pileque

10/10/2016

Sentada na cadeira do dentista, procuro por um pensamento que me tire dali, um tapete mágico que isole o barulho do motor, o desconforto da anestesia, a aflição da invasão. Não encontro. Lembro da última vez em que fiquei apaixonada e de como eu adorava ter oportunidades, como essa, pra desligar do mundo e ficar só assistindo àquele filme. Primeiro beijo, desejos multiplicados e compartilhados, compacto das melhores cenas, renovando o encantamento. Como uma semideusa, as humanidades baratas não me atingiam. Debaixo dos pés eu trazia nuvens, e quem traz nuvens nos pés não pisa no chão dos mortais. Vai longe a última paixão. Não guardo em mim nenhum rastro dessa dulcissima ilusão à tôa. A paixão é, de longe, o melhor pileque que já tomei.

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English Lavender

08/03/2016

vc era alto. e eu gostava de andar pelas ruas de Laranjeiras pendurada em vc, na ponta dos pés, escalando seu braço, até quase alcançar seu pescoço, onde morava aquele perfume, que um dia, bem depois da felicidade, procurei na prateleira da drogaria. era tanta saudade que entrei na farmácia, junkie em privação, peguei o frasco de colônia e cheirei. uma cafungada certeira que bateu no fundo. depois botei de volta o vidro fechadinho e fui embora com o os pulsos encharcados de perfume, e fui cheirando e chorando pela rua. roubei o cheiro da lavanda, mas seu cheiro, aquela nota de fundo que era só sua, não estava lá. eu tinha orgulho de exibir pro mundo que vc era meu, que éramos tão estupidamente felizes, e que nem adiantava comparar, porque nenhum humano jamais saberia o que era aquilo que a gente tinha. nosso amor, nossa cumplidade. Era English Lavender, o cheiro. 

2014-08-31 16.20.18-1

Era um belo dia de sol no bairro carioca do Leblon, que fica na beira da praia mais calma da cidade, menos badalada, mais vazia. Fui encontrar um amigo. Fazia sol de verão em pleno inverno, temperatura alta, mar perfeito. Levei duas tangerinas numa sacolinha, uma para cada um de nós. Conversamos, mergulhamos, o mar subiu molhando nossas coisas, a canga ficou cheia de areia. Peguei na sacolinha, lembrei da tangerina, peguei uma pra mim: um estouro. Meu amigo não quis a dele. Coloquei as cascas e bagaços na sacola e joguei no lixo. Sobrou uma tangerina.

Eu havia estacionado a minha bicicleta ali perto e pretendia dar a minha pedalada habitual até o Arpoador, onde paro a bike e parto para minha caminhada pela areia, de frente para o sol e para a paisagem mais linda do mundo: o Morro Dois Irmãos ao entardecer. A sacola foi pro lixo, eu estava sem bolsa. Só carregava a pochete daquelas de montanhismo, onde cabe a garrafa de água, um documento, um chapstick e o dinheiro da água de coco da volta. O que fazer com a segunda tangerina, que eu não queria comer e não tinha onde colocar?

Agosto é um belo mês para as tangerinas: mexeriquinhas pequenas, pokans enormes de polpa meio ressecada e casca solta, mil tipos… Minha favorita é a murkot, aquela de casca agarrada na polpa, hiper suculenta, doce e carnuda. Na hora em que mordo um gomo de tangerina, quase acredito na existência de deus. Comprei muitas, minha casa está um showroom de tangerinas. Nesta época do ano, há cascas de tangerina espalhadas para secar, ao sol, nas janelas. Seco as cascas para fazer mil coisas. Uso para aromatizar a água básica do chá, uso ralada no tempero de peixe e frango, uso no purê de abóbora. As folhas, eu seco, guardo e uso muito, muito mesmo, durante todo o ano, em receitas que vou inventando na hora. Bolo de tangerina com casca e tudo é delicioso. Sopa de shiitake com folhas de tangerina. Frango assado no suco de tangerina é demais, casca de tangerina glaçada é o que há, filé de peixe assado com folhas de tangerina é “exquisite’. Isso tudo para explicar o quanto eu amo tangerina e o quanto acho que ela é a vedete da estação.

