a rua está pesada. cenhos fechados, olhares duros. defensiva-agressiva bombando. a gentileza morreu. os sorrisos se apagaram. todo mundo defendendo o que acredita ser seu, com unhas e dentes, aos trancos, às cotoveladas.

as pessoas estão tristes pq precisam sair das suas casas pra morar em lugares que não conhecem, pq nao podem mais pagar o que cobram onde sempre moraram. as pessoas estão cabreiras. os ladrões invadem prédios e condomínios e roubam o que bem entendem e saem lépidos e fagueiros, como se nada houvera. as pessoas estão apavoradas com os preços, e trabalham cada vez mais, desesperadamente, só pra poderem continuar vivas, trabalhando cada vez mais, desesperadas pra pagar os preços que alguém atribuiu às coisas.

desculpem, não tenho nenhuma novidade boa pra contar. todas as novidades que chegam a mim, neste país, me fazem me retrair, me recolher, me intimidar, me fechar na minha concha enquanto faço planos de ir morar numa ilha deserta e viver de pesca e frutas. e só.

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ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. Mora na lapa, trabalha na lapa. Pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. Em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. Embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. É a excelência da raça, tentar outras saídas. Meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

0 X 0

07/06/2011

na corrida desta tarde, praia super vazia, areia gelada, cruzo com poucos grupos de meninas e de meninos. Corro devagarzinho, escuto as conversas, palavras-chave. As meninas falam de meninos, claramente, analisando comportamentos. Os meninos falam de futebol.

Entendeu, agora, o porquê do placar vigente?

ebony and ivory

06/04/2011

A minha mão parecia a mais branca das brancas quando nossos dedos se entrelaçavam ou quando ele enfiava o rosto na palma da minha mão, que abria cuidadosamente e beijava, demoradamente e com devoção, olhos fechados, como quem beija o centro de tudo. A pele dele era preta, sem metáforas. No dedo anelar direito, ele tinha uma aliança fina, lisa, e uma larga, desenhada. Prata. A minha tinha sóis e luas, no dedão da mão direita. O braço era magro e rijo, glabro, suave ao toque, pétala de flor. A luz artificial fazia o negro do rosto brilhar em tom de cobre escuro, de cobre no tempo. De que reino distante terá vindo essa turmalina? (Nasci na Rocinha, moro no Estácio)  Se alguém quer matar-me de amor que me mate na Lapa. O nariz de aba larga, olhos amendoados, firmes e pequenos. Lábios cor de açaí, fartos, contornados a mão, irrigados, viçosos, dizendo: beijo. Sabia que a correnteza daquele rio ia envolver o que encontrasse pela frente. Línguas, lábios carnudos, lábios molhados, lábios quentes, dentes. A cabeça a zonzear: socorro, vou mergulhar. “Adoro seus olhos, sua luz de dentro, deixa eu te beijar”, vc pediu, me olhando nos olhos e segurando minha mão. “Me beija, me beija por favor”, vc pediu. E aí vc deu um gole no gengibre e aí a sua boca minha boca sua língua minha língua. Tudo. Seguiram-se explosões subatômicas, fumo, vinho, ópio, flautas de pã, fogueiras para o Gamo-Rei, cantos de sereia. Miscigenação. Sua boca feita pra minha feita pra sua. Tenho medo de deixar vc me tocar mais longe e mais fundo. Posso desfalecer com a pressão exata dos dedos, com os segredos ditos no ouvido e, acima de tudo, com o carinho extremo no trato, afeto tesão quentura e ritmo. “Seu beijo é aurora boreal”, vc sussurra num rap que improvisa pra mim. Por um instante, ocupamos o mesmo lugar no espaço. Nos beijamos de mãos dadas, solenes e castos, olhamos dentro dos olhos, calamos. “A luz da sua retina me ilumina”, você versa. O beijo esquenta, a pulsação muda, o gemido escapa: vc pra mim. A manhã grita, ruidosa, os ônibus cheios guinchando os freios na Lapa. Nós orbitando, distantes dali, as estrelas de primeira grandeza daquela constelação, café sem açúcar, pão na chapa. Brilhávamos, incandescidos pela química das misturas. Aqui agora tudo. Agora que nos tocamos, estamos condenados. Trocamos as alianças. Na secretária eletrônica: “Seu beijo é aurora boreal. Volta, mulher, volta pra mim”.

