insulto ao comum

04/08/2015

desde muito nova, quando comecei a me deparar com as dificuldades da carreira (e o que sabia eu sobre dificuldades?), eu já achava a coisa mais feia do mundo ser músico ressentido, reclamão, gênio incompreendido. sempre achei que quem escolhe não pode reclamar do que escolheu.

tem muito músico que confunde arte com milagre e se acha melhor que os outros porque tem o dom da música. sempre fiz questão de deixar claro que não acho isso, que acho que todos temos um dom e que o mundo precisa de todos. o que seria do mundo sem pontes, sem dentistas, sem pintores de parede, sem cozinheiros? a diversidade colore o mundo, tem gosto pra tudo.

o outro lado desse engano comum vem justamente do olhar do leigo que acha o músico um deus afortunado, um ser especial a quem foi dado o direito de viver “se divertindo”, de “não trabalhar”, como se trabalho fosse, necessariamente, uma obrigação abominável, destinada somente aos reles plebeus.

a batalha na música é muito diferente do romantismo e da poesia que os leigos vêem, embora inclua romantismo e poesia. mas também inclui abandono, desespero, falta de perspectiva, falta de estímulo, solidão, falta de grana e medo. para cada estrela pop que anda de carrão e ganha milhões, existem centenas de músicos como eu, mortais, que não ganham dinheiro, nem fama, nem reconhecimento público, nunca ou quase nunca.

esperar que o mundo tenha um atenção especial para dar aos artistas me parece um engano. eu acho que a arte tem que pertencer à vida, ao cotidiano, à formação do ser humano, assim como a matemática e a geografia de cada dia. a arte deveria ter esse mesmo privilégio, mas não tem. ninguém ensina música na escola como uma possibilidade de profissão. é sempre um hobby, uma diversão. é assim, nesse viés, que começam as distorções que culminam na crença comum de que todos os músicos são vagabundos e maconheiros e que música não é trabalho. porque ela diverte quem escuta e quem faz.

talvez, nesse padrão capitalista infernal, onde as relações de trabalho servem para tornar o patrão feliz e rico e todos os outros, escravos, escolher e ter prazer no trabalho seja um insulto ao comum. mas não é possível ignorar toda a cadeia produtiva envolvida na música que o mundo inteiro consome o tempo todo. milhares de rádios, de playlists, de canais de música, de CDs, DVDs, shows, festas, bares. tem música até no elevador. e por trás disso tem gente. muita gente.

tá tudo errado nesta sociedade, isso é óbvio. quem nasceu pronto pra se adaptar ao moedor de gente que é esse modelo de relação de trabalho e consumo capitalistas? jogo a toalha, será que é porque sou artista?

tenho quase 30 anos de carreira, cinco discos lançados, e canto nos melhores lugares, com as melhores pessoas. 90% das vezes, trabalho de graça ou quase. se isso não está errado, me corrija. ou será que vou passar o resto da vida pagando pelo pecado de fazer aquilo que nasci pra fazer, que me dá prazer, sim, que me faz feliz, sim e que faz muita gente feliz, sim?

hoje, aos quase 30 anos de carreira estou, enfim, reclamando. me sinto incompreendida, abandonada, estou ressentida e com muita raiva. hoje, pela primeira vez, um post vai ao ar sem imagem. hoje não quero beleza nenhuma.

abre alas

04/05/2013

Peço licençaê, meu pessoalzinho, cariocas e selvagens de todas as tribos: quero passar.

Na minha casa se ouvia Românticos de Cuba, Metais em brasa, Burt Bacharach, Chico Buarque, Bethânia e Barbra Streisand. E Domenico Modugno. Rock progressivo, tb. Ipanemense de raiz que sou, não nasci no samba, não posso negar. mas quem, como eu, viu o Simpatia sair, nos anos 80, despejando uma onda de alegria pelo bairro, foi atrás e não voltou mais. Aqui no meu quintal, com sua licença, às vezes até se jonga. E tocamos música instrumental, Cole Porter e Coltrane.  Além do Fundo, do Caetano e do Djavan, Bill Evans é deus. Assim como Bach, Chopin e Erik Satie*, que fizeram uma música que não se vai mais fazer. Desbravadores, como Miles Davis e Ella. Como Pixinguinha, Villa Lobos, Zé Keti e Garoto, como Tom Jobim. Nunca mais.

