52

30/06/2016

não quero que o tempo seja um tornado que vem se aproximando, prometendo só arrancar as árvores e os telhados das casas, matar os animais e secar os rios. Não quero que o tempo seja um fardo, um estorvo. Quero viver esse tempo com amor, abraçar essa vida com gosto, suas teias, seus ninhos de passarinhos, seus musgos, suas florações e seus estios. ciclo que me inclui. nunca paro de renascer.

não quero que a realidade seja insuportável, que eu precise viver de olhos fechados pra suportar as coisas como são.  o ocaso de uns, a aurora de outros. quero olhar as coisas como são, de mulher pra mulher. e falar, sim, ok, vou encarar de coração aberto. e vou me esforçar pra achar o lado bom do inevitável. e vou comemorar por estar inteira, de pé e morrendo de rir e de cantar, cercada de tanto verdadeiro amor dos meus amigos e da família.

a idade não será um castigo. envelhecer não será um motivo pra me esconder. amadurecer será mais uma das coisas boas da vida. potência plena ocupada. espaço dinamizado. expansão e visão panorâmica. vejo mais, cobiço mais, quero mais.

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empoderada

01/04/2016

vi um video, com bilhões de curtidas e compartilhamentos, estimulando mulheres a aprenderem a se divertir consigo mesmas. Sugerindo que uma mulher deve experimentar sentar sozinha em um restaurante e pedir um prato maneiro, ou ir ao cinema sozinha e chorar num filme emocionante, ou ver arte num museu, ou simplesmente passear num parque para aprender a apreciar a própria companhia. Como se elas nunca tivessem feito isso antes. Para meu espanto, lendo os comentários, vi que muitas realmente nunca se divertiram ou tiveram prazer sozinhas. Me parece que a mensagem subliminar é: tente! vc tb existe sem um homem à tiracolo pra te qualificar como mulher.

As novas mulheres falam tanto em empoderamento. Mas precisam começar pelo começo. Mulher é mulher do momento em que nasce até morrer. Mulher não é sinônimo de beleza, de juventude, de gostosura ou charme. A mulher não desaparece quando amadurece, nem precisa ficar se afirmando, aprendendo como amar depois dos 40, como se renovar depois dos 50, como começar uma nova atividade depois dos 60. A vida é uma linha continua que só para quando acaba. No meio pode ter família, filhos, namoros, casamentos, viagens, trabalhos diferentes, mudanças de casa, de direção, de crença, de preferência sexual, de hobby, de profissões ou atividades. esse papo é coisa de cartilha feminina americana dos anos 50, que rezava que mulher tem que ter um homem só na vida, mesmo que o homem tenha mil mulheres, viver para a família, se dedicar a uma única atividade e depois, quando as leis trabalhistas definirem, parar e começar a se perguntar como foi perder tanto tempo precioso, correndo pra ver o que ainda é possível fazer enquanto a morte não vem. A vida da gente acontece em camadas, em dimensões variadas, não tem monoplano nem pra quem gostaria que tivesse.

As mulheres, enquanto vivas estiverem, podem amar, mudar, recomeçar, renovar, sem se explicar, sem precisarem se sentir diferentonas porque estão vivendo a vida! Esse papo de que os 50 são os novos 40 só dizem respeito à aparência, fazendo, mais uma vez, o jogo do patriarcado. Ufa, em vez de perder o marido para duas de 20, aos 40, agora ganhamos 10 anos. Nada disso! Não vou admitir ser tratada como uma veterana, como coroa, como tia secundária, como velhinha, só porque não tenho mais 40 anos. eu sou mulher. e vou ser mulher até morrer. sem papo de idiotizar a “melhor idade” (expressão que todo velho detesta, claro), sem precisar saltar de paraquedas e falar a gíria da moda pra parecer jovem, sem fazer plástica e sem ter que ser a coroa excêntrica que se veste como uma árvore de natal, de cabelos brancos, pra dizer que assumiu a idade e não tá nem aí. vai ser do jeito que eu quiser. eu que decido. fim.

