tsunami

11/03/2015

abro o Face e vejo a foto de um baterista que, qdo tinha uns 20 anos, foi uma paixonite minha. paro, estatelada! socorro! ele virou um tiozão de camisa polo! na mesmo noite, vejo a foto do meu primeiro amor, um verdadeiro maracujá de gaveta, como dizia meu avô. tenho me assustado, sobretudo com os homens da minha geração que, por se cuidarem menos que as mulheres, estão uns cacos. horrível dizer isso, pq, a esta altura, eu já devia ter olhado pro espelho, encarado a realidade dos fatos e deixado pra trás essa bobagem toda, sublimando as marcas do tempo, encarando a chance de estar aqui, bem, inteira, como uma dádiva.

a velhice é como uma inundação que se anuncia. está chegando, o tsunami está vindo na minha direção. já consigo ver os sinais nos meus pais, no meu pescoço, na pele e, principalmente, no olhar dos outros. pra uns, já virei coroa. nem sabia que isso já ia acontecer agora, tão cedo. qdo a gente olha de dentro, a perspectiva é outra. por dentro, terei sempre a mesma idade-Andréa, que não é um número, mas uma fotografia de um pôr-do-sol no verão do Rio de Janeiro, pronto pra explodir em acontecimentos incríveis e momentos fulgurantes. assim seja!

através do espelho

25/02/2014

linda! penso, me olhando pelo lado de dentro do espelho. flawlessme amo. nenhum dos meus defeitos aparece nesse espelho, embora odeie, mortalmente, muitas partes de mim. meu espelho filtra imperfeições e destaca qualidades. nele sou transparente, com tudo que tenho de bom à tona, no nível da pele, no brilhos dos olhos, nos cachos dos cabelos. uma beleza amorfa que me encanta exibir, narcisa de qualidades abstratas. 

saio pelas ruas, do país do espelho, ostentando minhas belezas sublinhadas pela subjetividade. qdo exercito o espelho do lado de dentro, sou linda pelada, apetitosa, uma fruta perfumada e suculenta. se me mordiscam, ali desabrocha um sorriso, se me sentem o cheiro, nalgum lugar brota uma flor perfumada, e uma borboleta vem, correndo, visitar. entre mim e eu, sou a mais linda das mulheres cariocas, uma beldade original do Brasil, miscigenada, um pouco armênia, um pouco índia, sou toda predicados, toda adjetivos. ninguém me vê como me vejo. for my eyes only.

do lado de dentro do espelho me desejo, me afago, me consolo da invisibilidade do lado de lá. não importa que uns não me olhem, outros me critiquem, que eu não esteja dentro de nenhum padrão de nada. devo admitir que, mesmo sendo quem sou, como sou, ainda assim, sou a mulher mais perfeita do mundo, qdo saio por aí, cabeça erguida, desavessada, desfilando aquilo que sou e que meu corpo esconde.

no supermercado, no corredor de produtos de limpeza, vi uma velhinha negra, ressequida, magrinha, encurvada, caminhando arrastando os pés, em passinhos curtos e irregulares.

ela calçava um chinelo tipo pantufa, com meia surradinha branca, uma saia marrom, abaixo do joelho e uma camiseta, pra fora da saia, com uma nossa senhora flutuando em nuvens azuis. o cabelo branquinho estava mal amarrado num coque pequeno. parecia desprovida de vaidade, embora estivesse limpa. carregava uma sacola com uma outra santa estampada. fé, pensei, como pode ter fé? eu, que to aqui inteira (quase), bonitona (quase), nova (quase) não sei que deuses restituiriam a minha fé. adoraria encontra-la, para estampar no rosto aquele sorriso aparvalhado dos que crêem. ela, velha, de pantufas na rua, estampa a fé no peito.

acometida de uma compaixão humana que nem sei se ela merece ou deseja, pq a infelicidade dela é uma fantasia minha, me dou conta de que aquela velhinha já foi uma criança e, depois,  uma mocinha. saio do supermercado, mais uma vez, chorando pela rua, pensando nos vestidos que a mocinha queria ter,  mas não podia, nos sonhos que ela ousou sonhar, e não realizou, no futuro que ela desejava ter, mas não teve, nos anseios de amores não consumados. A certa altura vejo que meus sonhos frustrados se misturam com os que atribui a ela, e já nem sei mais por quem estou chorando, por que sonhos, por que fracassos.

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