tatibitati

10/01/2011

As crianças são budistas de nascença. Quando estão ainda na época da inocência, elas não têm auto-imagem, nao têm um nome a zelar. Simplesmente são o que são. Elas não se olham no espelho, antes de sair e pensam: minha bochecha tá fofa? minhas dobrinhas estão mordíveis? essa fralda me deixa gorda? Simplesmente vivem, se relacionando com o que está em volta, exclusivamente no momento presente, sem nunca se preocupar com o futuro ou remoer o passado. O universo é novo, o tempo todo, para as crianças. Elas apreendem, experimentam, provam, cheiram, pegam, largam, escolhem e podem mudar de idéia à vontade.

Um bebê não pensa: ah, vou deixar isso pra amanhã; pra um bebê não existe amanhã. Só existe o aqui e o agora. Se ele quer alguma coisa, ele berra, se joga, pede, chora, esperneia.  Se não quer, nao tem santo que o convença. Se ele tem sono, dorme, se tem fome, come, se tem medo, chora. Gosta das pessoas pelo que elas são com ele, independente de cor, raça, credo, peso, formação ou classe social. Se não gosta de alguém, não vai no colo de jeito nenhum e nunca, nunca finge ou mente.

Depois, vão desiluminando com o tempo e um dia, pimba!, ficam assim, gente como a gente…

minha amiga mabel e eu, no tempo da delicadeza

 

Com urgência, entrei na primeira ótica que vi, pra comprar lentes de contato. Fui tratada como uma rainha. Pessoas simpáticas, hiper eficientes e à vontade, sem excesso de treinamento. No fim da compra, papo descontraído, o cara que me atendeu dá uma geral nos óculos de sol que estou usando, me dá um brinde e abre os braços para me dar um abraço: “Felicidades pra vc!”, nos abraçamos afetuosamente. A moça também vem me dar um abraço: “Deus te abençoe, linda!”. Tudo me pareceu verdadeiro. Saltitei pra fora da loja, com 10 anos de idade, bombeando amor universal pelas ruas de Ipanema.

Quando a gente tá contente… baratotal. Aquela felicidade hare krishna de sorrir pra tudo, com verdade. Estar contente é o que? Contente vem de contentamento, que o Aurélio descreve como: “sentimento de prazer, alegria.”

Hoje confirmei que o contentamento, pra mim, não tem nada a ver com alcançar as condições que estabeleci como básicas para ser feliz, tipo a grana, o trampo, o amor.  A tal “mitologia da felicidade”: se eu tiver tanta grana, tal trabalho e um amor x, então serei feliz. Mas tem a ver com a decisão de ficar contente. Atualmente estou em treinamento íntimo pra sempre escolher sorrir, e mudar o curso da história daquele momento na base do sorriso.

Peço perdão a todas as correntes que não vou citar, para dar a minha teoria do que é realmente transformador: as lentes e a prática do contentamento. Mudar a minha perspectiva do mundo muda o mundo para mim.  E nao o mundo em si, que é sempre exatamente o mesmo fucking bloody multifacetado wild mundo. E nunca vai poder ser diferente, porque ser mundo é ser isso, é ser tudo.  Tipo gente. Gente é tudo.

*li esse conceito no The cow in the parking lot – A Zen Approach to Overcoming Anger, de Leonard Scheff e Susan Edmiston, que acabei de traduzir pra Ed. Objetiva. Merece a leitura, para além dos domínios da autoajuda.

idas e vindas

21/07/2010

como morre gente nessa vida! nas últimas semanas foi um strike. um tal de velório, missa, enterro, cinzas ao mar, uma loucura. Mesmo assim, a vida insiste em gritar com esse sol lá fora, esse azul, a praia cheia de micro peixinhos ganhando a correnteza, singrando os mares, gaivotas em bando ocupando o espaço. A energia da vida é inexorável. A vida está e é.

Lembro do Neiva, professor que tive na UFF, que dizia que um dia ele se deu conta de que quando ele morrer, nada vai mudar no mundo. Se estiver sol, vai continuar sol. Sad, but true. O mundo é um moinho, a vida é uma montanha russa, os cães ladram, a caravana passa e tudo está exatamente onde deveria estar.  Melhor correr.  Antes que a gente vire, também, cinzas, neste mar de vida. Não é bom nem ruim, é assim.

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