Mas o que fazer com a tangerina que sobrava? Olhei em volta e pensei: é fácil! Vou oferecer praquela ali, qualquer um vai querer. “Moça, vc quer uma tangerina?” Ela secava o corpo com a toalha, olhou, sorriu: “Não, obrigada”. Ao lado dela, um trabalhador, de macacão, descansava à sombra do quiosque. Quando cheguei perto dele para oferecer a fruta, ele nem me olhou. Foi logo balançando a cabeça em negativa e acenando com o dedo do não. Tangerina nem pensar. O rapaz que trabalhava no quiosque também não quis. A moça que passava nem me deixou explicar, passou direto, me evitando. Me senti a bruxa da Branca de Neve oferecendo uma maçã envenenada aos transeuntes. Por diversão e teimosia, decidi tentar até que alguém aceitasse minha doce e deliciosa tangerina. Nada. Todo mundo com medo, passando direto por mim, me olhando como se eu fosse dar a tangerina e pedir alguma coisa em troca. Eu só queria dar uma tangerina doce deliciosa e perfeita para alguém e ninguém queria. Eu ria. Dois surfistas riram, achando tudo estranho: não, obrigada. Um guardador de carros declinou: acabei de comer um doce. Um senhor que caminhava rapidamente entendeu meu drama, mas também não quis. Dois pescadores não quiseram, mas um deles disse: “obrigado pelo seu bom coração”. Por fim encontrei um homem sentado numa cadeira, ali ao lado do quiosque. Moço, vc quer essa tangerina? “Ô, meu deus, que sorte, que maravilha, não poderia ter aparecido em hora melhor, sou louco por isso!” Pegou a tangerina, levantou e começou a descascar a bela fruta, feliz da vida. Um outro, vendo a cena, disse: “Da próxima vez traga duas, eu também adoro, vou ficar na vontade”…

Moral da história: a sua tangerina pode ser a mais doce, mais perfeita, a mais deliciosa do planeta. Você pode estar oferecendo a sua linda tangerina de graça, com um sorriso nos lábios. Mas nem por isso você vai encontrar alguém que a queira. Isso também acontece com a gente, com nossos sentimentos, com as coisas que temos para oferecer para os outros e para o mundo. Nem sempre somos compreendidas, aceitas, queridas e desejadas. O que não significa que o que temos para dar não é bom. Às vezes, demora para encontrar quem queira nossa tangerina, mas isso não quer dizer que seja melhor a gente tentar oferecer maçãs, quando maçãs não estão no cardápio. Demora, mas quando a gente acha quem realmente aprecie nossa doce tangerina, a gente entende o sentido da vida. A gente entende o porquê da nossa barraca nessa feira moderna…
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*post publicado originalmente no primeiro endereço deste blog, não sei exatamente quando. escrevi quando a minha afilhada mais velha, a Ju, terminou um namoro e ficou arrasada pq o menino não queria mais ela. Lembrei do texto agora pq minha afilhada 2, a Mari, também terminou um namoro e tá arrasada. As minhas meninas, não! Se soubessem como são lindas!

dia dos namorados

12/06/2015

 

Em que país distante andará,

dentre tantos homens brancos pretos amarelos e vermelhos

aquele um que, sob sol e chuva, traz na bagagem a tampa

que fecha a panela vazia que pesa na minha mochila?

 

em que barcos cruza oceanos bravios

carregando perto do peito, em devoção,

o breve que envolve meu nome

bordado em pétala de rosa

e, incansável, me busca

 

onde o dono da única alma

que encontrando a minha alma

num átimo,

se reconhecerá como se espelhado estivesse?

ele aposentará as botas gastas de caminho

ele andará descalço, ao meu lado

e eu descansarei meus olhos secos da procura

quando seu olhar molhar o meu

figura e fundo

 

quem será o andarilho obstinado

que anda pelo mundo com um chinelo velho no bolso

em busca pelo meu pé cansado

de tanto escorregar na pista?

