abre alas

04/05/2013

Peço licençaê, meu pessoalzinho, cariocas e selvagens de todas as tribos: quero passar.

Na minha casa se ouvia Românticos de Cuba, Metais em brasa, Burt Bacharach, Chico Buarque, Bethânia e Barbra Streisand. E Domenico Modugno. Rock progressivo, tb. Ipanemense de raiz que sou, não nasci no samba, não posso negar. mas quem, como eu, viu o Simpatia sair, nos anos 80, despejando uma onda de alegria pelo bairro, foi atrás e não voltou mais. Aqui no meu quintal, com sua licença, às vezes até se jonga. E tocamos música instrumental, Cole Porter e Coltrane.  Além do Fundo, do Caetano e do Djavan, Bill Evans é deus. Assim como Bach, Chopin e Erik Satie*, que fizeram uma música que não se vai mais fazer. Desbravadores, como Miles Davis e Ella. Como Pixinguinha, Villa Lobos, Zé Keti e Garoto, como Tom Jobim. Nunca mais.

Mas o pessoal aí do samba vai ter que me perdoar, pq eu adolesci na Era Disco. Saturday night fever, Earth Wind and Fire, Whitney Houston, Sly and family Stone. E até Olivia Newton John, perdoai! Mas, qdo subo no salto e ataco de diva, com perdão da má palavra, estou dando vez ao morro e, por dentro, descalço os pés, pra me ajoelhar no meu altar. e qdo confesso que o samba é o melhor lugar, sei que dentro de mim mora um groove, e não consigo fazer ele parar de dançar.

é por isso, meu povo do bom jazz, q eu vou pedindo licença e passando, encantada com Erika Baduh, como quem vê a Portela passar. o tantan sapeca num pagode, e lá vou eu, sambando no pé pelo chão de cimento. paro pra admirar o bandolim do Hamilton de Holanda, me deleitar com o violão do Sergio Santos, me encantar com as músicas do Pauleira, e levitar com o sopro do Gabriel Grossi.

aos meus compadres e parceiros, meus irmãozinhos e cumadis, preciso revelar um segredo: adoro um piano que toca quase em silêncio, com uma bateria tocada às vassourinhas, um baixo acústico, e uma melodia sinuosa e bela, pra deitar os cabelos. o jazz me acomoda o coração e faz com que eu me cale, como que pra me educar, me fazer escutar, usar os ouvidos de ouvir.  tb adoro música sem palavras. Mas as letras da MPB são as mais lindas das lindas, com todos os seus poemas que desafiam melodias, e os batuques febris de todas as Áfricas, daqui e de lá. o mundo inteiro é uma louca nação de índios e de pretos, cheia de música de todos os tipos, por que preciso escolher só uma?

abram alas: quero passar com a minha música, entrópica, viralata, mestiça como eu.

*(o nome deste blog é uma homenagem a ele, que tem uma peça chamada “Avant-dernières pensées, ou penúltimos pensamentos)

Estou atacando de produtora desse projeto, que muito me orgulha. Semana passada a parada foi maravilhosa, hoje recomeçamos. Vamos?

Muita gente me pergunta o que escuto, em quem me inspiro, quais as cantoras que admiro.  Isso realmente não importa, nem qualifica ou desqualifica ninguém. É questão de gosto pessoal. Mas, como diz um amigo: Gosto É O QUE se discute. Então vamos discutir.

Tentando definir o que gosto num(a) cantor(a), cheguei a algumas reduções. Uma vez eu ouvi a Leny Andrade dizer, das profundezas de seus graves: “cantora é timbre”. Concordo. Timbre é assinatura e, como tal, é intransferível, inimitável. E sangue. Cantoras exangues e assépticas não mexem comigo. E intimidade. Tem gente que não se apodera da própria voz, como se a voz morasse do lado de fora. Cantora, pra mim, tem que ser dona da voz. Sobre domínio da afinação, coisa rara, tenho um especial apreço. Desafinação e semitonação só se for por conceito. E por fim, a cantora tem que servir à música. A voz é apenas a ponte por onde a música passa, de dentro, pra fora. E a cantora dá a cor, o tom, o perfume.

Para inaugurar nossa série, vou começar pela Leny Andrade, que recentemente me fez chorar durante um show inteiro e voltar no dia seguinte. Coisa que não me acontece nun-ca! Aqui, ela canta Ilusão à tôa, obra-prima de Johnny Alf, que morreu recentemente. Para degustar.

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