oroboro

12/02/2015

mudei de casa. adoro a casa nova. mudei de bairro. estou conhecendo o bairro novo. ainda nem sei qual supermercado é mais perto, mais barato, ou qual boteco entrega até mais tarde, ou qual farmácia etc. sei de nada. não conheço a cara de nenhum porteiro, nenhum camelô, nenhum traficante e nenhum morador de rua. só conheço um fruteiro, que trato com o maior cuidado, já que ele é o único que me trata como se eu sempre tivesse estado aqui. And I belong again.

estou aturdida com cenário, figurino e elenco da minha nova vida: muitos turistas, muitas putas, muita gente, muito barulho e poeira preta. praia grande (linda), terceira idade. mudaram as cores e os cheiros da vida. mudou tudo. o paradoxo de Copacabana é que, no bairro mais veloz do Rio, vc tem que aprender a desacelerar. aqui, o limite de velocidade é outro. o povo de Copa é mais faceiro e fagueiro que lépido. eu sou forever young em minha aventura pela terra. reciclo, renasço. pra sempre oroboro

aqui acordei da paixão, voltei à velha forma, não sei para onde vou. sei que, numa vida passada, vim de Ipanema, mas isso já tem tempo. mudar o cenário mudou minha visão inteira, minha perspectiva. mesmo amando minha nova casa, ainda me sinto presa ao éter por um fio, como se ainda não tivesse assentado no meu terreiro. ainda não sou dona dessa nova vida.  de forever young me sinto forever velha, cheia de dores, ocupando um velho corpo, não habito o meu futuro. aí, lembro que não existe futuro, tudo o que há é uma experiência de presente e, portanto, estou onde devo estar. o cenário mudou, mas eu continuo a mesma. estou confusa. perdão.

no metrô, de repente era Paris, um cello tocava Bach. Ao contrário de Paris, os cariocas aplaudem. volto zonza de uma reunião do trabalho social que estou apenas começando a fazer, e que me enche de orgulho e medo. ali, as pessoas são como eu. jovens, alimentam uma estranha fé no trabalho comunitário e lento. me imagino tendo os dias mais felizes da minha vida, tentando levar alguma dignidade ao fim do mundo. depois lembro que vou ter que dormir 5 dias no alojamento improvisado na única escola da comunidade. tenho vergonha de não querer ir. sou jovem, mas sinto dores de velha. madame não gosta de samba. e quem não gosta de samba…

na volta da reunião, entro num supermercado onde nunca entrei, na esquina da minha nova casa. não sei onde fica nada, não conheço os produtos que vendem. uma ironia, uma metáfora da minha vida. compro o vinho da promoção e uma manteiga de Minas, que nunca provei. teve bom.

aquele canto verde de morro, que já sei que brilha quando chove, o céu estrelado visto da cama e as paredes azuis já são meus. até este ponto, cheguei.

 

araras doda 020

 

PS: Acabo de ler: “É preciso reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.” Malvine Zalcberg

Tá bem.

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to embalando a casa, pra mudar, depois de 17 anos no mesmo lugar. só por isso, ouso dar uma dica pro seu fim de semana.

pra vencer qualquer demanda e desfazer quebrantos, faça assim:

abra um armário qualquer da sua casa e, impiedosamente, jogue fora, ou passe adiante, tudo o que vc não usou no último ano. sem drama, sem mimimi. desapega, larga, solta e pronto!

imediatamente, experimente a sensação plena de se livrar do que não precisa e respire um ambiente cheio da leveza do vazio. cheio de espaços pra novidade ocupar.

bom fim de semana! boa novidade pra vc!
(como diz o Arranco de Varsóvia, ♪ eu vou mudar de vida ♫… Ah, o Arranco tá comigo hj, dando uma canja, no Triboz. vem! )

2014-08-22 17.34.33-1 (3)

a era da incerteza

05/06/2014

a ordem da hora é trans-former

uma amiga me liga e diz: quero mudar de persona. abandonar esta que sou e ser outra, desfazer os laços e inventar uma nova personalidade, mudar de país, de nome, de pele

o amigo do post anterior tb se diverte mudando de persona, como drag. a amiga que queria mudar de persona, embora mulher, se anima e vai se montar de drag, tb. quer experimentar o não-ser que, já sabemos, não há

a amiga caretona resolve ir a uma casa de suingue com o maridón pra ver se muda o casamento, o marido e a si mesma

a outra diz que vai largar tudo e plantar e colher com a mão a pimenta e o sal

outra amiga me liga hj e diz: estou brincando de namorar menina, mas não sou gay

clarissimo que o território do sexo é o favorito para experimentação de self(ies), além das redes sociais, que é onde os maiores statements são feitos, assim, ao vento. curioso este momento da humanidade que privilegia a mudança à permanência, o duvidoso ao certo, a novidade à segurança

e é também curioso como todos reclamam de impermanência, de incertezas, de não-comprometimento, especialmente nos relacionamentos. quem somos nós, quem são os agentes?

