la luna

16/06/2011

o dia era da lua. eu sou canceriana, né? lunar, lunática. fui pedalar e ver o eclipse da lua. vi a lua branca, cheia perfeita, redonda, desaparecer às mordidas, enqto eu pedalava do leblon ao arpoador, ida e volta, ida e volta. o eclipse  enegrecendo tudo,  até que se cumpriu, cobriu, descobriu. o arpoador rugia. faz frio nesta cidade.

depois, noite alta, fui pra lapa, pra rua. A lua, a noite toda, novamente em plenilunio. até beijei uma boca, rapaz novo. pecado, pensei, tadinho, pensei, me fui. no caminho de volta pra casa, a danada da lua me olhava, pela janela do taxi, da lapa ao leblon. chegando em casa, quase de manhã, a lua ainda molhava a minha cama pela janela aberta, na hora de fechar a cortina.

amanheceu, fechei o blackout . ela está encoberta pela manhã. eu, também. nós, as selenitas.


ebony and ivory

06/04/2011

A minha mão parecia a mais branca das brancas quando nossos dedos se entrelaçavam ou quando ele enfiava o rosto na palma da minha mão, que abria cuidadosamente e beijava, demoradamente e com devoção, olhos fechados, como quem beija o centro de tudo. A pele dele era preta, sem metáforas. No dedo anelar direito, ele tinha uma aliança fina, lisa, e uma larga, desenhada. Prata. A minha tinha sóis e luas, no dedão da mão direita. O braço era magro e rijo, glabro, suave ao toque, pétala de flor. A luz artificial fazia o negro do rosto brilhar em tom de cobre escuro, de cobre no tempo. De que reino distante terá vindo essa turmalina? (Nasci na Rocinha, moro no Estácio)  Se alguém quer matar-me de amor que me mate na Lapa. O nariz de aba larga, olhos amendoados, firmes e pequenos. Lábios cor de açaí, fartos, contornados a mão, irrigados, viçosos, dizendo: beijo. Sabia que a correnteza daquele rio ia envolver o que encontrasse pela frente. Línguas, lábios carnudos, lábios molhados, lábios quentes, dentes. A cabeça a zonzear: socorro, vou mergulhar. “Adoro seus olhos, sua luz de dentro, deixa eu te beijar”, vc pediu, me olhando nos olhos e segurando minha mão. “Me beija, me beija por favor”, vc pediu. E aí vc deu um gole no gengibre e aí a sua boca minha boca sua língua minha língua. Tudo. Seguiram-se explosões subatômicas, fumo, vinho, ópio, flautas de pã, fogueiras para o Gamo-Rei, cantos de sereia. Miscigenação. Sua boca feita pra minha feita pra sua. Tenho medo de deixar vc me tocar mais longe e mais fundo. Posso desfalecer com a pressão exata dos dedos, com os segredos ditos no ouvido e, acima de tudo, com o carinho extremo no trato, afeto tesão quentura e ritmo. “Seu beijo é aurora boreal”, vc sussurra num rap que improvisa pra mim. Por um instante, ocupamos o mesmo lugar no espaço. Nos beijamos de mãos dadas, solenes e castos, olhamos dentro dos olhos, calamos. “A luz da sua retina me ilumina”, você versa. O beijo esquenta, a pulsação muda, o gemido escapa: vc pra mim. A manhã grita, ruidosa, os ônibus cheios guinchando os freios na Lapa. Nós orbitando, distantes dali, as estrelas de primeira grandeza daquela constelação, café sem açúcar, pão na chapa. Brilhávamos, incandescidos pela química das misturas. Aqui agora tudo. Agora que nos tocamos, estamos condenados. Trocamos as alianças. Na secretária eletrônica: “Seu beijo é aurora boreal. Volta, mulher, volta pra mim”.

%d blogueiros gostam disto: