sempre atrasada, paro na esquina pra pegar um taxi até o metrô mais próximo. um cara me para e pergunta: “onde pego o ônibus pro metrô de Ipanema?” Indiquei o ponto, enquanto entrava no taxi, e pensei e falei ao mesmo tempo: “to indo pra lá, quer carona?”. O cara, entre atônito e divertido, topou na hora, educadamente. completamente estranhos um pro outro, entramos naquele taxi maravilhosamente refrigerado, numa tarde de 35º no Leblon. Convidei primeiro, pensei depois! confiei, pronto. ele disse: “obrigado! agora to indo pra faixa de Gaza. Meu trabalho fica entre duas facções, entre duas favelas não pacificadas. E a gente lá… no meio do tiroteio…”

meu telefone toca sem parar e eu mal consigo continuar nosso papo, até quase Ipanema, qdo trocamos impressões sobre o emprego dele, como controlador de perdas numa grande cadeia de varejo popular, e dos preços absurdos praticados no Rio.  Eu estava a caminho da primeira audição do meu CD solo, e de uma longa sessão de edição de voz. Concentração e expectativa em alta. a conversa me atravessava. nos despedimos na porta do metrô, ele saiu correndo, não sem antes me oferecer seu telefone, pra qq coisa. Recusei, desejei sorte. Ele me deu um quase-abraço fraterno, apertou minha mão: “Agora é vida que segue, obrigado!”. Retribui o quase-abraço.

Qdo entro no vagão lotado, lá está ele, sentado. Ele acena e levanta, imediatamente, cedendo seu lugar. Aceito a gentileza, sorrindo. Me ofereço pra segurar sua mochila e engato, sem perceber, uma conversa com a moça sentada ao meu lado.

Ela me conta, quase do nada, que está perdida no metrô. Mas que está feliz, pq foi seu primeiro dia de trabalho, como diarista, na casa de uma pessoa que lhe deu a chave da porta e saiu. Sem desconfiança, sem medo. Está grata e satisfeita por ser alvo de confiança. Está em paz, sem pressa de chegar em casa, embora prefira andar de ônibus: “A melhor coisa que tem é a confiança”.

Quando piso de novo na minha vida, no estúdio, ouvindo o disco pelo qual tenho esperado com tanto anseio, percebo que ali também estou cercada de gentileza, respeito e confiança. E reforço minha crença nesse grato caminho por onde pretendo sempre passear.

palavra

30/01/2012

me preocupo com o destino dos brasileiros, e/ou aspirantes, que não sabem usar o pacote default de (brazilian) portuguese, aquilo a que se chamou língua portuguesa/brasileira (a culta, a inculta, a oculta e a linda). é como entrar num RPG sem saber usar suas habilidades.

tá bem. problema meu. tenho especial apreço pela linguagem. primeiro, a sensorial, seguida de perto pela musical e pela escrita. Arrisco dizer que a linguagem não-verbal dá de dez, de mil léguas submarinas em todas as outras. mas a palavra é senhora.

sei, também, que a linguagem falada tem sua própria vida, e que língua é feito gente: muda todo dia, com seu interlocutor e com as intempéries. as palavras vão sendo usadas e se modificando. A gente usa e percebe: há uma atualização disponível para esse aplicativo. E quando a gente se liga, a gente já ta usando, abusando, transformando. é assim que se dá a evolução da nossa espécie. pelo verbo, desde o início.

vejo as palavras como velhas almas femininas, evolutivas, que detêm saberes e fazem muitos filhos. elas contêm a história de todas as gerações das gerações, remontando às raízes, e delas se utilizam. Palavras carregam, em si, as marcas da humanidade. Condensam significados e estão abertas a novas propostas. estão vivas.

as palavras, seus similares e seus operadores, garantem que o mundo nunca vai cair na monotonia. no princípio, era o verbo.  E no fim, o verbo ainda reverberará.

ano do dragão 2

23/01/2012

o ano novo chinês está começando hj. o ano do dragão. ano auspicioso e perigoso, que só se repetirá em 12 anos. quem aí tem coragem de começar tudo de novo?

susan sarandon

17/01/2012

estou, tipo assim, a susan sarandon: ruiva (once ruiva, sempre), maravilhosa, independente, gostosa, complexa, divertida, inteligente e coroa.

estava preparada pra tudo. menos pra ser coroa:

ai, ai.

chuva de verão

10/01/2012

penso em vc chegando, na sua casa, no começo da noite, meio bêbado, num dia de semana qualquer, abrindo a ultima cerveja da geladeira e ligando a TV. vc dorme cedo, não é um homem da noite, não é de sair pra farra. sinto sua falta batendo papo na cozinha. no fim do dia, vc me liga. quando vc liga a TV, um pouco antes de dormir, vc pensa em mim, nos nossos dias de amor e paz. sente falta de uma mulher do seu lado, vc disse, pra coçar as suas costas, pra beijar sua boca, pra te fazer cafuné, pra deitar com vc. sente falta da parceria, das risadas, da conversa, do chamego. no meio da noite, te mando um torpedo, sinto sua falta na cama. vc responde cheio de saudades. tem história que é, praticamente, um trailler: só os melhores momentos, sem importar o fim.

