infância

29/11/2010

essa calçada é  minha. Posso andar de skate, sozinha, mas só se eu jurar que não vou atravessar a rua. Tá, eu juro. A minha mãe fica no bar da esquina tomando cerveja com os amigos. Ela adora que eu fique muito tempo andando de skate e eu adoro que ela fique muito tempo tomando cerveja com os amigos. Quando já tá ficando tarde, ela fala: “vamos ficar mais um pouquinho?” êba

Eu posso andar sozinha de skate sem atravessar a rua, mas só nesse lado do quarteirão. É bom ir quase até a outra esquina, porque a rua é meio descidinha, e aí eu pego impulso, e quando chego na esquina do bar onde minha mãe tá tomando cerveja com os amigos, eu pulo do skate e ela berra: “cuidado, menina!” “Tá” eu respondo pegando o skate correndo e subindo a rua com ele debaixo do braço. É um pouco longe e às vezes dá medo de ir sozinha, mas nao faz mal, porque é irado quando eu pego impulso lá na esquina e venho zunindo até o bar com um frio na barriga.

Na frente do edifício azul tem uma parte da calçada que dá um salto, tipo um degrau redondo, e eu pego impulso e pulo antes do skate cair no buraco e já saio na frente da portaria de grade verde. Maneiro é quando eu to sozinha, porque senão eu  toda hora tenho que emprestar o skate e não to a fim.

to torcendo pra minha mae tomar mais uma cerveja, aí ela demora mais ainda, compra um sorvete, uma coca, uma  bala e eu vou ficando. Às vezes a gente fica até de noite, é irado. E aí quando eu ando de skate de noite é mais maneiro, porque a rua é só minha mesmo e eu saio voando pela pista, meu tênis de lantejoula rosa brilha e eu voando, voando, voando, voando, voando. Irado.

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