O golpe

16/04/2016

Esses dias assisti a uma série chamada Auschwitz, do Netflix, contando a história do maior campo de extermínio de toda a história da humanidade. Um milhão e cem pessoas foram mortas ali. A série fala sobre como a ideia de Auschwitz foi engendrada, seus idealizadores, seus funcionários, sua estrutura. São documentos, atas de reunião, deliberações e até depoimentos de quem sobreviveu, dos dois lados, prisioneiros e agentes da SS. Das 8 mil pessoas que trabalharam no campo de extermínio, menos de cem foram condenadas. Alguns tiveram penas bem brandas, como o homem que recolhia e contava e depois distribuia o dinheiro dos que chegavam ao campo. Ele só foi condenado, em 2015, a míseros quatro anos de prisão.

A série é para quem tem estômago forte, me despertou sentimentos cujo nome nem sei e estou há dias elaborando essa tristeza profunda. A coisa mais assustadora, entre tantas coisas aviltantes e aterrorizantes, é ver a tentativa de justificativa daqueles que pensaram na “solução final” e que elaboraram os planos de morte, os projetos dos fornos e dos crematórios. As crianças, as mulheres, os velhos e os doentes chegavam no campo direto pro forno. Pensa bem. Alguém teve essa ideia e escreveu o projeto que foi acolhido pelos seus comparsas: “puxa, que ótima ideia! queimar as crianças logo de uma vez…” E depois fumaram charutos e foram todos pra casa dormir em paz, no seio da família, enquanto fornos queimavam pessoas 24h por dia, 100 mil pessoas por dia.
Eles todos alegam ter motivos, uns falam da atmosfera do momento, outros que estavam trabalhando, cumprindo ordens e alguns até deixando escapar que ainda concordavam com a ideia da “solução final”. O mandante de Auschwitz, em suas memórias, explica tudo, e jamais se arrependeu ou pediu perdão ou achou que errou. Ele achava lindo o plano. Foi levado a Auschwitz para ser enforcado olhando para o monumento ao horror, que construiu.

Vendo essa loucura tomando conta do Brasil, os discursos que tentam justificar o injustificável, às vesperas de um golpe que vai tirar a democracia de cena e empossar, mais uma vez, os pulhas, os canalhas, os criminosos confessos e condenados, para que dancem na cara da gente, rindo com escárnio por não termos o direito de escolha, por sermos o gado enganado pela mídia criminosa, pelos ardis mais imundos, para que os que sempre mandaram e mamaram na miséria deste país continuem reinando, incólumes e com autorização legal.
Dentro de mim, é como se visse o 3º Reich subindo no pódio, vencendo, mais uma vez, pisando na cabeça dos mortos pela democracia e de nós todos, que um dia achamos que também tínhamos direito a viver em um país que olhasse para sua gente. Ledo engano. O Brasil não é para os brasileiros. É pra eles. E eles estão aqui agora, mas já estiveram em Auschwitz, no massacre dos armênios, no Boko Haram, no terrorismo religioso que mata inocentes e no governo que tira a merenda escolar das crianças. Se eles ganharem no domingo, voltamos pro campo de concentração.

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Vera Cruz*

25/03/2016

(primeiro de tudo, quero que todo mundo entenda que este post é sobre amor, sobre sincronicidade e sobre a música, não sobre personagens).

enquanto to ali fazendo ovos de páscoa recheados com ganache de uísque, pros meus entes queridos, estou pensando em Vera Cruz, música que finalmente vou cantar no meu show BrazJazz, depois de amanhã, depois de uma longa paquera, e de tê-la cantado, pela primeira vez, a convite de um amigo maestro e sua orquestra.

Lembro de ter lido ou visto ou ouvido o Milton “Bituca” Nascimento, em algum lugar, contando a história da importância dessa música na careira dele, um desbravamento, e fui procurar pra aprender e contar no show. Nessa, acabei encontrando um episódio desconhecido pra mim, em que o Márcio Borges, parceiro de Milton na música, fala da amizade de adolescência deles com a presidente Dilma. E que, 40 anos depois, antes de a Dilma ser presidente, mas já depois de todos aqueles anos de luta, eles se reencontraram, e ela pediu pra ele cantar *Vera Cruz, música que  ela ouviu em primeira mão, quando todos eram moleques em Minas. Uma música que fala de uma mulher, mas que também poderia ser sobre um país. Meus olhos encheram d’água de pronto! Eu nem sabia de tudo isso. E escolhi cantar essa música logo agora, o Brasil em chamas…

Senti meu sangue brasileiro me ocupando, um aterramento, uma propriedade. Me senti defendendo a minha casa com a minha voz. E isso não tem nada a ver com os personagens. Mas com a minha voz de mulher  brasileira, hoje e pra sempre livre pra cantar e contar todas as lindas histórias humanas que eu bem quiser. Sem ter que pedir licença ou perdão. Sem ter que me esconder de ninguém.

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