Ogum iê ou A lida do São Jorge que fugiu do anel

23/04/2015

Havia, na Gonçalves Dias, uma pequena loja de ouro baixo, onde vendiam cordões de todas as espessuras, e medalhas de santos, de todas as Nossas Senhoras, de anjos protetores, crucifixos e, claro, imagens de São Jorge em medalhinhas, medalhonas, chaveiros, isqueiros de prata e anéis.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil e almoçava por ali. Toda vez que eu passava pela vitrine da loja, eu paquerava um anel de prata simples, com um ônix oval, onde um São Jorge bem singelo pousava delicado, apontando sua lança ao alto e avante. Quando a grana saiu, comprei o anel. Cabia certinho em meu dedo fino, aro 18.

Eu não tirava o anel nem pra dormir. Minha sobrinha tinha lá uns três aninhos, hiper falante e articulada. Ela sempre pedia pra brincar com meus anéis e perguntava: “que isso?”, apontando pro São Jorge do anel. Eu dizia que ele era chamado de santo porque tinha lutado contra um dragão e tinha vencido a luta e por isso ele era tão admirado, porque, como ela bem sabia, derrotar um dragão é uma coisa muito difícil. Argumento totalmente convincente para ela, familiarizada com criaturas fantásticas misturadas nos dias comuns.

Um dia, lavando a mão, percebo horrorizada que o São Jorge não estava mais lá, restando a pedra lisa, lisinha. A silhueta de prata do santo guerreiro tinha sido apenas colada na pedra, e não engastada, como imaginei. Caiu, prendeu em alguma coisa, descolou e eu nem vi. Triste, tristíssima, continuei usando o anel, a pedra lisa, lisinha.

Minha sobrinha, batendo aquele papinho antes de dormir, brincando com os meus anéis, como de costume, se assustou: “Cadê o São Jorge!?” E eu, como ela, sempre muito mais à vontade no mundo da fantasia que no real, respondi, de improviso: “São Jorge soube que tinha um dragão à solta, e falou pro cavalo dele: ‘ah, eu é que não vou ficar preso em anel com esse dragão solto por aí. Vou me mandar daqui!’ E pulou da pedra do anel com seu cavalo branco, caiu no mundo, atrás do dragão, e nunca mais voltou!”

A menina ouviu tudo de olhos sorridentes e arregalados. Provavelmente achando aquilo tudo magicamente plausível. Eu também acho, ainda hoje, quando sinto, na lida das horas, uma força, uma espécie de São Jorge vencendo dragões dentro de mim.

 

Jorge sentou praça na cavalaria e eu estou feliz porque eu tb sou da sua cia

 

6 Respostas to “Ogum iê ou A lida do São Jorge que fugiu do anel”

  1. Cris Rudgel said

    Q lindo….amo seus escritos…eu, tb acredito em São Jorge sempre combatendo dragões,nem que sejam os meus “dragões”internos…….Salve Jorge!

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  2. Obrigada, Cris! Beijo

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  3. Adorei a história, muito bem contada do anel de São Jorge…. Pequenas aventuras e pequenas delícias da vida são como histórias assim.

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  4. Sim, é esse o bom da vida, as pequenas historinhas de todo dia😉 bem vindo!

    Curtido por 1 pessoa

  5. MARIANA said

    salve o são jorge que tem dentro da gente. sinceramente, nesse mundo, a gente tem que mesmo trazer conosco uma lança diariamente, porque hoje não se come mais o leão aos pedaços, se vence um dragão por sia, que é uma tarefa muito mais árdua! bjo

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  6. Sim, Mariana, de leão a dragão, todo dia uma lida! beijao

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