52

30/06/2016

não quero que o tempo seja um tornado que vem se aproximando, prometendo só arrancar as árvores e os telhados das casas, matar os animais e secar os rios. Não quero que o tempo seja um fardo, um estorvo. Quero viver esse tempo com amor, abraçar essa vida com gosto, suas teias, seus ninhos de passarinhos, seus musgos, suas florações e seus estios. ciclo que me inclui. nunca paro de renascer.

não quero que a realidade seja insuportável, que eu precise viver de olhos fechados pra suportar as coisas como são.  o ocaso de uns, a aurora de outros. quero olhar as coisas como são, de mulher pra mulher. e falar, sim, ok, vou encarar de coração aberto. e vou me esforçar pra achar o lado bom do inevitável. e vou comemorar por estar inteira, de pé e morrendo de rir e de cantar, cercada de tanto verdadeiro amor dos meus amigos e da família.

a idade não será um castigo. envelhecer não será um motivo pra me esconder. amadurecer será mais uma das coisas boas da vida. potência plena ocupada. espaço dinamizado. expansão e visão panorâmica. vejo mais, cobiço mais, quero mais.

vem 52. IMG_6226

Anúncios

tenho uma tia que não vai à praia por causa das varizes, que não quer exibir. A outra tia, morrendo de rir, fala: “na praia do leblon, com aquelas meninas lindas de morrer, vc tem que dar graças a deus se alguém olhar pra sua cara! ainda mais pras suas pernas!” e quá quá quá.

Eu passei a vida brigando com meu peso. sanfona, sanfonérrima, sanfoninha, acho que nunca passei um ano inteiro com o mesmo corpo. estou sempre indo ou vindo. mas hj, gordinha, o sol brilhou depois da chuva no feriadão. e sol, procuro pegar todo dia, pedalando e dando um mergulho-axé no arpoador.

a minha vida não está fácil, mas tb nao está difícil. to inteira, faço o que gosto, tenho boas perspectivas e gente amada em volta. e posso ir à praia, que fica a 3 quadras da minha casa. tá reclamando de quê? da celulite? aham. crianças sendo bombardeadas por aí e vc preocupada com a celulite? herdei aqueles braços gordos da vovó, que odeio fervorosamente. Mas de uns tempos pra cá, dados os fatos da vida, comecei a achar que, independente da aparência, o importante é ter braços. num ímpeto de maturidade e autoestima, resolvo: vou botar uma camiseta, braço de fora, pq quero desfrutar desse sol, me bronzear.  Nuuuuunca usei braços de fora, mas hj vesti minha camisetinha e fui pedalar e pronto! comemorando o dia da consciência, nêga! biquini por baixo, pro santo mergulho no final do percurso, saí de casa me sentindo linda, gostosa, braços de fora, feliz, entre outras coisas, por uma recente conquista de mulher, dessas que te elevam à 20ª potência. subi no meu camelo (gíria do meu tempo pra bicicleta) e fui por aí,  em pleno sol, pista fechada pro feriado passar. gatinhos, adultos, velhinhos, bebês, magrinhos, gordinhos. o rio de janeiro sorrindo para o planeta. e eu.

desfruto de um lindo dia de sol e verão e mar e arpoador. encontro amigos pelo caminho, vou ouvindo músicas lindas, vejo uma roda de capoeira, tiro fotos, vejo o sol se por. mais tarde tenho ensaio. que bom. na volta pra casa, me vejo refletida numa vidraça de portaria.  os braços gordinhos de fora. e feliz, linda e gostosa pra mim mesma.

 

velha senhora

03/04/2012

acho que é da idade. tá bem, esse papo de idade já cansou, to ligada. mas sempre que tento mudar de assunto, como por exemplo, trabalho, vem ela, a idade: “… vc tem que se acostumar, temos que dar lugar a outras gerações”, ouvi, “agora é a vez deles, não tem jeito.”, chapei, “bom mesmo era no nosso tempo”, engoli.

meu tempo é hoje, tentei dizer, mas calei, por falta de firmeza. acho que falta de firmeza não é coisa da idade, que deveria dar firmeza, se não nas pernas, no propósito. calei. mas na verdade, fico aturdida pq não acho nada disso, sofro do Complexo de Peter Pan (ou seria de Wendy ou de Sininho? será que não tem nenhuma personagem feminina que não quer crescer? logo as mulheres, que precisam ficar jovens pra sempre? estranho paradoxo.)*.

