vou de taxi

24/07/2013

eu dou conversa pra todo mundo. faço esse tipo, assim, dada. quando entro num taxi, já dá pra sentir, na hora, se o cara vai ser um bom papo ou um mala. tem uns que nem respondem quando vc dá boa tarde. nesse caso, é melhor nem começar.

mas, em geral, eles são bons de papo e falam mais do que escutam, como fazem os dentistas. aliás, como falam os dentistas! eu ia a um que adorava contar piadas. agora me explica como é que se faz pra rir com a boca escancarada e anestesiada? um drama…

hoje entrei no taxi, vindo de uma gravação, na Barra. a ida demorou meia hora, a gravação, 10 minutos, um jingle pra Caixa, aquele velho “vem pra Caixa você também”, só que reloaded. na volta, neste inverno súbito e glacial, debaixo de chuva, fiz sinal e entrei no primeiro taxi que apareceu. motorista garotão, com pinta de surfista, cheio de palavrão e gíria na fala. começou falando que os jovens da JMJ não estão nem aí pra chuva e frio, já que adolescente acha tudo bom e que quem fica chato quando fica velho, sempre foi chato. em meio a mil teorias do tipo, ele fala:

– “meu enteado é um chato. tem 15 anos e já é velho. nao sai de casa pra nada, vive colado no computador e no video game. não quer nem namorar. moleque tem que ser criado na rua, pra ficar sabendo o que tem no mundo. ele não. ele puxou o pai, que é um chato, um babaca, paradão. o que eu acho é que esses garotos ficam o dia todo jogando game, e é por isso que depois fica tudo gay. quer dizer, alguns ficam, né? em vez de ir pra rua, pra ver mulher e ter vontade de namorar, não. ficam só  no game, só no game. acaba tudo viado”.

sem palavras, deixando o garotão levar a conversa, chegamos ao Leblon, onde salto, pensando: é… vai ser uma longa caminhada…

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turista intencional

12/09/2010

estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!

turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde.  Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.

Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem  na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.

Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com  mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias.  Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.

E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?

Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.

Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias.

viajandona

15/07/2010

uma vez meu namorado brigou comigo pq eu disse que a minha viagem dos sonhos era num carro com tração nas 4 rodas, sem data pra voltar, saindo do Rio em direção a Juazeiro do Norte, cheia de CDs e mapas e provisões, parando em todos os lugares que me dessem curiosidade de conhecer e provar… sozinha. Ele ficou arrasado por não estar incluído nem no banco do carona dos meus sonhos. Ooops, I did it again!

Me habituei a fazer as coisas de que gosto sozinha, pq acho dificilimo coordenar desejos. Em viagem, então… Sempre tão pouco tempo e dinheiro para usufruir dessa fantasia pessoal e intransferível que é viajar. Amo demais viajar, mas depois de ter morado em Londres e Paris (como diz a minha irmã: não tem como dizer isso sem parecer esnobe…) e ter tido a sorte de conhecer algumas grandes e pequenas cidades do mundo, não tenho mais vontade de ir a nenhuma cidade grande. Adoro passar por cidades pequenas, do interior, estradas de terra, sabores exclusivos, assinaturas super individuais.

O campo da Inglaterra, por exemplo, é um amor que guardo com uma pitada de esperança de revival. Estive num lugar de que jamais me esquecerei, Polperro, uma linda vila de pescadores na Cornuália, falésias sobre piscinas naturais que abrigavam pepinos do mar e bichos estranhos. Estive em Devon, uma paixão de countryside, um rio passando na porta de casa, muito frio, lareira, chocolate quente, raposas prateadas e carneiros de chifres em cornucópia retorcida.  Tive lindas vidas passadas, quem sabe do futuro?

