Hipódromo

21/07/2020

Eu tenho o estranho hábito de achar que, mesmo quando um lugar é derrubado, mesmo quando constróem uma cidade em cima de outra cidade, a história permanece ali, empilhada em dimensões várias. E assim, quando passo por um lugar que foi outro, quase vejo o empilhamento das imagens, como se fantasmas dançassem pra sempre, continuando a história que não podemos mais viver, em outras giras.

É assim que passo pela casa do meu avó, que agora é um prédio de esquadrias de alumínio e vidro fumê, e ainda vejo a gente lavando o quintal com tamancos de madeira, ao som da ladainha das sete-chagas-do-nosso-senhor-jesus-cristo ou coisa que o valha, cantada pela Noêmia, de pano na cabeça.

É assim que vou passar pelo Hipódromo, que fechou as portas esta semana, e onde vivi intensamente, tantas histórias, que nem consigo medir. Primeiro, com o namorado no fim dos anos 80. Depois com os amigos nos anos 90, toda noite, toda santa noite, antes ou depois do Baixo Leblon, antes ou depois de qualquer programa, durante cinco, dez anos? A vida se desenrolava alí, de pé, na esquina onde tudo acontecia. Quantas amizades fiz e cultivei ali, ainda nas mesas da calçada, amores achados e perdidos ali, namoros começados e terminados ali. A gente ria, falava, desabafava e bebia, como a gente bebia!

Quando o Hipódromo Up abriu, fiz um sem número de shows por lá, casa sempre cheia, temporadas inteiras. Assisti ao Arranco de Varsóvia, cantando todas as músicas de cor, sem imaginar que eu passaria esses felizes 19 anos como cantora do Arranco. Em meados dos 90, meu ex foi trabalhar na casa, transformando aquilo tudo no nosso quintal diário até a alvorada dos anos 2000, quando a casa de shows fechou e o casamento acabou. Ali começou a dispersão, nossa geração não mais tão noturna, novas gerações se empilhando e vivendo ali o que a gente viveu. A felicidade em pé na esquina, de copo na mão. Já não era mais um lugar pra ir sozinha e encontrar todo mundo. O bar virou um velho amigo, que a gente volta pra visitar e se reconhecer, de vez em quando.

Quando eu passar por lá, verei ainda a dança dos garcons no salão, suas bandejas repletas de chope e pizza. E sempre vou sorrir lembrando da amizade que só quem é boêmio conhece, dos meus companheiros de tantas milhares de noites boas e ruins: Boi (que eu chamo de João), Sorriso, Sassá, Lacerda, Edenilson. A intimidade na medida certa, que saca o dia em que a gente quer só beber sossegada e quando a gente quer papo. E o Zé, gerente sócio da casa, que me recebia sempre como uma rainha. Em 2007, ele até abriu o já fechado Hipódromo Up pra eu lançar meu álbum O amor de uns tempos pra cá. Meu canto do cisne naquele palco. Depois, vieram outros bares, outros bairros, outros palcos, outros amigos, outros amores. Nunca mais tive um bar pra chamar de meu daquele jeito. Não há mais bares daquele jeito.

Naquela esquina do BG, no empilhamento espectral dos dias vividos, vou ter eternamente 30 anos de idade, cabelos vermelhos, olhos muito pintados, usando perfume Minotaure, de saltos enormes, copo na mão, toda vestida de preto.

(foto tirada no banheiro do Hipódromo, durante uma temporada de sucesso do meu show Black Museu Brasileiro)

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