Era um belo dia de sol no bairro carioca do Leblon, que fica na beira da praia mais calma da cidade, menos badalada, mais vazia. Fui encontrar um amigo. Fazia sol de verão em pleno inverno, temperatura alta, mar perfeito. Levei duas tangerinas numa sacolinha, uma para cada um de nós. Conversamos, mergulhamos, o mar subiu molhando nossas coisas, a canga ficou cheia de areia. Peguei na sacolinha, lembrei da tangerina, peguei uma pra mim: um estouro. Meu amigo não quis a dele. Coloquei as cascas e bagaços na sacola e joguei no lixo. Sobrou uma tangerina.

Eu havia estacionado a minha bicicleta ali perto e pretendia dar a minha pedalada habitual até o Arpoador, onde paro a bike e parto para minha caminhada pela areia, de frente para o sol e para a paisagem mais linda do mundo: o Morro Dois Irmãos ao entardecer. A sacola foi pro lixo, eu estava sem bolsa. Só carregava a pochete daquelas de montanhismo, onde cabe a garrafa de água, um documento, um chapstick e o dinheiro da água de coco da volta. O que fazer com a segunda tangerina, que eu não queria comer e não tinha onde colocar?

Agosto é um belo mês para as tangerinas: mexeriquinhas pequenas, pokans enormes de polpa meio ressecada e casca solta, mil tipos… Minha favorita é a murkot, aquela de casca agarrada na polpa, hiper suculenta, doce e carnuda. Na hora em que mordo um gomo de tangerina, quase acredito na existência de deus. Comprei muitas, minha casa está um showroom de tangerinas. Nesta época do ano, há cascas de tangerina espalhadas para secar, ao sol, nas janelas. Seco as cascas para fazer mil coisas. Uso para aromatizar a água básica do chá, uso ralada no tempero de peixe e frango, uso no purê de abóbora. As folhas, eu seco, guardo e uso muito, muito mesmo, durante todo o ano, em receitas que vou inventando na hora. Bolo de tangerina com casca e tudo é delicioso. Sopa de shiitake com folhas de tangerina. Frango assado no suco de tangerina é demais, casca de tangerina glaçada é o que há, filé de peixe assado com folhas de tangerina é “exquisite’. Isso tudo para explicar o quanto eu amo tangerina e o quanto acho que ela é a vedete da estação.

Mas o que fazer com a tangerina que sobrava? Olhei em volta e pensei: é fácil! Vou oferecer praquela ali, qualquer um vai querer. “Moça, vc quer uma tangerina?” Ela secava o corpo com a toalha, olhou, sorriu: “Não, obrigada”. Ao lado dela, um trabalhador, de macacão, descansava à sombra do quiosque. Quando cheguei perto dele para oferecer a fruta, ele nem me olhou. Foi logo balançando a cabeça em negativa e acenando com o dedo do não. Tangerina nem pensar. O rapaz que trabalhava no quiosque também não quis. A moça que passava nem me deixou explicar, passou direto, me evitando. Me senti a bruxa da Branca de Neve oferecendo uma maçã envenenada aos transeuntes. Por diversão e teimosia, decidi tentar até que alguém aceitasse minha doce e deliciosa tangerina. Nada. Todo mundo com medo, passando direto por mim, me olhando como se eu fosse dar a tangerina e pedir alguma coisa em troca. Eu só queria dar uma tangerina doce deliciosa e perfeita para alguém e ninguém queria. Eu ria. Dois surfistas riram, achando tudo estranho: não, obrigada. Um guardador de carros declinou: acabei de comer um doce. Um senhor que caminhava rapidamente entendeu meu drama, mas também não quis. Dois pescadores não quiseram, mas um deles disse: “obrigado pelo seu bom coração”. Por fim encontrei um homem sentado numa cadeira, ali ao lado do quiosque. Moço, vc quer essa tangerina? “Ô, meu deus, que sorte, que maravilha, não poderia ter aparecido em hora melhor, sou louco por isso!” Pegou a tangerina, levantou e começou a descascar a bela fruta, feliz da vida. Um outro, vendo a cena, disse: “Da próxima vez traga duas, eu também adoro, vou ficar na vontade”…

Moral da história: a sua tangerina pode ser a mais doce, mais perfeita, a mais deliciosa do planeta. Você pode estar oferecendo a sua linda tangerina de graça, com um sorriso nos lábios. Mas nem por isso você vai encontrar alguém que a queira. Isso também acontece com a gente, com nossos sentimentos, com as coisas que temos para oferecer para os outros e para o mundo. Nem sempre somos compreendidas, aceitas, queridas e desejadas. O que não significa que o que temos para dar não é bom. Às vezes, demora para encontrar quem queira nossa tangerina, mas isso não quer dizer que seja melhor a gente tentar oferecer maçãs, quando maçãs não estão no cardápio. Demora, mas quando a gente acha quem realmente aprecie nossa doce tangerina, a gente entende o sentido da vida. A gente entende o porquê da nossa barraca nessa feira moderna…
SAM_0571

