com a perspectiva da primeira cirurgia da minha vida, tenho pesadelos de morte e acordo com o coração na boca. embora eu tenha apenas uma condição mecânica adversa que pode (e deve) ser corrigida, sinto como se estivesse me oferecendo em sacrifício. morro de medo e vertigem e quase todo dia tenho um episódio de pânico e desisto: foda-se, vou sentir dor pra sempre, já acostumei, mesmo. a dor é minha, ninguém tasca. Mas, depois, quando a dor me tira o rebolado, o sono, o suingue e a simpatia, eu cedo. E rezo por um milagre enquanto, a contragosto, me preparo.

distraída nas minhas mil dores, esbarro num rapaz sorridente, que cruza, pé ante pé, o meu caminho, cada dia um passo.  moribunda  que estou, descreio que eu possa ser o alvo de tamanho sorriso, graça e desejo. mas, surpresa, aceito esse convite pra mais uma contradança. e logo percebo um sol sentado em meu sofá, irradiando luz, sorrisos, música e carinho.

estamos envoltos nessa conexão surpreendente –  mudamos o eixo da terra em uma noite -,  e um vórtice de energia passa por dentro da minha casa a cada vez que a gente se toca e sorri. a paz reina, soberana. eu sorrio.

experimento a polaridade absoluta deste momento, ora no claro, ora no escuro, ora no yin, ora no yang. passo do frio ao calor, do macio ao áspero, do medo ao conforto.

tenho apenas uma certeza: estou viva. bem viva.

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a coragem

16/10/2014

quando comecei a pesquisar sobre as origens do meu nome, inconsistente, como disse meu amigo sumido, o desenhista Roberto Silva, li uma versão que dizia que Andrea se podia traduzir como Coragem. Aceitei, porque assim  eu quis. De lá pra cá, sempre vim associando coragem à mulher. me apropriando do meu nome e do tema: coragem. Andrea vem de Andros, a essência do homem, em grego, e na Europa, originalmente era nome de homem. Daí a inconsistência que incomodava o Roberto: como uma mulher pode carregar, no nome, a essência do homem?

n​o fim de semana passado fui ao teatro, ver o espetáculo GRITO, um solo de Mariana Guimarães Nicolas, adaptação poli-artística, misturando live painting, dança e teatro, sobre o clássico de Dario Fo e Franca Rame, O monólogo da puta no manicômio.

​o​ GRITO* de Mariana G. Nicolas é cuidadosamente tecido como seu figurino, assinado por Pâmela Côto, um belo corselet todo feito em gaze hospitalar. ​e​m volta dela, ainda toda “nude” em cena, o grito dos artistas plásticos Nando Pontes e Romulo Bandeira que, a cada sessão, alteram, acrescentam, misturam, fazem um cenário dinâmico, pintado durante o espetáculo e adornam o texto, o movimento, o silêncio.​
quando Mariana tira a roupa e fica nua, em pelo, penso: que coragem! ​n​ão é uma nua sensual gostosa loura alta e peituda. ​é​ uma mulher nua, sentada numa cadeira descascada, sem pose, sem Photoshop, sem pudor. a​cima da nudez, acima da beleza e da feiúra, uma mulher comum, seu tempo, seu corpo, seu destempero e seu desterro.
​v​endo a Mariana em cena, nua, com olhos que ora marejavam, ora sorriam, ora se perdiam, ora se achavam, relembrei que coragem, pra mim, desde pequena, quer dizer mulher. sa​í de lá emocionada, batendo no peito e dizendo: eu me chamo Andrea, eu sou mulher, eu sou coragem. somos campo!