Mas o pessoal aí do samba vai ter que me perdoar, pq eu adolesci na Era Disco. Saturday night fever, Earth Wind and Fire, Whitney Houston, Sly and family Stone. E até Olivia Newton John, perdoai! Mas, qdo subo no salto e ataco de diva, com perdão da má palavra, estou dando vez ao morro e, por dentro, descalço os pés, pra me ajoelhar no meu altar. e qdo confesso que o samba é o melhor lugar, sei que dentro de mim mora um groove, e não consigo fazer ele parar de dançar.

é por isso, meu povo do bom jazz, q eu vou pedindo licença e passando, encantada com Erika Baduh, como quem vê a Portela passar. o tantan sapeca num pagode, e lá vou eu, sambando no pé pelo chão de cimento. paro pra admirar o bandolim do Hamilton de Holanda, me deleitar com o violão do Sergio Santos, me encantar com as músicas do Pauleira, e levitar com o sopro do Gabriel Grossi.

aos meus compadres e parceiros, meus irmãozinhos e cumadis, preciso revelar um segredo: adoro um piano que toca quase em silêncio, com uma bateria tocada às vassourinhas, um baixo acústico, e uma melodia sinuosa e bela, pra deitar os cabelos. o jazz me acomoda o coração e faz com que eu me cale, como que pra me educar, me fazer escutar, usar os ouvidos de ouvir.  tb adoro música sem palavras. Mas as letras da MPB são as mais lindas das lindas, com todos os seus poemas que desafiam melodias, e os batuques febris de todas as Áfricas, daqui e de lá. o mundo inteiro é uma louca nação de índios e de pretos, cheia de música de todos os tipos, por que preciso escolher só uma?

abram alas: quero passar com a minha música, entrópica, viralata, mestiça como eu.

*(o nome deste blog é uma homenagem a ele, que tem uma peça chamada “Avant-dernières pensées, ou penúltimos pensamentos)

Respeitável público,

Descobri que ganhar dois minutos do dia de uma pessoa é a coisa mais difícil do mundo! Mas vcs, que já gastaram muitos minutos comigo, são diferentes. Então eu queria pedir pra vcs assistirem a esse video aqui, que demora só um cadinho mais que dois minutos:

A realidade é a seguinte: preciso de ajuda para levantar fundos pra lançar o meu CD Jamba, do qual vcs tanto já leram por aqui. O custo é altíssimo, mesmo pra fazer a mais simples das produções. Precisamos de R$!5,900. Tirando taxas e custo, sobram R$10 mil pra nós, pra pagarmos tudo o que precisamos, de equipe a material de divulgação. Juro que essa grana só dá pra saída.

Até agora, mais de 100 pessoas 

já colaboraram. Já atingimos mais de 50% do total, estamos otimistas e felizes com tantos colaboradores e repetidores, amigos que compartilham, arrecadam, torcem e botam fé. Só falta você para chegarmos a 100%. Temos apenas 15 dias pela frente até o fim do prazo, e o show está marcado para o dia 25 de maio, na Sala Baden Powell, Copacabana.
Para colaborar, basta você participar da nossa vaquinha virtual. Você entra neste link http://catarse.me/pt/jamba escolhe a quantia que quer dar e vê o que você vai receber em retribuição à sua ajuda. São CDs, ingressos para o show e outras coisas legais. Todos os valores são recompensados.
Qualquer quantia, a partir de R$10,00 é bem vinda e indispensável pra nós. No site, explicamos como funciona e como vamos empregar o dinheiro. A coisa toda é feita para ser fácil, mas se você preferir, pode me escrever para que eu possa tirar suas dúvidas.
Aqui tem duas críticas sobre o meu trabalho, pra provar que não é só a mamãe que gosta 😉
Crítica de Antonio Carlos Miguel, n’O Globo online http://g1.globo.com/musica/antonio-carlos-miguel/platb/2013/02/28/querido-diario/
Crítica de Beto Feitosa para o CD Jamba – http://www2.uol.com.br/ziriguidum/1302/130221-01.htm
O meu canto é uma missão, tem força de oração E eu cumpro o meu dever Há os que vivem a chorar Eu vivo pra cantar e canto para viver Há os que vivem a chorar Eu vivo pra cantar e canto para viver 
obrigada, queridos, muitos beijos com amor,