 

*post publicado originalmente no primeiro endereço deste blog, não sei exatamente quando. escrevi quando a minha afilhada mais velha, a Ju, terminou um namoro e ficou arrasada pq o menino não queria mais ela. Lembrei do texto agora pq minha afilhada 2, a Mari, também terminou um namoro e tá arrasada. As minhas meninas, não! Se soubessem como são lindas!

garotos

28/11/2012

garotos te abordam no bar e falam: oi, vc por aqui? que sorte a minha!

garotos cochicham coisas no seu ouvido: sempre fui louco por vc, sabia?

garotos compram sorvete pra te agradar, um minuto depois de vc dizer que ama sorvete, mesmo vc no bar, bebendo, 6 da manhã.

garotos falam sobre o quanto acham vc linda e maravilhosa e gostosa e cheirosa. E no quanto sonharam afundar o nariz no seu cabelo, só pra sentir seu cheiro.

garotos confessam, depois de te beijar, que nunca tinham beijado um beijo assim.

garotos sussurram na cama: nunca senti isso antes. preciso de uns dois dias com você…

garotos suspiram e falam: diz que vc é só minha, diz! quarta feira vamos fazer isso tudo de novo?

ai, vc entra no chuveiro. e qdo volta, ele virou uma outra pessoa, que te dá um beijinho xoxo, dá uma desculpa qualquer, se despede sem te olhar nos olhos. nunca mais aparece, nunca te procura pelo facebook e jamais telefona pra vc. the end.

depois, as mulheres é que são loucas.

dia dos namorados

11/06/2012

Naquele tempo, tinha gente que começava a namorar na semana anterior e terminava logo depois, pra não pagar o mico social de não ter com quem passar o tal dia. Outras vezes, a pessoa esperava passar o dia dos namorados pra terminar um longo namoro: “Po, não vou fazer essa sacanagem, né? Deixar o cara sozinho no dia dos namorados”.  Ou então, no meio de uma crise daquelas, todo mundo ficava de altos por um dia, só pra não perder a data. As coisas tinham lá suas bobas importâncias, e a gente ainda nem tinha se ligado que a data é comercial, feita pra vender presente, que papai noel não existe e que nem deus existe. naquele tempo, ainda havia deus. e aqueles sonhos.

compra roupa nova, faz unha, depilação, cabelo. será que seremos felizes como deveríamos, hoje, já que todos os casais brasileiros deveriam comemoram o amor? Será que conseguiremos ser assim tão felizes com data marcada, com fila no restaurante, aquele que tem fondue e luz de velas, ou aquele japonês que tem salinha reservada, para podermos, enfim, entrar na fotografia ou no filme em que se espera estar nesse dia? Amando, sendo amados, lindos, felizes, sorridentes. E depois desse momento romântico em que a gente troca presentes, em que ele terá adorado o que eu dei e eu terei adorado o que ele deu, nos  beijamos longamente e fazemos um brinde, olho no olho. Pode ser que a gente peça uma garrafa de espumante, ou de sakê, coisas que a gente não faz normalmente. Mas hj a gente tem que ser feliz a qq custo, então, brindemos.

Esquece tudo, amor, hj é o nosso dia, dia de comemorar a felicidade de não fazermos parte do bloco do eu sozinho. Depois,  ainda temos que ir pro motel e tem que ser uma noite inesquecível. mesmo que vc esteja cansado, q eu tenha que acordar cedo amanhã, mesmo que eu e vc nem estejamos assim, nesse momento exatamente sexy. Mas vamos fazer parte desse filme logo e encarar a fila do motel mais barato, pq esse super caro nao dá pra gente. Ficamos no carro, esperando vagar uma garagem e lá vamos nós pro test drive do amor. a felicidade nunca foi tão estressante.

 

aí vc conhece um cara, de tt que vc vê ele todo dia caminhando na praia, anos e anos a fio. quer dizer: eu ando. ele fica parado. Estou na fase super herói: mulher invisível… pois então. O cara nem é lá grandes coisas, mas é simpático, conversamos umas duas vezes, ele cheio de charme. Defeito 1: fuma cigarro e  cigarro não dá. Primeiro pq nao dá, mesmo, é a burrice mais burra da humanidade. Segundo pq eu sou cantora e ex-fumante, tenho que manter a distância.

Um dia, ele me chamou pra tomar um drinque. Reparei que ele estava com um boné daqueles com o emblema da polícia de Nova York (!). Deixa de ser preconceituosa, por isso que vc nao arruma namorado!!! Ok, deixa ele, pensei, deve ser uma coisa meio hip hop. Na segunda vez em que ele me chamou pra tomar um drinque, ele estava com uma bermuda cuja estampa era a bandeira dos Estados Unidos. Hmmm. Depois foi só confirmar a sequencia de camisetas  e – o pior – a conversa que ouvi dele falando maravilhas sobre… Miami. Sorry, folks, pior que um fumante só mesmo um adorador dos Estados Unidos.

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