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*SERVIÇO
Temporada TEATRO CÂNDIDO MENDES
Temporada de 10 a 26 de outubro de 2014
Sextas e sábados, às 21h
Domingo, às 20h
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel.: 2523-3663
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia entrada para estudantes e idosos)
Duração do espetáculo: 50 minutos
Indicação: 16 anos
Fanpage do projeto:

https://www.facebook.com/pages/GRITO/736608706381960?ref=hl

domingo

21/09/2014

Haverá um domingo chuvoso como hoje, em algum momento de um futuro remoto, sobre o qual nem consigo pensar (choro, mesmo suprimindo o pensamento à força), em que me faltará a mãe. E tb o pai. E alguns dos meus amigos mais queridos, que já começaram a partir, devagarzinho, cada um por seu motivo. Uns abandonaram o barco, outros desembarcaram voluntariamente, outros naufragaram. Nós outros, continuamos remando, tentando emplacar a nossa grande viagem de circunavegação, nossa travessia da grande água, desbravando o desconhecido ultramar em busca da especiaria que nos falta, o sal da vida, aquilo que dá sentido ao insensato, que dá gosto ao insípido, que colore o incolor, que perfuma o inodoro.

Quando a gente nasce, a gente ganha um pote vazio e sem fundo, onde se pode colocar qualquer coisa, de qualquer natureza e matiz. Neste momento, inventario o meu pote. Estará ele cheio do que me é mais caro? Perdi tempo colhendo o que não desejo, por descuido ou capricho, ou doença ou ignorância? Quando estarei, enfim, treinada para escolher a dedo aquilo que importa, nesse exercício permanente de aprender a filtrar e peneirar, selecionar e rejeitar, apontar e desapontar? para, então, desfrutar plenamente dessa dádiva em toda sua transitoriedade?

Meus sentimentos confusos encobrem a razão e estou, agora, com seis anos de idade, perdida na praia cheia, sem saber pra que lado caminhar.

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quero sair pra ver a lua, mas não tenho força pra caminhar, sozinha, até ela. já caminho sozinha sem parar, faço meu trabalho de sísifo, diariamente. ciente de que não posso reclamar daquilo que escolhi. fico calada. que sentido teria escolher e reclamar? tento resistir à tentação até de me sentir, no fundinho, um pouco heroica por ser a resistência, aquela que vai tentar, com a vida, até o fim. 

mas tudo melhora na presença da arte. talvez eu cante pra isso, pra me salvar, pra ter momentos de leveza e abstração. pra sair desse abismo do rigor e da gravidade, onde tudo é sério demais e necessita reflexão e concentração.  Poemise-se, sempre penso, superficíe-se, repito no espelho. emerja dessa abissalidade insondável e pesada, dessas mil atmosferas que carrega sobre a cabeça. permita que os momentos passem como a água por debaixo da ponte: nunca igual, exuberante, constante, transitória, suficiente, impossível de se reter e, por isso, de raro sabor. aproveite. ria. relaxe. aceite. goze. let go.

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merecimento

04/09/2014

qdo a gente acredita naquele deus cristão, de punição e recompensa, a gente tem o benefício da esperança. deus está vendo, jesus está voltando, no juízo final isso vai ser computado.

neste momento, não acredito em deus nenhum. acredito em energias que circulam, como no dial de um rádio, faixas de frequências, comunicações telepáticas, intercâmbio dimensional. acredito pq sinto. pq sou sempre abalroada por essa sensação de estar ouvindo com a mente, ou de estar adivinhando um pensamento de alguém, ou de antever um encontro, sentir uma pessoa de longe. isso acontece, como vou negar? mas nada disso tem a ver com deus. o alcance das faculdades humanas é muito maior do que nos foi permitido crer e investigar. e os loucos são os que ousaram desafiar essa crença limitadora das religiões, para encararem o vazio da vida, do cosmos, do estranhíssimo fenômeno da aventura humana na terra.

mas hoje, especialmente hoje, dou razão à minha mãe, que sempre diz que a vida sem acreditar em nada é árida, insuportável. pra viver, a gente tem que acreditar em alguma coisa, tem que ter no que se apegar.

hoje eu queria muito que o deus da minha mãe me pegasse no colo, me acalentasse, me levasse para um lugar mais fácil, mais tranquilo, onde eu pudesse aguardar, na certeza da fé, a mudança dos ventos em meu favor. tem dia que tudo parece em vão. hoje, por exemplo.

2014-09-01 17.37.47

 

mil palavras

26/08/2014

paquetá

auto-combustão

19/08/2014

o nome parece fenômeno do folclore brasileiro: fogacho. daria perfeitamente pra dizer: “esta é a época do fogacho, muito comum nesta região do país…” ou “ela dança fogacho muito bem, tradição familiar” ou ainda “nas noites de fogacho, o cortejo atravessa a cidade e o cavalheiro bate na porta da donzela, convidando para a dança”.

mas que nada. o tal do fogacho é um calor que acomete mulheres, nem todas, a partir dos 40 e tal, e pode durar muitos anos. ali começa a derradeira revolução hormonal, que vira tudo de cabeça pra baixo, que taca fogo na mistura e deixa a cama, a casa, o mundo ardendo em chamas. só que por dentro.

ardo, de meia em meia hora, queimo. acordo no meio da noite, muitas vezes, pra arder. sou interrompida no meio do dia pela minha própria ebulição. que venenos estará meu corpo destilando? que lixos estará incinerando, nessa estranha queimada das entranhas? desejo que todos os resíduos nefastos da vida sejam trazidos à tona agora, para que as fogueiras das vaidades, das banalidades, das futilidades, das desimportâncias os queimem. e deixem ali, onde estava tudo empilhado em desordem, a redução, a essência do puro valor da vida. o que importa, o que é bom, o que afina o que está dentro com o que está fora. entropia eterna.

entendo, porque assim desejo, que os ardores são um ritual feminino de purificação, que prepara as mulheres para que se metamorfoseiem em índias velhas, em lobas, em corujas, em cavalas selvagens, em onças pintadas, em elefoas majestosas de todas as cores, em garças brancas, em borboletas azuis. E assim a mulher vai fazendo a passagem, a transmissão de energia, se transmutando num tipo peculiar de elemental, virando árvore, grama, líquen, limo. se diluindo na água, evaporando no ar, espalhando-se como a terra que cobre a Terra para acolher as profundas raizes das árvores, para finalmente, acha em brasa, lamber o céu, esfogueada, em labaredas. e subir alto, alto, onde a vista não mais alcança, onde nada se pode mais tocar, nem ver, nem ouvir. onde tudo é nuvem, magnetismo, eletricidade primordial, raios e trovões. e dali, dos tempos e espaços imemoriais, ela chove, seiva da vida. e as flores brotam da lama, mais uma vez.

 

a entrevista em que a Mônica Salmaso fala sobre a situação atual da mpb é um sucesso! todo mundo concordando: indigência, Lepo lepo, Anitta, popozudas etc.

 

Daqui do meu lugar de cantora, há 25 anos em plena atividade praticamente ignorada pela mídia oficial, tenho minhas observações a fazer, advogando, também, em causa própria.

 

Voltando rapidamente ao passado, depois de ter feito milhares de shows em todas as casas bacanas do RJ, tendo feito 10 anos de coisas incríveis ao lado de músicos idem, cantei durante cinco anos na Modern Sound, onde fiz 275 shows. Nenhum jornalista de música foi me ver. A imprensa, que quase não há nesta cidade e, salvo exceções, é monotemática, não dava nem tijolinho sobre o show, pq alegava ser atividade permanente, fora do interesse dos cadernos de cultura. Os jornalistas especializados nunca apareceram, apesar de fartamente convidados por mim. Nunca uma linha numa coluna pra dizer: existe, no Rio, uma cantora que fez 275 shows lotados, sábados à tarde, no templo adorado da Modern Sound.

 

É uma delicada rede de silêncio: sem o jornalista dar uma nota, sem a imprensa falar, o público fica desinformado e eu e todos na minha situação, deixamos de existir oficialmente, tendo que correr por fora, eternamente clandestinos, iniciantes, aspirantes. Inventando formas de existir num universo paralelo ao da mpb oficial.