Atualmente, meu maior sonho de viagem é cair na estrada com o tal carro 4 X 4 pela Linha Verde, que liga Salvador a Aracaju, com direito a visitar o sertão onde Lampião e Maria Bonita viveram. Quilômetros de praias brancas e  desertas e mar quase sem ondas, peixe frito, água de coco e rede pra deitar ao entardecer. Essa é a viagem que realmente desejo fazer, sobre todas as outras, sobre a Provence, sobre a Toscana, sobre a Grécia, sobre a Andaluzia. Uma fantasia de  Tieta do Agreste, me esvoaçando pelas dunas de Mangue Seco. Um sonho brasileiro, rendado,  entradas e bandeiras…

Qdo eu ainda não conhecia Nova York grudei, com imã, um mapa da cidade na porta da minha geladeira. Loucamente, uns dias depois, recebi um convite pra ir pra lá passear. Con-vi-te! Santa Geladeira! Hoje mesmo vou recortar uma foto do carro com tração nas 4, achar um mapa da Linha Verde, grudar tudo com imã na porta da bendita,  e pedir pra Nossa Senhora da Geladeira me ajudar.

as cores do algarve, no ultramar

o medo da tristeza

17/06/2010

No rádio do taxi toca Overjoyed. Estou tão overwhelmed com tantas intempéries, me sinto impotente, inútil e fraca e queria dar um reboot e mudar de fase. Me sinto pior ainda por isso, covarde e imprestável, pq não me sinto capaz de dar conta de tudo o que devo dar conta e nem é tanto assim, perto do que uns e outros aí passam…  Caio no choro no banco de trás enquanto, do lado de fora, o sol volta a brilhar lindamente, esquentando um pouco do clima glacial que acossa o Leblon e meus ossos, um pouco pela tristeza de tudo, um pouco pela temperatura estranhamente gelada. Me sinto aliviada por não ter colocado filhos nessa roubada. Mesmo que a vida seja uma dádiva blá blá

Preciso lembrar de lembrar de saborear tudo com gosto, minuto a minuto, pq tudo passa correndo e o tempo devora e tritura todas as coisas em volta de nós. E a gente tem que ter felicidade simplesmente por ainda ter algumas coisas inteiras. Pq as coisas quebram e pronto. Depois que quebram, adeus.  Não estou preparada para a vida, acho.

Minha amiga, aparentemente navegando pelas mesmas águas que eu, me pede: “me conta uma coisa bem boa? estou com medo da tristeza”. Tb to, querida, morrendo de medo! E contra tristeza, não há guarda-chuva, já disseram. Mas a gente tem uma faixa bônus: música. Música é a nossa melhor vingança.

Quase páscoa, entro num taxi. No rádio, mulheres conversam sobre como fazer para não perder a forma na Páscoa, como congelar ovos de páscoa e ir descongelando aos poucos, pra que durem o ano todo, mais ou menos até chegar o Natal, dica estranha…

Confesso que  estou cansada. Tanta regra, tantas ordens, tantos do’s & dont’s. Me sinto uma megera indomável, the untamable shrew. Dentro de mim mora um dragão que solta fogo pelas ventas a cada vez que alguém me dá uma ordem, inclusive eu mesma. Sempre chamuscada, vivo  pra amansar o dragão. “Calma-te carinõ!” pra cá, “Calma, Conga!” pra lá… Cansa.

O fato é que eu comentei com o motorista: “… chatice de mundo, tanta regra pra atender, não é mais possível ser feliz! Meu sonho é ouvir um conselho assim: Se for da sua preferência, devore todos os ovos no mesmo dia, um após o outro, sem a menor culpa. Exercite ultrapassar limites e desafie o establishment de vez em quando. Contrarie sua mãe, seu chefe, o padrão estético, seu médico, sua melhor amiga, sua crença e seu deus. A Páscoa é ótima pra isso, só tem uma vez no ano…  Eu quero vida com prazer”.

