Rua Montenegro, 276

08/06/2018

Elas moíam a carne na máquina manual, à manivela, que elas prendiam no canto do mármore da bancada da cozinha. Entravam grandes cubos de carne vermelha, toda limpa, sem nervos, e saía aquela massa uniforme, moldada pelos furos do moedor. Depois de catadas as fibras restantes, a carne voltava pra máquina, muitas vezes, com cebolas em cubos, que iam ficando quase líquidas quando moídas. E depois vinha a pimenta síria, a canela, o coentro em grão moído, o pimentão vermelho, a água gelada, o burgol* que não se deve deixar de molho pra não amolecer demais. E as mãos para misturar tudo. Para servir, a cebola em gomos, as folhas graúdas de hortelã e o azeite para bem regar o quibe cru.

A salada, fatuche, salpicada com o pão árabe torrado na medida pra desmanchar em contato com o suco de limão, o azeite, os tomates frescos, o cheiro verde e o pepino crocante. O segredo era cortar as pontas do pepino e esfregá-las no corte, para tirar o amargo, o leite ruim. A casca ficava, para fazer a digestão.

Couve-flor com taratô, kbebat, ataife, esfihas abertas e queijo com misky. Babahanush, houmus, azeite, azeite, azeite. Azeitonas pretas, carnudas, gordas. Coalhada seca, zahtar, pão papel em dias de festa, chancliche. E mais azeite.

As folhas de uva envolvendo arroz e carne moída com pimenta síria, a capa de filé no fundo da panela, um pouco de massa de tomate, tempo, paciência. Cheiro doce de família e canela, e o Arak do vovô, que enchia a sala com o anis volátil, prontamente turvo ao contato com a água, mágica para as crianças. Pistache, amendoim, terços de âmbar na mesa, bandejas enormes de latão dourado, café no bule árabe, que se deixava pousar antes de servir, sem coar. Tapetes, tapetes e mais tapetes. Unhas vermelhas, música e coisas douradas.

A mesa posta na sala de jantar para os adultos e na sala de almoço para as crianças, com toalhas de plástico.

No quintal de cimento, os tamancos de madeira, o tanque cantando, o varal cheio, as empregadas e o fumo de rolo no cachimbo na hora do descanso, no quarto ao fundo do quintal, em cima da escada torta e caiada. O pente de ferro para esticar os cabelos com henê, as imagens do sagrado coração de Jesus, a nossa senhora aparecida na micro-televisão com luz negra, a foto retocada, muito azul-turquesa, do longínquo casamento na Paraíba. Os uniformes xadrezinhos, o rádio sempre ligado, o pano na cabeça, ave-maria às seis da tarde, a missa de domingo.

No terraço, fiel testemunha da minha história, o piano que mora aqui comigo e me acompanha nesta saga saborosa, perfumada e cheia de amor que é a minha vida. Música, a única síntese possível.

Eu e vovô Jacob na casa da Rua Montenegro,

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Na minha vida sempre houve uma amendoeira. Foi com elas que aprendi a gira dos ciclos naturais de todas as coisas vivas, foi com elas que aprendi sobre o tempo. Na frente do apartamento onde cresci eram tantas, e tão grandes, que, se a gente esticasse o braço, dava pra tocar os galhos que quase entravam pela janela. Elas filtravam a luz e perfumavam a casa em dias de chuva. Os passarinhos cantavam o dia todo, os morcegos morcegavam pela madrugada, jogando amêndoas ruidosas nos capôs dos carros, e a gente acompanhava ninhos sendo construídos, ocupados e desocupados, ano após ano. Quando mudei de casa, as amendoeiras passaram a servir de anteparo para que eu pudesse tomar banho de porta aberta, misturada no verde mais carioca depois do mar, da mata atlântica e do gramado do Maracanã. Dizem que elas vieram lá das Índias. Gostaram tanto daqui que cresceram e se multiplicaram, e foram chamadas de amendoeiras-da-praia.

