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14/07/2014

à beira de fazer aniversario, saio de um show numa rádio, pela manhã, mal dormida, pensando no show que terei, exatas 12 horas depois.

chego em casa, ligo o ar, desligo os telefones e me permito dormir o soninho da beleza entre um show e outro. durmo fácil como se fosse.

sonho que estou à beira de uma piscina muito turquesa,  cujas bordas se nivelam ao gramado em redor, como se a água sempre tivesse estado ali, brotando do centro do quintal.

vejo uma criança-delfim me convidando para entrar na piscina, mergulhando desaparecendo numa borda para aparecer em outra, um erê-sereia, chamando sem chamar. vou.

me jogo, mergulho, desta vez por uma espécie de túnel no ar, uma fenda na parede da paisagem por onde entro, como se pulasse um muro pra dentro do mundo.

mergulho e brinco de encontrar a criança dentro d’água. ela foge de mim, nos perdemos, ela ri de mim. e qdo boto a cabeça pra fora, só dá tempo de eu ver as  paredes do mundo se fechando em volta da piscina, retângulo perfeito, erguendo uma muralha de cimento que vai subindo qual torre de babel ao infinito, em volta do perímetro perfeito da piscina. e lá estou eu, no fundo de uma garganta sem fundo. meu paraíso começa a ser emparedado e o sol, que brilhava e azulava tudo, vai virando uma janela remota lá em cima, retangular, uma claraboia que vai se afunilando enquanto sobem as paredes de cimento, em volta de mim, ao universo e além.

minha claustrofobia quase se rende quando percebo um caco caindo do muro eterno, deixando ver o mundo lá fora e, dali, já consigo avistar um pedaço de paisagem, um céu azul, montanhas verdes ensolaradas e outras águas. por conta própria, o cimento da parede vai descascando, saindo como se fosse a casca de uma fruta que se tira com as mãos, espiralando. só que aqui, a polpa da fruta era o lado de fora. a parede se dissolve, e o muro se desfaz em troça. dentro da piscina permaneço, de  novo ao sol, de novo vislumbrando um canto de natureza meio torta, meio Dali. e aí, o céu é meu, e eu sou a dona daquilo tudo de novo.

e nem sei porque, naquela hora, no meio do sonho, eu tive certeza de que as paredes cederam por mim, a mim, e que o sol iluminou a piscina e que o céu era azul, pra mim. só pra me avisar que era meu aniversário e que tudo, tudo está no seu lugar.

perdi um pouco a hora, levantei correndo, segunda sessão começando em breve. 50 anos. banho, maquiagem, cabelo, figurino, malinha, taxi. 50 anos.

2014-03-15 17.01.19

 

 

 

 

 

cena

05/07/2014

a qualquer momento

pode brotar de dentro de mim uma explosão

ainda sou mulher, estou inteira

todas as avalanches pessoais, para que servem?

se não forem pra me deixar assim, de pé

morrendo de vontade de ir ainda um pouco além

e pensando que ora, ora, tudo pode acontecer

porque não é possível que essa coisa toda, que a dor da vida

seja pra quase nada, seja maior do que eu

não é. não vou arredar pé

estou bem aqui, in the spotlight, esperando a deixa

pra engolir em seco, aprumar as costas

e entrar em cena, mais uma vez

travessa 046

Qual é a música do Brasil? O samba de Cartola é tão brasileiro quanto o de Chico Buarque, assim como o choro do Jacob do Bandolim e o do Hamilton de Holanda. O Brasil de Tim Maia suinga, assim como o de Jorge Benjor, e logo ali estão os mineiros do Clube da Esquina, com a voz celestial de Milton Nascimento, a guitarra internacional de Toninho Horta. E tem também o Toninho paulista, o Ferraguti, que manda ver no acordeon, assim como o Borguetinho, lá do Sul, e o mestre Dominguinhos da Paraíba, que bota todo mundo pra dançar xote, forró e xaxado. E já que estamos no nordeste, como não falar de maracatu, de boi, de ciranda e de coco? Do sincretismo da Bahia, do afoxé, do samba reggae e da MPB de Caetano e Gil. João Gilberto saiu da Bahia para dar sua cara à ensolarada bossanova, carioca como Tom Jobim, tão brasileira quanto o samba canção, o carimbó e a chula. O Brasil tem em si toda a musicalidade do mundo. É muita música neste país.