 

Nestes 25 anos, lancei 5 discos solo, cujos shows de lançamento foram solenemente ignorados pela mídia (não estou falando de crítica aos discos, que tive). Independentemente da qualidade do meu trabalho, ele existe, não estou louca. A apreciação vai de cada um. Mas como provar que ele existe, se ele não existe oficialmente? No nosso ambiente, só existe oficialmente o que tem a anuência da imprensa, da tv, do rádio. O público espera essa autorização, essa recomendação. E nós não aparecemos na TV, não tocamos no rádio e não saímos no jornal. Logo, não existimos.

 

Sou do Arranco de Varsóvia, há 13 anos, lançamos três cds e um DVD neste período. Que eu saiba, também nunca tivemos a presença de um jornalista de música na nossa plateia. Mesmo com prêmios, com parcerias nobres e uma atividade permanente e pioneira, há 20 anos.

 

Há 4 anos sou a única artista residente da única casa de jazz internacional desta cidade. Um templo da música boa, dessa sobre a qual se falou tanto hoje nas linhas do tempo. Isso é um lugar raro de se estar, como cantora, numa cidade como o Rio de Janeiro. Já recebi a canja de artistas incríveis, de músicos de todo o mundo, de plateias vip, mas nunca, jamais, em tempo algum, vi um jornalista de música na plateia da casa, com exceção da Eugenia Rodrigues. Essa pauta, que já tentei vender mil vezes, não interessa a ninguém. Ok, então, não precisa falar sobre mim. Mas, sobre a casa, sim! É obrigatório falar, pq ela é um lugar da excelência, onde a música e o músico são tratados com um respeito que não se vê nesta cidade. Não é uma casa de festa, com música pra vender cerveja, Mas nem tijolinho a gente consegue. “não sobra espaço”, dizem.

 

Vivo escutando, das pessoas que gostam da minha música, que eu não divulgo meu trabalho, que o mundo deveria conhecer meu disco novo, que o que faço é maravilhoso demais pra ser ignorado. Como se eu quisesse manter meu trabalho em segredo, pra meia dúzia de admiradores. Como se eu não estivesse tentando, querendo, precisando e merecendo essa expansão. Tento sem parar, quero, preciso e mereço, mas não tenho braços pra, sozinha, remar esse barco. Nenhum artista tem. Dinheiro ajuda, mas não resolve. Cada vez q eu vejo um show maravilhoso com plateia vazia, eu lembro do quanto as pessoas reclamam do panorama da música ruim, sem levantar da frente do óbvio para ir ver o mundo real, onde artistas reais criam, vivem, trabalham e renovam, sim, a boa música brasileira de cada dia.

podem me prender, podem me bater e podem até deixar-me sem comer que eu não mudo de opinião. daqui do morro eu não saio, não.

50

14/07/2014

à beira de fazer aniversario, saio de um show numa rádio, pela manhã, mal dormida, pensando no show que terei, exatas 12 horas depois.

chego em casa, ligo o ar, desligo os telefones e me permito dormir o soninho da beleza entre um show e outro. durmo fácil como se fosse.

sonho que estou à beira de uma piscina muito turquesa,  cujas bordas se nivelam ao gramado em redor, como se a água sempre tivesse estado ali, brotando do centro do quintal.

vejo uma criança-delfim me convidando para entrar na piscina, mergulhando desaparecendo numa borda para aparecer em outra, um erê-sereia, chamando sem chamar. vou.

me jogo, mergulho, desta vez por uma espécie de túnel no ar, uma fenda na parede da paisagem por onde entro, como se pulasse um muro pra dentro do mundo.

mergulho e brinco de encontrar a criança dentro d’água. ela foge de mim, nos perdemos, ela ri de mim. e qdo boto a cabeça pra fora, só dá tempo de eu ver as  paredes do mundo se fechando em volta da piscina, retângulo perfeito, erguendo uma muralha de cimento que vai subindo qual torre de babel ao infinito, em volta do perímetro perfeito da piscina. e lá estou eu, no fundo de uma garganta sem fundo. meu paraíso começa a ser emparedado e o sol, que brilhava e azulava tudo, vai virando uma janela remota lá em cima, retangular, uma claraboia que vai se afunilando enquanto sobem as paredes de cimento, em volta de mim, ao universo e além.

minha claustrofobia quase se rende quando percebo um caco caindo do muro eterno, deixando ver o mundo lá fora e, dali, já consigo avistar um pedaço de paisagem, um céu azul, montanhas verdes ensolaradas e outras águas. por conta própria, o cimento da parede vai descascando, saindo como se fosse a casca de uma fruta que se tira com as mãos, espiralando. só que aqui, a polpa da fruta era o lado de fora. a parede se dissolve, e o muro se desfaz em troça. dentro da piscina permaneço, de  novo ao sol, de novo vislumbrando um canto de natureza meio torta, meio Dali. e aí, o céu é meu, e eu sou a dona daquilo tudo de novo.

e nem sei porque, naquela hora, no meio do sonho, eu tive certeza de que as paredes cederam por mim, a mim, e que o sol iluminou a piscina e que o céu era azul, pra mim. só pra me avisar que era meu aniversário e que tudo, tudo está no seu lugar.

perdi um pouco a hora, levantei correndo, segunda sessão começando em breve. 50 anos. banho, maquiagem, cabelo, figurino, malinha, taxi. 50 anos.

2014-03-15 17.01.19

 

 

 

 

 

cena

05/07/2014

a qualquer momento

pode brotar de dentro de mim uma explosão

ainda sou mulher, estou inteira

todas as avalanches pessoais, para que servem?

se não forem pra me deixar assim, de pé

morrendo de vontade de ir ainda um pouco além

e pensando que ora, ora, tudo pode acontecer

porque não é possível que essa coisa toda, que a dor da vida

seja pra quase nada, seja maior do que eu

não é. não vou arredar pé

estou bem aqui, in the spotlight, esperando a deixa

pra engolir em seco, aprumar as costas

e entrar em cena, mais uma vez

travessa 046

Qual é a música do Brasil? O samba de Cartola é tão brasileiro quanto o de Chico Buarque, assim como o choro do Jacob do Bandolim e o do Hamilton de Holanda. O Brasil de Tim Maia suinga, assim como o de Jorge Benjor, e logo ali estão os mineiros do Clube da Esquina, com a voz celestial de Milton Nascimento, a guitarra internacional de Toninho Horta. E tem também o Toninho paulista, o Ferraguti, que manda ver no acordeon, assim como o Borguetinho, lá do Sul, e o mestre Dominguinhos da Paraíba, que bota todo mundo pra dançar xote, forró e xaxado. E já que estamos no nordeste, como não falar de maracatu, de boi, de ciranda e de coco? Do sincretismo da Bahia, do afoxé, do samba reggae e da MPB de Caetano e Gil. João Gilberto saiu da Bahia para dar sua cara à ensolarada bossanova, carioca como Tom Jobim, tão brasileira quanto o samba canção, o carimbó e a chula. O Brasil tem em si toda a musicalidade do mundo. É muita música neste país.

2014-03-30 17.55.39

questão de gosto

16/06/2014

nunca tive um bicho. amo animais só nos videos do youtube. vejo milhares, platônica.

tenho aflição do olhar transparente dos gatos e jamais recolheria o cocô de um cachorro com saquinho plástico. detesto cheiro de cachorro. e acho um saco qdo vou namorar um cara na casa dele e o cachorro fica do lado da cama ou qdo o gato se esfrega na minha perna.

eu nao gosto de Dali. admiro, entendo a importância. mas nao gosto. adorava qdo era adolescente, mas parei de gostar.

detesto fusca, qq um, de qq época. sempre detestei. nem acho fofo.

gostei de romero britto qdo vi pela primeira vez, a explosão de cores. agora, intoxiquei. mas acho um saco isso de ser proibido gostar dele.

romero britto é o paulo coelho das artes plásticas. mas quem falou que ele faz artes plásticas e q o paulo coelho faz literatura? óbvio que não.

adoro o vinho carmenère daqueles vira-latas do club des sommeliers. acho um néctar dos deuses. custa 17 pila.

não acho bonito mulher grávida. entendo a filosofia da beleza, a vida blá blá, mas acho feíssimo.

intimamente, sempre descredenciei e desconfiei das autoridades. e hoje em dia tem essa coisa insuportável de ter coach pra tudo. ninguém sabe mais fazer nada sozinho: estudar, pesquisar, pensar, malhar, comer, rezar, decidir, viver, administrar carreira, cantar, existir.

amo comer qualquer legume e verdura crus, qualquer um. acho delicioso, de verdade.

preconceito: eu acho que todo gringo tem cecê e não toma banho direito.

adoro feriados, dias enforcados, greves de ônibus, chuvas torrenciais e tudo aquilo que interrompe o mundo.

eu como chocolate todo dia. amargo, beeem amargo. e café, não adoço de jeito nenhum. acho café uma bebida doce.

eu acho o rock um esporte juvenil.

nao sinto a menor culpa de ligar o ar bem gelado toda noite e dormir enroscada num edredon fofo.

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a era da incerteza

05/06/2014

a ordem da hora é trans-former

uma amiga me liga e diz: quero mudar de persona. abandonar esta que sou e ser outra, desfazer os laços e inventar uma nova personalidade, mudar de país, de nome, de pele

o amigo do post anterior tb se diverte mudando de persona, como drag. a amiga que queria mudar de persona, embora mulher, se anima e vai se montar de drag, tb. quer experimentar o não-ser que, já sabemos, não há

a amiga caretona resolve ir a uma casa de suingue com o maridón pra ver se muda o casamento, o marido e a si mesma

a outra diz que vai largar tudo e plantar e colher com a mão a pimenta e o sal

outra amiga me liga hj e diz: estou brincando de namorar menina, mas não sou gay

clarissimo que o território do sexo é o favorito para experimentação de self(ies), além das redes sociais, que é onde os maiores statements são feitos, assim, ao vento. curioso este momento da humanidade que privilegia a mudança à permanência, o duvidoso ao certo, a novidade à segurança

e é também curioso como todos reclamam de impermanência, de incertezas, de não-comprometimento, especialmente nos relacionamentos. quem somos nós, quem são os agentes?

 

2014-03-28 21.49.13

minha rainha

01/06/2014

eu tenho um amigo. ele me ensinou tantas coisas tão importantes pra mim. fomos juntos à faculdade. descobrimos que, mesmo com diferenças etárias e geográficas radicais, nascemos falando o mesmo idioma.

com muito orgulho vi aquele garoto da calça verde virar gente, dono de uma inteligência rara, que o levou a todos os lugares do mundo onde ele esteve estudando, trabalhando, sendo genial, divertido, engraçado, competente, maravilhoso. a carreira deslanchou e ele desabrochou pra vida, aprendeu de tudo, falou línguas. mas tinha dificuldade em encontrar aquele lugar interior onde a gente tira o sapato e se sente acolhido. o mundo pode ser um lugar difícil.

esse meu amigo é gay. faz diferença? faz. e vou explicar porque. ele não foi meu primeiro amigo gay, mas foi o primeiro que me contou que apanhou na rua por ser gay, que mostrou que o mundo podia ser hostil, mas que ele não ia se dar por vencido. ele foi abrindo caminho no grito, na competência: olhem pra mim, eu sou assim! um dia, ele descobriu que ele era o dono do lugar que quisesse, que podia plantar sua bandeira em qq lugar e simplesmente ser.  então ele floresceu, se apoderou de si mesmo, ocupando sua plena potência. e me ensinou a me olhar, a me ser, a exigir respeito como mulher, hetero, cantora, gordinha e carioca. eu.

com ele aprendi a ter intimidade que eu nunca tinha praticado com ninguém. aprendi a falar o indizível e a ouvir o inaudível, humanos, simplesmente humanos sobre a terra. por ele, com ele, trabalhei um monte de preconceitos, um monte de olhares viciados, aprendi montes de coisas e me transformei numa pessoa menos careta.

lindo, gato, bem sucedido profissionalmente, altos e baixos no amor, diversão em alta, produtividade bombando. ele agora resolveu se divertir um pouco mais e virar drag queen. falamos de maquiagem, de perucas, de truques femininos. eu e meu amigo. e lá vou eu, majestade, aprender a domar outros preconceitos, a fazer o dolorido exercício de aceitar o desconhecido sem julgar, lá vou eu detonar outros vícios do olhar e ver outras novidades nunca dantes navegadas. e assim, o mundo se esclarece, pela via do amor. tive sorte de te encontrar, my queen, minha rainha louca!

olha vem comigo aonde eu for, seja minha amada e meu amor, vem segui comigo meu caminho e viver a vida só de amor

 

árvore da vida

30/05/2014

a pessoa encontra comigo na rua e fala: “meniiiiina, não consigo ver seu show!” aqui comigo, penso “e tenta?”. fiz 275 shows na Modern Sound, todos os sábados, durante cinco anos. ela me encontrava na rua e dizia: “ah, quero taaanto te ver! mas nao consigo”. estou há 4 anos residente no Triboz, e em outros lugares, sempre. canto sem parar, há 25 anos. e ela: “nossa! esse eu não perco!” E perde.

essa mesma pessoa me pede receitas vegetarianas e/ou naturebas, que faço todo dia pra mim mesma. na verdade são não-receitas. abro a geladeira e faço a combinação na hora. tudo muito fácil de fazer. às vezes, posto a foto, e ela me pede as receitas. eu escrevo, já que não existem, e mando pra ela. outro dia disse que nunca fez nenhuma: “muito complicado isso, né??” esses dias, ela comentou que sonha em comer comida saudável, mas dá muito trabalho. diz também que quer cantar e tocar um instrumento e ir pro samba e sair pra dançar e ir a shows legais e fala: “me chama qdo for?” transferindo pra mim a escolha que deveria ser dela.

entendo isso como uma metáfora de um tipo de vida que é bem comum. a pessoa vive desejando algo que não consegue alcançar, por mais fácil que seja, por mais que só precise esticar a mão. e vive desejante e não goza nunca. deus me livre e guarde. é tudo o que eu não quero pra mim! hoje eu precisava dessa aula, pra lembrar de esticar a mão e pegar o fruto que eu quiser da árvore da vida. inclusive aquele.

I believe I can fly, I believe I can touch the sky , I think about it ev'ry night and day, spread my wings and fly away

aceitação

29/05/2014

nada existe, só o momento que invento, este momento, que passa por dentro de cada letra de cada uma dessas palavras e já não é mais o mesmo na próxima. e assim, o tempo escorrega, aquoso, volátil, esquivo.

tenho pavor do futuro. que bom, o futuro a deus pertence.

a mim só pertence o presente.

2014-04-23 00.01.54d

 

 

 

reveillon

21/05/2014

nota mental:

sempre que parecer que tudo parou, respire. cale. pare. olhe. escute. descanse. vem aí um tudo novo. de novo.

2014-05-19 17.12.52

Quero alguém que me pegue aqui

pra ver a lua cheia de outono

Alguém que me ligue pra dizer: saudade, nêga, vem cá.

Mas não dou sorte no amor

Tenho essa mania de rua,

não temo os becos, bebo com putas

cato cacos transeuntes,

e com eles teço os dias e poesia bruta

dou um tapa com a traveca e trago gengibre e breja

dentro de mim mora uma moça toda de cor de rosa

 

Alguém que me ligue sexta reservando o sábado

Que me chame pra pegar um cineminha, as mãos dadas

Mas dou azar com as paixões desavessadas

que começam pelo fim e terminam de manhã

antes que eu sequer tenha a chance de sonhar

Meu corpo é uma cidade manifestada, calçada de palavras, em chamas,

em mim é sempre alta madrugada e drama

 

Um certo alguém que sente à mesa pra tomar café com pão

Que me beije a boca com paixão, e me leve no ponto

Mas eu não tenho tato com as certezas

Salto de uma pra outra, vidrada na dúvida.

Devo, não devo, fervo, permito,

e me perco no epicentro da roda de samba

Não obstante, me sinto só

Engulo a seco, o choro, e soluço de cachaça e riso

E piso firme na beira da praia, onde corro onde solo onde sob o sol,

Soul poeta, atleta, alegria e contradição.

 

 

Branca, branca, branca, branca A minha, nossa voz atua sendo silêncio Meu canto não tem nada a ver com a lua

 

* comecei a escrever este poema sobre mim mesma, mas qdo vi, servia pra minha amiga aniversariante, Lelê , que é tipo eu, assim mesmo.

batismo

12/05/2014

egrégora é uma reunião, é isso que quer dizer igreja.

a igreja católica cobra pra casar pessoas, cobra pra batizar pessoas, cobra pra fazer missa em intenção de almas. qdo o casamento é em igreja que tem pátio e salão, eles “$ugerem” que vc faça a ornamentação e o serviço de bufê com gente que eles “conhecem”, pra “facilitar”.

tenho horror absoluto à igreja católica e tudo o que a cerca. estudei em colégio de freiras até os 14 anos, e a maior parte dos meus pesadelos sempre teve a ver com os terrores plantados em mim pelas aulas de religião, coisas sobre demônios, anjos, céu e inferno. fui assombrada por essas imagens durante a minha infância.  a história prova que os religiosos são os maiores terroristas que há e que os piores crimes foram e ainda são cometidos em nome de deus. apavorar crianças com os dogmas surrealistas da igrejas, prometer castigos nas fogueiras do sem fim para quem cometer “pecados”, aos 7 anos de idade, é criminoso.

acabo de ser convidada para ser madrinha, pela 4ª vez. não nego pq amo a amiga que me convidou e a neném dela. mas gostaria de dizer: não, obrigada, não compactuo com essa igreja que atrasou a humanidade e seus rituais. mas aceito a deferência, pelo simbolismo, e engulo minha ira para postá-la aqui. mas saber que tenho que fazer curso de madrinha, de novo, pq a igreja acha que o curso só tem validade de 6 meses, dá um ódio mortal! pq além de compactuar com esses assassinos ladrôes pedófilos,  ainda vou ter que perder duas sagradas horas da minha vida fazendo um curso que vai me ensinar a amar como a igreja ama.

francamente, se vc não é católico praticante, batizar na igreja por quê? em vez de repetir essas coisas, sem pensar,  por que não fazer diferente? batizar na praia, na cachoeira, numa festa de gente amiga e amada? Afinal, não é isso que importa? O amor? ou vc realmente acredita que há um deus olhando pra vc, pronto pra te castigar ou jogar a alma das crianças pagãs no limbo, pra toda eternidade?

SAM_4237

tenho amigos que se consideram os super machos-alfa do bando, e passam o tempo TODO imitando os viados. O teor da brincadeira, que fazem entre si, sempre tem a ver com sexualidade. Na hora de pegar no pé uns dos outros, se divertem apontando as atitudes de “bichinha”, “coisa de viadinho”, de boiola, de gayzinho. São meninos bobos, eternamente medindo o pinto, e sempre se sentindo pequenos, pq não sabem ainda que essa medida é subjetiva. Afinal, macho que é macho não relativiza nada. É pau, é pedra.

O discurso que usam em público é o tradicional “não-tenho-nada-com-isso-cada-um-é-feliz-como-quer-só-não-vem-me-cantar”, mas é mentira. Não sabem como lidar com as diferenças, pq papi e mami ensinaram a separar pessoas por cor, práticas sexuais e conta bancária. Não cresceram, não amadureceram, ficaram no triste limbo da não-reflexão, do conforto da ignorância. Falam, em público, o que acham que “pega bem”, mas entre eles, soltam a franga, obcecados pelos trejeitos e práticas gays. Pela liberdade que não conhecem. Eles se ocupam muito mais em zoar as bichas do que em tentar ser os homens superiores puro-sangue que acham que são, mas não são. Isso, sim, é ter problema sexual.

2014-02-09 23.42.51

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