Aprendi as estações do ano assim: a amendoeira e eu, espelhadas. Ela por fora, eu por dentro. Ela vermelha, amarela e laranja, eu desapegando e desacelerando em meu outono pessoal. Ela pelada e eu calada, hibernando enquanto a primavera não vinha. Aí, ela explodia em brotos e as folhas tenras começavam a desenrolar, e lá vinham as vespas beber o mel da floração, e o cheiro enjoativo do pólen entrava em casa e a esperança brotava no meu coração, ensaiando a plenitude frondosa do verão. Eu, imperdoavelmente jovem, acreditava na promessa das cigarras que cantavam na minha janela, convocando para a felicidade obrigatória e urgente da estação-definição desta cidade: no verão, todos os sonhos se realizarão, os amores virão, as festas serão incríveis, o carnaval será o melhor de todos, a felicidade encantada florescerá no pôr do sol vermelho. Com tudo isso, nada mais importa além de um mergulho no espelho dourado, um mate gelado com limão, uma partida de frescobol.

O Rio cutuca a juventude perene que se esconde em algum canto de nós, como aquele broto de folha que espera sua hora de eclodir. O Rio quer a gente forever young, arrastando chinelos, com o biquini debaixo da roupa, pro caso de dar tempo de dar aquele mergulho rapidinho. Todos os dias, o Rio escancara a sua beleza indecente perguntando: “E você? Vai ficar aí parado, enquanto eu estou aqui, resplandecente, translumbrante sob o ouro do sol?” E a gente ouve e quer obedecer, com eternas saudades das longas férias escolares de verão, das cigarras cantando, dolentes, nas amendoeiras, do corpo moído de sol e de sal.

O Rio deste dezembro de 2017 arde em chamas de diferentes fogos, calores, revoltas, medos, agitos, encantos e fervos mil. O Rio de Janeiro está pegando fogo, sob o sol abrasador do verão implacável que se anuncia, e pelo sangue quente correndo nas veias de quem quer viver esta cidade mais e melhor. São tempos para reerguer a monumental maravilha caída, para devolver o Rio para quem nasceu ou escolheu viver aqui. Espelho de seu povo, a beleza do Rio mora na praia, nas encostas cobertas de florestas, nas águas fartas, no morro e no subúrbio. Belezas diversas, pra todos os gostos. Mas que ninguém se engane: a beleza desta cidade depende, mesmo, é da mistura.

Que cantem as cigarras! É verão na Cidade Maravilhosa!

 Esse sol, porque tinha de tanto brilhar / Anunciar no meu peito o amanhã pra depois sumir / E deixar tão mais negro meu céu, minha noite

o primeiro trabalho que fiz, como cantora, foi de vocalista de um cantor, já falecido, chamado Robson Teixeira. Ele fazia um trabalho autoral que seria incrível até hoje. Pop rock anos 80 com influencias de bandas bacanas europeias. A primeira vez que meu nome apareceu no jornal, como cantora, foi em 1983, justamente num show dele, num local chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza.
Esse cara foi um guru pra mim. Mais velho, gay, casado, viajado, culto, me apresentou um mundo sem mimimi, sem frescura, sem preconceitinhos, cheio de novidades incríveis, de zen budismo, de pão feito em casa, de miles davis e amigos. Éramos vizinhos, em Ipanema, e eu e os músicos vivíamos na casa dele, dia e noite, usufruindo da liberdade toda que não tínhamos nas casas dos nossos pais. A gente tinha menos de 20 anos de idade…
A banda que tocava com ele era de músicos que hoje são profissionais top de linha, todos muito jovens, Glauton Campello, Alexandre Carvalho, Kadu Menezes, Felipe Reis. E foi com eles que comecei na profissão, ensaiando no “Tijucão”, casa alugada pela galera pra usos musicais e sócio-recreativos de todos os tipos.
Tenho as melhores lembranças desse momento da minha vida, e só me lembro do meu guru dizendo: “bonita, vc precisa enlouquecer, enlouquecer muito!” Tinha toda razão! E mesmo depois de todos esses anos, querido Robson, ainda não enlouqueci o suficiente.