2014-03-30 17.55.39

questão de gosto

16/06/2014

nunca tive um bicho. amo animais só nos videos do youtube. vejo milhares, platônica.

tenho aflição do olhar transparente dos gatos e jamais recolheria o cocô de um cachorro com saquinho plástico. detesto cheiro de cachorro. e acho um saco qdo vou namorar um cara na casa dele e o cachorro fica do lado da cama ou qdo o gato se esfrega na minha perna.

eu nao gosto de Dali. admiro, entendo a importância. mas nao gosto. adorava qdo era adolescente, mas parei de gostar.

detesto fusca, qq um, de qq época. sempre detestei. nem acho fofo.

gostei de romero britto qdo vi pela primeira vez, a explosão de cores. agora, intoxiquei. mas acho um saco isso de ser proibido gostar dele.

romero britto é o paulo coelho das artes plásticas. mas quem falou que ele faz artes plásticas e q o paulo coelho faz literatura? óbvio que não.

adoro o vinho carmenère daqueles vira-latas do club des sommeliers. acho um néctar dos deuses. custa 17 pila.

não acho bonito mulher grávida. entendo a filosofia da beleza, a vida blá blá, mas acho feíssimo.

intimamente, sempre descredenciei e desconfiei das autoridades. e hoje em dia tem essa coisa insuportável de ter coach pra tudo. ninguém sabe mais fazer nada sozinho: estudar, pesquisar, pensar, malhar, comer, rezar, decidir, viver, administrar carreira, cantar, existir.

amo comer qualquer legume e verdura crus, qualquer um. acho delicioso, de verdade.

preconceito: eu acho que todo gringo tem cecê e não toma banho direito.

adoro feriados, dias enforcados, greves de ônibus, chuvas torrenciais e tudo aquilo que interrompe o mundo.

eu como chocolate todo dia. amargo, beeem amargo. e café, não adoço de jeito nenhum. acho café uma bebida doce.

eu acho o rock um esporte juvenil.

nao sinto a menor culpa de ligar o ar bem gelado toda noite e dormir enroscada num edredon fofo.

2014-04-03 23.35.14

 

a era da incerteza

05/06/2014

a ordem da hora é trans-former

uma amiga me liga e diz: quero mudar de persona. abandonar esta que sou e ser outra, desfazer os laços e inventar uma nova personalidade, mudar de país, de nome, de pele

o amigo do post anterior tb se diverte mudando de persona, como drag. a amiga que queria mudar de persona, embora mulher, se anima e vai se montar de drag, tb. quer experimentar o não-ser que, já sabemos, não há

a amiga caretona resolve ir a uma casa de suingue com o maridón pra ver se muda o casamento, o marido e a si mesma

a outra diz que vai largar tudo e plantar e colher com a mão a pimenta e o sal

outra amiga me liga hj e diz: estou brincando de namorar menina, mas não sou gay

clarissimo que o território do sexo é o favorito para experimentação de self(ies), além das redes sociais, que é onde os maiores statements são feitos, assim, ao vento. curioso este momento da humanidade que privilegia a mudança à permanência, o duvidoso ao certo, a novidade à segurança

e é também curioso como todos reclamam de impermanência, de incertezas, de não-comprometimento, especialmente nos relacionamentos. quem somos nós, quem são os agentes?

