a heart song

23/07/2013

desculpe a pretensão, mas se eu tivesse que dar um conselho pra alguém, um só, eu diria: procure seu talento. vc pode até não encontrar, mas é na busca daquilo que te move que mora a sua verdade. no meio do caminho, enquanto vc procura, vc vai se conhecendo, descobrindo coisas dentro e fora, dando de cara com tudo o que vc realmente é, e não com o que vc gostaria de ser.

sem buscar, como encontrar? buscar é garantia de encontrar? sim e não. alguma coisa vc certamente vai encontrar qdo começar a se investigar. vai descobrir se o que te move é dinheiro, segurança, poesia, realização pessoal, matemática, música, geografia, gente, bicho ou uma mistura de tudo. vai descobrir se está só tentando agradar a família, a vizinha, a sociedade, ou o namorado. vai descobrir se quer fazer caridade, calcular pontes, atravessar mares ou servir passageiros de um avião. vai descobrir, sobretudo, o que não quer fazer da vida. o que já é grande coisa. e vai ter a chance de conhecer um monte de coisas que estão no mundo. e corre o seríssimo risco de encontrar um grande amor para a vida toda, para vc viver e cultivar, e que não vai te deixar naquela hora da vida em que a gente fica, inevitavelmente, mais sozinha, mais silenciosa.

sonhar é uma coisa. realizar é outra. muitas vezes agradeci pelo Oscar no espelho, mas não pretendo ser atriz, portanto, concluo: meu sonho não é ganhar o Oscar. qdo brinco de agradecer pela estatueta, no fundo, brinco de ganhar um prêmio de reconhecimento pelo meu trabalho e fazer aquele discurso emotivo, que nem se faz mais. isso, sim, é um sonho: o reconhecimento (tá, e a grana que a pessoa ganha com o prêmio).

ter um desejo, um caminho a seguir, dá trabalho. nenhum talento vem ao mundo com desenvolvimento pleno. Einstein estudou, Mozart tinha professor, Machado de Assis foi à escola. Tem que dar uma malhada, sempre. Seja na jardinagem, na física nuclear, na pintura em porcelana, na medicina. ouça um bom conselho: encontre alguma coisa pra amar, que ninguém pode tirar de vc. uma cia permanente, que vc vai carregar por dentro.

2013-07-17 17.14.47

o sistema

16/01/2013

eu sempre pensei no “sistema” como inimigo nº1 de gente legal. os caras do sistema são aqueles que compram carros enormes com tração nas 4 rodas, sem terem a menor intenção de pisar numa estrada de terra. o sistema é aquele cara meio babaca, careta, reaça, que lê revista Veja, vota no mauricinho e manda o filho fazer intercâmbio nos EUA. o sistema é aquele monstro que ceifa talentos, que enterra dons, que molda a criatividade a seu favor e tenta engarrafar o mar. o sistema obriga pessoas a conviverem e se aturarem, mesmo sem terem nada a ver. o sistema vende refrigerante como sendo uma coisa boa. o sistema classifica pessoas em prateleirinhas. o sistema faz pessoas só poderem ir à praia no fim de semana, todas ao mesmo tempo, engarrafadas no seu desespero por viver o lado bom da vida só até domingo à noite. o sistema faz as pessoas fazerem a mesma coisa, na mesma hora, todos os dias da vida. rouba o tempo de viver, as horas com os amigos e a família, até as pessoas ficarem conformadas e velhas demais para fazer o que quiseram fazer de verdade. mas tiram férias uma vez por ano, se aposentam, vão à Europa  trocam de carro, criam filhos, tiram fotos no natal. e sempre podem ter um hobby pra aplacar a rotina. morte horrível.

fiz escolhas pessoais e profissionais de ficar sempre ao largo, transitando apenas o necessário nos sistemas que se empilham por aí, por sobrevivência, e escolhendo viver de outras maneiras. até tentei me adaptar, mas não consegui. jovem demais pra morrer, velha demais para o rockn’roll, agora estou numa categoria meio hippie-meio looser, meio louca-sonhadora, invejando a paz e o conforto de quem se adaptou. a verdade é que até hoje não me conformo, mesmo nessa idade e nessa situação. estou nua diante de um tiranossauro rex faminto, pronto pra me devorar.

tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você. não é me dominando assim que vc vai me entender

estou participando de uma espécie de congresso de música vocal, de 3 dias de duração. É um encontro internacional, com palestras e workshops o dia todo, tudo em torno dela: a voz. Dei de cara com meu passado de estudante, dos tempos da Pró-Arte. Meus colegas, que eram aspirantes, agora são eles os professores. Revi o filmezinho da minha história e me comovi. Não é que eu realmente fiz o que eu queria? não é que realmente vingou aquele desejo delirante? 25 anos depois, eu sou realmente cantora profissional, reconhecida e respeitada por isso, como um dia eu ousei querer ser. Ah, sou! e isso me enche de emoção e felicidade, pq eu fui lá e fiz, com todas as pedras do caminho, e isso é meu só meu.

coincidentemente, no mesmo CCBB tá rolando uma grande exposição sobre a vida da Elis. Hj sentei pra ouvir e ver Elis com olhos e ouvidos da cantora adulta que agora sou (onde coloquei esses 25 anos? que vertigem que me deu agora… como se eu tentasse subir uma escada rolante na contramão: esforço vão).

Ouvi Elis bem pouco na vida, nunca pra estudar. Na verdade, nunca ouvi cantoras pra estudar. Eu colocava os discos e cantava em cima, mas do meu jeito. Eu era a estrela. Nasci sem o dom de imitar e com excesso de personalidade. Hj, arrepiada dos pés à cabeça, surpreendida com lágrimas nos olhos, boquiaberta, vi uma Elis estupenda, num telão gigante, onde é possível ver toda a articulação do seu canto, a trajetória do ar, a embocadura, o corpo que se dá inteiro ao cantar, um bloco de emoção e técnica, tão perfeitamente natural e orgânico… E o amor profundo de todo o ser dela por cantar, o gozo, a completude. A gente adivinha a coluna de ar espiralada ascendente que atravessa a cantora (só as de verdade), e a eleva àquele lugar onde só a música coloca a gente, uma dimensão imaterial onde só existe respiração e som, e o vento bate por dentro, o sangue quente borbulha nas veias e a gente simplesmente se entrega à canção. Me peguei aos prantos, como se eu sentisse aqui a dor da Elis, a dor do silêncio da Elis.

Imagem

.*frase da Elis

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