O motorista virou-se pra me olhar, e disse, enfático: “É isso aí, é isso que eu acho tb! A vida foi feita para ser vivida, para ter prazer. O cara td certinho é um chato, faz tudo que a mamãe aplaude, que o papai se orgulha, que a sociedade acha lindo. Um chato que não admite erros. Nós somos cheios de faltas.”

Vendo que uma loja de sapatos que eu amo estava liquidando, doida para cometer um pequeno excesso, gritei: “Pára aqui, moço! Vou descer!”. E ele: “Mas já? O papo tava tão bom… vou te dar meu telefone pra vc me ligar pra bater papo. Difícil um papo bom assim…”

Pela tangente, respondo: “Ih, eu sou comprometida, não vou pegar seu tel”

E ele, objetivo: “Mas não é pra compromisso, não”

A libertina que abriga um dragão agradou o motorista. Mas, talvez, por obediência ao establishment, sinhá pagou a corrida e saiu sem pegar o tel do cara. Mas que sapato lindo!

 

ontem à noite fui  ao Carioca da Gema ver/ouvir o cantor Roberto Silva, conhecido como o Príncipe do Samba, atualmente com 91 anos e em plena forma física e vocal. Emocionante pensar na quilometragem dele, nas coisas que ele já viveu e viu, nos milhões de shows, de músicas e de gente que ele cruzou. E cantar ainda é o que ele faz, depois de tantos e tantos anos, feliz da vida, soberano como no tempo do rádio. A casa poderia estar muito mais cheia, mas foi uma linda noite em que vários músicos foram prestigiar o mestre. O Carioca da Gema tem dessas coisas por causa do seu dono, o Tiago, que trata o músico com um respeito que eu nunca tinha visto antes, como a mola mestra da casa e da famigerada noite da Lapa.

No Capela, madrugada, mesa de músicos: Sou casado com a música – disse um amigo – ela é a única que eu nunca vou largar. Faço minhas as palavras dele.  Chamei um taxi. Papo vai, papo vem, o motorista me fala que foi felicissimo como crooner, que cantou durante 40 anos. Falou da vida de cantor que tanto amava, saudoso, com a voz embargada: faz tempo, ele disse. Contei do show do Roberto Silva, ele quase chorou. Conhece de cor toda a obra do mestre e disse que teria estacionado o carro para ver o Príncipe cantar, se soubesse.  Ele deve ter lá seus 70 anos, imagino… mulato, magrinho, cabelo pintado e alisado, pulseira de prata…

Falamos em como a vida do músico é linda porque a música (alou: a música, não o mercado musical) não seleciona as pessoas pela sua formação, sua procedência, sua cor, suas posses, sua aparência ou seu conhecimento. O microcosmo da música reúne gente de todo tipo. Não é necessário ser inteligente, e nem mesmo ter bom caráter pra fazer música boa. A música é uma inteligência em si. É um estilo de vida. Ninguém é músico sem querer ou gostar ou só pra sobreviver. Fora aquela meia dúzia de estrelas de primeira grandeza, a grande maioria de nós, os músicos do mundo real, vive mesmo é na dureza, latindo pra economizar cachorro. E não abre.

cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz

e tu? não quer?

01/05/2009

quando eu entrei no taxi , o motorista ligou o rádio e disse:

– tem um monte de cantora boa aí, sendo lançada…

– eu sou uma cantora boa, mas não estou sendo lançada – falei.

– é? não está sendo lançada por quê? não quer?

– é que eu tenho 20 anos de carreira, já tô mais que lançada.

– ah, é? e tu já foi no faustão?

– não, nunca fui.

– e vai dizer que tu não quer ir no faustão?

– não é isso. É que nem todo mundo tem a ver com o faustão. É possível ter uma carreira sem passar pelo faustão, sabe?