 

2014-03-28 21.49.13

minha rainha

01/06/2014

eu tenho um amigo. ele me ensinou tantas coisas tão importantes pra mim. fomos juntos à faculdade. descobrimos que, mesmo com diferenças etárias e geográficas radicais, nascemos falando o mesmo idioma.

com muito orgulho vi aquele garoto da calça verde virar gente, dono de uma inteligência rara, que o levou a todos os lugares do mundo onde ele esteve estudando, trabalhando, sendo genial, divertido, engraçado, competente, maravilhoso. a carreira deslanchou e ele desabrochou pra vida, aprendeu de tudo, falou línguas. mas tinha dificuldade em encontrar aquele lugar interior onde a gente tira o sapato e se sente acolhido. o mundo pode ser um lugar difícil.

esse meu amigo é gay. faz diferença? faz. e vou explicar porque. ele não foi meu primeiro amigo gay, mas foi o primeiro que me contou que apanhou na rua por ser gay, que mostrou que o mundo podia ser hostil, mas que ele não ia se dar por vencido. ele foi abrindo caminho no grito, na competência: olhem pra mim, eu sou assim! um dia, ele descobriu que ele era o dono do lugar que quisesse, que podia plantar sua bandeira em qq lugar e simplesmente ser.  então ele floresceu, se apoderou de si mesmo, ocupando sua plena potência. e me ensinou a me olhar, a me ser, a exigir respeito como mulher, hetero, cantora, gordinha e carioca. eu.

com ele aprendi a ter intimidade que eu nunca tinha praticado com ninguém. aprendi a falar o indizível e a ouvir o inaudível, humanos, simplesmente humanos sobre a terra. por ele, com ele, trabalhei um monte de preconceitos, um monte de olhares viciados, aprendi montes de coisas e me transformei numa pessoa menos careta.

lindo, gato, bem sucedido profissionalmente, altos e baixos no amor, diversão em alta, produtividade bombando. ele agora resolveu se divertir um pouco mais e virar drag queen. falamos de maquiagem, de perucas, de truques femininos. eu e meu amigo. e lá vou eu, majestade, aprender a domar outros preconceitos, a fazer o dolorido exercício de aceitar o desconhecido sem julgar, lá vou eu detonar outros vícios do olhar e ver outras novidades nunca dantes navegadas. e assim, o mundo se esclarece, pela via do amor. tive sorte de te encontrar, my queen, minha rainha louca!

olha vem comigo aonde eu for, seja minha amada e meu amor, vem segui comigo meu caminho e viver a vida só de amor

 

árvore da vida

30/05/2014

a pessoa encontra comigo na rua e fala: “meniiiiina, não consigo ver seu show!” aqui comigo, penso “e tenta?”. fiz 275 shows na Modern Sound, todos os sábados, durante cinco anos. ela me encontrava na rua e dizia: “ah, quero taaanto te ver! mas nao consigo”. estou há 4 anos residente no Triboz, e em outros lugares, sempre. canto sem parar, há 25 anos. e ela: “nossa! esse eu não perco!” E perde.

essa mesma pessoa me pede receitas vegetarianas e/ou naturebas, que faço todo dia pra mim mesma. na verdade são não-receitas. abro a geladeira e faço a combinação na hora. tudo muito fácil de fazer. às vezes, posto a foto, e ela me pede as receitas. eu escrevo, já que não existem, e mando pra ela. outro dia disse que nunca fez nenhuma: “muito complicado isso, né??” esses dias, ela comentou que sonha em comer comida saudável, mas dá muito trabalho. diz também que quer cantar e tocar um instrumento e ir pro samba e sair pra dançar e ir a shows legais e fala: “me chama qdo for?” transferindo pra mim a escolha que deveria ser dela.

entendo isso como uma metáfora de um tipo de vida que é bem comum. a pessoa vive desejando algo que não consegue alcançar, por mais fácil que seja, por mais que só precise esticar a mão. e vive desejante e não goza nunca. deus me livre e guarde. é tudo o que eu não quero pra mim! hoje eu precisava dessa aula, pra lembrar de esticar a mão e pegar o fruto que eu quiser da árvore da vida. inclusive aquele.