(corta)

nas duas últimas semanas morreu um tanto de gente à minha volta, não gente suuuper próxima, mas próxima o suficiente. a mãe de uma amiga, o pai do ex, o Ericson Pires, um amigo das antigas. Ademilde Fonseca não era minha amiga, mas a conheci num momento especial e lamentei a morte dela. Chico Anísio, Millor… todo dia, uma morte. qdo to esquecendo, lá vem outra! o assunto rondando, assombrando, ameaçando: batidas na porta da frente, é o tempo. resisto: não adianta bater, que eu não deixo você entrar.

(corta)

em oposição ao tempo, o agora.

em oposição à morte, a vida.

não!

oposto à morte é o nascimento, diz o poeta.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

 

*já reparou que, nos contos de fada, homens são maduros e as mulheres, eternas meninas? enqto isso, aqui na terra… nem inventaram um feminino pro tal complexo forever young…

claridade

10/12/2011

meu coração está claro. não tenho mais nenhuma preocupação com nada daquilo. tudo se mostra como simplesmente é: a música, a vida, a beleza, as escolhas, os resultados das escolhas. bons resultados. maus resultados. todos bons.

tenho um sonho recorrente, de escadas em espiral, de elevadores pro sem-fim, de vistas de janelas de apartamentos altos, para a paisagem triste dos fundos, das áreas de serviço com roupas penduradas em secadores pensos, e garagens cinzas, e venezianas quebradas, basculantes de vidro crespo, esquadrias de alumínio, ninhos de pombos,  becos e passagens por onde parece impossível penetrar. e eu pra sempre subindo e descendo e achando o poço do elevador e a ultima saída da escada de serviço. pelo porão, pelo telhado, pela emergência. sempre assim, além do limite. me esgueirando, claustrofóbica, rumo à luz e ao ar livre.

de onde estou hoje, sorrindo de mim, aviso aos demônios dos sonhos que não quero mais sonhar com espirais infinitas deceptivas. quero só que me indiquem as boas saídas.

tenho tanta felicidade e conforto que posso, humildemente, simplesmente relaxar e pedir: só mais uma taça de tinto, por favor.

joio e trigo

03/02/2011

Avança, pula uma casa, perde a vez, volta vinte casas, recomeça. E vai aprendendo a jogar. Me sinto amadurecendo, aprendendo a ser eu mesma, diminuindo os filtros, tentando conciliar meu desejo de ser com o que é possível ser, respeitando atavismos, valores básicos, relaxando. Vigilante, mas sem ser tão madrasta, tão sargenta, tão madre-superiora. Tem uma hora em que a gente aprende a ver até onde dá pé e a partir de onde não dá mais. E eu sou rebelde, louca desvairada, sem começo nem fim. Bandida, solta na vida, sob medida.

Brigo muito comigo mesma e quero trégua. Quero relaxar, parar de me sentir perseguida por mim mesma, sempre insatisfeita. Quero acreditar que é possível ser feliz fora do quartel. Conflito é a base do movimento. A vida que tenho me faz gulosa, quero sempre mais, pq sempre acontece de tudo, muito, o tempo todo. Viciei. Fico pensando na brevidade do tempo, na vontade de viver tudo o que há pra viver. Fico pensando que um dia não vou mais me acabar de sambar. É o contrário de aproveitar o tempo perdido. Aproveito pra frente, acumulando pros dias de chuva.

Por um átimo eu me permito, me perdoo, me divirto comigo mesma, me admiro, me desejo e me convido pra dançar, só mais um pouquinho, enqto dura essa breve contradança. Ou esse vento.

 

%d blogueiros gostam disto: