queria que fosse de novo carnaval e a gente estivesse tomando porradinha de Fanta laranja com Velho Barreiro, no Varandão, fazendo um vira-vira que a gente nem sabia que era tão perigoso e tão sexy. e que a gente estivesse escolhendo que roupa vestir no baile de carnaval e, depois, dia amanhecendo na Serra, a felicidade de listar os beijos em bocas cujos nomes nunca soubemos: surfista, lourinho, moreninho, mineiro…

e queria de novo sentir o jato gelado do éter entrando pelas narinas e batendo no teto do crânio, em cima daquela moto na madrugada fria, zzzzziiiiiimmm, zumbido e gargalhada, “‘caraaaalho, vou decolaaar!’. ou então voltar àquele dia em que o cheirinho da loló foi calibrado pelo amigo químico e a gente ficou na lua, projeção astral e o escambau, pelados na cama, rindo de nós mesmos e do susto que levamos. ou então entrar naquele avião rumo ao Recife, pra reconhecer meu amor galego dos óio azul e casar com ele no hotel muquifo do centro velho da cidade.

queria estar ensaiando a música pra entrar no meu primeiro festival. tocando um violãozinho tosco, toda compenetrada, subindo no palco da escola de macação branco, que recém cabia em mim, e levando meu primeiro prêmio de cantora pra casa, e acordando a minha mãe: “tá vendo? ganhei!” queria de novo estar atravessando a Ponte, indo gravar meu primeiro disco, toda a estrada do sucesso à minha frente

queria estar passando sombra preta com glitter, pra ir dançar numa discoteca, de salto 12, ou então estar calçando os patins pra ir ao Roxy Roller rodar rodar rodar naquela gira. ou ir ao Disco Voador fazer playback pra 10 mil pessoas ou cantar mais uma vez pro mar de gente no Reveiilon de Copacabana.

queria estar recebendo aquele ursinho com a carta de amor no bolsinho do macação. Ou um milhão de eu te amos escritos num micro rolinho de papel, que ele cuidadosamente enrolou e guardou dentro de uma sapatilha rosa de biscuit. queria ser bailarina de novo, um milhão de pliés todos os dias e depois a rotina do tap, passo a passo, time steps. então, eu escreveria em tinta branca, novamente, um Eu te amo gigante, no meio da rua Estelita Lins, de madrugada, de forma que ele acordasse e quando abrisse a janela, visse o meu amor escancarado no asfalto. queria chegar na aula de canto e encontrar toda a fachada do prédio do professor coberto por uma tira de eu te amos e “boa aula, meu amor”. queria o fim de semana na Serra, ouvindo Pat Metheny e vendo Jacques Cousteau sem som. e comendo pipoca e tomando vinho de garrafão e fumando maconha e fazendo amor, over and over and over.

queria tudo de novo. não por nostalgia, mas porque eu gostaria de zerar essa desilusão, construir os sonhos e confiar no porvir, na potência, no destino, na sorte, no amor. aquela alegria que não cabe no peito nem no sorriso, só porque sim. e ter mil planos de viajar, de fazer turnês internacionais, de morar fora, fazer sucesso no Brasil, ter filhos, ficar rica, comprar uma casa cercada de jardins de inverno, fazer minha viagem dos sonhos, num 4X4, de mapa na mão, pelo interior do Brasil, e encontrar um grande amor cúmplice parceiro, em quem se pode confiar de olhos fechados. tudo isso, só porque a gente acredita que nasceu com uma estrela brilhando na cabeça e tudo, tudo vai dar certo.

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O técnico do meu computador, há anos, é uma pessoa muito especial. Todo mundo acaba fã. Ele é um cara de paz, de boa vibe, sorrisos e competência. Realmente um doce de criatura. Com o tempo, ficamos amigos. Ele e a mulher, igualmente fofa, vira e mexe vão aos meus shows. Muito queridos.

Hj ele esteve aqui e, enquanto trabalhava,  conversamos sobre a vida, como sempre fazemos. Eu contei que estou meio perdida, pq vou perder a fonte de renda fixa q tenho tido nos últimos 12 anos e de repente me deu um pânico de tudo, de nao saber como vou pagar o aluguel, ao mesmo tempo em que a minha carreira está indo especialmente bem, apesar de eu não ganhar (quase) dinheiro algum com ela.  Comento que faço de tudo pra manter a calma e não sofrer por antecipação, que estou investindo em outras frentes, que o tempo dirá, que tudo pode acontecer, que nem adianta querer fazer planos, que sei que planos não acontecem como planejamos…

Realmente, todos os dias faço um exercício zen de desprendimento, enqto me preparo para uma nova realidade desconhecida.  Dispenso a faxineira-amiga de 12 anos e choro no banheiro.  Mas o tempo não é meu. O rio nunca apressa suas águas.

Ao mesmo tempo em que ele achava a solução pro problema insolúvel do computador, o rapaz que consertava um problema de luz aqui, tb encontrou a saída. A luz foi feita, fiat lux! Brincamos que foi o mesmo anjo, que veio aqui dar jeito nas coisas. Na mesma hora agradeço intimamente e peço pro anjo stand by me, esse anjo da luz.

Quando ele saiu, computador ok, vejo que ele deixou uma página aberta, com uma frase que ele tinha citado no nosso papo:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

Corro pra varanda, pra agradecer, comovida. Ele sorri.

Senti uma piscada de anjo e renovei minha fé na vida e no porvir. Rezo de novo, pra nunca deixar de reconhecer os milagres cotidianos, que dão colorido à estrada.

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