sétimo dia

19/02/2016

o filho, que nunca foi de sorrir muito, agora sorri amarelo para todos que chegam e oferecem os braços abertos para o acolhimento. a filha, que sempre sorri, chora toda vez que alguém chega perto. a viuva mantém um sorriso de monalisa, o olhar um pouco parado, enquanto os parentes chegam trazendo um bolo ou um docinho ou um biscoito ou algo pra comer no lanche. a atmosfera é de uma festa estranha, onde as pessoas queriam estar todas chorando, mas se alternam entre contar histórias sobre o morto e a rir muito alto, talvez pra espantar a dor, talvez pra que todos lembrem que a vida continua apesar da morte. não é ruim, é uma forma de todos saberem que sim, vai continuar tudo igual, mesmo quando for a nossa vez, nenhum sol vai deixar de brilhar. vamos nos misturar à paisagem e tudo, tudo vai continuar perfeitamente como é. aproveitemos, pois, enquanto o sol ainda está brilhando para nós, todos os dias, retumbantemente lindo. um brinde à vida!
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com a perspectiva da primeira cirurgia da minha vida, tenho pesadelos de morte e acordo com o coração na boca. embora eu tenha apenas uma condição mecânica adversa que pode (e deve) ser corrigida, sinto como se estivesse me oferecendo em sacrifício. morro de medo e vertigem e quase todo dia tenho um episódio de pânico e desisto: foda-se, vou sentir dor pra sempre, já acostumei, mesmo. a dor é minha, ninguém tasca. Mas, depois, quando a dor me tira o rebolado, o sono, o suingue e a simpatia, eu cedo. E rezo por um milagre enquanto, a contragosto, me preparo.

distraída nas minhas mil dores, esbarro num rapaz sorridente, que cruza, pé ante pé, o meu caminho, cada dia um passo.  moribunda  que estou, descreio que eu possa ser o alvo de tamanho sorriso, graça e desejo. mas, surpresa, aceito esse convite pra mais uma contradança. e logo percebo um sol sentado em meu sofá, irradiando luz, sorrisos, música e carinho.

estamos envoltos nessa conexão surpreendente –  mudamos o eixo da terra em uma noite -,  e um vórtice de energia passa por dentro da minha casa a cada vez que a gente se toca e sorri. a paz reina, soberana. eu sorrio.

experimento a polaridade absoluta deste momento, ora no claro, ora no escuro, ora no yin, ora no yang. passo do frio ao calor, do macio ao áspero, do medo ao conforto.

tenho apenas uma certeza: estou viva. bem viva.

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idas e vindas

21/07/2010

como morre gente nessa vida! nas últimas semanas foi um strike. um tal de velório, missa, enterro, cinzas ao mar, uma loucura. Mesmo assim, a vida insiste em gritar com esse sol lá fora, esse azul, a praia cheia de micro peixinhos ganhando a correnteza, singrando os mares, gaivotas em bando ocupando o espaço. A energia da vida é inexorável. A vida está e é.

Lembro do Neiva, professor que tive na UFF, que dizia que um dia ele se deu conta de que quando ele morrer, nada vai mudar no mundo. Se estiver sol, vai continuar sol. Sad, but true. O mundo é um moinho, a vida é uma montanha russa, os cães ladram, a caravana passa e tudo está exatamente onde deveria estar.  Melhor correr.  Antes que a gente vire, também, cinzas, neste mar de vida. Não é bom nem ruim, é assim.

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