Havia, na Gonçalves Dias, uma pequena loja de ouro baixo, onde vendiam cordões de todas as espessuras, e medalhas de santos, de todas as Nossas Senhoras, de anjos protetores, crucifixos e, claro, imagens de São Jorge em medalhinhas, medalhonas, chaveiros, isqueiros de prata e anéis.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil e almoçava por ali. Toda vez que eu passava pela vitrine da loja, eu paquerava um anel de prata simples, com um ônix oval, onde um São Jorge bem singelo pousava delicado, apontando sua lança ao alto e avante. Quando a grana saiu, comprei o anel. Cabia certinho em meu dedo fino, aro 18.

Eu não tirava o anel nem pra dormir. Minha sobrinha tinha lá uns três aninhos, hiper falante e articulada. Ela sempre pedia pra brincar com meus anéis e perguntava: “que isso?”, apontando pro São Jorge do anel. Eu dizia que ele era chamado de santo porque tinha lutado contra um dragão e tinha vencido a luta e por isso ele era tão admirado, porque, como ela bem sabia, derrotar um dragão é uma coisa muito difícil. Argumento totalmente convincente para ela, familiarizada com criaturas fantásticas misturadas nos dias comuns.

Um dia, lavando a mão, percebo horrorizada que o São Jorge não estava mais lá, restando a pedra lisa, lisinha. A silhueta de prata do santo guerreiro tinha sido apenas colada na pedra, e não engastada, como imaginei. Caiu, prendeu em alguma coisa, descolou e eu nem vi. Triste, tristíssima, continuei usando o anel, a pedra lisa, lisinha.

Minha sobrinha, batendo aquele papinho antes de dormir, brincando com os meus anéis, como de costume, se assustou: “Cadê o São Jorge!?” E eu, como ela, sempre muito mais à vontade no mundo da fantasia que no real, respondi, de improviso: “São Jorge soube que tinha um dragão à solta, e falou pro cavalo dele: ‘ah, eu é que não vou ficar preso em anel com esse dragão solto por aí. Vou me mandar daqui!’ E pulou da pedra do anel com seu cavalo branco, caiu no mundo, atrás do dragão, e nunca mais voltou!”

A menina ouviu tudo de olhos sorridentes e arregalados. Provavelmente achando aquilo tudo magicamente plausível. Eu também acho, ainda hoje, quando sinto, na lida das horas, uma força, uma espécie de São Jorge vencendo dragões dentro de mim.

 

Jorge sentou praça na cavalaria e eu estou feliz porque eu tb sou da sua cia

 

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domingo

21/09/2014

Haverá um domingo chuvoso como hoje, em algum momento de um futuro remoto, sobre o qual nem consigo pensar (choro, mesmo suprimindo o pensamento à força), em que me faltará a mãe. E tb o pai. E alguns dos meus amigos mais queridos, que já começaram a partir, devagarzinho, cada um por seu motivo. Uns abandonaram o barco, outros desembarcaram voluntariamente, outros naufragaram. Nós outros continuamos remando, tentando emplacar a nossa grande viagem de circunavegação, nossa travessia da grande água, desbravando o desconhecido ultramar em busca da especiaria que nos falta, o sal da vida, aquilo que dá sentido ao insensato, que dá gosto ao insípido, que colore o incolor, que perfuma o inodoro. Quando a gente nasce, a gente ganha um pote vazio e sem fundo, onde se pode colocar qualquer coisa, de qualquer natureza e matiz. Neste momento, inventario o meu pote. Estará ele cheio do que me é mais caro? Perdi tempo colhendo o que não desejo, por descuido ou capricho, ou doença ou ignorância? Quando estarei, enfim, treinada para escolher a dedo aquilo que importa, nesse exercício permanente de aprender a filtrar e peneirar, selecionar e rejeitar, apontar e desapontar? para, então, desfrutar plenamente dessa dádiva em toda sua transitoriedade? Meus sentimentos confusos encobrem a razão e estou, agora, com seis anos de idade, perdida na praia cheia, sem saber pra que lado caminhar. 2014-08-22 17.26.27

my favourite things

23/12/2011

contemplando a afirmação peremptória e prazerosa de uma menina de 10 anos:

“agora eu já sei qual é o meu segundo queijo favorito!”

falou isso com a felicidade de quem encaixa mais uma peça num grande quebra-cabeça.

infância

29/11/2010

essa calçada é  minha. Posso andar de skate, sozinha, mas só se eu jurar que não vou atravessar a rua. Tá, eu juro. A minha mãe fica no bar da esquina tomando cerveja com os amigos. Ela adora que eu fique muito tempo andando de skate e eu adoro que ela fique muito tempo tomando cerveja com os amigos. Quando já tá ficando tarde, ela fala: “vamos ficar mais um pouquinho?” êba

