turista intencional

12/09/2010

estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!

turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde.  Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.

Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem  na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.

Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com  mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias.  Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.

E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?

Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.

Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias.

viajandona

15/07/2010

uma vez meu namorado brigou comigo pq eu disse que a minha viagem dos sonhos era num carro com tração nas 4 rodas, sem data pra voltar, saindo do Rio em direção a Juazeiro do Norte, cheia de CDs e mapas e provisões, parando em todos os lugares que me dessem curiosidade de conhecer e provar… sozinha. Ele ficou arrasado por não estar incluído nem no banco do carona dos meus sonhos. Ooops, I did it again!

Me habituei a fazer as coisas de que gosto sozinha, pq acho dificilimo coordenar desejos. Em viagem, então… Sempre tão pouco tempo e dinheiro para usufruir dessa fantasia pessoal e intransferível que é viajar. Amo demais viajar, mas depois de ter morado em Londres e Paris (como diz a minha irmã: não tem como dizer isso sem parecer esnobe…) e ter tido a sorte de conhecer algumas grandes e pequenas cidades do mundo, não tenho mais vontade de ir a nenhuma cidade grande. Adoro passar por cidades pequenas, do interior, estradas de terra, sabores exclusivos, assinaturas super individuais.

O campo da Inglaterra, por exemplo, é um amor que guardo com uma pitada de esperança de revival. Estive num lugar de que jamais me esquecerei, Polperro, uma linda vila de pescadores na Cornuália, falésias sobre piscinas naturais que abrigavam pepinos do mar e bichos estranhos. Estive em Devon, uma paixão de countryside, um rio passando na porta de casa, muito frio, lareira, chocolate quente, raposas prateadas e carneiros de chifres em cornucópia retorcida.  Tive lindas vidas passadas, quem sabe do futuro?

Atualmente, meu maior sonho de viagem é cair na estrada com o tal carro 4 X 4 pela Linha Verde, que liga Salvador a Aracaju, com direito a visitar o sertão onde Lampião e Maria Bonita viveram. Quilômetros de praias brancas e  desertas e mar quase sem ondas, peixe frito, água de coco e rede pra deitar ao entardecer. Essa é a viagem que realmente desejo fazer, sobre todas as outras, sobre a Provence, sobre a Toscana, sobre a Grécia, sobre a Andaluzia. Uma fantasia de  Tieta do Agreste, me esvoaçando pelas dunas de Mangue Seco. Um sonho brasileiro, rendado,  entradas e bandeiras…

Qdo eu ainda não conhecia Nova York grudei, com imã, um mapa da cidade na porta da minha geladeira. Loucamente, uns dias depois, recebi um convite pra ir pra lá passear. Con-vi-te! Santa Geladeira! Hoje mesmo vou recortar uma foto do carro com tração nas 4, achar um mapa da Linha Verde, grudar tudo com imã na porta da bendita,  e pedir pra Nossa Senhora da Geladeira me ajudar.

as cores do algarve, no ultramar
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