pesos e medidas

01/03/2011

na academia grudada no meu prédio a música está aos gritos. e os professores vociferam palavras de estimulo: “vamos lá, pessoal, o carnaval taí”.

cruzo na rua com um casal sobre-humano, com roupa de malhação. Ela toda aplicada. Aplique no cabelo, no peito, na unha, na boca, cara pálida de peeling. Ele parecia o minotauro.

vou correr na praia desesperada por resultados, amaldiçoando toda a minha cadeia genética por passar a vida toda correndo atrás desse prejuízo que nasceu comigo, me atormenta e não me larga.  já tem aplique de dna no mercado? to dentro!

lembro de uma mulher que vi na TV e nunca mais esqueci. Carioca, casada com estrangeiro, morando no interior de outro país, longe desse insensato balneário, ela me parecia perfeitamente feliz com sua sandália feiosa e confortável, com seu vestido larguinho, unsexy e confortável, com seus cabelos curtos enbranquecendo confortavelmente. Bem à vontade com suas formas fartas e com as grandes bochechas rosadas, quase infantis. O marido, amarradão. Lá ela era uma mulher. Aqui seria apenas uma baranga.

Aturdida por tantos pesos e medidas, cruzo com um menino de uns 14 anos, todo arrumadinho, perfumadinho, bermuda impecavelmente branca, puxando de uma perna, como se tivesse tido pólio (inda existe?). Acompanho o esforço que ele faz pra atravessar a rua com dignidade, mesmo com aquele balanço claudicante semi-cômico. Sinto uma dor asfixiante como se, de uma vez só, eu sentisse toda a rejeição, toda a repulsa de que ele é alvo, toda revolta secreta que ele vai sentir na vida por não entender porque isso aconteceu justo com ele. Sinto um amor profundo cujo nome não sei. E lá vou eu, chorando pela rua, com meu passo firme, minhas pernas perfeitas e meus probleminhas.

cores do Rio

24/01/2011

O Rio de Janeiro tem praia de branco e de preto. A praia no eixo Leblon-Arpoador me parece assim: branca em toda a extensão do Leblon, mas ali perto do posto 12 e, de novo, no finzinho do Leblon, há uma turma de pretos. No Jardim de Alah, dos dois lados, a praia é dos pretos. Pausa para a Anibal, a Garcia e o território dos gringos, que tem de tudo. O coqueirão, seguido pelo Posto 9,  mistura um pouco de tudo, peronomucho. Parece que mistura, mas não mistura, sabe como é?

Pausa para as tatuagens. Outro dia, juro que li nas costas de um cara, de ombro a ombro, a frase “há malas que vão para Belém”. Há tb o hábito de tatuar nomes de filhos nos antebraços, nome do amor no cóccix  e sobrenomes nas costas, além de carregar nos tribais proto-polinésios e nos  ideogramas japoneses e nos caracteres árabes, all over.  Moças tatuam a nuca. Rapazes, os braços.

Mais à frente vem a praia gay, mais ou menos até ali depois da Teixeira de Melo, bem parecida com a frequencia da praia dos gringos. Antes da ponta do Arpoador tem a praia da moda. Muita gente dia e noite na praia, tomando champagne, descontraidamente. Vai chegando o Arpoador, vai empretecendo. O Arpoador é a praia mais preta do Rio, parece até que eu estou na Bahia. Branco destoa.

Claro que tudo isso tem a ver com a geografia social desses bairros e blá blá, mas nao to fazendo analise sociológica, to fazendo análise cromática. Estamos em plenas férias escolares, verão escaldante, a praia no auge da ocupação e lotação. O Rio de Janeiro está em sua máxima potência.

