A primeira vez em que pisei no IACS (Instituto de Artes e Comunicação Social – UFF) era o segundo semestre de 1982. Eu era aspirante a cantora, quase bailarina, entrando na faculdade de Comunicação porque gostava de escrever.

O IACS parecia um velho colégio, a quadra de esportes na frente do casarão descascado, gente jogando bola. O revestimento do teto da casa estava meio vazado, aqui e ali, com a fiação cansada semi-exposta. Quando chovia muito, a luz faltava e íamos pra casa. Se chovia à tarde, nem íamos. Inútil atravessar a baía pra bater o pique na Lara Vilella e voltar. As tábuas do piso rangiam, cedendo com o peso dos passos. Uma aventura quase arqueológica. A cantina ficava na casinha da frente, e a gente esperava a fornada sair pra comer sorrisos. O professor Serra, e seu cachimbo, já reinavam no departamento de Comunicação.

Eu gostava de escrever, mas atravessar a Baía todos os dias me enfraqueceu o propósito e me afrouxou o desejo. Eu dançava de dia e cantava na noite, e a faculdade foi perdendo o charme. Fui parando, parei. Sem trancar. Certa de que jamais voltaria ao assunto, com tanta estrada musical ainda a percorrer.

Virei cantora profissional, aposentei a sapatilha e continuei escrevendo. Textos de divulgação pra mim e pros amigos, revisão, tradução. Por isso, 13 anos depois de ter largado a faculdade pra lá, dura feito um coco, temendo não ter como sustentar a carreira de cantora, decidi voltar pra faculdade pra cursar Jornalismo e ativar um plano B, no qual Clark Kent sustentaria a carreira caríssima do Super Homem.

Entrei em contato com a faculdade:

– Quero voltar pro curso que abandonei.

– Você pode prestar vestibular e aproveitar as matérias cursadas

– Sem vestibular, eu disse, eu já passei no vestibular, não preciso passar de novo.

– Ué, mas isso não existe, o prazo expirou. Só se você entrar com recurso.

– Então quero entrar com recurso.

– Escreve uma carta pro Reitor.

Escrevi. Na data prevista recebo a resposta:

– O reitor liberou. Agora você tem que ver lá na Comunicação. Se toparem, você volta.

Quem era o diretor do departamento de Comunicação? O bom e velho professor Serra, de quem me lembrava, daquela breve passagem pelo IACS, nos anos 80.

– Quero voltar, Serra, me deixa voltar! Agora eu quero de verdade, vou até o fim, vou ser uma ótima aluna!

Quando pisei pela segunda vez no IACS, em 1996, a quadra tinha sumido e o casarão estava reformado, mas não perdera seu charme arqueológico. Eu delatava minha antiguidade pelo número de matrícula, que começava com o ano de ingresso. Minha primeira temporada ali começou em 82-2.

Em dia de votação pro DA, na fila com um colega, chego na boca da urna e digo, em voz alta, meu número de matrícula: 82-2XXXX. Meu colega dá aquele pulo: Caraaaaca, eu nasci em 82!

Me formei na turma de jornalismo de 2000, aos 36 anos. Trabalhei 12 anos na imprensa. Gravei mais de 10 CDs e um DVD. Continuo escrevendo e estou comemorando 35 anos de carreira de cantora.

Quando fui ao IACS, pela última vez, ele tinha virado praia.

*o IACS é o Instituto de Artes e Comunicação Social, da UFF – Universidade Federal Fluminense. Este texto foi uma encomenda para o aniversário do IACS. Como não tocaram mais no assunto, decidi postar aqui pra ele nao se perder. Tenho as lembranças mais queridas daquele lugar e daquelas pessoas.

oversharing

26/10/2010

tenho certeza de que privacidade é um conceito que caducou com a internet. Quem viu, viu, quem não viu… nunca mais. Perdemos para sempre a noção da privacidade, conceito e valor. Definitivamente, o que era bom em segredo é muito melhor em público. Mas por que será que tenho a impressão de que essa comunicação é um empilhamento de monólogos sem feedback, onde os interlocutores podem ou não interlocutar, que dá na mesma, o que interessa é ter algo a dizer. A gente vai continuar postando detalhes de todos nós, para alguém ou ninguém ler, simplesmente porque dá a sensação de movimento, pq agora a vida tem que ser evidentemente legal e todo mundo precisa saber o quanto.

Perdi completamente a noção da vida sem essa exposição, pq tenho um pc desde os primórdios dos pcs, sempre estive em todas, nunca tive dificuldade com a linguagem de internet e fiz aquele percurso natural de descoberta, acompanhando como usuária, a evoluçao da própria tecnologia. Vi de perto o surgimento das redes de relacionamento, desde o tempo do icq, do irc, das salas temáticas de bate-papo, até o momento atual. Tenho tudo: orkut, FB, twitter, site, myspace, youtube e este blog.  Nunca desligo o computador e sinceramente nao acho que isso vá mudar, pq a cada dia fica mais natural ver o mundo via web. E sem a internet, atualmente, uma cantora não existe.

A internet faz pelas pessoas o que a TV fazia antigamente, entretém, só que com a programação à escolha, individual, disponível fulltime com o adicional da interatividade. Pensou em solidão? Pensou certo.

PS: Minha sobrinha, de 9 anos, outro dia resmungou: “Poxa, nunca recebi uma carta! Só da Caixa Econômica Federal!” Mandei a carta, recheada de recortes, cartões, fotos. Souvenir de tia, pra ela ver como era a vida no tempo da privacidade.

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