não vivemos. Bora celebrar! Hoje a festa é no nosso quintal.

sorria, você está aqui!

Sorria, vc está aqui!

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