love songs

27/07/2013

amigos, café, chocolate, vinho do porto, fumo. a música é variada. coisas que a gente nunca mais cantou, e cujas letras emergem dos subterrâneos da memória, trazendo junto avalanches de lembranças e cheiros e cores de outras vidas. e os amores. penso nas paixões que vivi, no fracasso da minha vida amorosa, nas péssimas escolhas que fiz, nas incontáveis frustrações. volta a velha e permanente sensação de que o meu pacote de serviços não inclui amar e ser amada. embora esteja acostumada, tenho me sentido só. quem, nunca? deve ser o inverno. ou a idade. ou o vento. passa. canto canções de amor e, por dentro, me sinto uma impostora. as canções de amor quase perderam o sentido pra mim, é como se eu cantasse sobre um unicórnio, sobre uma fada, um dragão, ou atlântida. ausência ilustre, lâmpada queimada, terreno baldio, corda quebrada de violão. amor: meu continente perdido.

alice*

02/10/2012

vou pintando as unhas com cores estranhas
aprendendo a fazer receitas diferentes
dando assim um tipo de banda no tempo
nessa dor insuportável que estala os ossos
e ruge nos ouvidos
me acordando quando quase consegui dormir
e, de repente, juro que foram passos lá fora
desço correndo as escadas
tropeçando na barra da camisola de flanela
cheia de rainhas, bules e chapeleiros malucos
pra ver se foi vc que esqueceu que tinha ido embora
do nosso país das maravilhas.
onde foi mesmo que deixei aquela mulher
que eu era antes de vc sair?

* pra minha amiga que sabe quem é

para ouvir não é necessário apenas ter ouvidos. é necessário saber escutar. quando a gente coloca a nossa palavra à frente da palavra do outro, a gente não escuta. qtas vezes a gente deixa de ouvir o que uma pessoa está tentando nos dizer, só pq a gente acha que sabe o que ela pensa e, portanto, o que ela vai falar, e atropela e afasta o outro com a nossa presunção?

sem escutar, como é possível desfrutar da grande preciosidade da existência: as pessoas, suas verdades, suas visões, seus ângulos? sem ouvir, como é possível conhecer a vida, perceber que tudo há, que tudo pode, que o mundo é um carrossel de diferenças, todas do mesmo valor, todas ímpares? ouvir é uma libertação. sem ouvir não há troca, e a vida se torna um monólogo autorreferenciado, uma exposição de eus, uma interminável galeria de espelhos para narcisos desfilarem, orgulhosos, sua surdez retumbante. é um mal do tempo? é um reflexo de como as famílias se dão? de onde vem essa deficiência auditiva? incrível o contingente de surdos-mudos do egocentrismo absoluto, da mesquinharia auricular, do universo infértil onde não há alteridade.

tagarela, extrovertida, eloquente que sou, todos os dias me esforço para silenciar, para ouvir, não só com os ouvidos, mas com os olhos, com o tato, com o paladar, com o olfato. é no silêncio que mora a chance de aprender. mas para querer aprender, há que ter a consciência da ignorância e do seu monocromatismo tedioso. na surdez, mora apenas o vazio da vaidade, a esterilidade do ego, o falso movimento da galeria de espelhos.

mulheridade

24/02/2012

batom e unhas vermelhas. vestido estampado branco com hibiscus vermelhos, bem decotado, um pouco justo. flor de cetim no cabelo, argolas nas orelhas, anel de ouro e água marinha (nunca uso ouro amarelo), vinho branco. sonho com um velho amor. e o coração vazio.

meu melhor amigo está deprimido, perdido nos labirintos da vida. Vida adulta chata, realidade. A vida adulta tb tem me assustado e suas atribuições me metem medo. Eu e minha irmã temos nos preocupado com a família. Falar nos aproxima e conforta. Às vezes eu choro escondida.

meu outro melhor amigo vai ter um encontro. Torcemos pra que seja tudo lindo gostoso e feliz,  pessoa legal, que mereça ele e trate ele bem. Estamos todos  muito cansando de tantas tentativas e erros (e qtos erros…)

minha melhor amiga está ansiosa, apaixonada, sofrendo, fumando um cigarro atras do outro.  está desesperada para ser feliz, como todos nós: “mas por que não posso ter tudo ao mesmo tempo?” pode, claro. então,  vamos encantar a vida

eu tb ando buscando a centelha da paixão que nos faz melhores compositores e cantores e torna a vida mais colorida.  vou atrás das emoções, estou tentando me manter bem viva.

enquanto tudo isso, a manhã expulsava a noite que pairava sobre a princesinha do mar. you see, eles não sabiam que era impossível…


Pelo telefone, João me conta que leu o livro Wicked*: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, de Gregory Maguire, que conta a história pregressa da Bruxa Malvada do Oeste, aquela bruxa verde d’O Mágico de Oz. A história rola antes de ela virar bruxa, pré-Oz. Antes de se tornar aquela figura abjeta, ela era uma moça normal, que foi rejeitada por todo mundo, desde sempre, por ter nascido verde. E por isso, por essa rejeição à sua particularidade, ela se tornou bruxa.

Caio aos prantos, ao telefone, com essa frase: “rejeitada por ter nascido verde”, e morro de pena da Bruxa Malvada do Oeste, como se finalmente eu tivesse entendido um velho sentimento meu: eu sei o que é ter nascido verde, eu sou uma bruxa malvada do oeste! Passei as maiores e mais solitárias infelicidades por ser verde. Passei as maiores frustrações tentando ser de outra cor. Assim como muitas pessoas e suas nuances de cores, absolutamente pessoais. Todos nós somos uma cor nesse arco-íris que é o mundo real, este que habitamos, com suas true colours.

“I have a dream”, disse Martin Luther King, sonhando com o dia em que brancos e negros sentarão, realmente, à mesma mesa. Eu também tenho um sonho colorido: que as pessoas nunca mais sejam rejeitadas e precisem virar bruxas por terem nascido brancas, negras, amarelas, azuis, vermelhas ou verdes.

oi, amiga

oi, amiga

* sim, virou musical.

2013-10-20 20.33.17green

oi

medo de rainha

05/07/2009

 “Unmarried, I have no master, childless, I am a mother to my people, God give me the strength to bear this mighty freedom”, disse  Elizabeth no filme, portentosa, aterrorizada e toda poder.  Na volta pra casa chorei pela rua, pensando nela e em mim: deus me dê forças para suportar essa liberdade poderosa.

ontem comprei uma blusa em que se lê: “Sorry, but I’m the queen” 😉 pisc

vento de maio, rainha dos raios de sol

%d blogueiros gostam disto: