minha rainha

01/06/2014

eu tenho um amigo. ele me ensinou tantas coisas tão importantes pra mim. fomos juntos à faculdade. descobrimos que, mesmo com diferenças etárias e geográficas radicais, nascemos falando o mesmo idioma.

com muito orgulho vi aquele garoto da calça verde virar gente, dono de uma inteligência rara, que o levou a todos os lugares do mundo onde ele esteve estudando, trabalhando, sendo genial, divertido, engraçado, competente, maravilhoso. a carreira deslanchou e ele desabrochou pra vida, aprendeu de tudo, falou línguas. mas tinha dificuldade em encontrar aquele lugar interior onde a gente tira o sapato e se sente acolhido. o mundo pode ser um lugar difícil.

esse meu amigo é gay. faz diferença? faz. e vou explicar porque. ele não foi meu primeiro amigo gay, mas foi o primeiro que me contou que apanhou na rua por ser gay, que mostrou que o mundo podia ser hostil, mas que ele não ia se dar por vencido. ele foi abrindo caminho no grito, na competência: olhem pra mim, eu sou assim! um dia, ele descobriu que ele era o dono do lugar que quisesse, que podia plantar sua bandeira em qq lugar e simplesmente ser.  então ele floresceu, se apoderou de si mesmo, ocupando sua plena potência. e me ensinou a me olhar, a me ser, a exigir respeito como mulher, hetero, cantora, gordinha e carioca. eu.

com ele aprendi a ter intimidade que eu nunca tinha praticado com ninguém. aprendi a falar o indizível e a ouvir o inaudível, humanos, simplesmente humanos sobre a terra. por ele, com ele, trabalhei um monte de preconceitos, um monte de olhares viciados, aprendi montes de coisas e me transformei numa pessoa menos careta.

lindo, gato, bem sucedido profissionalmente, altos e baixos no amor, diversão em alta, produtividade bombando. ele agora resolveu se divertir um pouco mais e virar drag queen. falamos de maquiagem, de perucas, de truques femininos. eu e meu amigo. e lá vou eu, majestade, aprender a domar outros preconceitos, a fazer o dolorido exercício de aceitar o desconhecido sem julgar, lá vou eu detonar outros vícios do olhar e ver outras novidades nunca dantes navegadas. e assim, o mundo se esclarece, pela via do amor. tive sorte de te encontrar, my queen, minha rainha louca!

olha vem comigo aonde eu for, seja minha amada e meu amor, vem segui comigo meu caminho e viver a vida só de amor

 

tenho amigos que se consideram os super machos-alfa do bando, e passam o tempo TODO imitando os viados. O teor da brincadeira, que fazem entre si, sempre tem a ver com sexualidade. Na hora de pegar no pé uns dos outros, se divertem apontando as atitudes de “bichinha”, “coisa de viadinho”, de boiola, de gayzinho. São meninos bobos, eternamente medindo o pinto, e sempre se sentindo pequenos, pq não sabem ainda que essa medida é subjetiva. Afinal, macho que é macho não relativiza nada. É pau, é pedra.

O discurso que usam em público é o tradicional “não-tenho-nada-com-isso-cada-um-é-feliz-como-quer-só-não-vem-me-cantar”, mas é mentira. Não sabem como lidar com as diferenças, pq papi e mami ensinaram a separar pessoas por cor, práticas sexuais e conta bancária. Não cresceram, não amadureceram, ficaram no triste limbo da não-reflexão, do conforto da ignorância. Falam, em público, o que acham que “pega bem”, mas entre eles, soltam a franga, obcecados pelos trejeitos e práticas gays. Pela liberdade que não conhecem. Eles se ocupam muito mais em zoar as bichas do que em tentar ser os homens superiores puro-sangue que acham que são, mas não são. Isso, sim, é ter problema sexual.

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vou de taxi

24/07/2013

eu dou conversa pra todo mundo. faço esse tipo, assim, dada. quando entro num taxi, já dá pra sentir, na hora, se o cara vai ser um bom papo ou um mala. tem uns que nem respondem quando vc dá boa tarde. nesse caso, é melhor nem começar.

mas, em geral, eles são bons de papo e falam mais do que escutam, como fazem os dentistas. aliás, como falam os dentistas! eu ia a um que adorava contar piadas. agora me explica como é que se faz pra rir com a boca escancarada e anestesiada? um drama…

hoje entrei no taxi, vindo de uma gravação, na Barra. a ida demorou meia hora, a gravação, 10 minutos, um jingle pra Caixa, aquele velho “vem pra Caixa você também”, só que reloaded. na volta, neste inverno súbito e glacial, debaixo de chuva, fiz sinal e entrei no primeiro taxi que apareceu. motorista garotão, com pinta de surfista, cheio de palavrão e gíria na fala. começou falando que os jovens da JMJ não estão nem aí pra chuva e frio, já que adolescente acha tudo bom e que quem fica chato quando fica velho, sempre foi chato. em meio a mil teorias do tipo, ele fala:

– “meu enteado é um chato. tem 15 anos e já é velho. nao sai de casa pra nada, vive colado no computador e no video game. não quer nem namorar. moleque tem que ser criado na rua, pra ficar sabendo o que tem no mundo. ele não. ele puxou o pai, que é um chato, um babaca, paradão. o que eu acho é que esses garotos ficam o dia todo jogando game, e é por isso que depois fica tudo gay. quer dizer, alguns ficam, né? em vez de ir pra rua, pra ver mulher e ter vontade de namorar, não. ficam só  no game, só no game. acaba tudo viado”.

sem palavras, deixando o garotão levar a conversa, chegamos ao Leblon, onde salto, pensando: é… vai ser uma longa caminhada…

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