 

quem é o homem

que tem deitado em camas e mais camas

sem se queimar nas brasas do amor verdadeiro

e, como eu, tem beijado um mundo de bocas

sem encontrar, em nenhuma delas, o sabor

de laranja pela metade descobrindo a contraparte

 

onde está o homem exclusivo?

para quem fui talhada a cinzel

fortuna cravada em meu destino?

E se desencontrarmos na hora do encontro?

E se eu pegar o ônibus errado?

e se ele se atrasar na hora certa?

E se eu me distrair com a paisagem?

 

E se ele já tiver passado por mim

e eu, cega, de tanto procurar

Tenha deixado ele passar?

Ou terei eu sido a escolhida

para vir a esta vida

sem ser amada e sem amar?

 

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não-verbal

21/04/2015

canto mil músicas pra ele, sobre ele, sobre mim, sobre o amor, sobre a paixão, em inglês. as palavras escorrem de mim, na direção dele, liquefeitas e cremosas.

ele não entende inglês. então, de vez em quando, canto olhando nos olhos dele. ele sorri. sempre sorri e me olha lá dentro. no final de tudo, me beija.

acho que ele entendeu.

 

 

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x

11/04/2015

fla X flu

direita X esquerda

ditadura X democracia

católicos X evangélicos

judeus X árabes

armênios X turcos

cristãos X muçulmanos

meninos X meninas

homofóbicos X gays

argentinos X brasileiros

paulistas X cariocas

franceses X belgas

palestina X israel

klu klux klan X negros

irã X Iraque

trabalhador X patrão

pobres x ricos

 

as paixões nos tornam parciais, polarizados, defensores das nossas crenças e convicções mais queridas. tem jeito?

 

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juízo final

16/12/2014

Eu poderia brigar com os deuses do amor, por me botarem o doce na boca e tirarem, tão rápido. Depois de anos adormecida, acordei, subitamente, com a quentura de um sol escancarado dentro do meu peito. Cheia de encantos mil caminhei uns dias, pelo mundo, em contato direto com a massa de que é feito o melhor tipo de vida: amor. Mas, protegida pelos estranhos desígnios dos descupidos, vi o sol se apagar sem aviso, deixando, no epicentro do peito, o buraco negro que sorve a esperança, a raridade e a alegria dos que amam.

Do meio do meu deserto avistei, na rua, um casal comum de meia idade sorrindo de cumplicidade pura, uma demonstração secreta, porém explícita, de amor e parceria. E sorri. O sol há de brilhar mais uma vez.

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afluentes

09/12/2014

a tua correnteza flui na direção do meu mar. seu braço de mar, a foz do teu rio, eu. encontro das águas salgadas e doces, e as nuvens boiando no céu. a tarde, a noite, o tempo, tudo parou, esperando por nós. o fumo levanta a onda que nos carrega pro doce leito de estrelas. correntes de cá e de lá se misturam. somos dois afluentes, flow, fluxo. vc, meu bote, meu barco, meu rio. eu, seu leme, seu remo, seu mar .

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com a perspectiva da primeira cirurgia da minha vida, tenho pesadelos de morte e acordo com o coração na boca. embora eu tenha apenas uma condição mecânica adversa que pode (e deve) ser corrigida, sinto como se estivesse me oferecendo em sacrifício. morro de medo e vertigem e quase todo dia tenho um episódio de pânico e desisto: foda-se, vou sentir dor pra sempre, já acostumei, mesmo. a dor é minha, ninguém tasca. Mas, depois, quando a dor me tira o rebolado, o sono, o suingue e a simpatia, eu cedo. E rezo por um milagre enquanto, a contragosto, me preparo.

distraída nas minhas mil dores, esbarro num rapaz sorridente, que cruza, pé ante pé, o meu caminho, cada dia um passo.  moribunda  que estou, descreio que eu possa ser o alvo de tamanho sorriso, graça e desejo. mas, surpresa, aceito esse convite pra mais uma contradança. e logo percebo um sol sentado em meu sofá, irradiando luz, sorrisos, música e carinho.

estamos envoltos nessa conexão surpreendente –  mudamos o eixo da terra em uma noite -,  e um vórtice de energia passa por dentro da minha casa a cada vez que a gente se toca e sorri. a paz reina, soberana. eu sorrio.

experimento a polaridade absoluta deste momento, ora no claro, ora no escuro, ora no yin, ora no yang. passo do frio ao calor, do macio ao áspero, do medo ao conforto.

tenho apenas uma certeza: estou viva. bem viva.

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love songs

27/07/2013

amigos, café, chocolate, vinho do porto, fumo. a música é variada. coisas que a gente nunca mais cantou, e cujas letras emergem dos subterrâneos da memória, trazendo junto avalanches de lembranças e cheiros e cores de outras vidas. e os amores. penso nas paixões que vivi, no fracasso da minha vida amorosa, nas péssimas escolhas que fiz, nas incontáveis frustrações. volta a velha e permanente sensação de que o meu pacote de serviços não inclui amar e ser amada. embora esteja acostumada, tenho me sentido só. quem, nunca? deve ser o inverno. ou a idade. ou o vento. passa. canto canções de amor e, por dentro, me sinto uma impostora. as canções de amor quase perderam o sentido pra mim, é como se eu cantasse sobre um unicórnio, sobre uma fada, um dragão, ou atlântida. ausência ilustre, lâmpada queimada, terreno baldio, corda quebrada de violão. amor: meu continente perdido.

abre alas

04/05/2013

Peço licençaê, meu pessoalzinho, cariocas e selvagens de todas as tribos: quero passar.

Na minha casa se ouvia Românticos de Cuba, Metais em brasa, Burt Bacharach, Chico Buarque, Bethânia e Barbra Streisand. E Domenico Modugno. Rock progressivo, tb. Ipanemense de raiz que sou, não nasci no samba, não posso negar. mas quem, como eu, viu o Simpatia sair, nos anos 80, despejando uma onda de alegria pelo bairro, foi atrás e não voltou mais. Aqui no meu quintal, com sua licença, às vezes até se jonga. E tocamos música instrumental, Cole Porter e Coltrane.  Além do Fundo, do Caetano e do Djavan, Bill Evans é deus. Assim como Bach, Chopin e Erik Satie*, que fizeram uma música que não se vai mais fazer. Desbravadores, como Miles Davis e Ella. Como Pixinguinha, Villa Lobos, Zé Keti e Garoto, como Tom Jobim. Nunca mais.

Mas o pessoal aí do samba vai ter que me perdoar, pq eu adolesci na Era Disco. Saturday night fever, Earth Wind and Fire, Whitney Houston, Sly and family Stone. E até Olivia Newton John, perdoai! Mas, qdo subo no salto e ataco de diva, com perdão da má palavra, estou dando vez ao morro e, por dentro, descalço os pés, pra me ajoelhar no meu altar. e qdo confesso que o samba é o melhor lugar, sei que dentro de mim mora um groove, e não consigo fazer ele parar de dançar.

