uma amiga que amo, e não vejo desde que teve filhos, me chama pra jantar, conhecer a casa nova e tal. passamos uma rápida noite juntos. agora que há bebês, crianças, escolas, empregadas, babás, esposas, maridos, quase não sobra tempo pra morrer de rir, pra comer, pra beber, pra ouvir música. só se a gente se encontrar pra tomar café da manhã no Jardim Botânico, ou pra passear de pedalinho, ou ir patinar no quadrado do Leme. enqto a petizada se diverte à larga, podemos tentar viver nossa vida de adulto. mas tem que ser rápido, antes que eles peçam alguma coisa e a gente tenha que interromper tudo o que está fazendo pra atendê-los. agora, amanhã, td mundo precisa acordar cedo pq tem natação, e pq a natação dos bebês é mais importante que um reencontro de amigos adultos, que viveram mil e uma juntos e não se veem há anos. cedo (do verbo ceder), embora me sinta como se estivesse no quadro errado. como se eu tirasse meus saltos enormes, levantasse a barra do vestido e partisse, em disparada, tentando alcançar o trem que partiu. perco a cena. tant pis…  o que é que eu estou fazendo nesse filme, mesmo?

***

saio pra ver um amigo de fora que me pergunta: “mas, vem cá, vc ainda está lutando contra vc mesma?”

Eles trocaram uns 4 segundos de olhar profundo. Viveram, no passado, uma intensa, conturbada e boa história de sexo e paixão. Em 4 segundos, o olhar que trocaram abriu a cortina e deixou passar o filme. Os olhares disseram, um para o outro: eu sei daquilo tudo. O olhar foi direto ao centro das emoções sem moral e sem racionalidades, onde tudo se justifica pelo que o corpo pede, pelo que o coração sente, pelo que é impossível julgar ou proibir. Mesmo que tudo indique que nada daquilo vai se repetir, mesmo assim. Provavelmente, nunca tocarão no assunto. Mas os olhos se tocarão. E tocarão, eles mesmos, no assunto e falarão a lingua do olhar.

A fala do olhar desconhece censuras e disfarces. O olhar não sabe mentir como as palavras sabem. Quantos segredos se manterão guardados à beira do olhar, compartilhados apenas por quem os viu? Trama de olhares. Olhares inconfessos. Olhares e segredos trocados em silêncio, consentidos.  Votos confirmados, amores confessados, saudades, desejos. Tudo lá.

Foram apenas uns 4 segundos. Talvez 3.

 *originalmente escrito por ocasião do aniversário de um amigo, mas que serve, tipo assim, de mensagem de fim de ano.

Faz tanto tempo que nos conhecemos, que nem sei mais se foi nas carruagens, quando éramos reis, ou nas caravanas quando, ciganos, paramos pra acender o fogo, tocar e dançar.

Será que foi nas galés, prisioneiros sem futuro, ou singrando mares, piratas em busca de ouro? Ou quando fomos portugueses no ultramar, índios flechando o invasor, cangaceiros saqueando tudo? Será que foi quando éramos flores?

Pode ter sido nos navios negreiros em que viemos da África ou nas colheitas dos campos de algodão. No Paleolítico inferior, na Lemúria, em Atlântida ou numa esquina dos Jardins do Éden. Ou teria sido nas longas cavalgadas, quando vivíamos nômades nos desertos de sal, nas arábias, nas ásias maiores e menores, nas terras dos pigmeus? Pode ter sido numa daquelas naves que a gente pegou pra mudar de planeta. Numa casa de ópio na Indochina. Ou numa noite dessas, a alma passeando, quem sabe seu cordão de prata enroscou no meu? Quem é que vai saber dizer o dia em que nos descobrimos?

Quantos pães multiplicamos, quantos copos dividimos, quantos cachimbos fumamos em nome da paz? O quanto aprendemos, o que perdemos, contra o que lutamos, o que almejamos nesse nosso longo caminho? Pouco choro, muita risada. E música.

À nossa frente, se oferecendo pra nós, temos tudo o que ainda não vivemos. Bora celebrar! Hoje a festa é no nosso quintal.

sorria, você está aqui!

Sorria, vc está aqui!

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