Dei um depoimento sobre gordofobia e felicidade em tempos de fitness, para o jornal O Dia. As perguntas da jornalista Brunna Condini foram incríveis mas, na hora H, entraram anúncios e a matéria encolheu drasticamente. Pedi a ela para postar aqui as minhas respostas, na íntegra. Foi tão importante pensar em tudo isso, arrumar o pensamento, desvendar sentimentos. Tão empoderador e tão delicado, que senti a necessidade de compartilhar o texto e fazer mais gente pensar nisso.

Respira fundo e vem comigo:

– Conta um pouco da sua história de opressão com o peso;

Neste mundo que qualifica pessoas pela aparência e obedece a um padrão estético único, magro, estar acima do peso é tratado como defeito. Eu comecei a dançar quando era criança e dancei até um pouco depois dos 20 anos, entre idas e vindas por causa da oscilação do peso. Parei definitivamente quando fui demitida da academia onde dava aula de sapateado, por estar acima do peso. Não queriam que eu desse o “mau exemplo” pros alunos. Eu já cantava, então me dediquei só a cantar. E aí, também me mandaram emagrecer, porque “a imagem do artista é o que vende, e gordo não vende, só se for humor”. A opressão veio de todos os lados, inclusive pela via do carinho dos amigos e família.

A arte me ajudou a ver mundos mais livres, e a perceber que eu tinha o direito de existir com o meu corpo, sem precisar me desculpar pela “fraqueza”. Subir no palco é como estar nua, não tem como se esconder, então parti pro ataque: “Sim, sou gorda. Agora dá pra você parar de prestar atenção nisso e ouvir a minha música?” Com o tempo, e muita terapia, aprendi a respeitar quem sou, e entendi que todo mundo tem medos e fraquezas humanas. O que o outro acha de mim não é problema meu.

– Tem histórico de obesidade familiar? Como essa questão era tratada em casa?

   A família paterna era toda obesa. Desde os 10 anos que eu faço dieta e minha comida era igual à do meu pai, que também vivia de dieta, e era diferente do resto da casa.

– Com que idade se deu conta do preconceito? Algum caso que possa destacar?

Lá pelos 11 anos, passando férias no interior, de farra, entrei num concurso de miss infantil, e ganhei o prêmio de Miss Simpatia, o adjetivo favorito para se elogiar um gordo. Simpática, não bonita. Ali eu entendi.

– Alguma vez foi magra?

Comecei a engordar, progressivamente, aos 9 anos. De lá pra cá, já fiquei magra por alguns períodos e reengordei quatro vezes, sempre engordando um pouco mais do que antes da dieta.

– Tem ideia de quantos regimes fez na vida? Ainda faz?

Faço dieta há 40 anos. Perdi a conta de quantos médicos e nutricionistas e métodos e terapias fiz. Hipnose, bolinha, macrobiótica, reeducação, homeopatia, proteínas, South Beach, malhação, Dukan, acupuntura, ortomolecular, tudo! Estudo sobre alimentação há muitos anos. Me sinto em dieta permanente, sempre vigilante.

– Emagrecer é um objetivo ainda?

Emagrecer, sim. Ficar magra, não.

– Lista muitas perdas? Quais destacaria?

Todas as revistas, as lojas de roupa, a TV, o cinema, a família e os amigos sugerem que você emagreça para ficar “bem”. Logo, a gente se sente mal, portadora de uma deficiência contra a qual somos impotentes. Perdi tempo, perdi alegria, perdi programas legais, praias, piscinas, viagens, um monte de coisas. Mas a autoestima é a maior perda.

– O que já deixou de fazer na vida e o que ainda deixa, por conta do peso?

Já deixei de viajar, de ir à praia, de ir àquele churrasco na beira da piscina com a galera. Mesmo sendo louca por praia, passei anos sem pisar na areia, com vergonha e medo dos olhares. 

– Afetou/afeta a vida amorosa? Como lida com isso?