 

2014-03-28 21.49.13

minha fé

10/09/2013

Escrevo esta oração

Para aceitar aquilo que posso mudar

Reiniciar, desapegar

Escrevo esta oração para  mudar de fase

Para abrir os olhos para olhar a luz

Para seguir em frente

Para aceitar o amor no coração

Para aceitar presentes

Para ser grata

Escrevo esta oração

Para saudar a vida

O que nos é mais caro

O amor que nos une

O céu que nos protege

Os mistérios do mundo

A liberdade

De pedir

De dar

De agradecer

De mudar

coragem

25/11/2012

com os sentidos aguçados por uma tarde no estúdio, gravando, entro num ônibus, no Jardim Botânico, e vou indo pra casa. tô sem dinheiro, numa prontidão sem fim, sem hora, sem compromisso. missão mais que cumprida. se eu pedir mais ainda da vida, acho que ela se zanga.

fecho os olhos. a medida boa da tensão. entra um moreno no ônibus, me olha. olho de volta. libido acesa: viva.

fecho os olhos, pensando em como tenho a sorte de estar onde estou e de ser quem eu sou, e me enjoo, fortemente, da minha forma de pensar. sempre tudo arredondado – como se fosse possível dar forma aos pensamentos -, e vou classificando, criticamente, minha forma de ver a vida: doce, macia, côncava, intra, yin. receptiva, feminina, toda potência e majestade. enjoada, sorrio de mim. quanta ilusão há nas imagens dos momentos, nesses instantâneos de felicidade. aproveito pra relaxar, pq sei que isso não dura: daqui a pouco estarei outra, mudando como mudam os ventos, as florações, as marés e essas coisas da natureza. na próxima volta do parafuso estarei dura, chata, puta, azeda, irônica, convexa, masculina, yang.

sigo pensando nas formas e chego no meu bairro, lindo, caótico, no primeiro dia dos próximos 4 anos de obras. reclamar? nem devo. o Rio de Janeiro está se redesenhando. penso na história das cidades, nos movimentos das massas e me repreendo: porra! de novo pensando redondo!?

duas amigas vêm à minha casa beber e falar.falamos todas ao mesmo tempo, como só as mulheres conseguem, escutamos tudo e morremos de rir. a noite nunca tem fim.

me falta agudizar as coisas, deixar as arestas cutucarem, estourar a luz. me falta coragem. logo eu, Andrea, cujo  significado, dizem, é exatamente esse: coragem.

amanheceu.

ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. Mora na lapa, trabalha na lapa. Pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. Em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. Embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. É a excelência da raça, tentar outras saídas. Meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

the BB way

23/11/2011

reza a lenda que as empregadas marroquinas são silenciosas, invisíveis, imperceptíveis. Andam pela casa sem que ninguém as note. Tenho sonhado com esse despercebimento.  Jamais dans la vie eu tinha sentido esse ímpeto Greta Garbo, esse I want to be alone tão profundo, essa vontade Brigitte Bardot, de descer do palco e ir me ocupar de focas. Brilhar, neste momento, não me pertence. Não tenho dentro de mim a matéria com a qual se fabrica o brilho. Kafka. Um dia acordei e não era mais meu corpo, minha vida, eu. Não, não tem consolo, nem volta, nem choro, nem vela. Quero silêncio, sombra e uma pausa de mil compassos.

 

Com urgência, entrei na primeira ótica que vi, pra comprar lentes de contato. Fui tratada como uma rainha. Pessoas simpáticas, hiper eficientes e à vontade, sem excesso de treinamento. No fim da compra, papo descontraído, o cara que me atendeu dá uma geral nos óculos de sol que estou usando, me dá um brinde e abre os braços para me dar um abraço: “Felicidades pra vc!”, nos abraçamos afetuosamente. A moça também vem me dar um abraço: “Deus te abençoe, linda!”. Tudo me pareceu verdadeiro. Saltitei pra fora da loja, com 10 anos de idade, bombeando amor universal pelas ruas de Ipanema.

Quando a gente tá contente… baratotal. Aquela felicidade hare krishna de sorrir pra tudo, com verdade. Estar contente é o que? Contente vem de contentamento, que o Aurélio descreve como: “sentimento de prazer, alegria.”

Hoje confirmei que o contentamento, pra mim, não tem nada a ver com alcançar as condições que estabeleci como básicas para ser feliz, tipo a grana, o trampo, o amor.  A tal “mitologia da felicidade”: se eu tiver tanta grana, tal trabalho e um amor x, então serei feliz. Mas tem a ver com a decisão de ficar contente. Atualmente estou em treinamento íntimo pra sempre escolher sorrir, e mudar o curso da história daquele momento na base do sorriso.

Peço perdão a todas as correntes que não vou citar, para dar a minha teoria do que é realmente transformador: as lentes e a prática do contentamento. Mudar a minha perspectiva do mundo muda o mundo para mim.  E nao o mundo em si, que é sempre exatamente o mesmo fucking bloody multifacetado wild mundo. E nunca vai poder ser diferente, porque ser mundo é ser isso, é ser tudo.  Tipo gente. Gente é tudo.

*li esse conceito no The cow in the parking lot – A Zen Approach to Overcoming Anger, de Leonard Scheff e Susan Edmiston, que acabei de traduzir pra Ed. Objetiva. Merece a leitura, para além dos domínios da autoajuda.

procura-me

18/03/2009

se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí

fui ali, volto já

se alguem me encontrar por aí, favor devolver neste local. 

recompensamos.

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