hoje encontrei com três pessoas amigas que falavam ao mesmo tempo, o tempo todo. nenhuma ouvia a outra, mesmo, aparentemente, estando interessadas e adorando umas às outras.

na sala de espera do dentista, um rapaz comentava sobre uma linda praia deserta em Pernambuco e uma louca interrompeu a conversa, dizendo que conhecia a Bahia (?!) e que lá, sim, tem as melhores praias desertas do mundo. nem deixou o cara acabar de falar, contou a viagem dela toda, as praias que conhece, onde passou as férias na infância e foi embora, deixando aquele silêncio retumbante no ar.

eu estava mancando. uma pessoa reparou e me perguntou o porquê. mal comecei a explicar, na minha terceira palavra, fui atropelada pela descrição dos diagnósticos de todos os problemas de joelho, quadril, bico de papagaio, tornozelo, e um pouco da menopausa que a está deixando louca. saiu sem saber o que tenho.

estou me sentindo acuada e oprimida pela falta de educação, de alteridade e de gentileza dos cariocas. esta cidade é um amontoado de narcisos metidos a simpáticos. não é à tôa que adoram o profeta gentileza, um cara mega grosseiro e antipático, que nunca praticou o que pregou. IMG_4048

sempre atrasada, paro na esquina pra pegar um taxi até o metrô mais próximo. um cara me para e pergunta: “onde pego o ônibus pro metrô de Ipanema?” Indiquei o ponto, enquanto entrava no taxi, e pensei e falei ao mesmo tempo: “to indo pra lá, quer carona?”. O cara, entre atônito e divertido, topou na hora, educadamente. completamente estranhos um pro outro, entramos naquele taxi maravilhosamente refrigerado, numa tarde de 35º no Leblon. Convidei primeiro, pensei depois! confiei, pronto. ele disse: “obrigado! agora to indo pra faixa de Gaza. Meu trabalho fica entre duas facções, entre duas favelas não pacificadas. E a gente lá… no meio do tiroteio…”

meu telefone toca sem parar e eu mal consigo continuar nosso papo, até quase Ipanema, qdo trocamos impressões sobre o emprego dele, como controlador de perdas numa grande cadeia de varejo popular, e dos preços absurdos praticados no Rio.  Eu estava a caminho da primeira audição do meu CD solo, e de uma longa sessão de edição de voz. Concentração e expectativa em alta. a conversa me atravessava. nos despedimos na porta do metrô, ele saiu correndo, não sem antes me oferecer seu telefone, pra qq coisa. Recusei, desejei sorte. Ele me deu um quase-abraço fraterno, apertou minha mão: “Agora é vida que segue, obrigado!”. Retribui o quase-abraço.

Qdo entro no vagão lotado, lá está ele, sentado. Ele acena e levanta, imediatamente, cedendo seu lugar. Aceito a gentileza, sorrindo. Me ofereço pra segurar sua mochila e engato, sem perceber, uma conversa com a moça sentada ao meu lado.

Ela me conta, quase do nada, que está perdida no metrô. Mas que está feliz, pq foi seu primeiro dia de trabalho, como diarista, na casa de uma pessoa que lhe deu a chave da porta e saiu. Sem desconfiança, sem medo. Está grata e satisfeita por ser alvo de confiança. Está em paz, sem pressa de chegar em casa, embora prefira andar de ônibus: “A melhor coisa que tem é a confiança”.

Quando piso de novo na minha vida, no estúdio, ouvindo o disco pelo qual tenho esperado com tanto anseio, percebo que ali também estou cercada de gentileza, respeito e confiança. E reforço minha crença nesse grato caminho por onde pretendo sempre passear.

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