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oroboro

12/02/2015

mudei de casa. adoro a casa nova. mudei de bairro. estou conhecendo o bairro novo. ainda nem sei qual supermercado é mais perto, mais barato, ou qual boteco entrega até mais tarde, ou qual farmácia etc. sei de nada. não conheço a cara de nenhum porteiro, nenhum camelô, nenhum traficante e nenhum morador de rua. só conheço um fruteiro, que trato com o maior cuidado, já que ele é o único que me trata como se eu sempre tivesse estado aqui. And I belong again.

estou aturdida com cenário, figurino e elenco da minha nova vida: muitos turistas, muitas putas, muita gente, muito barulho e poeira preta. praia grande (linda), terceira idade. mudaram as cores e os cheiros da vida. mudou tudo. o paradoxo de Copacabana é que, no bairro mais veloz do Rio, vc tem que aprender a desacelerar. aqui, o limite de velocidade é outro. o povo de Copa é mais faceiro e fagueiro que lépido. eu sou forever young em minha aventura pela terra. reciclo, renasço. pra sempre oroboro

aqui acordei da paixão, voltei à velha forma, não sei para onde vou. sei que, numa vida passada, vim de Ipanema, mas isso já tem tempo. mudar o cenário mudou minha visão inteira, minha perspectiva. mesmo amando minha nova casa, ainda me sinto presa ao éter por um fio, como se ainda não tivesse assentado no meu terreiro. ainda não sou dona dessa nova vida.  de forever young me sinto forever velha, cheia de dores, ocupando um velho corpo, não habito o meu futuro. aí, lembro que não existe futuro, tudo o que há é uma experiência de presente e, portanto, estou onde devo estar. o cenário mudou, mas eu continuo a mesma. estou confusa. perdão.

no metrô, de repente era Paris, um cello tocava Bach. Ao contrário de Paris, os cariocas aplaudem. volto zonza de uma reunião do trabalho social que estou apenas começando a fazer, e que me enche de orgulho e medo. ali, as pessoas são como eu. jovens, alimentam uma estranha fé no trabalho comunitário e lento. me imagino tendo os dias mais felizes da minha vida, tentando levar alguma dignidade ao fim do mundo. depois lembro que vou ter que dormir 5 dias no alojamento improvisado na única escola da comunidade. tenho vergonha de não querer ir. sou jovem, mas sinto dores de velha. madame não gosta de samba. e quem não gosta de samba…

na volta da reunião, entro num supermercado onde nunca entrei, na esquina da minha nova casa. não sei onde fica nada, não conheço os produtos que vendem. uma ironia, uma metáfora da minha vida. compro o vinho da promoção e uma manteiga de Minas, que nunca provei. teve bom.

aquele canto verde de morro, que já sei que brilha quando chove, o céu estrelado visto da cama e as paredes azuis já são meus. até este ponto, cheguei.

 

araras doda 020

 

PS: Acabo de ler: “É preciso reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.” Malvine Zalcberg

Tá bem.

cores do Rio

24/01/2011

O Rio de Janeiro tem praia de branco e de preto. A praia no eixo Leblon-Arpoador me parece assim: branca em toda a extensão do Leblon, mas ali perto do posto 12 e, de novo, no finzinho do Leblon, há uma turma de pretos. No Jardim de Alah, dos dois lados, a praia é dos pretos. Pausa para a Anibal, a Garcia e o território dos gringos, que tem de tudo. O coqueirão, seguido pelo Posto 9,  mistura um pouco de tudo, peronomucho. Parece que mistura, mas não mistura, sabe como é?

