aceitação

29/05/2014

nada existe, só o momento que invento, este momento, que passa por dentro de cada letra de cada uma dessas palavras e já não é mais o mesmo na próxima. e assim, o tempo escorrega, aquoso, volátil, esquivo.

tenho pavor do futuro. que bom, o futuro a deus pertence.

a mim só pertence o presente.

2014-04-23 00.01.54d

 

 

 

coragem

25/11/2012

com os sentidos aguçados por uma tarde no estúdio, gravando, entro num ônibus, no Jardim Botânico, e vou indo pra casa. tô sem dinheiro, numa prontidão sem fim, sem hora, sem compromisso. missão mais que cumprida. se eu pedir mais ainda da vida, acho que ela se zanga.

fecho os olhos. a medida boa da tensão. entra um moreno no ônibus, me olha. olho de volta. libido acesa: viva.

fecho os olhos, pensando em como tenho a sorte de estar onde estou e de ser quem eu sou, e me enjoo, fortemente, da minha forma de pensar. sempre tudo arredondado – como se fosse possível dar forma aos pensamentos -, e vou classificando, criticamente, minha forma de ver a vida: doce, macia, côncava, intra, yin. receptiva, feminina, toda potência e majestade. enjoada, sorrio de mim. quanta ilusão há nas imagens dos momentos, nesses instantâneos de felicidade. aproveito pra relaxar, pq sei que isso não dura: daqui a pouco estarei outra, mudando como mudam os ventos, as florações, as marés e essas coisas da natureza. na próxima volta do parafuso estarei dura, chata, puta, azeda, irônica, convexa, masculina, yang.

sigo pensando nas formas e chego no meu bairro, lindo, caótico, no primeiro dia dos próximos 4 anos de obras. reclamar? nem devo. o Rio de Janeiro está se redesenhando. penso na história das cidades, nos movimentos das massas e me repreendo: porra! de novo pensando redondo!?

duas amigas vêm à minha casa beber e falar.falamos todas ao mesmo tempo, como só as mulheres conseguem, escutamos tudo e morremos de rir. a noite nunca tem fim.

me falta agudizar as coisas, deixar as arestas cutucarem, estourar a luz. me falta coragem. logo eu, Andrea, cujo  significado, dizem, é exatamente esse: coragem.

amanheceu.

porque sim*

06/05/2011

Vc sabe que eu sou, acima de tudo, apreciadora dos encontros. Os bons encontros dão alma à vida. É a eles que atribuo minha riqueza, são eles que movimentam e poetizam a vida. No domínio dos encontros verdadeiros não há a vigilância da moral ou regras de tempo-espaço. Há apenas pessoas na mais completa redução, na essência. Sem culpa, sem salamaleques.

Qdo a gente se permite viver para deixar que o momento brilhe, a gente descobre que tem um monte de coisas entre uma coisa e outra coisa, coisas sem nome, com faces variadas. Verticais, intensas, breves, meteóricas. Ou horizontais, longevas, perenes. Tantas qualidades de encontros, tantos momentos voláteis. Fotografia. Tempus fugit.

A gente tem o hábito de rotular para entender as coisas e, no momento em que rotula, acaba por matar a chance de deixar aparecer o que não tem nome. Sou a favor dos encontros sem nenhum nome, sem nenhuma catalogação apriorística. Esses ficarão pra sempre na prateleira da importância, da permissão, da pausa para o jazz da vida, do viver o que há pra viver, do combinar, do surpreender-se. Sem nomear e etiquetar. Só a puríssima arte de encontrar. Seja no Estádio da Luz, em Matosinhos, no Leblon ou na Lapa.

*post resposta ao email do Pedro, um encontro overseas, facilitado por este blog.

vc mostrando as coisas que eu nunca vi, eu mostrando as coisas que vc nunca viu. risadas. encontro mais que perfeito. na cozinha, mesa sempre posta, vinho, cerveja, queijo azul, pão sueco, tomatinho, azeite. a gente mudava de lugar e falava, falava, falava, falava. troca a música, ah, troca você.  e de repente era perfeito não falar mais nada e eu cair dentro de vc, vc de mim. e depois a gente tomava sorvete de chocolate ou eu fazia ganache. e a gente fumava e bebia litros e mais litros de água, fosse naquele verão árido da despedida ou naquele inverno doce em que vc gostou de mim e disse: “Assim, me apaixono e fico”. “Fica, fica!”, eu desejava, fervorosa e muda, enqto a gente se abraçava e se beijava fundo e eu fechava os olhos com força, emanando: “Fica, fica”, e aí, antes que eu pudesse dizer qq coisa,  vc me sedava, me enredava, me ganhava, me levava. Nada daquilo era meu, nem seu.  Acho que foi por isso mesmo que eu nunca disse, em voz alta: “Fica!”.

E se tivesse dito? E se tivesse dito?

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