I believe I can fly, I believe I can touch the sky , I think about it ev'ry night and day, spread my wings and fly away

aceitação

29/05/2014

nada existe, só o momento que invento, este momento, que passa por dentro de cada letra de cada uma dessas palavras e já não é mais o mesmo na próxima. e assim, o tempo escorrega, aquoso, volátil, esquivo.

tenho pavor do futuro. que bom, o futuro a deus pertence.

a mim só pertence o presente.

2014-04-23 00.01.54d

 

 

 

reveillon

21/05/2014

nota mental:

sempre que parecer que tudo parou, respire. cale. pare. olhe. escute. descanse. vem aí um tudo novo. de novo.

2014-05-19 17.12.52

Quero alguém que me pegue aqui

pra ver a lua cheia de outono

Alguém que me ligue pra dizer: saudade, nêga, vem cá.

Mas não dou sorte no amor

Tenho essa mania de rua,

não temo os becos, bebo com putas

cato cacos transeuntes,

e com eles teço os dias e poesia bruta

dou um tapa com a traveca e trago gengibre e breja

dentro de mim mora uma moça toda de cor de rosa

 

Alguém que me ligue sexta reservando o sábado

Que me chame pra pegar um cineminha, as mãos dadas

Mas dou azar com as paixões desavessadas

que começam pelo fim e terminam de manhã

antes que eu sequer tenha a chance de sonhar

Meu corpo é uma cidade manifestada, calçada de palavras, em chamas,

em mim é sempre alta madrugada e drama

 

Um certo alguém que sente à mesa pra tomar café com pão

Que me beije a boca com paixão, e me leve no ponto

Mas eu não tenho tato com as certezas

Salto de uma pra outra, vidrada na dúvida.

Devo, não devo, fervo, permito,

e me perco no epicentro da roda de samba

Não obstante, me sinto só

Engulo a seco, o choro, e soluço de cachaça e riso

E piso firme na beira da praia, onde corro onde solo onde sob o sol,

Soul poeta, atleta, alegria e contradição.

 

 

Branca, branca, branca, branca A minha, nossa voz atua sendo silêncio Meu canto não tem nada a ver com a lua

 

* comecei a escrever este poema sobre mim mesma, mas qdo vi, servia pra minha amiga aniversariante, Lelê , que é tipo eu, assim mesmo.

batismo

12/05/2014

egrégora é uma reunião, é isso que quer dizer igreja.

a igreja católica cobra pra casar pessoas, cobra pra batizar pessoas, cobra pra fazer missa em intenção de almas. qdo o casamento é em igreja que tem pátio e salão, eles “$ugerem” que vc faça a ornamentação e o serviço de bufê com gente que eles “conhecem”, pra “facilitar”.

tenho horror absoluto à igreja católica e tudo o que a cerca. estudei em colégio de freiras até os 14 anos, e a maior parte dos meus pesadelos sempre teve a ver com os terrores plantados em mim pelas aulas de religião, coisas sobre demônios, anjos, céu e inferno. fui assombrada por essas imagens durante a minha infância.  a história prova que os religiosos são os maiores terroristas que há e que os piores crimes foram e ainda são cometidos em nome de deus. apavorar crianças com os dogmas surrealistas da igrejas, prometer castigos nas fogueiras do sem fim para quem cometer “pecados”, aos 7 anos de idade, é criminoso.

acabo de ser convidada para ser madrinha, pela 4ª vez. não nego pq amo a amiga que me convidou e a neném dela. mas gostaria de dizer: não, obrigada, não compactuo com essa igreja que atrasou a humanidade e seus rituais. mas aceito a deferência, pelo simbolismo, e engulo minha ira para postá-la aqui. mas saber que tenho que fazer curso de madrinha, de novo, pq a igreja acha que o curso só tem validade de 6 meses, dá um ódio mortal! pq além de compactuar com esses assassinos ladrôes pedófilos,  ainda vou ter que perder duas sagradas horas da minha vida fazendo um curso que vai me ensinar a amar como a igreja ama.

