vida, minha vida

12/09/2018

Quantos rostos sorridentes, desconhecidos sorrindo pra mim? quilômetros de milhares de bocas sorrindo, de olhos abertos pra mim, de silêncios. Anos e anos pessoas fazendo silêncio pra mim. Olhando pro som que vem de mim, ouvindo o que trago, boas novas e boas velhas, sempre boas, as canções. Quantos camarins, bons e ruins, luz funcionando, luz quebrada. Cadeira boa, cadeira dura, cadeira bamba. Ar condicionado frio demais, calor demais. E quantos espelhos, quantos banheiros pra maquiar de qualquer jeito, pra molhar a barra da calça ao trocar figurinos. Quantos figurinos? Quantos batons? Quantas vans? ônibus e carros e taxis. Palcos então… todos os tipos. Altos, baixos, praticáveis, impraticáveis, carros de som. Palco de andaime, medo de despencar lá de cima, no meio da praça do coreto da cidade pequena. Cidades pequenas, cidades grandes, hotéis. Micro palcos, com o arco do contrabaixo levantando a barra da saia, ou um canto de sala, um cantinho qualquer. Microfones, quantas vezes disse testetesteteste. Retorno, agudo, médio, grave, reverb. Quantos sons passei, quanta luz? Forte demais, escuro demais, verde demais. Médios, então, quantas médias altas pra tirar. E boas noites, sejam bem vindos, espero que gostem, essa música foi, a próxima vai ser, queria agradecer. No palco comigo esta noite, fulanos sicranos beltranos; Quantos músicos e instrumentos e solos e intros e finais. Muitas palmas e uhús. Milhares de palmas e uhus. Milhões de palmas e uhús. Muito obrigada, voltem sempre, tragam os amigos.
Palco do Chiswick town Hall, em Londres, onde dancei balé clássico quando tinha 12 anos. 

salto triplo*

22/11/2017

*escrevi este texto inspirada no show de mesmo nome, que faço com Elisa Queirós e Cacala Carvalho, só com nossas composições.

 

TENHO ASAS, POSSO MUITO BEM VOAR

CRUZAR MIL CORDILHEIRAS E DEIXAR

UMA CORRENTE QUENTE ME LEVAR,

PLANAR SOBRE AS CIDADES, FLUTUAR

DAQUI DE CIMA APRECIO A VISTA E PULO

BRAÇOS ABERTOS PARA A IMENSIDÃO DE TUDO

 

TENHO TERRAS A CONQUISTAR,

SOU UMA AMAZONA CAVALGANDO EM PELO,

DONA DE UM DESERTO DISTANTE E PERIGOSO,

CHEIO DE OÁSIS PARA DESBRAVAR.

PROVOCO TERREMOTOS E ABRO FENDAS

É DO MEU EPICENTRO QUE A VIDA BROTA

 

TENHO SETE MARES A SINGRAR

MERGULHO EM APNÉIA,

PESCANDO PÉROLAS EM CORAIS ABISSAIS,

RAINHA DAS ÁGUAS, SENHORA DAS MARÉS,

SEREIA QUE ENCANTA MARUJOS DO AMOR,

DESÁGUO EM SETE QUEDAS, SALTOS TRIPLOS

E SOU IARA, A DONA DA CACHOEIRA

 

EU TENHO A CENTELHA DO FOGO E ESPALHO A BRASA

TROVEJO, RELAMPEIO E CORTO O CÉU COM MEU FACHO DE LUZ

EU SOU AQUELA QUE CONDENSA E CHOVE,

NASCI EXUBERANTE DO LÓTUS, DA LAMA DOS LODAÇAIS

FEITO UM SOL, RAIO, ME PONHO, RECOMPONHO

E CHEIA DE ALVOROÇO, ALVOREÇO E SOLO

 

AGRADEÇO PELA GRAÇA ALCANÇADA

DAQUI DE ONDE VEJO É TUDO PLENITUDE

TODO PODER E GLÓRIA ME PERTENCEM

CAIO DENTRO DO MUNDO

COM UM SONHO NA CABEÇA, UM SORRISO NA BOCA

E ESSA CORAGEM NA MÃO

 

Vera Cruz*

25/03/2016

(primeiro de tudo, quero que todo mundo entenda que este post é sobre amor, sobre sincronicidade e sobre a música, não sobre personagens).

enquanto to ali fazendo ovos de páscoa recheados com ganache de uísque, pros meus entes queridos, estou pensando em Vera Cruz, música que finalmente vou cantar no meu show BrazJazz, depois de amanhã, depois de uma longa paquera, e de tê-la cantado, pela primeira vez, a convite de um amigo maestro e sua orquestra.