o ano do dragão

30/12/2011

agradeço a todos que foram ver meus shows, a todos que aplaudiram e se emocionaram com a minha música. agradeço a todos que compartilharam seus talentos comigo, melhorando os meus. os que me elogiaram e os que me criticaram. a todos que me acompanharam nos meus dias bons e ruins. também a todos que me escutaram na mesa do bar e aos que me contaram suas histórias. a todos aqueles que me deram a mão qdo eu estava sozinha,  e a todos os que me negaram ajuda. a todos os que me disseram sim e a todos que me disseram não. agradeço a todas as intempéries, aos dias de sol, às chuvas torrenciais e às noites de frio e solidão, bem como às noites de alegria, cercada de gente querida. agradeço à saúde que me manteve de pé e aos problemas de saúde que me derrubaram. agradeço à dor e ao alívio da dor. à salvação da música e ao silêncio. agradeço aos leitores que me doaram seus olhos, aos que comentaram meus posts, aos que calaram.

agradeço à minha mãe, pelo amor sem nome e sem tamanho, à minha irmã por nunca deixar que eu me sinta só e por me lembrar da alegria, ao meu pai pela preocupação amorosa diária, ao meu padrastinho pelas boas lembranças e à minha fada-madrasta por me amar como a uma filha. e à minha sobrinha por me melhorar, pra mostrar pra ela, com atitudes, que bom é ser da paz e da gentileza, respeitando os sentimentos e as diferenças, sem distinção de raça, credo ou cor.

agradeço aos homens que me amaram e aos que me rejeitaram. agradeço aos que apostaram em mim e aos que fecharam as portas. agradeço a tudo que mudou e a tudo que ficou. às pessoas que se despediram e às que entraram na minha vida. aos amigos de sempre, aos novos amigos, aos novos parceiros de trabalho e de vida, aos novos lugares que conheci, aos velhos hábitos e  lugares que abandonei. aos acertos que fiz e aos erros que cometi. aos presentes que ganhei e às oportunidades que perdi. ao que me foi concedido e ao que me foi negado.

agradeço ao inexorável movimento da roda da fortuna, que ora traz, ora leva, ensinando que tudo está latente, tudo está pulsando, tudo está vivo, tudo pode acontecer.

Vem aí o Ano do Dragão, soprando vida e energia pelas ventas!

contemplando a afirmação peremptória e prazerosa de uma menina de 10 anos:

“agora eu já sei qual é o meu segundo queijo favorito!”

falou isso com a felicidade de quem encaixa mais uma peça num grande quebra-cabeça.

ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. mora na lapa, trabalha na lapa. pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. é a excelência da raça, tentar outras saídas. meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

 

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

 

claridade

10/12/2011

meu coração está claro. não tenho mais nenhuma preocupação com nada daquilo. tudo se mostra como simplesmente é: a música, a vida, a beleza, as escolhas, os resultados das escolhas. bons resultados. maus resultados. todos bons.

tenho um sonho recorrente, de escadas em espiral, de elevadores pro sem-fim, de vistas de janelas de apartamentos altos, para a paisagem triste dos fundos, das áreas de serviço com roupas penduradas em secadores pensos, e garagens cinzas, e venezianas quebradas, basculantes de vidro crespo, esquadrias de alumínio, ninhos de pombos,  becos e passagens por onde parece impossível penetrar. e eu pra sempre subindo e descendo e achando o poço do elevador e a ultima saída da escada de serviço. pelo porão, pelo telhado, pela emergência. sempre assim, além do limite. me esgueirando, claustrofóbica, rumo à luz e ao ar livre.

de onde estou hoje, sorrindo de mim, aviso aos demônios dos sonhos que não quero mais sonhar com espirais infinitas deceptivas. quero só que me indiquem as boas saídas.

tenho tanta felicidade e conforto que posso, humildemente, simplesmente relaxar e pedir: só mais uma taça de tinto, por favor.

e se comer fosse sempre vegetais frescos e frutos do mar grelhados e queijos e pão integral e azeite e chocolate? e se beber fosse sempre água e vinhos e  café e chá? e se a alegria fosse sempre encontrar pessoas queridas, com música, onde todos os tipos, de todas as idades, fossem bem vindos e se sentissem bem, sem hora pra acabar ou pra começar, sem firula? e se namorar fosse sempre com um homem maravilhoso, bem humorado e gostoso, cúmplice, carinhoso e parceiro? e se viajar fosse sempre para se perder de vista e colocar outros olhares nos olhos? e se chover fosse só para lavar e matar a sede da terra e se o sol banhasse as águas limpas e as areias brancas, brilhando realmente para todos, em igual intensidade? e se o vento só ventasse para carregar o mal pra lá e o bem pra cá? e se todos os dias dessa vida a gente acordasse de olhos bem abertos para o que tem, e não para o que não tem?

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