pedido

23/02/2013

é sabado e eu acordo tarde, como sempre, mas sem despertador. passando por uma fase de resguardo e descanso, sem festas, sem drogas, sem roquenrol, me sinto leve ao acordar, longe do insensato mundo, distante de tudo. mas basta colocar uma música pra tocar e as lágrimas descem, como se eu tivesse uma tristeza profunda guardada. não sei que choro é esse, de onde ele vem, mas vejo fotografias de gente querida e choro, ouço músicas lindas e choro. choro por absolutamente tudo. as demandas brotam, aos jatos. na minha lista de desejos tem tanta coisa, de sapato novo a sucesso internacional, que direito tenho eu de querer ainda mais? quero viabilizar minha vida, minha carreira, quero que meu disco cumpra um lindo destino. que, além de levar minha música pro mundo, ainda seja um sucesso, querido, comentado, elogiado, multiplicado. quero que ele fale por mim. quero encontrar forças que perdi, quero que meu empenho não arrefeça, que minha determinação se sustente sobre todas as coisas, sobre todas as intempéries que conheço de perto, mesmo dentro do turbilhão inimaginável em que me encontro, com muito mais problemas do que sou capaz de resolver. quero me sentir bem comigo mesma outra vez, quero que minha força de vontade seja dominante e mandatória, quero me livrar de todo mal, amém. peço e nem sei pra quem pedir. onde está aquele grande pai que nos ouve e atende? deus? o universo, o cosmos?  Na dúvida, peço pros amigos espirituais, pra mamãe Oxum, pra Xangô, pra Santa Teresinha, pro anjo da guarda. Não acredito em nada, mas não posso me dar ao luxo de desacreditar. Quem é ateu e viu milagres como eu… Mas hj, assim, chorosa, com doze trabalhos de Hércules pra realizar, com zero recursos e nada nas mãos, ainda penso cá comigo: é ousado demais querer ainda mais, é pedir demais querer um namorado que goste de mim como eu sou? pra quem eu seja suficiente, sem tirar nem pôr?

que los hay…

09/05/2012

ela tropeça numa lâmpada, dessas que têm gênio dentro,  e nem vê. tá tão ocupada com a vida, tão assim, sem acreditar em magia, que atropela aquela lâmpada que luzia no meio da rua, meio dia, do nada. lâmpada é o catzu, to com pressa. Sem querer, libertou o gênio.

o gênio, que habita a lâmpada, indignado pelo desprezo, vai atrás dela: “fia, tu tem noção do perigo? to aqui há 10 mil anos, preso nessa garrafinha, esperando o dia em que um pobre mortal desesperado me encontre e me liberte, achando que esse é o dia mais feliz da vida dele, e tu me despreza, assim, passa por cima, nem olha pra trás? isso não tá certo, não! tenho obrigação histórica de servir a quem me acha, sou seu escravo, mesmo sem querer.”

“dá um tempo, gasparzinho, que eu to toda bookada. e tb não acredito em nada disso. o que vc quer? dinheiro não tenho, nem parentes importantes, minha carreira é um fracasso, minha conta bancária está no vermelho há 22 anos e eu não tenho onde cair morta e nem pra onde ir. vaza!”

“vc não tá entendendo, to aqui pra isso, pra resolver sua vida! pede aí, pede qq coisa. o que vc quer? tudo pra já! pede! peeede!”

“sai fora, pluft, me amarrota que eu to passada, e qdo eu me espalho ninguém me junta!”

“pede, faz um pedido, um sonho impossível qq, é só falar, só falar uma palavra! fala, patroa! que que te custa?” o gênio falava, desesperado, enqto corria atrás dela, que nem tchum pro assunto. “…patroinha, é dinheiro, amor, fama, sucesso, casa, saúde, viagem, marido, palácio, jardim, navio, avião?…. fala só a palavra, só pra me testar, me deixa te provar que eu sou seu escrav0 e vc é minha dona, que seu desejo é uma ordem, me libera aí!”

‘”que mané escravo?! E eu não tenho desejos, não tenho tempo pra sonhar, nem acredito em gênios. fá-fé-fi-fó-fui, partiu feroz!”

E assim, ela foi correr atrás das coisas da vida, e o gênio ficou pê da vida, esperando, mais 10 mil anos, por alguém que ainda acredite em magia.

No dia seguinte, qdo parou pra atravessar uma rua, entre um não e outro, ela lembrou do episódio e riu sozinha: “gênio, ahahahah, quem dera…”

testemunho

25/08/2011

por que só existem igrejas para reunir aqueles que se sentem pessoalmente atendidos por deus e socorridos por seus supostos milagres? ou para aqueles que estão na fila do atendimento?

Por que não há uma igreja que reúna aqueles que passaram a vida batalhando, se dedicando, crendo em milagres, rezando, pedindo, meditando, fazendo novenas. acendendo velas, fazendo promessas, acreditando fervorosamente, do fundo do ser, sem jamais serem atendidos por ninguém. Para quem nada aconteceu, nenhum milagre foi realizado e nenhuma graça alcançada. Só o dia-a-dia. Mas quanto mais ferrada, mais a pessoa crê. Crer é a tal da última esperança que morre. E professar o não-crer implica o medo de ser ouvido – e castigado – pelo deus-pai. Na dúvida, né? Vai que o cara era o próximo da fila e foi reclamar logo na hora do atendimento.

Fé insuficiente, dirão. Dedicação insuficiente, dirão. E quem detém o medidor de fé e de dedicação? E quem atribui o respectivo resultado? Ah, é o próprio crente que faz tudo? Então fé = atitude.  Para quem consegue/pode/sabe agir. Pra todos os outros, a reza.

Todas as vezes em que fui ajudada, foi por gente que me ama, a quem sou gratíssima. Todos deste plano humano. “A vida é um dom”, dizem, “não seja ingrata”, mas sei que a vida também pode ser um estorvo interminável, um trabalho de Sísifo. Na maior parte das vezes, mesmo focada e correta, não fui soberana, não pude escolher os resultados do jogo, por melhor que tenha jogado. Jogo insuficiente, dirão.

Não adianta a ilusão do timão. Quem navega é o mar.

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