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tsunami

11/03/2015

abro o Face e vejo a foto de um baterista que, qdo tinha uns 20 anos, foi uma paixonite minha. paro, estatelada! socorro! ele virou um tiozão de camisa polo! na mesmo noite, vejo a foto do meu primeiro amor, um verdadeiro maracujá de gaveta, como dizia meu avô. tenho me assustado, sobretudo com os homens da minha geração que, por se cuidarem menos que as mulheres, estão uns cacos. horrível dizer isso, pq, a esta altura, eu já devia ter olhado pro espelho, encarado a realidade dos fatos e deixado pra trás essa bobagem toda, sublimando as marcas do tempo, encarando a chance de estar aqui, bem, inteira, como uma dádiva.

a velhice é como uma inundação que se anuncia. está chegando, o tsunami está vindo na minha direção. já consigo ver os sinais nos meus pais, no meu pescoço, na pele e, principalmente, no olhar dos outros. pra uns, já virei coroa. nem sabia que isso já ia acontecer agora, tão cedo. qdo a gente olha de dentro, a perspectiva é outra. por dentro, terei sempre a mesma idade-Andréa, que não é um número, mas uma fotografia de um pôr-do-sol no verão do Rio de Janeiro, pronto pra explodir em acontecimentos incríveis e momentos fulgurantes. assim seja!

oroboro

12/02/2015

mudei de casa. adoro a casa nova. mudei de bairro. estou conhecendo o bairro novo. ainda nem sei qual supermercado é mais perto, mais barato, ou qual boteco entrega até mais tarde, ou qual farmácia etc. sei de nada. não conheço a cara de nenhum porteiro, nenhum camelô, nenhum traficante e nenhum morador de rua. só conheço um fruteiro, que trato com o maior cuidado, já que ele é o único que me trata como se eu sempre tivesse estado aqui. And I belong again.

estou aturdida com cenário, figurino e elenco da minha nova vida: muitos turistas, muitas putas, muita gente, muito barulho e poeira preta. praia grande (linda), terceira idade. mudaram as cores e os cheiros da vida. mudou tudo. o paradoxo de Copacabana é que, no bairro mais veloz do Rio, vc tem que aprender a desacelerar. aqui, o limite de velocidade é outro. o povo de Copa é mais faceiro e fagueiro que lépido. eu sou forever young em minha aventura pela terra. reciclo, renasço. pra sempre oroboro

aqui acordei da paixão, voltei à velha forma, não sei para onde vou. sei que, numa vida passada, vim de Ipanema, mas isso já tem tempo. mudar o cenário mudou minha visão inteira, minha perspectiva. mesmo amando minha nova casa, ainda me sinto presa ao éter por um fio, como se ainda não tivesse assentado no meu terreiro. ainda não sou dona dessa nova vida.  de forever young me sinto forever velha, cheia de dores, ocupando um velho corpo, não habito o meu futuro. aí, lembro que não existe futuro, tudo o que há é uma experiência de presente e, portanto, estou onde devo estar. o cenário mudou, mas eu continuo a mesma. estou confusa. perdão.

no metrô, de repente era Paris, um cello tocava Bach. Ao contrário de Paris, os cariocas aplaudem. volto zonza de uma reunião do trabalho social que estou apenas começando a fazer, e que me enche de orgulho e medo. ali, as pessoas são como eu. jovens, alimentam uma estranha fé no trabalho comunitário e lento. me imagino tendo os dias mais felizes da minha vida, tentando levar alguma dignidade ao fim do mundo. depois lembro que vou ter que dormir 5 dias no alojamento improvisado na única escola da comunidade. tenho vergonha de não querer ir. sou jovem, mas sinto dores de velha. madame não gosta de samba. e quem não gosta de samba…

na volta da reunião, entro num supermercado onde nunca entrei, na esquina da minha nova casa. não sei onde fica nada, não conheço os produtos que vendem. uma ironia, uma metáfora da minha vida. compro o vinho da promoção e uma manteiga de Minas, que nunca provei. teve bom.

aquele canto verde de morro, que já sei que brilha quando chove, o céu estrelado visto da cama e as paredes azuis já são meus. até este ponto, cheguei.