pedido

23/02/2013

é sabado e eu acordo tarde, como sempre, mas sem despertador. passando por uma fase de resguardo e descanso, sem festas, sem drogas, sem roquenrol, me sinto leve ao acordar, longe do insensato mundo, distante de tudo. mas basta colocar uma música pra tocar e as lágrimas descem, como se eu tivesse uma tristeza profunda guardada. não sei que choro é esse, de onde ele vem, mas vejo fotografias de gente querida e choro, ouço músicas lindas e choro. choro por absolutamente tudo. as demandas brotam, aos jatos. na minha lista de desejos tem tanta coisa, de sapato novo a sucesso internacional, que direito tenho eu de querer ainda mais? quero viabilizar minha vida, minha carreira, quero que meu disco cumpra um lindo destino. que, além de levar minha música pro mundo, ainda seja um sucesso, querido, comentado, elogiado, multiplicado. quero que ele fale por mim. quero encontrar forças que perdi, quero que meu empenho não arrefeça, que minha determinação se sustente sobre todas as coisas, sobre todas as intempéries que conheço de perto, mesmo dentro do turbilhão inimaginável em que me encontro, com muito mais problemas do que sou capaz de resolver. quero me sentir bem comigo mesma outra vez, quero que minha força de vontade seja dominante e mandatória, quero me livrar de todo mal, amém. peço e nem sei pra quem pedir. onde está aquele grande pai que nos ouve e atende? deus? o universo, o cosmos?  Na dúvida, peço pros amigos espirituais, pra mamãe Oxum, pra Xangô, pra Santa Teresinha, pro anjo da guarda. Não acredito em nada, mas não posso me dar ao luxo de desacreditar. Quem é ateu e viu milagres como eu… Mas hj, assim, chorosa, com doze trabalhos de Hércules pra realizar, com zero recursos e nada nas mãos, ainda penso cá comigo: é ousado demais querer ainda mais, é pedir demais querer um namorado que goste de mim como eu sou? pra quem eu seja suficiente, sem tirar nem pôr?

autoajuda

15/09/2012

gosto mesmo qdo falam: “seu sucesso só depende de vc!” E aí a gente fica andando pela vida, carregando aquela culpa master, por ser um incompetente absoluto, por não saber encontrar o sucesso, por não saber galgar os degraus da fama e por não chegar nunca “lá”. Embora trabalhe com as forças do mundo real, com afinco, tendo resultados humanos. Esse resultado mágico, só no imaginário de quem tem a imagem distorcida da realidade. Realidade dói e tem momentos de prazer e fúria. Desconheço esse Olimpo dos deslumbrados com a magia, que promete a mais fácil das saídas: pense e obterá tudo o que desejar. Desejar é fácil, quero ver meter a mão na massa real.

Tenho uma vergonha alheia terrível qdo as madames enchem a boca pra falar de física quântica, uma matéria super específica e escabrosa, para cabeças altamente treinadas. Elas leram as leis do sucesso de Depak e se sentem, assim, as cientistas da autoajuda. Citam física como quem cita a profundidade de Paulo Coelho: boca cheia, cabeça vazia. E os físicos, tadinhos, fora aqueles que trabalharam para o pessoal d’O Segredo e do Quem somos nós, o que será que eles têm a dizer sobre a física aplicada ao eso(his)terismo de madame?

Eu faço música de autoajuda. Meu procedimento quântico é no palco, cantando, desopilando da vida bandida e movimentando nanoesferas de energia boa, oferecendo beleza para quem escuta, diversão pra quem precisa e alívio para as dores do mundo, especialmente as minhas. Essa circulação é pura física, é pura química, é pura biologia. “Lá” pra mim, é o palco. Lá eu chego bem relax.

vida real

24/03/2012

Caro leitor,

Vc sabia que eu sou cantora? Uma profissão da qual muito me orgulho. Mas confesso que adorei quando uma leitora do blog apareceu num show dizendo que era fã dos meus textos e qdo soube que eu cantava, foi conferir. Em geral não misturo as estações, pq não quero usar este blog como mais um canal de divulgação. Mas vou fazer isso, só por hoje.