francamente, se vc não é católico praticante, batizar na igreja por quê? em vez de repetir essas coisas, sem pensar,  por que não fazer diferente? batizar na praia, na cachoeira, numa festa de gente amiga e amada? Afinal, não é isso que importa? O amor? ou vc realmente acredita que há um deus olhando pra vc, pronto pra te castigar ou jogar a alma das crianças pagãs no limbo, pra toda eternidade?

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tenho amigos que se consideram os super machos-alfa do bando, e passam o tempo TODO imitando os viados. O teor da brincadeira, que fazem entre si, sempre tem a ver com sexualidade. Na hora de pegar no pé uns dos outros, se divertem apontando as atitudes de “bichinha”, “coisa de viadinho”, de boiola, de gayzinho. São meninos bobos, eternamente medindo o pinto, e sempre se sentindo pequenos, pq não sabem ainda que essa medida é subjetiva. Afinal, macho que é macho não relativiza nada. É pau, é pedra.

O discurso que usam em público é o tradicional “não-tenho-nada-com-isso-cada-um-é-feliz-como-quer-só-não-vem-me-cantar”, mas é mentira. Não sabem como lidar com as diferenças, pq papi e mami ensinaram a separar pessoas por cor, práticas sexuais e conta bancária. Não cresceram, não amadureceram, ficaram no triste limbo da não-reflexão, do conforto da ignorância. Falam, em público, o que acham que “pega bem”, mas entre eles, soltam a franga, obcecados pelos trejeitos e práticas gays. Pela liberdade que não conhecem. Eles se ocupam muito mais em zoar as bichas do que em tentar ser os homens superiores puro-sangue que acham que são, mas não são. Isso, sim, é ter problema sexual.

2014-02-09 23.42.51

a rua está pesada. cenhos fechados, olhares duros. defensiva-agressiva bombando. a gentileza morreu. os sorrisos se apagaram. todo mundo defendendo o que acredita ser seu, com unhas e dentes, aos trancos, às cotoveladas.

as pessoas estão tristes pq precisam sair das suas casas pra morar em lugares que não conhecem, pq nao podem mais pagar o que cobram onde sempre moraram. as pessoas estão cabreiras. os ladrões invadem prédios e condomínios e roubam o que bem entendem e saem lépidos e fagueiros, como se nada houvera. as pessoas estão apavoradas com os preços, e trabalham cada vez mais, desesperadamente, só pra poderem continuar vivas, trabalhando cada vez mais, desesperadas pra pagar os preços que alguém atribuiu às coisas.

desculpem, não tenho nenhuma novidade boa pra contar. todas as novidades que chegam a mim, neste país, me fazem me retrair, me recolher, me intimidar, me fechar na minha concha enquanto faço planos de ir morar numa ilha deserta e viver de pesca e frutas. e só.

através do espelho

25/02/2014

linda! penso, me olhando pelo lado de dentro do espelho. flawlessme amo. nenhum dos meus defeitos aparece nesse espelho, embora odeie, mortalmente, muitas partes de mim. meu espelho filtra imperfeições e destaca qualidades. nele sou transparente, com tudo que tenho de bom à tona, no nível da pele, no brilhos dos olhos, nos cachos dos cabelos. uma beleza amorfa que me encanta exibir, narcisa de qualidades abstratas. 