é por isso, meu povo do bom jazz, q eu vou pedindo licença e passando, encantada com Erika Baduh, como quem vê a Portela passar. o tantan sapeca num pagode, e lá vou eu, sambando no pé pelo chão de cimento. paro pra admirar o bandolim do Hamilton de Holanda, me deleitar com o violão do Sergio Santos, me encantar com as músicas do Pauleira, e levitar com o sopro do Gabriel Grossi.

aos meus compadres e parceiros, meus irmãozinhos e cumadis, preciso revelar um segredo: adoro um piano que toca quase em silêncio, com uma bateria tocada às vassourinhas, um baixo acústico, e uma melodia sinuosa e bela, pra deitar os cabelos. o jazz me acomoda o coração e faz com que eu me cale, como que pra me educar, me fazer escutar, usar os ouvidos de ouvir.  tb adoro música sem palavras. Mas as letras da MPB são as mais lindas das lindas, com todos os seus poemas que desafiam melodias, e os batuques febris de todas as Áfricas, daqui e de lá. o mundo inteiro é uma louca nação de índios e de pretos, cheia de música de todos os tipos, por que preciso escolher só uma?

abram alas: quero passar com a minha música, entrópica, viralata, mestiça como eu.

*(o nome deste blog é uma homenagem a ele, que tem uma peça chamada “Avant-dernières pensées, ou penúltimos pensamentos)

todo azul do mar

11/08/2012

no meu sonho, vc voltava me pedindo pra esquecer toda maledicência, toda mágoa, todo nosso triste desfecho, e pra mergulharmos no mar, à noite. entramos num mar azul profundo, eu e vc, subindo e descendo em ondas que nunca quebravam. ao longe, as luzes das cidades, o continente lá pra trás, a orla perolada e silenciosa aparecendo e desaparecendo atrás das ondas. e eu e vc, lavando a alma num mar-sem-fim de sentimentos indizíveis, grandes demais para terem nome. vc carinhosamente ao meu lado, sorriso calmo nos lábios, abraço quente e olhar cúmplice. no meu sonho, vc vinha me dizer, de cara limpa: eu sou, vc é, somos muito mais além.

e eu acordei sentindo um estranho amor multidimensional, que atravessa, triunfal, os portais da existência, os umbrais do tempo e os pequenos sentimentos e atos humanos que reduzem tudo a quase nada.

dia dos namorados

11/06/2012

Naquele tempo, tinha gente que começava a namorar na semana anterior e terminava logo depois, pra não pagar o mico social de não ter com quem passar o tal dia. Outras vezes, a pessoa esperava passar o dia dos namorados pra terminar um longo namoro: “Po, não vou fazer essa sacanagem, né? Deixar o cara sozinho no dia dos namorados”.  Ou então, no meio de uma crise daquelas, todo mundo ficava de altos por um dia, só pra não perder a data. As coisas tinham lá suas bobas importâncias, e a gente ainda nem tinha se ligado que a data é comercial, feita pra vender presente, que papai noel não existe e que nem deus existe. naquele tempo, ainda havia deus. e aqueles sonhos.

compra roupa nova, faz unha, depilação, cabelo. será que seremos felizes como deveríamos, hoje, já que todos os casais brasileiros deveriam comemoram o amor? Será que conseguiremos ser assim tão felizes com data marcada, com fila no restaurante, aquele que tem fondue e luz de velas, ou aquele japonês que tem salinha reservada, para podermos, enfim, entrar na fotografia ou no filme em que se espera estar nesse dia? Amando, sendo amados, lindos, felizes, sorridentes. E depois desse momento romântico em que a gente troca presentes, em que ele terá adorado o que eu dei e eu terei adorado o que ele deu, nos  beijamos longamente e fazemos um brinde, olho no olho. Pode ser que a gente peça uma garrafa de espumante, ou de sakê, coisas que a gente não faz normalmente. Mas hj a gente tem que ser feliz a qq custo, então, brindemos.

Esquece tudo, amor, hj é o nosso dia, dia de comemorar a felicidade de não fazermos parte do bloco do eu sozinho. Depois,  ainda temos que ir pro motel e tem que ser uma noite inesquecível. mesmo que vc esteja cansado, q eu tenha que acordar cedo amanhã, mesmo que eu e vc nem estejamos assim, nesse momento exatamente sexy. Mas vamos fazer parte desse filme logo e encarar a fila do motel mais barato, pq esse super caro nao dá pra gente. Ficamos no carro, esperando vagar uma garagem e lá vamos nós pro test drive do amor. a felicidade nunca foi tão estressante.

