balanço

31/12/2015

a coisa que uma cantora mais deseja é conseguir continuar cantando, apesar do mundo. não canto pra agradar ninguém, não canto pra ficar rica ou famosa, não canto pra causar, não canto pra ser diva ou pra ser idolatrada. eu canto pra cantar. porque sinto que dentro de mim tem uma fonte de onde brota uma energia ininterrupta, e cantar é como um chafariz, que projeta pra fora de mim o que nasce lá dentro, numa lógica caótica, que mistura sons e palavras e sensações. o negócio jorra, e aí é preciso cantar. só a música pode carregar essa corrente pra fora de mim. é simbiose, eu vivo dentro dela e ela vive dentro de mim. terror e êxtase. 
 
tenho uma lista interminável de desejos e projetos profissionais, tenho muitas lindas ideias, tenho discos pra gravar, shows pra fazer, lugares pra visitar cantando e velhos sonhos amarrotados no fundo da memória. sempre será necessário um convite, parcerias, dinheiro, patrocínio, ajuda, reconhecimento e oportunidades. ninguém faz nada sozinho e sem grana. não tenho padrinhos, não tenho parentes famosos, não tenho dinheiro. nunca, em 29 anos de carreira, um jornalista de música foi me ver cantar. e eu cantei sem parar nesse tempo, sem descanso. gravei cinco discos solo e cinco discos e um DVD com o Arranco. gravei e fiz shows com um monte de gente famosa, cantei acompanhada dos melhores músicos deste país, nas melhores casas dentro e até fora do país. mas em 2015, todas as portas se fecharam pra mim e nao consegui realizar quase nada. eu resisti, porque eu sempre resisto, porque sem cantar eu nao sou. estou previamente combinada comigo mesma que fazer música não pode estar vinculado à sordidez desse mercado excludente e dessa cena musical pífia.
 
por mais bobo que seja, a gente não escapa! fim de ano chega e a gente bota as coisas na balança pra fazer os ajustes da caminhada. das poucas coisas que 2015 me deu, a melhor foi continuar trabalhando na casa de música mais profissional desta cidade, acompanhada pelos meus fieis escudeiros de ouro, cantando para minha plateia atenta, sensível, apaixonada por música. quando a gente perde quase tudo, a gente aprende a valorizar o que tem. e por isso contei essa história toda, pra dizer que os elos dessa corrente se fortalecem com vocês, com seu aplauso e sua presença. por isso sempre serei grata por vocês me darem a honra de cantar para vocês. obrigada. 
que seu novo ano seja leve, de alegrias e paz e cheio de saúde, prosperidade e amor!
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queria que fosse de novo carnaval e a gente estivesse tomando porradinha de Fanta laranja com Velho Barreiro, no Varandão, fazendo um vira-vira que a gente nem sabia que era tão perigoso e tão sexy. e que a gente estivesse escolhendo que roupa vestir no baile de carnaval e, depois, dia amanhecendo na Serra, a felicidade de listar os beijos em bocas cujos nomes nunca soubemos: surfista, lourinho, moreninho, mineiro…

e queria de novo sentir o jato gelado do éter entrando pelas narinas e batendo no teto do crânio, em cima daquela moto na madrugada fria, zzzzziiiiiimmm, zumbido e gargalhada, “‘caraaaalho, vou decolaaar!’. ou então voltar àquele dia em que o cheirinho da loló foi calibrado pelo amigo químico e a gente ficou na lua, projeção astral e o escambau, pelados na cama, rindo de nós mesmos e do susto que levamos. ou então entrar naquele avião rumo ao Recife, pra reconhecer meu amor galego dos óio azul e casar com ele no hotel muquifo do centro velho da cidade.

queria estar ensaiando a música pra entrar no meu primeiro festival. tocando um violãozinho tosco, toda compenetrada, subindo no palco da escola de macação branco, que recém cabia em mim, e levando meu primeiro prêmio de cantora pra casa, e acordando a minha mãe: “tá vendo? ganhei!” queria de novo estar atravessando a Ponte, indo gravar meu primeiro disco, toda a estrada do sucesso à minha frente

queria estar passando sombra preta com glitter, pra ir dançar numa discoteca, de salto 12, ou então estar calçando os patins pra ir ao Roxy Roller rodar rodar rodar naquela gira. ou ir ao Disco Voador fazer playback pra 10 mil pessoas ou cantar mais uma vez pro mar de gente no Reveiilon de Copacabana.