saio pelas ruas, do país do espelho, ostentando minhas belezas sublinhadas pela subjetividade. qdo exercito o espelho do lado de dentro, sou linda pelada, apetitosa, uma fruta perfumada e suculenta. se me mordiscam, ali desabrocha um sorriso, se me sentem o cheiro, nalgum lugar brota uma flor perfumada, e uma borboleta vem, correndo, visitar. entre mim e eu, sou a mais linda das mulheres cariocas, uma beldade original do Brasil, miscigenada, um pouco armênia, um pouco índia, sou toda predicados, toda adjetivos. ninguém me vê como me vejo. for my eyes only.

do lado de dentro do espelho me desejo, me afago, me consolo da invisibilidade do lado de lá. não importa que uns não me olhem, outros me critiquem, que eu não esteja dentro de nenhum padrão de nada. devo admitir que, mesmo sendo quem sou, como sou, ainda assim, sou a mulher mais perfeita do mundo, qdo saio por aí, cabeça erguida, desavessada, desfilando aquilo que sou e que meu corpo esconde. beijinho no ombro.

volto de viagem desanimadérrima com o Brasil, em especial com o Rio de Janeiro, cidade da qual posso falar, pq é aqui que vivo. cansada de tanta caretice disfarçada, percebo que finalmente colhemos o que plantamos durante toda a nossa história recente: um povo sem educação, sem cultura, com valores tacanhos e preconceitos mil, ainda cheios daquela velha opinião formada sobre tudo. A ignorância, no sentido da palavra, é a maior escuridão, a maior cegueira. temperado por essa sensação de superioridade tropical, o narcisismo carioca virou uma bomba cujos efeitos estamos experimentando. estamos ainda no tempo da depuração, vivendo nossa idade média, nos digladiando e levantando a cabeça do opositor como troféu. torço pra, se voltar brasileira, que seja daqui a mil anos luz, qdo os dinossauros que habitam a mentalidade cristã-tropical, sejam apenas fósseis nas sombras do tempo.

Viajando sozinha, flanando pelas ruas de Londres, debaixo de chuva e sentindo muito frio,  me permiti um breve descanso de um ano intenso de batalhas e conquistas. acabei fazendo uma viagem onde o silêncio de estar sozinha se transformou num misto de reflexão e contemplação desse admirável mundo velho. Esse que o maravilhoso, feliz e colorido Brasil jamais experimentou ou experimentará.

Demorei a entender o que era que me deixava tão bem ali. lá, no meio da rua do cidadão comum, as aparências já foram, há muito, substituídas por outros valores e vc pode ser azul de bolinha branca, que ninguém vai te julgar por isso. vc entra na livraria mega cult e a mulher te atende com um aplique de cabelo tipo Maggie Simpson, com uma maquiagem anos 50, séria e feliz, sendo como quer ser. No restaurante comum, o garçom usa alargador de orelha, tattoo na mão, dreadlocks lilás, amarradas no alto da cabeça como um espalhafatoso espanador e pronto. e vc acostuma e para de olhar pra isso com espanto. assim como vc vê uma coroa com um garotão num pub, bem à vontade, e uma gorda namorando um magro e uma velhinha bebendo sozinha e um velhinho vestido como um personagem de cinema e casais multi-étnicos e multi-etários, multi-sexuais e suas crianças furtacor. vejam bem: pra mim, que ainda estou no mundo das aparências, essa foi a lente pela qual identifiquei a liberdade.

me pego levemente envergonhada pelo Rio, cidade onde a aparência é tudo, malhar é tudo, ser gostosa é tudo. a espécie ainda não evoluiu pra perceber as outras qualidades e faculdades humanas. aqui vc não precisa ser, mas precisa parecer ser.

em Londres, cansada e desprovida de td censura, vestindo a capa da invisibilidade, experimento momentos da grandeza humana, sua história, sua transcendência e suas conquistas. choro no museu, que abriga a sabedoria de toda a humanidade e é de graça e está lotado. choro com o primeiro portrait de um homem negro, ex-escravo, que ganhou sua liberdade na Inglaterra. choro com o concerto de graça, na linda igreja cheia de jovens. choro pq na minha terra, onde a alegria é linda imperatriz, ainda estamos achando o espelho a melhor paisagem, estamos nadando no aquário, tolos, como se conhecêssemos o mar.