 

para chegar ao portão do castelo, será necessário driblar os crocodilos que habitam o fosso que circunda os muros. e compreender sua lógica, que não há.

depois de atravessar o fosso, será preciso cruzar a ponte elevadiça, que pode não estar arriada, e derrubar o portão de madeira pesada, trancado a sete chaves e tacheado com pontas de ferro e munido com línguas de fogo. há o risco de óleo quente ser derrubado de cima das torres, por sobre aqueles que ousarem tentar macular o silêncio da cidadela.

para penetrar no pátio central, e chegar ao jardim, há uma barreira de cães ferozes, famintos de mil guerras. o jardim está deslumbrante e florido, mas há espinhos nas rosas polpudas, cujo perfume se alastra impelindo o invasor a prosseguir.

será necessária a fibra de um guerreiro, a perspicácia de um sábio, a destreza de um mago, a delicadeza de um  bardo e a inocência de um bobo, para invadir o jardim, conhecer suas delícias, suas damas da noite, suas sombras generosas, suas fontes de água limpa, a rosa. e seus espinhos.

I’m not in love

18/10/2011

preciso me apaixonar urgente. preciso me apaixonar pra sharpear a cor da vida. pra voltar a achar bonitas umas músicas, umas frases, pra apreciar Jorge Vercillo, sempre falando de amor como uma epifania, um momento da ascenção, de iluminação. Pra encolher a barriga. E tb pra ficar horas me olhando no espelho, horas passando creme nas pernas, tirando sobrancelha, fazendo unhas.  horas feliz. com aquele canhão de luz apontando de dentro pra fora. quentura. aquela falta de fome, aquele fastio, cheio de borboletas no estômago. e também para andar sorrindo na rua, para estranhos. e pra ter a felicidade de esperar o telefone tocar, e ele tocar. ficar apaixonada é um inferno, uma montanha russa, um desassossego, um aluguel. muito mais legal do que a paz-eterna-amém.

 

quase milonga

02/10/2011

todas as vezes em que eu usar esse perfume hei de lembrar daquele vestido preto, e de você, numa ladeira da Lapa, me puxando pra vc, dizendo: “esse cheiro, esse cheiro, que cheiro é esse, menina?” (fazia tempo que eu não era mais menina). e depois um beijo, outro beijo, um cheiro.

Por dentro de mim, uma lembrança de buenos aires, de onde eu acabara de chegar, cheia de tango. Vc dançou comigo, sem saber, quase milonga: “me tira daqui, me leva, eu não sei dançar…”

E sabia. Sabia, sim.

Dancei

Ilusão de ótica

28/08/2011

Toda vez que você chegava perto de mim

Era um arrebol na minha frente

O vermelho de todos os crepúsculos

De todas as alvoradas

Nada se mantinha de pé no meu campo visual

De olhos obliterados

Eu me atirava

Como quem pula de uma janela, vendada

Como quem se joga de um trampolim

Numa piscina funda e dourada


Toda vez que você chegava perto de mim

Eu me sentia aberta

Como uma orquídea lilás

Como uma planta carnívora

Que espera, doce e molhada

Pela sua presa

Tudo se tornava quente à nossa volta

Derretíamos icebergs distantes

Provocávamos avalanches

As neves de todos os picos, melavam

Aguavam de tanto calor


Toda vez que você chegava perto de mim

Era a música de deus

Que me acordava

Trazendo-me de volta à vida

Preenchendo os meus silêncios com beleza

Os vizinhos acordavam com o nosso som

Acordávamos os dias, como os passarinhos

Chorávamos de rir

Mil faltas, mil excessos

E a nossa sensação de raridade


Por isso, naqueles dias

Depois que você saiu

Jurei que você voltava

Jurei que você voltava

Doceria

20/05/2011

um dia a gente comprou um quindim, e a gente entrou no carro, sempre rindo, sempre felizes, e vc segurou o doce, me oferecendo, e eu meti a boca na superfície translúcida, solar, cremosa. E depois foi a sua boca junto comigo no quindim, interceptando a tensão superficial, oportuna derrapagem, cremosidade perfeita.

