menino descalço

07/12/2018

No meio da rua, um menino grande pede que lhe compre um chinelo. Está vendendo chicletes, descalço, pois seu chinelo arrebentou. Compro o tamanho que mal lhe serve, porque ali na hora não tinha o tamanho dele e ele preferiu sair mal calçado que descalço. Saio chorando pela rua, pensando na tristeza que é um menino descalço em Copacabana, implorando por um chinelo, enquanto pessoas “de bem” se protegem dele e comentam que ele talvez queira apenas vender o chinelo novo. Ao contrário, imagino que aquele chinelo branquinho vai ficar imundo em poucos dias, se alguém não lhe roubar, ainda hoje, o chinelinho branquinho, novinho em folha, um pouco pequeno, reluzindo naquele pé preto empoeirado e magro, que esta noite vai pisar num barraco muito pobre ou num canto mijado de rua, num meio fio grudado com óleo de ônibus, sob marquise, ponte, viaduto, num canto qualquer, onde as sombras da noite o cubram e protejam. 


Não suporto a realidade desses dias.  Vejo militares e igrejas avançando a passos largos com seus coturnos, a bíblia em punho, salivando com suas bocas escancaradas, famintas de poder, e vejo o menino preto descalço sendo atropelado pelo tanque do fundamentalismo que reina e impera, que promete matar pobres de drone, desertar florestas, queimar índios, matar solos e mares, esterilizar e pulverizar o meu país, que ia ser o do futuro, que era um gigante prestes a se levantar, verdejante, festeiro, misturando tudo que é fé, hospitaleiro, simpático, miscigenado, bonito por natureza. O país que eu perdi em minutos, quando descobri quem me cerca, o que querem, com o que(m) se importam.  

Nasci no ano em que o Brasil acabou pela primeira vez, 1964, pelas mãos dos demônios de caqui. Os efeitos sentimos agora, em mais uma das mortes do Brasil, condenados que estamos a mais uma longa temporada de silêncios e de medos, de patrulhas, de ignorantes no poder, de meninos pretos descalços atropelados e cantoras tristes. 

apocalipse now

09/11/2016

Qdo me perguntaram o que eu desejaria como última refeição, no corredor da morte, caso eu alguma vez o visitasse, pensei: peixe frito com cerveja. Robalinho, trilha, sardinha… Peixe frito, pra mim, tem que ser inteirinho e pequeno, passado no fubá, acompanhado de limão cortado na hora. Cerveja tem que estar glacial. Fritura mora na rua, ao lado da cerveja gelada. Delícias que visito e desfruto com respeito, na rua.

Comprei peixe fresco e temperei com limão, pimenta e alho. Era pra assar. Uma amiga veio trocar ideia, sobrou cerveja.

Golpes, Temer, Crivella, Cabral/Pezão. Trump. O mundo acabando, na minha frente.

Salguei o peixe, passei no fubá, e usei azeite, muito azeite de verdade. E fritei peixe em casa, pela primeira vez. E abri a cerveja. E cortei o limão.

Foda-se.

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