Esse negócio de ser cantora é muito louco, mesmo. Ontem passei a noite embargada com o show da Leny AndradeAurea Martins e Alaide Costacom o grande Gilson Peranzzetta. Inteiras, entregues, presentes, donas das canções que cantam, de cada nota. Uma vida inteira, 50, 60 anos cantando, que coisa mais rica, que fortuna!

E me emociono também porque desse lado da realidade, as artistas não têm figurinista, não têm cenógrafo, não têm as regalias que a grande fama dá. Abrem seus armários, escolhem suas roupas e seus acessórios de brilhos e se maquiam. E estão novamente prontas, sem afetação nenhuma, sem frescura, sem estrelismo, brilhando com a chama natural que carregam, e por terem vivido e visto o que viram. A simplicidade de quem chegou ao cerne da questão com tanta propriedade e escolha.

Esperançosa, me vi ali, daqui a alguns anos, herdeira que sou dessa linhagem de cantoras que escolhem palavras e melodias pra cantar, com minhas próprias roupas brilhosas, com minha vidaloka, com minhas escolhas dolorosas, com minhas renúncias e esse caminhão de sorte que ganhei da vida. Este fim de semana não saio de casa, dedicada ao estudo do repertório da Fátima Guedes, pro meu show do sábado que vem, dia 15, no Beco das Garrafas. E lá vou eu, e lá vou eu. ♫

Muita gente me pergunta o que escuto, em quem me inspiro, quais as cantoras que admiro.  Isso realmente não importa, nem qualifica ou desqualifica ninguém. É questão de gosto pessoal. Mas, como diz um amigo: Gosto É O QUE se discute. Então vamos discutir.

Tentando definir o que gosto num(a) cantor(a), cheguei a algumas reduções. Uma vez eu ouvi a Leny Andrade dizer, das profundezas de seus graves: “cantora é timbre”. Concordo. Timbre é assinatura e, como tal, é intransferível, inimitável. E sangue. Cantoras exangues e assépticas não mexem comigo. E intimidade. Tem gente que não se apodera da própria voz, como se a voz morasse do lado de fora. Cantora, pra mim, tem que ser dona da voz. Sobre domínio da afinação, coisa rara, tenho um especial apreço. Desafinação e semitonação só se for por conceito. E por fim, a cantora tem que servir à música. A voz é apenas a ponte por onde a música passa, de dentro, pra fora. E a cantora dá a cor, o tom, o perfume.

Para inaugurar nossa série, vou começar pela Leny Andrade, que recentemente me fez chorar durante um show inteiro e voltar no dia seguinte. Coisa que não me acontece nun-ca! Aqui, ela canta Ilusão à tôa, obra-prima de Johnny Alf, que morreu recentemente. Para degustar.

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