Eu posso andar sozinha de skate sem atravessar a rua, mas só nesse lado do quarteirão. É bom ir quase até a outra esquina, porque a rua é meio descidinha, e aí eu pego impulso, e quando chego na esquina do bar onde minha mãe tá tomando cerveja com os amigos, eu pulo do skate e ela berra: “cuidado, menina!” “Tá” eu respondo pegando o skate correndo e subindo a rua com ele debaixo do braço. É um pouco longe e às vezes dá medo de ir sozinha, mas nao faz mal, porque é irado quando eu pego impulso lá na esquina e venho zunindo até o bar com um frio na barriga.

Na frente do edifício azul tem uma parte da calçada que dá um salto, tipo um degrau redondo, e eu pego impulso e pulo antes do skate cair no buraco e já saio na frente da portaria de grade verde. Maneiro é quando eu to sozinha, porque senão eu  toda hora tenho que emprestar o skate e não to a fim.

to torcendo pra minha mae tomar mais uma cerveja, aí ela demora mais ainda, compra um sorvete, uma coca, uma  bala e eu vou ficando. Às vezes a gente fica até de noite, é irado. E aí quando eu ando de skate de noite é mais maneiro, porque a rua é só minha mesmo e eu saio voando pela pista, meu tênis de lantejoula rosa brilha e eu voando, voando, voando, voando, voando. Irado.

Quando era bem novinha, na vida passada em que fui bailarina, eu dei muita aula de balé, pra baby class e adultos. Dei aula até de dança afro, que estranhamente psicodancei pra substituir a Dil Costa, minha professora interrompida por uma intempérie da vida.

Alongamento, alongamento em dupla, clássico, jazz e sapateado, minha especialidade!  Eu dançava super bem, tinha inteligência corporal, fluidez. Mas a vida toda no eterno engorda-emagrece-engorda, apesar de toda inútil neurolinguística, percebi que não tinha physique du rôle para o mercado da dança, que acabei abandonando, embora ainda ame dançar. E também, reparei que eu era uma má professora, burocrática, sem saco.

Como morei na Inglaterra, também dei aulas de inglês. Odiava com toda paixão.  Acho que os alunos também, porque eles, assim como os clientes da funerária, nunca voltaram. Depois que estudei música, fiz uma super formação para professores, na Pró-Arte, excelente para quem tem… talento para dar aula. Dei aula de musicalização em colégio, em pré-escola e até em creche. Toquei violão para bebês, no berçário. Metade chorava de medo, o resto, dormia. Precisada de ganhar a vida e pagar as contas, eu acordava aos prantos, na hora de ir pra creche, como se fosse enfrentar leões famintos. “Mas são apenas bebês!!!” – dizia meu ex, ao me ver acordar em pânico total, no dia de dar aula pras crianças que engatinhavam em volta de mim, no piso fofinho da creche. Tinha verdadeiro terror das crianças maiores, embora eu me entenda bem com crianças, em geral. Eu fantasiava que a diretora da escola ia entrar na sala, acompanhada de guardas, e gritar: “Prendam essa impostora!”

Resolvi dar aulas particulares. Nada como adultos escolhedores e interessados. Qual o quê! Meus alunos pagavam adiantado e sumiam! Eu era escalada pra bater papo, pra ouvir confidências, pra sair pra beber, até pra festa de seres andróginos eu fui convidada. Mas aula que é bom, nada! 

Em verdade, em verdade vos digo: odeio dar aula e sou péssima professora. Menor saco, menor entusiasmo. Recentemente, quando eu disse que não dou aula (de canto), ouvi: “Ah, é, sua egoísta? Quer o que sabe só pra si, né?” Fiquei bolada. Na tentativa de ressignificar conceitos, arrisquei novamente. Quem sabe, num novo momento? Água! A aluna sumiu depois da segunda aula. E eu encerrei esse capítulo da minha história, definitivamente. E é por isso que a alternativa nº1 de quem trabalha com música não é uma alternativa pra mim. Aí eu fui cozinhar. Mas isso já é outra história…

my little pony

19/11/2008

Minha sobrinha única tem sete anos. Não sei se ela é exatamente uma criança indigo, essa coisa estranha de uma safra ultra especial de crianças de aura azul, que passaram a nascer a partir dos anos 80 para salvar o mundo, mas é esperta, observadora e não se deixa domar facilmente.

Pois um dia desses, ao saber que a Marisa Monte estava para ter uma menina, ela comentou: “Se ela acha normal o nome Mano Wladimir, que nome vai botar na filha? My little pony?”

independente da cor da aura, essa menina vai longe…

my little pony

my little pony

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