retrato

26/01/2010

Na fotografia estou sorrindo um sorriso que nem me cabe na boca, os olhos acesos, ao lado dele. Ele passa o braço em volta do meu ombro, espaçoso e confiante, com os olhos mareados de tanta fumaça e noite. O sorriso é de plenitude e cerveja.

Em cima da mesa, erguemos uma estranha catedral de bolachas de chope. Em volta de nós, a Lapa e nossos amigos incríveis. Malandras e malandros no salto alto, colares de sementes, guias de todas as cores e todos os orixás. Figas de guiné e ouro no pescoço. Os instrumentos estão apoiados nas mesas e cadeiras. Nos divertimos na pupila do olho do vulcão onde tudo é puro fervo e adrenalina e altas gargalhadas.

Dentro de mim a fogueira arde, o fogo lambe, estalando as achas no meu epicentro. Estou em plena combustão, fulgurante e viva como uma brasa.  Unhas vermelhas, cabelos de cobre, pele dourada. Eleita e pertencente. Depois, amanhecemos em todos os pontos da cidade, Aterro, Diabo, Mirante do Leblon.

Já vejo o pessoal recolhendo as mesas, colocando as cadeiras de pernas pro ar, amontoadas.  A água, cheirando a Creolina, molha os pés do pessoal da saideira, lavando o chão, empurrando os restos da noite pros bueiros das ruas, onde os primeiros trabalhadores já estão indo trabalhar e onde os postes já se apagam. O sol varre, da rua, os boêmios que nunca querem ir pra casa dormir. Ligamos o ar bem gelado e nos enfiamos debaixo de um edredon branco e fofo, o blackout vedando as frestas das janelas. E a felicidade lá.

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