pare. pense. Quantas vezes na sua vida um amigo levou a nova namorada pra te apresentar e ela era gordinha? Olhe em volta. Quantos homens estão andando na rua de mãos dadas com uma gordinha? Quantas vezes você foi a um casamento em que a noiva era gorda? Quantos meninos magros você já viu namorando uma menina gorda?

Será que o fato de uma mulher estar acima do peso faz com que ela não seja amável? Olhando em volta, os homens gordinhos parecem socialmente merecedores de amor, quase tanto quanto os não-gordos. Mas as mulheres, não. Às gordas cabe uma vida solitária e secreta. Por detrás das portas fechadas, longe dos olhares julgadores dessa sociedade hipócrita que vive de e para a aparência, há homens comuns amando gordinhas com quem nunca sairão de mãos dadas na rua. Pq a qq momento vai ter que rolar o teste da praia. O que vão dizer se virem o cara com uma gorda pela mão? Que ele não é homem para ganhar uma mulher do padrão gata do momento? Que a masculinidade dele não é suficiente e por isso ele ficou com a carne de segunda? Como assumir o tesão na gordinha, o prazer que ela pode dar, como qualquer mulher, como explicar que tesão e amor não têm regra formal e que pessoas são sistemas complexos não-definíveis pela forma do corpo. Como é tola a sociedade que escolhe seus afetos pela capa.

Fui gordinha a vida toda. Passei por tudo isso. O tesão entre quatro paredes, o desejo secreto, os relacionamentos de uso interno, a paixão recolhida, cheia de poréns. Encarar a realidade pela primeira vez não é fácil, dá uma sensação terrível de injustiça, pq tudo pode neste mundo, qualquer crime, qualquer sacanagem. Pode cortar um pedaço do estômago, pode colocar um pedaço de silicone dentro da pele, pode injetar uma substância tóxica pra ficar jovem, pode tudo, menos estar acima do peso.

Triste ver garotas gordas em relacionamentos abusivos de todo tipo. Aceitando qualquer coisa em troca do direito de ter alguém pra chamar de seu, como todas as outras. E quantas não-lésbicas gordinhas ficando com outras mulheres gordas? A sociedade desmulheriza tanto a mulher gorda, que ela vai procurar acolhimento afetivo onde não será discriminada, entre iguais.

A gordofobia está na ordem do dia junto com tantas outras fobias socias que são tentativas de normatizar o mundo à semelhança de um ideal de mundo que não há. Fobias de negação da realidade humana tal como ela é: uma grande feira livre de vida, de todas as formas e formatos e tamanhos e cores e sabores e jeitos e caras. A julgar pela lista de lutas sociais do momento, o mundo ideal dos hipócritas seria masculino, rico, hetero, branco, magro, temente a deus e careta. Um grande exército de pessoas idênticas, marchando em direção ao sucesso e à ascenção social seletiva, deixando de fora o mundo real, onde há gordas, pretas, mulheres, viados, idosos, transexuais, pobres, enfermos, fracassos e dúvidas, muitas dúvidas. É nesse mundo que eu estou e que você está. E onde eles, os gordofóbicos, também estão, mesmo que tentem não estar. A perfeição não é do mundo dos magros. A perfeição é o mundo como ele é dado: sortido e multi. Lutemos pelo direito de sermos quem somos, pelas nossas cores vivas.

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questão de gosto

16/06/2014

nunca tive um bicho. amo animais só nos videos do youtube. vejo milhares, platônica.

tenho aflição do olhar transparente dos gatos e jamais recolheria o cocô de um cachorro com saquinho plástico. detesto cheiro de cachorro. e acho um saco qdo vou namorar um cara na casa dele e o cachorro fica do lado da cama ou qdo o gato se esfrega na minha perna.

eu nao gosto de Dali. admiro, entendo a importância. mas nao gosto. adorava qdo era adolescente, mas parei de gostar.

detesto fusca, qq um, de qq época. sempre detestei. nem acho fofo.

gostei de romero britto qdo vi pela primeira vez, a explosão de cores. agora, intoxiquei. mas acho um saco isso de ser proibido gostar dele.

romero britto é o paulo coelho das artes plásticas. mas quem falou que ele faz artes plásticas e q o paulo coelho faz literatura? óbvio que não.

adoro o vinho carmenère daqueles vira-latas do club des sommeliers. acho um néctar dos deuses. custa 17 pila.

não acho bonito mulher grávida. entendo a filosofia da beleza, a vida blá blá, mas acho feíssimo.

intimamente, sempre descredenciei e desconfiei das autoridades. e hoje em dia tem essa coisa insuportável de ter coach pra tudo. ninguém sabe mais fazer nada sozinho: estudar, pesquisar, pensar, malhar, comer, rezar, decidir, viver, administrar carreira, cantar, existir.

amo comer qualquer legume e verdura crus, qualquer um. acho delicioso, de verdade.

preconceito: eu acho que todo gringo tem cecê e não toma banho direito.

adoro feriados, dias enforcados, greves de ônibus, chuvas torrenciais e tudo aquilo que interrompe o mundo.

eu como chocolate todo dia. amargo, beeem amargo. e café, não adoço de jeito nenhum. acho café uma bebida doce.

eu acho o rock um esporte juvenil.

nao sinto a menor culpa de ligar o ar bem gelado toda noite e dormir enroscada num edredon fofo.

