turistas

08/07/2015

“Se cada pessoa plantasse uma frutífera na frente de casa, crianças poderiam comer frutas todos os dias, sem precisar comprar. E assim cresceriam saudáveis”, diz o ministro da igreja em que entrei pela primeira vez por curiosidade. Fui entrando, senta aí, ele disse, rabiscando uma fileira de casas e árvores em perspectiva infinita, ponto de fuga no horizonte. Filósofo, teólogo, culto e apaixonado pela lógica. Duas horas de conversa sobre os mistérios do mundo, eu e o ministro da igreja que atravessou meu caminho. “adoro que me perguntem, ninguém nunca me pergunta nada”, diz ele desenhando, num papel, estranhos gráficos para ilustrar respostas.

O ministro me disse que são necessários um bilhão de antepassados para eu ser eu, e por isso, de certa forma, carrego todos eles nas costas. Uns me empurram pra frente, outros me puxam pra trás. Uns inspiram, outros sufocam. Uns sopram divinos dons, outros pedem por um bom cigarrinho e marafo. Acho graça, não tenho religião nenhuma. Sempre tem os que ascendem e os que preferem ficar por aqui mesmo. Quero uma religião sem deus. Deus é a maior invasão de privacidade que há. O olho que tudo vê. Não. Não quero religião nenhuma.

Música já faz as vezes disso tudo na minha vida. No palco, rezo. Lugar comum, dirão. Mas todo mundo repete isso porque é isso mesmo. Cantar de verdade, sem fazer pose, se entregar a uma música, junto com músicos que estão no mesmo transe, pra uma plateia que está na mesma faixa de frequência é uma sessão de descarrego acompanhada de um passe e uma bênção. Até o sangue afina, a linfa flui, o hipotálamo se equilibra e o timo cresce. Equivale a rezar, se iluminar e encontrar deus. Tudo a mesma coisa.

Em Copacabana, isso de plantar frutíferas pra cada casa seria o caos. Já imaginou a Av. Nossa senhora de Copacabana ladeada por mangueiras carregadas? As mangas caindo nos capôs dos carros e dos ônibus, poft, no parabrisa, e abacaxis crescendo nos canteiros, onde cachorros de lacinho e sapato fazem xixi. Ou então bananeiras deitando seus cachos baixos, ao alcance da mão do transeunte. Pegar, descascar, comer. Não suja nem os dedos, se for esperto. “Ah, que lindo seria. Se numa rua de mil casas…” delira ele, apontando pra sua rua infinita no papel, cheia de crianças e casas e árvores,“cada uma tivesse uma frutífera. Uma só! As crianças pobres teriam mil fontes de alimentação e poderiam crescer e estudar. Não comi fruta, por isso fiquei assim, baixinho”, diz ele, do alto de um metro e meio de filosofia e amor à arte e à lógica.  “Veja: Esse pensamento é revolucionário! O êxtase da arte é o que procuramos. Vcs, músicos, encontram”.

Mais cedo, meu analista me fala de Machado de Assis, que preciso reler, entre tantas coisas. Admitimos nossas humanices. O ministro da igreja fala em Jung e assim, no flow, o dia se encarrega de encerrar o tema com um capuccino quente e um vento frio. “A verdade, o bom e o belo: a vida deveria se resumir a isso”, diz o filósofo. “Todo o resto é erro”.

As coisas estão todas bem misturadas e alinhadas e eu acho que a vida só é boa quando é assim. Uma hora ela tira pra dançar, outra ela dá chá de cadeira ou uma bela rasteira. Mas aí ela mesma vem e estende a mão. Se você topar, ela te levanta, e eventualmente te dá uma piscadela. E outra rasteira e outra piscada e outra dança. Não há vencedores, só aspirantes. Gosto de olhar assim pras coisas. Ancestrais, Jung, sopa de legumes, pesadelos da infância e imposição de mãos. Turismo, puro turismo.

2015-05-04 19.21.25

arte*

16/08/2013

Há um lugar onde só a arte nos leva. No seu colo generoso, sem etnia, sem gênero, sem estratificação social, sem educação e sem pátria, só ela é capaz de convidar a mergulhos inomináveis, e provocar sentimentos sem precedência; em todo o léxico nenhuma palavra a descreve. E por isso a experiência da arte é peculiar, arrebatadora, orgânica e individual. Acorda o corpo, desperta os sentidos, sacode a poeira, instaura novidades. Desafia o entendimento e faz perguntas que não sabemos responder com a pequenez da nossa vivência adestrada para gostos, sabores, achismos e definições. Só arte é capaz de, sem compromissos, afirmar a essência da natureza humana. Só a arte nos compreende, só a arte nos traduz, só a arte nos redime.

A arte projeta luz na matéria anterior ao pensamento, incita sinapses, cutuca e conforta. Como uma reza, apazigua a alma dos incompreendidos e acorda os mortos do mais-ou-menos da existência cheia de limites do corpo, da forma, da medida, do saber, dos nomes, dos predicados, dos sujeitos. A arte é o homem em toda a grandeza das suas possibilidades.

A arte é a divindade a quem me rendo, na frente de quem me ajoelho e peço, em oração, para jamais cair na solução fácil do pequeno poder do saber pífio, das reduções. É na arte que me largo nos braços da dança cósmica, que me liberto para ser filha do universo, criatura criadeira, um ser uno em consonância com todos os tempos, irmã de todos os mistérios ainda por revelar, sem a pretensão de dominar segredos ou formular soluções. Ante sua arrebatadora majestade, choro de amor, humilde súdita. Só beleza, perplexidade, entrega, aprendizado, alegria e doação. A arte é deus.

*este post foi provocado pelo musical Gonzagão – A lenda. Uma das coisas mais lindas que eu vi na vida. se derem a sorte, vejam.

verdades

29/07/2013

eu tenho as minhas. vc tem as suas. os outros têm as deles. verdades são como pontes, como passadiços, como atalhos. parecem acenar com um absolutismo reconfortante, com a sensação de que “pronto, chegamos. há um porto”. há nada.

não acredito em verdades e, por isso, me vejo sempre perdida entre os vários lados de cada questão. termino sempre como aquela sem opinião, sem vontade própria, maria-vai-com-as-outras. mas só pq eu acho, sim, que toda opinião vale. opinião e verdade andam juntas, customizadas, adaptadas ao usuário.

queria comprar o caderninho das verdades e emplacar, uma a uma, verdade a verdade, e nunca mais ter dúvida nenhuma, e ir cuidar de outra coisa, bem relax. por hora, nao posso. acredito demais nas inflexões das verdades e elas me ocupam a mente, o corpo, elas definem a minha vida. por elas eu coloco tudo pra jogo. só pela ideia, vaidosa, de verdade.

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