Corro atrás do tempo Vim de não sei onde Devagar é que não se vai longe Eu semeio o vento Na minha cidade Vou pra rua e bebo a tempestade

à bientôt

27/01/2014

em junho deste ano, 2014, faço 50 anos.

este blog tem esse nome pq, qdo eu tinha 20, conheci a obra do compositor Erik Satie e me apaixonei. ele tem uma peça chamada Avant-dernières pensées, que quer dizer Penúltimos pensamentos. fiquei encantada com a irreverência dele e com uma frase que, naquele tempo, já me parecia completamente pertinente: “Disseram-me: Verás quando tiveres 50 anos. Tenho 50 anos. Não vi nada”. Aos 20 anos eu já achava isso totalmente plausível e hoje, na beira dos 50, percebo que eu antecipara uma sensação de permanente perplexidade que, no ano passado, me fez tatuar um ponto de exclamação no cangote. quero deixar bem claro que estou perplexa e, embora não tenha visto nada, vi muita coisa e permaneço aquela mesma garota que tinha sede de viver tudo. acima de tudo, estou perplexa por fazer 50 anos.

ano retrasado, aos 48 anos, eu só pensava em desligar os aparelhos, desesperada por problemas de dinheiro, saúde, trabalho e amor. tudo ruiu. ano passado, como resultado de todo o investimento da vida, with a little help from my friends, aos 49, renasci. estou vivinha da silva.

àqueles que pensam que tem uma hora pra desistir do sonho e ir fazer outra coisa, conto meu segredinho: depois de intempéries, contrariando todas as expectativas e indicativos, vou realizar, em 2014, aos 50 anos, com 26 anos de carreira, o meu sonho impossível.

qdo eu tinha 29 anos, uma mulher muito foda me falou: “aquilo a que vc se dedicar, daí virá o seu sucesso”. nesse meio tempo entendi que o sucesso muda de lugar o tempo todo. e a gente na estrada, caminhando, caminhando. e isso é bom. *

o movimento do desejo é constante, avante, ao alto, em espirais ascendentes tendendo ao infinito.

*aos que acham que apenas o pensamento positivo basta, aquele abraço.

piso fora da nuvem com a lembrança de uma linha que une o pescoço à orelha. uma dobra. e um cheiro bom. e o toque. tudo branco.

o mundo lá fora é plano. as pessoas se falam mas não se escutam. o mundo lá fora é bege. luzes artificiais, bons dias e boas noites. na nuvem só existe verdade. eu falo, vc escuta. vc fala, eu calo. qdo vc me toca, paro, qdo te toco, vc sente. nos ouvimos, nos tocamos, calamos. dormimos, muito. como dormimos bem. e os beijos. e os beijos.

vc me dá uma toalha branquíssima e enorme, tapete de Aladim, sobrevoando Ipanema. meu cabelo está com o cheiro de um xampu que nunca usei. seu desodorante tem cheiro de baunilha,  e eu, pq estou navegando, branca, em sua nuvem, uso também.

vc me oferece uma escova de dentes, fechadinha num pacote: “usa, é sua”. meu corpo está um pouco trêmulo, porque you touched me. sorrio pro fauno que me acompanha. sorrio pra mim mesma no espelho do banheiro, pra minha cigana vermelha, agora envolta na maior toalha branca que há. sorrio, estou aqui agora no melhor dos mundos, portanto, flutuo.

pelo telefone, vc pede pão na chapa com queijinho, café, água gasosa, que amo. vc bota a mesa. requeijão e geleia. segura meu rosto entre suas mãos, me beija na boca, me trata bem. me trata como mulher. piso, pé ante pé, quase vendada,  no atalho de delícias que vc me promete qdo diz: “as janelas são quase à prova de som”. entendo. desfruto.