Em geral, uma mulher acima do peso não é alvo de paquera, é invisível, “desmulherizada”, ou vira fetiche exótico. É comum a gente aceitar ser tratada como “segundo time”, não se achar merecedora de pleno amor e respeito. Mas cresci e percebi que ser uma mulher interessante não é sinônimo de ser magra. Também é muito comum mulheres que estão acima do peso serem a amante secreta. Entre quatro paredes, longe dos olhares julgadores, tem muito mais homens curtindo gordinhas do que se imagina.

– O que mais te machucou no passado? O que ainda machuca?

Imagina a cena: eu andando de bicicleta em Ipanema, para um carro, abre a janela e o cara grita, a plenos pulmões, pra todo mundo ouvir, um comentário horrível sobre meu peso. Um desconhecido, no meio da rua, uma flechada de maldade. Já sofri muitas vezes essa rejeição pública e raivosa, por uma questão que só diz respeito a mim. Na rua, as pessoas te olham com raiva ou escárnio. Eu sou merecedora de respeito, magra ou gorda.

– Você acha que o preconceito contra a mulher gorda é maior? Por que?

Olhe em volta e veja: quantos homens magros estão de mãos dadas com mulheres gordas na rua? Quantos amigos seus te apresentaram para a sua namorada gordinha? Em quantos casamentos de magros com gordas você já foi? Agora pense em quantos homens gordos estão por aí ao lado de mulheres esculturais. Machismo puro, consentido pelas mulheres. Dois pesos e duas medidas, literalmente. A leitura que faço é que, pra essa gente rasa, os homens têm valor por serem homens, mulher só tem valor se for considerada bonita.

– Andrea, o preconceito vem de quem? E você acha que existe nesta sociedade, tão enraizado, por que? Para alguma classe social é maior?

O preconceito vem de todos os lados. Até eu me pego sendo gordofóbica. A gente passa a vida aprendendo que ser gordo é ruim, é duro desaprender esse olhar. Desde criança você percebe que tem algo errado, mesmo a sua família, que te ama, quer quer você emagreça porque percebe seu sofrimento, a discriminação e não quer que você sofra. Todo mundo tem problemas, manias, complexos, taras, vícios,  mas o problema do gordo chega com ele na festa, na sala, na praia, no colégio, não tem como esconder e por isso o gordo é um ser de “domínio público”. 

Acho que o ser humano virou uma máquina de trabalhar para consumir e ostentar resultados, o corpo é mais um deles. Falta complexidade, vida interior, cultura.

As classes mais altas têm privilégios que permitem que as pessoas se preocupem e invistam na magreza. Nas classes em que as pessoas têm mesmo é que batalhar pra botar comida na mesa, sinto uma flexibilidade maior nos padrões. A gordinha quer botar a barriga de fora, vai lá e bota, e se acha linda. É um jeito mais evoluído de ver a vida, de focar no que importa.

– Como ser feliz nessa sociedade sendo exatamente o que se é?

Ser feliz numa sociedade que classifica tudo pela superfície, só é possível quando a gente se liberta para fazer as próprias regras, nosso regimento interno, e encontra a nossa turma. É impossível e desumano viver em função do consumo e de resultados que agradem a todos. E isso vale pra gordos e magros.

- O que diria para quem está sofrendo muito com esse tipo de bullying?

Acho fundamental pedir ajuda profissional. Há serviços de atendimento psicológico gratuitos, é só procurar. Em geral, a vítima de bullying sofre calada, porque sente que merece aquele maltrato, se sente defeituosa, inferior, está com a autoestima destruída e isso pode e deve ser tratado. É humano se sentir faltoso, imperfeito. Mas a pessoa tem que saber que todos são igualmente merecedores de respeito e de uma vida plena.