 

araras doda 020

 

PS: Acabo de ler: “É preciso reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.” Malvine Zalcberg

Tá bem.

auto-combustão

19/08/2014

o nome parece fenômeno do folclore brasileiro: fogacho. daria perfeitamente pra dizer: “esta é a época do fogacho, muito comum nesta região do país…” ou “ela dança fogacho muito bem, tradição familiar” ou ainda “nas noites de fogacho, o cortejo atravessa a cidade e o cavalheiro bate na porta da donzela, convidando para a dança”.

mas que nada. o tal do fogacho é um calor que acomete mulheres, nem todas, a partir dos 40 e tal, e pode durar muitos anos. ali começa a derradeira revolução hormonal, que vira tudo de cabeça pra baixo, que taca fogo na mistura e deixa a cama, a casa, o mundo ardendo em chamas. só que por dentro.

ardo, de meia em meia hora, queimo. acordo no meio da noite, muitas vezes, pra arder. sou interrompida no meio do dia pela minha própria ebulição. que venenos estará meu corpo destilando? que lixos estará incinerando, nessa estranha queimada das entranhas? desejo que todos os resíduos nefastos da vida sejam trazidos à tona agora, para que as fogueiras das vaidades, das banalidades, das futilidades, das desimportâncias os queimem. e deixem ali, onde estava tudo empilhado em desordem, a redução, a essência do puro valor da vida. o que importa, o que é bom, o que afina o que está dentro com o que está fora. entropia eterna.

entendo, porque assim desejo, que os ardores são um ritual feminino de purificação, que prepara as mulheres para que se metamorfoseiem em índias velhas, em lobas, em corujas, em cavalas selvagens, em onças pintadas, em elefoas majestosas de todas as cores, em garças brancas, em borboletas azuis. E assim a mulher vai fazendo a passagem, a transmissão de energia, se transmutando num tipo peculiar de elemental, virando árvore, grama, líquen, limo. se diluindo na água, evaporando no ar, espalhando-se como a terra que cobre a Terra para acolher as profundas raizes das árvores, para finalmente, acha em brasa, lamber o céu, esfogueada, em labaredas. e subir alto, alto, onde a vista não mais alcança, onde nada se pode mais tocar, nem ver, nem ouvir. onde tudo é nuvem, magnetismo, eletricidade primordial, raios e trovões. e dali, dos tempos e espaços imemoriais, ela chove, seiva da vida. e as flores brotam da lama, mais uma vez.

velha senhora

03/04/2012

acho que é da idade. tá bem, esse papo de idade já cansou, to ligada. mas sempre que tento mudar de assunto, como por exemplo, trabalho, vem ela, a idade: “… vc tem que se acostumar, temos que dar lugar a outras gerações”, ouvi, “agora é a vez deles, não tem jeito.”, chapei, “bom mesmo era no nosso tempo”, engoli.

meu tempo é hoje, tentei dizer, mas calei, por falta de firmeza. acho que falta de firmeza não é coisa da idade, que deveria dar firmeza, se não nas pernas, no propósito. calei. mas na verdade, fico aturdida pq não acho nada disso, sofro do Complexo de Peter Pan (ou seria de Wendy ou de Sininho? será que não tem nenhuma personagem feminina que não quer crescer? logo as mulheres, que precisam ficar jovens pra sempre? estranho paradoxo.)*.

(corta)

nas duas últimas semanas morreu um tanto de gente à minha volta, não gente suuuper próxima, mas próxima o suficiente. a mãe de uma amiga, o pai do ex, o Ericson Pires, um amigo das antigas. Ademilde Fonseca não era minha amiga, mas a conheci num momento especial e lamentei a morte dela. Chico Anísio, Millor… todo dia, uma morte. qdo to esquecendo, lá vem outra! o assunto rondando, assombrando, ameaçando: batidas na porta da frente, é o tempo. resisto: não adianta bater, que eu não deixo você entrar.