– mas vai dizer que tu prefere ficar assim, completamente desconhecida, em vez de ir no faustão? claro que tu quer ir no faustão, pô, o brasil inteiro quer ir no faustão, todo mundo te olhando, tu com aquele padrinhão… tu tem que arrumar um empresário, pra isso que serve empresário.  Se tu ganha, ele vai junto. Aí é que ele trabalha pra tu…

 

rio ♥ são paulo

15/04/2009

liberdade, liberdade abre as asas sobre nós

alguma coisa acontece no meu coração

the mists

restinga da marambaia

eu nao sei se vem de deus o céu ficar azul

céu tão grande é o céu

minha alma canta vejo o rio de janeiro

da janela vejo o corcovado, redentor, que lindo!

aeroporto

há muito tempo nas águas da guanabara, o dragão do mar reapareceu na figura de um bravo feiticeiro a quem a história não esqueceu

mario broder

30/01/2009

eu chamei o  taxi da cooperativa, como sempre. Entrei e ele disse logo: eu sou o pai do rapaz que perdeu o carro pra Globo, blá blá. Contou uma história doida, que eu desconhecia. Ele se auto-intitula Mario Broder, o cara que frequenta salões de dança e por causa disso acabou ganhando um taxi pq umas senhoras precisavam de um motorista e se cotizaram pra comprar o carro dele.  Depois disse que conhece todo mundo do samba, inclusive aquele cara, sabe? aquele gordo que é empresario de todo mundo. Muito meu amigo, esqueci o nome. Os cabelos, caju. Cordão de prata, pulseiras, muitas. De prata. Luvas de dirigir azuis.

Depois disse que inventou o cartão de visita interativo, isto é: ele manda fazer cartões Disque Taxi, para motoristas de taxi em geral, coloridos, um carrão na frente, design arrojado e tal e, no verso, tem lacunas pro cara preencher com nome, telefone, um estouro! Inventou também os cartões Disque Manicure, Disque Bombeiro e Disque Eletricista.  Quase pedi pra ele inventar o Disque Cantora. “Eu já carreguei muito artista – ele disse  – inclusive aquele rapaz, o cantor, aqueeele do rap…  Daniel Pescador”.

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quando vc for ao samba, pergunta pelo mario broder

quando vc for ao samba, pode perguntar pelo mario broder...

Auto de Natal*

12/12/2008

*Auto de automóvel, tá?

Pelo celular, ambas engarrafadas, minha irmã pergunta, bolada: porque é que o trânsito fica assim, sempre, em dezembro? As pessoas saem de carro pela rua feito loucas, comprando e enchendo o carro de compras de natal, é isso? Quem são essas pessoas? Por que tem mais carro na rua nessa época? Gente de fora, dizem. Mas a gente de fora tem carro com placa do Rio?

Realmente, isso é um clássico de natal: em dezembro o trânsito é péssimo! E depois rimos lembrando de uma outra verdade absoluta das ruas do Rio: Sexta-feira o trânsito é péssimo porque todo mundo sai de carro.

Como assim? Todo mundo vai de carro pro trabalho na sexta, pra já estar de carro depois do trabalho e ir pra farra direto? Jura que é isso? Se fosse assim, as casas noturnas estariam bombadas de tanta gente e não haveria estacionamento que bastasse. O que não é nem um pouco verdade. Ao contrário, a rua está cheia de gente sem grana, a pé, tomando cerveja no camelô e mijando na árvore mais próxima, seja na Lapa ou no Leblon de Manoel Carlos, onde se cobra 3 pau num café e 3, 5 mil pra se pintar um apê. 

Ou será, como perguntou um outro amigo, que todos têm casas de campo e partem com seus carrões e suas famílias para seus chalés na Serra ou seus condomínios na Costa Verde? Também não me parece muito real…

notícias do front:

 minha irmã liga de cel pra cel, mais uma vez engarrafada,  enquanto escrevo este post e diz, às gargalhadas: “meu deeeus! Estou vivenciando uma superposição de tudo o que falamos ontem: hoje é sexta, está chovendo e é natal! fudeu!  

tudo bem eu vou indo em busca de um sonho. quem sabe?  

me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios

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