 

PS.: Acrescento que não é pra ignorar o fato de o excesso de peso apresentar riscos para a saúde. Há riscos estatísticos, assim como em relação a fumar, tomar coca-cola, comer açúcar, ser sedentário, mesmo magro, e comer só industrializados. Senão, não haveria magros diabéticos, magros infartando ou magros com pressão alta. Ser gordo não é uma sentença de morte. Viver é uma sentença de morte. O resto deve ser livre, contanto que cada um saiba o que está escolhendo fazer!

gordofob

 

um post de peso

25/10/2011

Qdo minha mãe me levou, pela primeira vez, ao médico de regime, eu tinha uns 13 anos. Ele disse: “tadinha, está horrível!” Ela disse: “A família do meu marido é de gordos…” Ele disse: “É… a culpa é sempre do marido…” Fui a mil médicos desde então.

Uma maldição genética. Guardei, a vida toda, temor e ódio profundo dessa herança. Eu só comecei a ser gorda, mesmo, a partir dos 9 anos, quando comecei minha primeira dieta. Aos 3, qdo eu tinha apenas bochechas de bebê, meu tio – gordo – me apelidou de Gorda. Era um jeito de ser carinhoso. Gorda.  Se fosse hoje, seria bullying.  Ser gorda me aterrorizou a vida toda, aquele shape familiar me assombrou e, enfim, meu pesadelo se realizou!

Engordei muito, cada vez mais, emagreci muito. Inúmeras vezes, sempre achando que era a última vez. Me exibi, me escondi. Desisti da dança: gorda não dança. Vivi a maior parte da minha vida envergonhada de mim, andando na beirinha do mundo, mudando de calçada, tentando me recolher à minha insignificância de casta inferior, de gorda-sem-vergonha. Silenciei. Sonhei. Fracassei. Não é nada fácil ser uma garota gorda no Rio de Janeiro, cidade onde é obrigatório ser gostosa e passar a vida de biquíni, de vestido de alcinha e de shortinho. Passei dez anos de roupa preta e pele branca, uma saída honrosa do imperialismo tropical carioca. Sofri bullying de mim mesma, odiei meu corpo a vida toda. Sempre tive minha deficiência apontada pelos olhares e comentários da família, dos amigos, e até pelo porteiro desconhecido: “Tem uma moça forte aqui na portaria”.

Fui agredida como A gorda, na rua, muitas vezes. Houve pessoas q pararam seus carros, abriram os vidros, desaceleraram, só pra me sacanear qdo eu estava pedalando ou caminhando ou até correndo na praia: “Vai, baleeeia, tu tem é que correr até a África” ou “Vai arriar o pneu da bicicleeetaaaaa, sua escroooota!” Nunca contei pra ninguém porque, de certa forma, achei que era o que eu merecia ouvir. Tomava aquele tiro frio e chorava na bicicleta, mas continuava. Sempre que emagreci, pessoas que nem falavam comigo me enxergaram, outras quiseram até me namorar. Eu sempre achei que eles estavam certos. Tento entender todos os lados, meus e deles. Todos os pesos e medidas. Coisa de gordo isso de ser compreensivo demais.

Se houvesse um milagre, me candidataria, mas não acredito em milagres. Nem naqueles que eu mesma operei, pq dentro de mim, existe alguma coisa que jamais mudou e que, a essa altura, acho que jamais mudará. Antes, nem queria emagrecer, para não passar pela infelicidade certa de engordar. Hoje, sem forças pra mudar tudo de novo, vejo aquele velho pesadelo tomar o lugar do meu sonho, no espelho. Na minha idade, será que não está na hora de começar a me aceitar?

Pra conseguir sobreviver, armei uma carapaça de poder e coragem e subi no palco. Perdi alguns trabalhos por ser gorda e compreendi, pq sempre carreguei a sensação de ser “nigger of the world”, e me recolhi, com a submissão dos que se compreendem inferiores. Semi-invisível, desfeminilizada pelo mundo, aprendi a ser uma gorda legal, de personalidade. A confidente do amigo gatinho que tava a fim da amiga gatinha. A boa cia, bom papo, bom copo, um tipo de mulher-cão, melhor amiga do homem. Mas nunca a convidada para o reservado do restaurante japonês. Fui infeliz no amor a vida toda. Minha sensação de inferioridade pautou a minha vida afetiva.