Afinal, de quem era a boca, de quem era o quindim? Sabe essas coisas?

Pois.

nos esbarramos, mais uma vez na vida, depois de tudo, agora na fila do banheiro.

vc está bêbado, eu estou bêbada. a música está alta. vc diz:

– “vc foi a mulher com quem tudo foi mais de verdade comigo, sem eu precisar mudar nada, e por isso eu acho que vc nem existe.”

sorrio, garbosa. acho que somos especiais, um quase-casal assim, de qualidade interestelar.

(nosso amigo bêbado diz, baixinho, abraçado a nós dois, na fila do banheiro: “vcs vão parar de tentar?” sorrisos, tapinhas, pô, qualé?)

Vc conclui: “mas se vc fosse a minha mulher, será que vc não seria igual a qq mulher?”

O benefício da dúvida, que bênção…

ebony and ivory

06/04/2011

A minha mão parecia a mais branca das brancas quando nossos dedos se entrelaçavam ou quando ele enfiava o rosto na palma da minha mão, que abria cuidadosamente e beijava, demoradamente e com devoção, olhos fechados, como quem beija o centro de tudo. A pele dele era preta, sem metáforas. No dedo anelar direito, ele tinha uma aliança fina, lisa, e uma larga, desenhada. Prata. A minha tinha sóis e luas, no dedão da mão direita. O braço era magro e rijo, glabro, suave ao toque, pétala de flor. A luz artificial fazia o negro do rosto brilhar em tom de cobre escuro, de cobre no tempo. De que reino distante terá vindo essa turmalina? (Nasci na Rocinha, moro no Estácio)  Se alguém quer matar-me de amor que me mate na Lapa. O nariz de aba larga, olhos amendoados, firmes e pequenos. Lábios cor de açaí, fartos, contornados a mão, irrigados, viçosos, dizendo: beijo. Sabia que a correnteza daquele rio ia envolver o que encontrasse pela frente. Línguas, lábios carnudos, lábios molhados, lábios quentes, dentes. A cabeça a zonzear: socorro, vou mergulhar. “Adoro seus olhos, sua luz de dentro, deixa eu te beijar”, vc pediu, me olhando nos olhos e segurando minha mão. “Me beija, me beija por favor”, vc pediu. E aí vc deu um gole no gengibre e aí a sua boca minha boca sua língua minha língua. Tudo. Seguiram-se explosões subatômicas, fumo, vinho, ópio, flautas de pã, fogueiras para o Gamo-Rei, cantos de sereia. Miscigenação. Sua boca feita pra minha feita pra sua. Tenho medo de deixar vc me tocar mais longe e mais fundo. Posso desfalecer com a pressão exata dos dedos, com os segredos ditos no ouvido e, acima de tudo, com o carinho extremo no trato, afeto tesão quentura e ritmo. “Seu beijo é aurora boreal”, vc sussurra num rap que improvisa pra mim. Por um instante, ocupamos o mesmo lugar no espaço. Nos beijamos de mãos dadas, solenes e castos, olhamos dentro dos olhos, calamos. “A luz da sua retina me ilumina”, você versa. O beijo esquenta, a pulsação muda, o gemido escapa: vc pra mim. A manhã grita, ruidosa, os ônibus cheios guinchando os freios na Lapa. Nós orbitando, distantes dali, as estrelas de primeira grandeza daquela constelação, café sem açúcar, pão na chapa. Brilhávamos, incandescidos pela química das misturas. Aqui agora tudo. Agora que nos tocamos, estamos condenados. Trocamos as alianças. Na secretária eletrônica: “Seu beijo é aurora boreal. Volta, mulher, volta pra mim”.

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