salto triplo*

22/11/2017

*escrevi este texto inspirada no show de mesmo nome, que faço com Elisa Queirós e Cacala Carvalho, só com nossas composições.

 

TENHO ASAS, POSSO MUITO BEM VOAR

CRUZAR MIL CORDILHEIRAS E DEIXAR

UMA CORRENTE QUENTE ME LEVAR,

PLANAR SOBRE AS CIDADES, FLUTUAR

DAQUI DE CIMA APRECIO A VISTA E PULO

BRAÇOS ABERTOS PARA A IMENSIDÃO DE TUDO

 

TENHO TERRAS A CONQUISTAR,

SOU UMA AMAZONA CAVALGANDO EM PELO,

DONA DE UM DESERTO DISTANTE E PERIGOSO,

CHEIO DE OÁSIS PARA DESBRAVAR.

PROVOCO TERREMOTOS E ABRO FENDAS

É DO MEU EPICENTRO QUE A VIDA BROTA

 

TENHO SETE MARES A SINGRAR

MERGULHO EM APNÉIA,

PESCANDO PÉROLAS EM CORAIS ABISSAIS,

RAINHA DAS ÁGUAS, SENHORA DAS MARÉS,

SEREIA QUE ENCANTA MARUJOS DO AMOR,

DESÁGUO EM SETE QUEDAS, SALTOS TRIPLOS

E SOU IARA, A DONA DA CACHOEIRA

 

EU TENHO A CENTELHA DO FOGO E ESPALHO A BRASA

TROVEJO, RELAMPEIO E CORTO O CÉU COM MEU FACHO DE LUZ

EU SOU AQUELA QUE CONDENSA E CHOVE,

NASCI EXUBERANTE DO LÓTUS, DA LAMA DOS LODAÇAIS

FEITO UM SOL, RAIO, ME PONHO, RECOMPONHO

E CHEIA DE ALVOROÇO, ALVOREÇO E SOLO

 

AGRADEÇO PELA GRAÇA ALCANÇADA

DAQUI DE ONDE VEJO É TUDO PLENITUDE

TODO PODER E GLÓRIA ME PERTENCEM

CAIO DENTRO DO MUNDO

COM UM SONHO NA CABEÇA, UM SORRISO NA BOCA

E ESSA CORAGEM NA MÃO

 

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Luanda Cozetti é uma cantora cujo privilegiado ouvido harmônico a deixa livre para voar nas melodias, sem nunca perder a noção do caminho, voltando sempre que precisa para dar um alô ao tema, ao tempo, ao mundo dos mortais. Depois volta feliz para suas escalas de improviso e voa, voa. Intérprete inteligente, que diz a letra da canção, é a cantora mais técnica que já presenciei cantar. Para mim, Luanda é top, pq sua técnica não a atrapalha, jamais.

Luanda Cozetti está “a viveire” no ultramar, em Lisboa, que lhe deu ouvidos muito melhores do que o Brasil consegue dar.

*

Dindi, de Tom Jobim.

Muita gente me pergunta o que escuto, em quem me inspiro, quais as cantoras que admiro.  Isso realmente não importa, nem qualifica ou desqualifica ninguém. É questão de gosto pessoal. Mas, como diz um amigo: Gosto É O QUE se discute. Então vamos discutir.

Tentando definir o que gosto num(a) cantor(a), cheguei a algumas reduções. Uma vez eu ouvi a Leny Andrade dizer, das profundezas de seus graves: “cantora é timbre”. Concordo. Timbre é assinatura e, como tal, é intransferível, inimitável. E sangue. Cantoras exangues e assépticas não mexem comigo. E intimidade. Tem gente que não se apodera da própria voz, como se a voz morasse do lado de fora. Cantora, pra mim, tem que ser dona da voz. Sobre domínio da afinação, coisa rara, tenho um especial apreço. Desafinação e semitonação só se for por conceito. E por fim, a cantora tem que servir à música. A voz é apenas a ponte por onde a música passa, de dentro, pra fora. E a cantora dá a cor, o tom, o perfume.

Para inaugurar nossa série, vou começar pela Leny Andrade, que recentemente me fez chorar durante um show inteiro e voltar no dia seguinte. Coisa que não me acontece nun-ca! Aqui, ela canta Ilusão à tôa, obra-prima de Johnny Alf, que morreu recentemente. Para degustar.

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