sétimo dia

19/02/2016

o filho, que nunca foi de sorrir muito, agora sorri amarelo para todos que chegam e oferecem os braços abertos para o acolhimento. a filha, que sempre sorri, chora toda vez que alguém chega perto. a viuva mantém um sorriso de monalisa, o olhar um pouco parado, enquanto os parentes chegam trazendo um bolo ou um docinho ou um biscoito ou algo pra comer no lanche. a atmosfera é de uma festa estranha, onde as pessoas queriam estar todas chorando, mas se alternam entre contar histórias sobre o morto e a rir muito alto, talvez pra espantar a dor, talvez pra que todos lembrem que a vida continua apesar da morte. não é ruim, é uma forma de todos saberem que sim, vai continuar tudo igual, mesmo quando for a nossa vez, nenhum sol vai deixar de brilhar. vamos nos misturar à paisagem e tudo, tudo vai continuar perfeitamente como é. aproveitemos, pois, enquanto o sol ainda está brilhando para nós, todos os dias, retumbantemente lindo. um brinde à vida!
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alice*

02/10/2012

vou pintando as unhas com cores estranhas
aprendendo a fazer receitas diferentes
dando assim um tipo de banda no tempo
nessa dor insuportável que estala os ossos
e ruge nos ouvidos
me acordando quando quase consegui dormir
e, de repente, juro que foram passos lá fora
desço correndo as escadas
tropeçando na barra da camisola de flanela
cheia de rainhas, bules e chapeleiros malucos
pra ver se foi vc que esqueceu que tinha ido embora
do nosso país das maravilhas.
onde foi mesmo que deixei aquela mulher
que eu era antes de vc sair?

* pra minha amiga que sabe quem é

depois daquele nascer do sol

o mirante do Leblon

debruça-se sobre o leito seco

onde houve o mar

sobre as pedras

onde houve areia dourada

e o sol

nunca mais nasceu

nem lá

nem cá

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