Em toda a extensão da praia, pretos e pretas trabalham atendendo às múltiplas clientelas. Desde que o samba é samba é assim.

toda ouvidos 4

13/02/2010

eu me alongando pra caminhar. ela lavando o pé na duchinha improvisada pelo barraqueiro, na praia do leblon, altura da josé linhares.

ela falava no celular, sotaque de gaúchíssima:  “comprei meu ingresso pra marquês de sapucaí, segunda é meu dia, vou comprar uma flor pra botar no cabelo e vou me atirar quando a televisão passar, pode ficar vendo daí! Ontem fomos jantar numa pizzaria em Ipanema, o bairro gay daqui. Menina, vc tinha que ver, é uma judiaria, tanto homem lindo! Um viadeiro! Mas a pizza é ótima!”

os camisetas-pretas

16/12/2009

Eles estão por toda parte. em todas as cidades do mundo, ocidente e oriente.  Eles usam camisetas pretas. Às vezes tem uma coisa escrita, tipo Motorhead, mas pode não ter. Pode ter manga curta ou comprida, mas sem manga, tipo regata ou mamãe-to-forte, mesmo preta, perde a qualificação. Eles usam black jeans, ou jeans, all star ou botas pretas, coturnos, boots e tênis. Podem usar correntes como adereços, chaveiros ou colares, brincos e piercings e tattoos, mas não necessariamente.Não confundir com góticos.  Não confundir com emos. Eles são os camisetas-pretas.

Em geral, um camiseta-preta fuma muito, bebe muito e nunca pega sol. Namora, sempre outro espécime camiseta-preta. Os homens frequentemente têm cabelos longos e são tímidos. Comem junk food. E acham o mundo todo uma bobagem.

dia desses cruzei com dois camisetas no meio da rua, paramos para atravessar um sinal, em Copacabana, eles à pé, eu de bike. Um virou-se pro outro e disse, no melhor estilo camiseta-preta: “não to feliz, mas to calmo”

toda ouvidos 3

17/10/2009

tem um morador de rua clássico aqui no Leblon. Jovem, altíssimo, magérrimo, muito sujo, sempre sentado na calçada da rua principal do bairro, a Ataulfo. Ele nao sorri de volta, nao reconhece vc, mesmo que vc o veja todo dia e q dê grana, comida, cumprimente. Ele olha através da gente.

Pessoas passavam pra lá e pra cá, na frente do Balada Sucos, completamente alheias à presença dele, sentado no meio da calçada. No meio fio, dois pombos pombeavam.

Quando eu passava do lado dele, escutei ele dizer pra ele mesmo: “É isso aí… cada pombo no seu ninho….”

nem que eu caminhasse até o leblon não iria encontrar

vida dura

06/10/2009

um morador de rua entrou na Sendas do Leblon, entrou na fila do caixa, pediu um maço de cigarros e pagou. A moça do caixa deu o troco pra ele.

“E a nota?” – Ele perguntou?

“Quer nota de cigarro?” – Ela desdenhou

“É, os segurança tá tudo de olho em mim, vão me ver saindo com cigarro,  já viu…” – encerrou.

It could be worse. It could be raining…

tijolo por tijolo num desenho lógico

toda ouvidos

25/09/2009

Escutei essa conversa:

“…Se eu não tiver trabalho como fotógrafo, viro designer, se não for designer, viro ilustrador, se não rolar nada disso, viro viadeiro, pedreiro, bombeiro. Não tem essa de profissão, a vida é a minha profissão…”

(while my eyes go looking for flying saucers in the sky)

além do horizonte existe um lugar

povo da praia

06/04/2009

outro dia passou por mim um mendigo, muitas roupas superpostas que ficariam lindas na passarela do Fashion Rio. Paramos pra esperar o sinal fechar. Eu, de bicicleta, ia a uma reunião em Copacabana. Ele indo pra praia, provavelmente catar as latinhas que recolhia num sacão de lixo preto. O cabelo desgrenhadérrimo. Os pés, descalços.

Parou do meu lado, simpático: “Copacabana está em guerra hoje. Mais uma vez”. “Pois é…” tive que concordar porque, de fato, Copacabana amanhecera novamente debaixo de tiros.  “Ainda bem que eu vim pro Leblon de helicóptero”, disse ele, despedindo-se com um aceno, um sorriso aberto, postura altiva e altaneira, rumo à areia da praia.

E eu, que morro de medo de helicóptero, montei na minha bicicletinha e pedalei rumo à guerra de Copacabana.

é como uma música parada sobre uma montanha em movimento

é como uma música parada sobre uma montanha em movimento

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