apocalipse now

09/11/2016

Qdo me perguntaram o que eu desejaria como última refeição, no corredor da morte, caso eu alguma vez o visitasse, pensei: peixe frito com cerveja. Robalinho, trilha, sardinha… Peixe frito, pra mim, tem que ser inteirinho e pequeno, passado no fubá, acompanhado de limão cortado na hora. Cerveja tem que estar glacial. Fritura mora na rua, ao lado da cerveja gelada. Delícias que visito e desfruto com respeito, na rua.

Comprei peixe fresco e temperei com limão, pimenta e alho. Era pra assar. Uma amiga veio trocar ideia, sobrou cerveja.

Golpes, Temer, Crivella, Cabral/Pezão. Trump. O mundo acabando, na minha frente.

Salguei o peixe, passei no fubá, e usei azeite, muito azeite de verdade. E fritei peixe em casa, pela primeira vez. E abri a cerveja. E cortei o limão.

Foda-se.

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52

30/06/2016

não quero que o tempo seja um tornado que vem se aproximando, prometendo só arrancar as árvores e os telhados das casas, matar os animais e secar os rios. Não quero que o tempo seja um fardo, um estorvo. Quero viver esse tempo com amor, abraçar essa vida com gosto, suas teias, seus ninhos de passarinhos, seus musgos, suas florações e seus estios. ciclo que me inclui. nunca paro de renascer.

não quero que a realidade seja insuportável, que eu precise viver de olhos fechados pra suportar as coisas como são.  o ocaso de uns, a aurora de outros. quero olhar as coisas como são, de mulher pra mulher. e falar, sim, ok, vou encarar de coração aberto. e vou me esforçar pra achar o lado bom do inevitável. e vou comemorar por estar inteira, de pé e morrendo de rir e de cantar, cercada de tanto verdadeiro amor dos meus amigos e da família.

a idade não será um castigo. envelhecer não será um motivo pra me esconder. amadurecer será mais uma das coisas boas da vida. potência plena ocupada. espaço dinamizado. expansão e visão panorâmica. vejo mais, cobiço mais, quero mais.

vem 52. IMG_6226

primavera

18/09/2012

Eu não me caibo de tanto desejo de ver o resultado de tudo, de colher a tal colheita prometida e morder a fruta.

Todos os dias acordo e corro pra ver o que brotou. Há flores, borboletas, cactos, espinhos, folhagens, matos daninhos. E os passarinhos que vêm cantando e fazem ninhos.

Quando a gente vê, deu flor, fruto e filhote. Há vida, há música. E aquele inverno tenebroso morreu dentro da gente.

jardim dos sonhos

08/09/2011

sonhei que estava com a minha irmã no apê onde moramos e crescemos. Eu resolvia limpar o sofá. Quando eu tirava as almofadas, eu encontrava umas pluminhas pretas, que eu tentava tirar com um espanador, sem sucesso. Eu dizia: “meu deus, como isso pode estar sujo assim?” E ela: “Não, isso não é sujeira! Isso são flores.” E como acontece nos sonhos, apareceram florezinhas roxas nas plumas pretas e quando olhei novamente, havia ali borboletas. Minha irmã disse: “É que pra cada borboleta que nasce, nasce uma flor. Elas são chamadas de consoladoras”

Minha irmã sempre me consola com a possibilidade de um jardim.

testemunho

25/08/2011

por que só existem igrejas para reunir aqueles que se sentem pessoalmente atendidos por deus e socorridos por seus supostos milagres? ou para aqueles que estão na fila do atendimento?

Por que não há uma igreja que reúna aqueles que passaram a vida batalhando, se dedicando, crendo em milagres, rezando, pedindo, meditando, fazendo novenas. acendendo velas, fazendo promessas, acreditando fervorosamente, do fundo do ser, sem jamais serem atendidos por ninguém. Para quem nada aconteceu, nenhum milagre foi realizado e nenhuma graça alcançada. Só o dia-a-dia. Mas quanto mais ferrada, mais a pessoa crê. Crer é a tal da última esperança que morre. E professar o não-crer implica o medo de ser ouvido – e castigado – pelo deus-pai. Na dúvida, né? Vai que o cara era o próximo da fila e foi reclamar logo na hora do atendimento.

Fé insuficiente, dirão. Dedicação insuficiente, dirão. E quem detém o medidor de fé e de dedicação? E quem atribui o respectivo resultado? Ah, é o próprio crente que faz tudo? Então fé = atitude.  Para quem consegue/pode/sabe agir. Pra todos os outros, a reza.

Todas as vezes em que fui ajudada, foi por gente que me ama, a quem sou gratíssima. Todos deste plano humano. “A vida é um dom”, dizem, “não seja ingrata”, mas sei que a vida também pode ser um estorvo interminável, um trabalho de Sísifo. Na maior parte das vezes, mesmo focada e correta, não fui soberana, não pude escolher os resultados do jogo, por melhor que tenha jogado. Jogo insuficiente, dirão.

Não adianta a ilusão do timão. Quem navega é o mar.

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