Sofri, mas inventei um lugar pra existir. Fiz de tudo pra mudar, mudei por alguns períodos em que quase acreditei na transformação definitiva, mas sempre sucumbi e, dentro de mim, alguma coisa sempre me impulsionou de volta à velha forma. Nunca foi confortável ser eu mesma, mas sobrevivi, mesmo deficiente. Meu handicap foi ser inteligente, multitalentosa. E como todas as pessoas sobre a terra, mesmo as marcadas, tenho meus momentos de distração e felicidade.

Leio as pessoas falando do sobrepeso, do outrora amado Ronaldinho, com nojo, com desprezo, com sarcasmo. As pessoas têm horror a gente gorda, mulher gorda, então… piadas, livros, humor negro. Também tenho preconceito contra gordo, é óbvio, depois de tanta discriminação, rejeição e infelicidade. Mas estou aqui escrevendo sobre isso, tornando pública essa intimidade, pq de repente senti essa necessidade. Pq sei que tem um monte de gente que passa por isso e pq todas as outras pessoas não têm a menor idéia do que é passar por isso. Nesta sociedade, não acredito que seja possível ser gorda e feliz. É proibido estar acima do peso. A gente sublima, desiste, disfarça mas, no fundo, não abandona o sonho do milagre da metamorfose, de se misturar na multidão, de vestido de alcinha que, aliás, nunca usei.

Cansei de me desprezar, de me odiar, de me desculpar, de me esquivar, de me esconder, de sofrer por não ser quem eu não consigo ser. Por mais que todos os olhares, revistas, jornais e sites me mandem ser, desde que me entendo por gente. Cansei de viver tentando me entender e me explicar. Mais de 10 anos de terapias. E a vida toda de buscas, de tentativas silenciosas e disciplinadas de reprogramação, de rezas, esperanças e promessas, de projeção astral, de auto-sugestão, de hipnose, de deprê, de mudanças, dietas, bolinhas, drogas e radicalismos. Tudo.

Vivo tentando encontrar a cura para o meu defeito – ou seria pecado? – original. 30 anos lutando contra mim mesma. Rejeitada por mim mesma e pelo mundo, durante 30 anos, sem conseguir me modificar nem um milímetro. Até a astróloga fala: “com esse mapa, vc sempre vai ser farta”. Dureza.

Isso já doeu de arrancar pedaço. Agora dói um pouco menos. Sei que a recaída de um gordo é a maior entre os grandes viciados em drogas: 90% emagrecem e, depois de um tempo, reengordam. A vida tb comprova: quantos gordos, que vc conhece, emagreceram e nunca mais engordaram? Dos meus, nenhum, nem os que operaram o estômago. Então pq o mundo não pode simplesmente admitir que há gordos e magros e pretos e brancos e altos e baixos e gays e heteros. Todo iguais nas suas diferenças.

Antes que eu me condene à infelicidade da exclusão perpétua, de me recolher à vergonha do fracasso, e escolher viver à sombra permanente, me escorando nos cantos onde me sinto invisível, ou num personagem visível demais, hors concours, eu queria só conseguir me aceitar, relaxar, pra viver em paz. E queria falar sobre isso, pq esse tem sido um segredo insuportável de guardar. Sou a evidência física da sua existência. Olhando em volta, depois de tudo o que já vi, buscando algum conforto na inevitável maturidade, tenho certeza de que a vida é muito maior do que um número na balança ou numa etiqueta do guarda roupas. Talvez falando isso em voz alta, assumindo isso publicamente, eu consiga acreditar e me libertar para, enfim, ter paz.

Autoestima, voz, vida, talento, fazer meu trabalho, fazer sexo, amar e ser amada, correr, pedalar gorda ou magra, ir à praia de biquíni, pular carnaval, ser mulher. Quero o meu direito de ir e vir.

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