Pausa para as tatuagens. Outro dia, juro que li nas costas de um cara, de ombro a ombro, a frase “há malas que vão para Belém”. Há tb o hábito de tatuar nomes de filhos nos antebraços, nome do amor no cóccix  e sobrenomes nas costas, além de carregar nos tribais proto-polinésios e nos  ideogramas japoneses e nos caracteres árabes, all over.  Moças tatuam a nuca. Rapazes, os braços.

Mais à frente vem a praia gay, mais ou menos até ali depois da Teixeira de Melo, bem parecida com a frequencia da praia dos gringos. Antes da ponta do Arpoador tem a praia da moda. Muita gente dia e noite na praia, tomando champagne, descontraidamente. Vai chegando o Arpoador, vai empretecendo. O Arpoador é a praia mais preta do Rio, parece até que eu estou na Bahia. Branco destoa.

Claro que tudo isso tem a ver com a geografia social desses bairros e blá blá, mas nao to fazendo analise sociológica, to fazendo análise cromática. Estamos em plenas férias escolares, verão escaldante, a praia no auge da ocupação e lotação. O Rio de Janeiro está em sua máxima potência.

Em toda a extensão da praia, pretos e pretas trabalham atendendo às múltiplas clientelas. Desde que o samba é samba é assim.

asas da liberdade

02/11/2010

Eu nunca desejei voar de verdade. Sofro de vertigem. Me contento em voar em sonhos, mantendo a altura por debaixo do teto do pátio coberto do Colégio Notre Dame e, por vezes, era mesmo o teto branco, meio descascado, da garagem do nosso prédio na Joana Angélica. Outras, vai saber, era no Chiswisck Town Hall que eu voava, depois da aula de balé, na volta para casa. Agora dei de sobrevoar cidades que nem conheço. Ora voo baixo. Ora voo alto. Mas nunca deixei de sonhar com o voo.

E quando pela primeira vez fumei haxixe com um namorado e depois sentamos num bar da Lagoa e eu, comfortably numb, bebia aquela bebida muito gelada e doce, enquanto via a mim mesma flutuando sobre uma lagoa azul-noturno iluminada, seu lodoso fundo cheio de monstros do Loch Ness e de lontras e de Iaras, sereias e Iemanjás. As margens piscosas dadas aos duendes, aos pixies, aos elfos e todos elementais do fogo terra água e ar. Eu ali, bebendo aquela coisa mexicana, e eram tacos com salsa de tomates, uma bem simplinha e a outra com chilli ardido.  O ar era meu, tudo estava quente. Tinha eu 18 anos de idade.

Depois encontrei a música,  nem precisei mais voar.  Nado por debaixo de mares e atravesso oceanos em apneia, sem nunca perder o ar. Coisa de sonho. Mergulho aqui  no Leblon e saio vezes na Lapa, vezes no Arpoador, aonde já encomendei que joguem minhas cinzas, pq nobreza maior não há de haver do que ser fertilizante de fogo terra água e ar. O doce retorno.

Meu superpoder conheci hoje, durante um ensaio, quando cantei junto com passarinhos de cantos frondosos, eloquentes, vigorosos, ensaiados. Enchendo aquela sala amarela e seus ramos verdes de canto. O nosso, os deles.

Eu, que nem pensara em voar, por um momento fui alada, singrando os céus de azul da cor do mar do Rio de Janeiro, batendo rapidamente as minhas pequenas asas amarelas, sobrevoando a Baía da Guanabara. Cristo Redentor, as luzes quase se acendendo, Ipanema, Arpoador, Leme, Urca, Botafogo. A cidade toda se dourando à tarde, enquanto nós, os pássaros, cantávamos voando de galho em galho.

Lá embaixo os carros correndo, já meio quase na hora de acender os faróis, a rua vazia pelo quase-feriado, painéis azuis, taxímetros vermelhos. Algumas pessoas esperavam para atravessar as ruas com guarda-chuvas de todas as cores, mas não chovia mais.

Era azul, verde, dourado. Era música. Meu superpoder é cantar.

a praia do arpoador ao leblon, durante o jogo brasil x chile: ninguém em casa

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