Lembro de ter lido ou visto ou ouvido o Milton “Bituca” Nascimento, em algum lugar, contando a história da importância dessa música na careira dele, um desbravamento, e fui procurar pra aprender e contar no show. Nessa, acabei encontrando um episódio desconhecido pra mim, em que o Márcio Borges, parceiro de Milton na música, fala da amizade de adolescência deles com a presidente Dilma. E que, 40 anos depois, antes de a Dilma ser presidente, mas já depois de todos aqueles anos de luta, eles se reencontraram, e ela pediu pra ele cantar *Vera Cruz, música que  ela ouviu em primeira mão, quando todos eram moleques em Minas. Uma música que fala de uma mulher, mas que também poderia ser sobre um país. Meus olhos encheram d’água de pronto! Eu nem sabia de tudo isso. E escolhi cantar essa música logo agora, o Brasil em chamas…

Senti meu sangue brasileiro me ocupando, um aterramento, uma propriedade. Me senti defendendo a minha casa com a minha voz. E isso não tem nada a ver com os personagens. Mas com a minha voz de mulher  brasileira, hoje e pra sempre livre pra cantar e contar todas as lindas histórias humanas que eu bem quiser. Sem ter que pedir licença ou perdão. Sem ter que me esconder de ninguém.

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50

14/07/2014

à beira de fazer aniversario, saio de um show numa rádio, pela manhã, mal dormida, pensando no show que terei, exatas 12 horas depois.

chego em casa, ligo o ar, desligo os telefones e me permito dormir o soninho da beleza entre um show e outro. durmo fácil como se fosse.

sonho que estou à beira de uma piscina muito turquesa,  cujas bordas se nivelam ao gramado em redor, como se a água sempre tivesse estado ali, brotando do centro do quintal.

vejo uma criança-delfim me convidando para entrar na piscina, mergulhando desaparecendo numa borda para aparecer em outra, um erê-sereia, chamando sem chamar. vou.

me jogo, mergulho, desta vez por uma espécie de túnel no ar, uma fenda na parede da paisagem por onde entro, como se pulasse um muro pra dentro do mundo.

mergulho e brinco de encontrar a criança dentro d’água. ela foge de mim, nos perdemos, ela ri de mim. e qdo boto a cabeça pra fora, só dá tempo de eu ver as  paredes do mundo se fechando em volta da piscina, retângulo perfeito, erguendo uma muralha de cimento que vai subindo qual torre de babel ao infinito, em volta do perímetro perfeito da piscina. e lá estou eu, no fundo de uma garganta sem fundo. meu paraíso começa a ser emparedado e o sol, que brilhava e azulava tudo, vai virando uma janela remota lá em cima, retangular, uma claraboia que vai se afunilando enquanto sobem as paredes de cimento, em volta de mim, ao universo e além.

minha claustrofobia quase se rende quando percebo um caco caindo do muro eterno, deixando ver o mundo lá fora e, dali, já consigo avistar um pedaço de paisagem, um céu azul, montanhas verdes ensolaradas e outras águas. por conta própria, o cimento da parede vai descascando, saindo como se fosse a casca de uma fruta que se tira com as mãos, espiralando. só que aqui, a polpa da fruta era o lado de fora. a parede se dissolve, e o muro se desfaz em troça. dentro da piscina permaneço, de  novo ao sol, de novo vislumbrando um canto de natureza meio torta, meio Dali. e aí, o céu é meu, e eu sou a dona daquilo tudo de novo.

e nem sei porque, naquela hora, no meio do sonho, eu tive certeza de que as paredes cederam por mim, a mim, e que o sol iluminou a piscina e que o céu era azul, pra mim. só pra me avisar que era meu aniversário e que tudo, tudo está no seu lugar.

perdi um pouco a hora, levantei correndo, segunda sessão começando em breve. 50 anos. banho, maquiagem, cabelo, figurino, malinha, taxi. 50 anos.

2014-03-15 17.01.19

 

 

 

 

 

my way

11/03/2011

atolada com a produção/divulgação/administração/social do festival do convite aí de baixo, ensaio pro meu show no festival, escolha de repertório pro disco solo, revisão de texto de um livro pra entregar ontem meio-dia, apuração pra duas matérias giga pra veja, seleção de repertório e banda pra um show off-topic, homenageando o ronaldo bastos, um livro só meu em construção, dieta eterna, malhação obrigatória, familia e amigos pra dar conta.

e eu sonhando com uma longa viagem de carro, por paragens distantes cujo nome nem sei.

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