sempre atrasada, paro na esquina pra pegar um taxi até o metrô mais próximo. um cara me para e pergunta: “onde pego o ônibus pro metrô de Ipanema?” Indiquei o ponto, enquanto entrava no taxi, e pensei e falei ao mesmo tempo: “to indo pra lá, quer carona?”. O cara, entre atônito e divertido, topou na hora, educadamente. completamente estranhos um pro outro, entramos naquele taxi maravilhosamente refrigerado, numa tarde de 35º no Leblon. Convidei primeiro, pensei depois! confiei, pronto. ele disse: “obrigado! agora to indo pra faixa de Gaza. Meu trabalho fica entre duas facções, entre duas favelas não pacificadas. E a gente lá… no meio do tiroteio…”

meu telefone toca sem parar e eu mal consigo continuar nosso papo, até quase Ipanema, qdo trocamos impressões sobre o emprego dele, como controlador de perdas numa grande cadeia de varejo popular, e dos preços absurdos praticados no Rio.  Eu estava a caminho da primeira audição do meu CD solo, e de uma longa sessão de edição de voz. Concentração e expectativa em alta. a conversa me atravessava. nos despedimos na porta do metrô, ele saiu correndo, não sem antes me oferecer seu telefone, pra qq coisa. Recusei, desejei sorte. Ele me deu um quase-abraço fraterno, apertou minha mão: “Agora é vida que segue, obrigado!”. Retribui o quase-abraço.

Qdo entro no vagão lotado, lá está ele, sentado. Ele acena e levanta, imediatamente, cedendo seu lugar. Aceito a gentileza, sorrindo. Me ofereço pra segurar sua mochila e engato, sem perceber, uma conversa com a moça sentada ao meu lado.

Ela me conta, quase do nada, que está perdida no metrô. Mas que está feliz, pq foi seu primeiro dia de trabalho, como diarista, na casa de uma pessoa que lhe deu a chave da porta e saiu. Sem desconfiança, sem medo. Está grata e satisfeita por ser alvo de confiança. Está em paz, sem pressa de chegar em casa, embora prefira andar de ônibus: “A melhor coisa que tem é a confiança”.

Quando piso de novo na minha vida, no estúdio, ouvindo o disco pelo qual tenho esperado com tanto anseio, percebo que ali também estou cercada de gentileza, respeito e confiança. E reforço minha crença nesse grato caminho por onde pretendo sempre passear.

alguém comenta que a fulana perdeu o marido pq “não se cuidou”. Não se cuidar, aí, significa que a mulher não manteve a aparência que devia: malhada e magra. “A concorrência é forte”, dizem, “mulher tem que correr atrás, senão perde o marido” blá blá.  Carinho, amor, amizade, parceria, tesão, nada disso importa, só o corpo com tudo em cima. Não adianta ficar bonitinha, arrumadinha, cheirosinha. Não adianta ser gente fina, companheira, trabalhar feito uma escrava pra pagar conta, criar filhos, nada disso adianta. Tem que estar com tudo em cima. Fico imaginando que essa mesma pessoa deve achar que, por estar fora desse padrão, eu não mereço mesmo ter um marido. Se quisesse ter um marido, eu deveria “correr atrás” pra ganhar da concorrência. Interessante essa seleção natural de gente. Mulheres não magras e malhadas merecem mesmo perder o marido. Talvez devessem ser eliminadas, para aí termos uma sociedade toda de “gente bonita”. Neguinho inverteu completamente os valores ou é impressão minha? E o homem? Pra esse tipo de mulher, homem pode tudo, pode qq coisa, pode até ter outra(s) mulher(es) na rua, contanto que volte. A mulherada sempre perdoa. Qualquer semelhança com os anos 50 é mera coincidência.  Coisas do modernérrimo sec XXI…

 

 

 

 

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