depois falamos coisas muito sérias sobre a vida, ficamos em silêncio, teorizamos, de mãos dadas. e cochilamos, um sobre o outro. penumbra de quase vigília dentro dos olhos: não posso perder nenhum detalhe.

quando piso fora da  nuvem, entro no taxi sorrindo, peço pra parar no posto, compro sorvete de chocolate belga. vou pra casa, deito, fecho os olhos, o corpo todo agudo. I cloud. Bom. Bem bom.

i could have danced all night i could have danced all night and still have begged for more

timaço

19/12/2013

amanha faço o ultimo show deste ano. fazendo as contas, vejo que fiz em torno de três shows por mês, se somar todos e dividir pelo ano todo. é muito menos do que eu gostaria, mas é o bastante pra me manter em atividade permanente. pra 2014 quero muito mais, sai da minha frente que eu quero passar, pq o samba está animado…

este ano eu fiz tudo o que quis fazer. planejei e fiz. mas não fiz nada sozinha. a lição mais importante de todas é: ninguém faz nada sozinho. a segunda é: planejamento e fidelidade ao plano até o fim, com jogo pra pequenas manobras de adaptação e atualização de cartografias. jogo limpo, peito aberto e decisão.

finalizei meu disco, lancei meu disco com louvor, emagreci pro lançamento, fiz um crowdfunding que deu certíssimo, tive o apoio de quase 300 pessoas, tive lindas críticas profissionais, fiz vários shows diferentes, com gente e repertório novos, gravei o disco do Arranco que sai em março, malhei diariamente em academia, fiz amigos novos, vi os antigos, me diverti a valer, ganhei muuuito mais prestígio e respeito e reconhecimento como cantora, fiz  incontáveis gravações, ensaios, coisas importantes e legais, sai da depressão abissal do ano passado, encontrei um médico maravilhoso, um produtor incrível, uma fisioterapeuta maravilhosa, uma empresária maravilhosa, uma produtora foférrima, uma equipe de deixar qq um de coração mole, músicos os melhores e mais queridos, uma gravadora dos sonhos. e fiz grandes, imprescindíveis, noitadas. mas nunca, em nenhum momento, fiz nada que não tivesse a colaboração de outra pessoa. meus parceiros, meus amigos, minha família, meus colegas de copo e de cruz. agora entendo bem o plural de modéstia. aquele em que o cara sempre fala “nós fizemos”, pra não dizer “eu fiz”.

e o resto? ah, pra mim não existe resto, não separo a minha vida pessoal da minha carreira, não separo a diversão e o amor do trabalho e nunca paro de trabalhar ou de pensar em trabalho. não que eu seja uma obstinada louca, que anda com um timer na bolsa, uma calculadora e um personal coach à tiracolo. mas por dentro nunca tiro férias, não descanso no fim de semana. faço tudo ao mesmo tempo, vou à praia enquanto componho, estudo enquanto cozinho, tudo misturado. estou perfeitamente alinhada com meu desejo, com meus novos sonhos e com o que virá, um universo desconhecido, onde mais uma vez vou trabalhar e viver, me divertir e sofrer, tudo junto, como sempre. essa é a vida que eu quis: amalgamada, misturada, apaixonada, grudenta e apegada com a música. a música é a minha família, minha prole, meu amor eterno e minha fonte de vida, de problemas, de trabalho, de lazer e de prazer. meu tudo há 25 anos, que nem senti passar. mas sem meus comparsas, meus pariceiros, meus cúmplices, meu time e minha torcida, eu não teria feito nada.

sujeito homem

13/11/2013

você pode tocar guitarra como um deus, ser o mais virtuoso de todos. 

você pode ser lindo de cair o queixo e ter o corpo perfeito

você pode ser simpático, agradável e até inteligente e bem humorado

mas se você não for sujeito homem, não serve pra nada

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