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minha rainha

01/06/2014

eu tenho um amigo. ele me ensinou tantas coisas tão importantes pra mim. fomos juntos à faculdade. descobrimos que, mesmo com diferenças etárias e geográficas radicais, nascemos falando o mesmo idioma.

com muito orgulho vi aquele garoto da calça verde virar gente, dono de uma inteligência rara, que o levou a todos os lugares do mundo onde ele esteve estudando, trabalhando, sendo genial, divertido, engraçado, competente, maravilhoso. a carreira deslanchou e ele desabrochou pra vida, aprendeu de tudo, falou línguas. mas tinha dificuldade em encontrar aquele lugar interior onde a gente tira o sapato e se sente acolhido. o mundo pode ser um lugar difícil.

esse meu amigo é gay. faz diferença? faz. e vou explicar porque. ele não foi meu primeiro amigo gay, mas foi o primeiro que me contou que apanhou na rua por ser gay, que mostrou que o mundo podia ser hostil, mas que ele não ia se dar por vencido. ele foi abrindo caminho no grito, na competência: olhem pra mim, eu sou assim! um dia, ele descobriu que ele era o dono do lugar que quisesse, que podia plantar sua bandeira em qq lugar e simplesmente ser.  então ele floresceu, se apoderou de si mesmo, ocupando sua plena potência. e me ensinou a me olhar, a me ser, a exigir respeito como mulher, hetero, cantora, gordinha e carioca. eu.

com ele aprendi a ter intimidade que eu nunca tinha praticado com ninguém. aprendi a falar o indizível e a ouvir o inaudível, humanos, simplesmente humanos sobre a terra. por ele, com ele, trabalhei um monte de preconceitos, um monte de olhares viciados, aprendi montes de coisas e me transformei numa pessoa menos careta.

lindo, gato, bem sucedido profissionalmente, altos e baixos no amor, diversão em alta, produtividade bombando. ele agora resolveu se divertir um pouco mais e virar drag queen. falamos de maquiagem, de perucas, de truques femininos. eu e meu amigo. e lá vou eu, majestade, aprender a domar outros preconceitos, a fazer o dolorido exercício de aceitar o desconhecido sem julgar, lá vou eu detonar outros vícios do olhar e ver outras novidades nunca dantes navegadas. e assim, o mundo se esclarece, pela via do amor. tive sorte de te encontrar, my queen, minha rainha louca!

olha vem comigo aonde eu for, seja minha amada e meu amor, vem segui comigo meu caminho e viver a vida só de amor

 

mea culpa

22/03/2013

somos todos iguais. Tá, uns mais iguais que outros. uns completamente diferentes. passamos a vida procurando nossos pares e deles nos aproximamos e ficamos agrupados assim, por afinidades. algumas reais, algumas presumidas, algumas apenas desejadas. nos aproximamos do que nos identifica, ou do que desejaríamos que nos identificasse. mas a vida não permite esses territórios fundamentalistas. no dia a dia, a gente esbarra com gente – de bem – totalmente diferente da gente. amigo de amigo, amigo de parente, parente de parente, parente de amigo. não tem como evitar e nem deve. é saudável saber respeitar outros mundos. o exercício diário de tolerância com a diferença, mesmo aquela que nos agride os valores, que nos incomoda, que nos indigna, é um dever de casa da vida, que recebemos todo dia, se quisermos, pra aprender alguma coisa. me envergonho de pensamentos preconceituosos, de pré-julgamentos, de achismos, de definições apriorísticas, de classificações e antecipações indébitas. me envergonho da minha mente tacanha disfarçada de aberta e disponível.  todos os dias, quero tirar de mim essa mentalidade classe média cega e burra e alçar voos do tamanho do mundo real, onde tudo pode, onde tudo existe, onde tantas verdades co-habitam.

essa é a minha oração. é por isso que, todos os dia, bato no peito, peço perdão e confesso: mea culpa, mea maxima culpa. prometo melhorar. amém.

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vida dura

06/10/2009

um morador de rua entrou na Sendas do Leblon, entrou na fila do caixa, pediu um maço de cigarros e pagou. A moça do caixa deu o troco pra ele.

“E a nota?” – Ele perguntou?

“Quer nota de cigarro?” – Ela desdenhou

“É, os segurança tá tudo de olho em mim, vão me ver saindo com cigarro,  já viu…” – encerrou.

It could be worse. It could be raining…

tijolo por tijolo num desenho lógico

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