Pois então, aqui vai o link para uma página, no Soundcloud, onde é possível ouvir músicas de todas as fases da minha carreira. Está tudo organizado em três sets:  Jazz, MPB e Samba; Black, soul, funk; e O Amor de uns tempos pra cá, com as músicas do meu disco em duo com o Nabuco, de 2007.

Fiquem à vontade para ouvir e comentar! As músicas de minha autoria podem ser baixadas, as outras vc pode ouvir online. Não tem que se inscrever, não tem que preencher, nem pagar nada, é só clicar na setinha laranja do play e pronto! Se gostarem, compartilhem com os amigos. A melhor divulgação de um artista é o boca-a-boca.

Estou finalizando meu novo CD solo, Jamba, que está lindo de morrer e sai, em breve, pela Mills Records , com arte de outra colega de blog:  Beá Meira.  Estou ansiosa para mostrar pra todo mundo! Enquanto isso, continuo no Triboz  sempre no primeiro sábado do mês, cantando músicas lindas.

Clique aqui pra ouvir.

Essa aí sou eu. um beijo, daqui, do mundo real

my way

11/03/2011

atolada com a produção/divulgação/administração/social do festival do convite aí de baixo, ensaio pro meu show no festival, escolha de repertório pro disco solo, revisão de texto de um livro pra entregar ontem meio-dia, apuração pra duas matérias giga pra veja, seleção de repertório e banda pra um show off-topic, homenageando o ronaldo bastos, um livro só meu em construção, dieta eterna, malhação obrigatória, familia e amigos pra dar conta.

e eu sonhando com uma longa viagem de carro, por paragens distantes cujo nome nem sei.

out

10/03/2011

são tantos empreendimentos…

acordo famosa, foto no jornal, mil emails, telefonemas, twits, facebooks, orkuts. Brincar disso é uma delícia quando a gente é artista e passa a vida entrando e saindo do lugar ao sol. Aparecer dá a ilusão do esperado reconhecimento. Fofíssimas, as pessoas escrevem: Vc merece!

A arte  não é um trabalho comum. As intempéries mudam as coisas de uma hora para outra. Público não é cliente, a lógica é outra. Os intermediários do marketing, que deveriam estar pensando em como transformar público em cliente, não trabalham nem investem em artista “alternativo”. Estão todos pensando em como fazer a Maria Gadu aparecer ainda mais. Portanto, sistematizar esse fazer “alternativo” ao ponto de esperar que a arte supra necessidades financeiras, no Brasil, tem se tornado a pedra no sapato de muitos músicos que têm se visto obrigados a diversificar os negócios, por pura falta de dinheiro circulando no meio. E de lugares para as pessoas irem pagar para nos ver. Nesse ponto, a  internet ainda não serve para nada além de divulgar os trabalhos, indiscriminadamente, lotar as caixas postais de eflyers e links e fazer o artista entrar na lista de spammers do freguês. E fazer com que ninguém mais queira comprar música.

Aparecer assim no jornal dá, ao público leigo, a falsa impressão de que se “chegou lá”. Artista que sou, adoro (mereço) esse afago, me permito aproveitar o doce sabor da fama pelos 15 ou 20 minutos que ela se dá para mim, vez por outra. Embora cantar não tenha nada a ver com nada disso, mas com um sopro interno, uma centelha que se acende e vai turbinando o dínamo por dentro, movimento retilíneo ascendente infinito. Magnetismo, eletricidade e endorfina. Cantar é a droga mais poderosa que já experimentei.

um amigo me liga: “déda, sonhei que vc tava no palco do Canecão, que tava lotado de gente te aplaudindo de pé, e de repente, o Gilberto Gil entrava no palco pra te abraçar, tipo te dando mó moral…”

outro me fala: “…durou só uns segundos, mas eu sei, tenho certeza de que sonhei com vc no palco de um teatro em Paris, cantando ao lado do Dizzy Gillespie. Na platéia, ao meu lado, Cole Porter dizia, em bom portuglês arrastado: “Essa mulherrr canta para carálio…”

Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…

eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar

Esse é o João Pinheiro. Ele também é cantor, mas sonha pra mim...

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