queria estar recebendo aquele ursinho com a carta de amor no bolsinho do macação. Ou um milhão de eu te amos escritos num micro rolinho de papel, que ele cuidadosamente enrolou e guardou dentro de uma sapatilha rosa de biscuit. queria ser bailarina de novo, um milhão de pliés todos os dias e depois a rotina do tap, passo a passo, time steps. então, eu escreveria em tinta branca, novamente, um Eu te amo gigante, no meio da rua Estelita Lins, de madrugada, de forma que ele acordasse e quando abrisse a janela, visse o meu amor escancarado no asfalto. queria chegar na aula de canto e encontrar toda a fachada do prédio do professor coberto por uma tira de eu te amos e “boa aula, meu amor”. queria o fim de semana na Serra, ouvindo Pat Metheny e vendo Jacques Cousteau sem som. e comendo pipoca e tomando vinho de garrafão e fumando maconha e fazendo amor, over and over and over.

queria tudo de novo. não por nostalgia, mas porque eu gostaria de zerar essa desilusão, construir os sonhos e confiar no porvir, na potência, no destino, na sorte, no amor. aquela alegria que não cabe no peito nem no sorriso, só porque sim. e ter mil planos de viajar, de fazer turnês internacionais, de morar fora, fazer sucesso no Brasil, ter filhos, ficar rica, comprar uma casa cercada de jardins de inverno, fazer minha viagem dos sonhos, num 4X4, de mapa na mão, pelo interior do Brasil, e encontrar um grande amor cúmplice parceiro, em quem se pode confiar de olhos fechados. tudo isso, só porque a gente acredita que nasceu com uma estrela brilhando na cabeça e tudo, tudo vai dar certo.

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quereres

10/05/2012

pense em 5 coisas que vc queria ter, todo dia, pra subir os degraus da felicidade…

Aqui, as minhas:

uma hora e meia de natação (corrida seria melhor), sob o sol

um mergulho no mar

música boa

vinho e queijo e uma salada enorme com todas as cores do íris

um homem de cor (metaforizando, tá, nêgo?)

viajandona

15/07/2010

uma vez meu namorado brigou comigo pq eu disse que a minha viagem dos sonhos era num carro com tração nas 4 rodas, sem data pra voltar, saindo do Rio em direção a Juazeiro do Norte, cheia de CDs e mapas e provisões, parando em todos os lugares que me dessem curiosidade de conhecer e provar… sozinha. Ele ficou arrasado por não estar incluído nem no banco do carona dos meus sonhos. Ooops, I did it again!

Me habituei a fazer as coisas de que gosto sozinha, pq acho dificilimo coordenar desejos. Em viagem, então… Sempre tão pouco tempo e dinheiro para usufruir dessa fantasia pessoal e intransferível que é viajar. Amo demais viajar, mas depois de ter morado em Londres e Paris (como diz a minha irmã: não tem como dizer isso sem parecer esnobe…) e ter tido a sorte de conhecer algumas grandes e pequenas cidades do mundo, não tenho mais vontade de ir a nenhuma cidade grande. Adoro passar por cidades pequenas, do interior, estradas de terra, sabores exclusivos, assinaturas super individuais.

O campo da Inglaterra, por exemplo, é um amor que guardo com uma pitada de esperança de revival. Estive num lugar de que jamais me esquecerei, Polperro, uma linda vila de pescadores na Cornuália, falésias sobre piscinas naturais que abrigavam pepinos do mar e bichos estranhos. Estive em Devon, uma paixão de countryside, um rio passando na porta de casa, muito frio, lareira, chocolate quente, raposas prateadas e carneiros de chifres em cornucópia retorcida.  Tive lindas vidas passadas, quem sabe do futuro?

Atualmente, meu maior sonho de viagem é cair na estrada com o tal carro 4 X 4 pela Linha Verde, que liga Salvador a Aracaju, com direito a visitar o sertão onde Lampião e Maria Bonita viveram. Quilômetros de praias brancas e  desertas e mar quase sem ondas, peixe frito, água de coco e rede pra deitar ao entardecer. Essa é a viagem que realmente desejo fazer, sobre todas as outras, sobre a Provence, sobre a Toscana, sobre a Grécia, sobre a Andaluzia. Uma fantasia de  Tieta do Agreste, me esvoaçando pelas dunas de Mangue Seco. Um sonho brasileiro, rendado,  entradas e bandeiras…

Qdo eu ainda não conhecia Nova York grudei, com imã, um mapa da cidade na porta da minha geladeira. Loucamente, uns dias depois, recebi um convite pra ir pra lá passear. Con-vi-te! Santa Geladeira! Hoje mesmo vou recortar uma foto do carro com tração nas 4, achar um mapa da Linha Verde, grudar tudo com imã na porta da bendita,  e pedir pra Nossa Senhora da Geladeira me ajudar.

as cores do algarve, no ultramar
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