(corta)

em oposição ao tempo, o agora.

em oposição à morte, a vida.

não!

oposto à morte é o nascimento, diz o poeta.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

 

*já reparou que, nos contos de fada, homens são maduros e as mulheres, eternas meninas? enqto isso, aqui na terra… nem inventaram um feminino pro tal complexo forever young…

idades

21/11/2010

quando uma pessoa fala: “quantos anos você acha que eu tenho?”, eu nunca respondo o que acho. Primeiro pq eu nao vim com esse dom da adivinhação, não sei dizer qual a idade de uma pessoa pela cara dela. Depois porque, mesmo se eu tivesse esse dom, eu não diria. Uma pessoa que formula essa pergunta, sempre espera uma resposta X que pode não ser a que você vai dar. Uma menina de 15 anos adora parecer ter 17, mesmo que pra vc isso nao faça a menor diferença. Já uma pessoa mais velha, em geral, quer que vc diga: “Nããããõ! Não é possível que vc tenha essa idade com essa carinha e esse corpinho!” Quem quer assumir a idade, fala logo. Na dúvida, o silêncio será sempre o maior dom…

na faixa*

17/05/2010

“…seu problema é de faixa etária”, diz minha amiga, tentando me dizer que eu devia ir procurar a minha turma.

Com os pés na areia, começo a pensar que o tradicional método cronológico de classificação etária está errado. A parada deveria ser como na capoeira.  O cara joga, joga, joga (na escola da vida, né, moy?). Um dia, ele vai pra roda e joga com várias pessoas diferentes, de níveis diferentes, pra mostrar o que aprendeu. Se ele se der bem na roda, troca a cor da corda da cintura. Isso independe da faixa etária dele, só depende do jogo. O cara vai jogando, ficando mais esperto, mais treinado e vai trocando de faixa. Mas só se ficar mais malandro.

Nem sempre os mais velhos são mais malandros, nem sempre os mais novos são mais ágeis. O que importa é a qualidade do jogo.

* aproveito para esclarecer para os cariocas que, em SP, uma coisa “na faixa” é uma coisa grátis, tipo assim: damas grátis até meia noite = minas na faixa até meia noite.

aceito a generosa oferta de um amigo para fazer, na base da amizade,  um video release sobre minha carreira, peça publicitária fundamental e cara nos dias de hoje, uma espécie de cartão de visita virtual, chamado por alguns de EPK, electronic press kit.

– Reúne tudo seu, de todos os tempos, videos, fotos, recortes de jornais, o que vc tiver documentado.

Apreensiva, fico parada em frente ao armário onde guardo 20 anos de fitas velhas de video, recortes de jornais elogiando, metendo o malho, documentando a vida toda. As fotos estão numa mala imitação de Louis Vuitton, que ganhei e nunca usei pq acho uó de cafona.

Tenho medo de abrir a porta e ser soterrada por uma avalanche de lembranças, de saudades, de frustrações, de esquecimentos confortáveis. Detesto rever o passado. Sou contra filmar festas de aniversário. Não gosto de rever nada. O tempo grita comigo e eu abaixo a cabeça, vencida. Meu tempo é right here right now.

Decido que hoje não tenho condições emocionais de rever minha carreira, muito menos de ser simplesmente técnica e mandar ver na arqueologia pessoal sem me envolver. Eu sou do tipo que chora quando arruma estante de livro, pq vou lembrando de situações, de pessoas, de coisas que enriqueceram a minha bi(bli)ografia.

Continuo, como diz o joão, making memories, mas quase não guardo recortes de jornal, pq aquela papelada amarela vai me dando uma sensação de antiguidade que me lembra a casa do Serguei, em Saquarema, onde todas as paredes eram revestidas por recortes de jornal sobre ele, bandeiras com a língua dos Stones, autógrafos da Janis… coisas antiquíssimas, testemunhas da passagem inexorável do tempo, o pior inimigo da minha atualidade. Embora eu esteja num momento feliz da minha carreira, não estou pronta para rever o grande amor. Hoje, só amanhã…

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